Ontem aconteceu a “Reunião de Irmãs da Área da Europa”, realizada na Alemanha e transmitida ao vivo pela internet, destinado às mulheres sud europeias. Entre os oradores estavam M. Russell Ballard e David A. Bednar, do Quórum dos Doze Apóstolos, e Donald L. Hallstrom, da Presidência dos Setenta. O cartaz do evento já havia suscitado a observação de que trazia a foto de três oradores homens numa reunião voltada exclusivamente para mulheres, o que seria revelador da posição da mulher na Igreja. Mas o discurso dado pelo Élder Ballard superou as expectativas do que poderia ser inadequado no trato com as mulheres.
Este é um trecho do seu discurso em que é afirmada a importância da participação feminina na Igreja:
Não podemos, não podemos cumprir nosso destino como a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em preparar este mundo para a segunda vinda do Salvador do mundo sem o apoio e a fé das mulheres desta igreja. Precisamos de vocês. Precisamos de suas vozes. Elas precisam ser escutadas. Precisam ser ouvidas em sua comunidade, em seus bairros, precisam ser ouvidas dentro do conselho da ala ou conselho do ramo. Mas não falem demais nessas reuniões de conselho, apenas corrijam os irmãos rapidamente e sigam adiante. Estamos construindo o reino de Deus.¹
Para o Élder Ballard, os homens são os agentes principais das tarefas divinas, enquanto às mulheres cabe o papel secundário de apoio. Por isso, as mulheres devem ser ouvidas pelos homens na Igreja, mas é preciso tomar o cuidado de que elas não falem demais nas reuniões de conselho. Ou seja, não devem falar tanto quanto os homens ou mais do que os homens.
Sua afirmação foi, no mínimo, deselegante, mesmo se dita com uma intenção humorística (e não estou seguro que esse seja o caso), comprometendo a própria ideia do papel necessário da mulher na Igreja. Significou sugerir que mulheres tendem a falar em excesso, enquanto homens não sofrem desse mal; e/ou que as mulheres devem ter uma participação subalterna, de forma que sua fala precisa de menos tempo do que a fala masculina.
Num momento em que pessoas deixam a Igreja aos montes, por diversas razões que incluem o machismo e a pouca consideração ao membro “comum”, essa certamente não é a fala mais adequada. Há o risco de que ela venha a reforçar ou legitimar o papel secundário dado à mulher em alguns conselhos de ala mundo afora.
1. We cannot, we cannot meet our destiny as the Church of Jesus Christ of Latter-day Saints in preparing this world for the 2nd coming of the Savior of the world without the support and the faith and the strength of the women of this church. We need you. We need your voices. They need to be heard. They need to be heard in your community, in your neighborhoods, they need to be heard within the ward council or the branch council. Now don’t talk too much in those council meetings, just straighten the brethren out quickly and move the work on. We are building the kingdom of God. Vídeo completo da transmissão disponível aqui.
o que ele quiz dizer ou pra quem participa dessas reunioes de conselho, que nao ha tempo pra falar muito, cada organizacao tem um tempo designado pelo bispo que conduz essas reuniões. Geralmente essas reunioes sao de 1 hr, e se todos falam muito o proposito dessa reuniao nao e’ alcançado, a meta dessas reunioes e melhor servir o proximo e como melhor servir, tambem ver que ira servir e quando sera (report back) reportado ou informar o bispo que foi realizado.
De fato, há limitações de tempo e a constante dificuldade de fazer dessas reuniões um momento realmente útil. No entanto, há que se ter em mente que o discurso foi dado às mulheres da Área Europa, e não aos membros de forma geral. Para meu conhecimento, o Élder Ballard nunca fez mesma afirmação – “não falem demais” – numa reunião do sacerdócio. Corrijam-me, por favor.
Dizer que o que ele disse é machismo, é julgamento rápido. O rosto e tom dele no momento de ter falado isto definitivamente dão um tom humorístico.
Gostaria de ouvir a opinião uma mulher nativa da língua inglesa e nativa da Europa, que ao ouvir todo o discurso, ainda sentiria ser uma postura machista.
Dá para ouvir alguns risinhos no fundo, depois que ele fala aquilo. Honestamente, minha impressão não é a de uma atitude machista, mas um bom humorado: “não percam muito tempo com os homens”.
Na verdade, gostaria de ouvir a opinião de um especialista em comunicação para saber se este é um conselho bom, ou é machismo mesmo.
Encontrei esse interessante artigo sobre o assunto: (artigo machista também?): http://efetividade.net/2007/10/quer-ser-mais-ouvido-experimente-falar-menos.html. E que tem como ideia centra a frase ““The less you talk, the more you’re listened to.” numa tradução livre: “quanto menos você fala, mais você é ouvido”.
Como são as coisas, as mulheres que submeterem ao conselho dele, ainda que o considere um conselho machista, não serão mais ouvidas? Não era esse o objetivo da mensagem dele? E se forem mais ouvidas, não aumentaram sua influência? Não serão mais felizes ao perceberem que sua ideias e opiniões são mais valorizadas? Mas não sou especialista em comunicação, quem sabe estou errado? Por isso gostaria muito da opinião de um especialista da área. Talvez venham dizer que isso é pouco, que não altera a cultura machista que existe na igreja, mas os efeitos do conselho, leva uma comunidade mundial em que direção? Agrava ou reduz o problema?
Todos os que julgam (criticam) o próximo, o faz segundo seu próprios valores, crenças, cultura e preconceitos. E este post apenas faz isso. Não faz sequer uma superficial análise do contexto cultural do público alvo que recebe a mensagem. Chama um conselho (provavelmente muito bom e dado num tom humorístico) de deselegante.
O autor acusou assim o apóstolo: “Significou sugerir que mulheres tendem a falar em excesso, enquanto homens não sofrem desse mal”; Não consigo enxergar essa comparação.
E assim: “e/ou que as mulheres devem ter uma participação subalterna, de forma que sua fala precisa de menos tempo do que a fala masculina.”
Se vamos considerar o “e” na primeira parte da segunda acusação, certamente existe erro de lógica, pois se as mulheres falam muito e passarem a falar menos, isso igualaria o tempo que homens e mulheres tem para falar.
No caso de apenas “ou” a mensagem dele, eleva ou rebaixa a participação feminina? A mensagem dele, aumenta ou reduz a capacidade do público alvo na comunicação e influência?
Não nego que exista machismo na igreja, mas esse discurso não me parece, nem de longe o caso.
Obrigada! Não teria escolhido palavras melhores…
Sábias palavras e excelente visão Miguel!