“Reuni-me com 3 dos Doze & meus Conselheiros a respeito de um Assunto importante”, escreveu Wilford Woodruff em seu diário, em 24 de setembro de 1890¹. O assunto tratado era nada mais, nada menos do que viria a ser o maior divisor de águas da história mórmon: o Manifesto que colocou um fim à prática oficial do casamento plural pela Igreja sud. Continuar lendo
Mórmons
Teodemocracia II
O estabelecimento do Reino de Deus nos últimos dias é um dos temas que norteava as ações de Joseph Smith e os primeiros conversos mórmons na sua busca por Sião. Muitos mórmons modernos e estudiosos iniciantes do mormonismo ficarão surpresos, porém, ao saber que a Igreja estabelecida em 1830 não era vista por Joseph Smith como o Reino de Deus na terra. Quase quatorze anos após a fundação da Igreja de Cristo em Palmyra, Joseph Smith falava sobre o estabelecimento de um alicerce desse reino em tempo futuro:
Acredito ser um dos agentes no estabelecimento do reino visto por Daniel, através da palavra do Senhor, e é minha intenção estabelecer um alicerce que revolucionará o mundo inteiro. (Joseph Smith, maio de 1844, Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, p.357)
A organização de um conselho com pretensões teocráticas na cidade de Nauvoo, poucos meses antes de seu assassinato, mostra que Joseph Smith de fato estabeleceu um alicerce do reino divino visto por antigos profetas, através do Conselho dos 50. O que foi esse Conselho? Quais seus objetivos? Que relação tinha com a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias? Continuar lendo
O Estereótipo Mórmon – Como Parece No Brasil?
Nos blogs do autodescrito “bloggernacle,” na maioria escritos em inglês, o “momento mórmon” não é nada novo. A mídia norte-americana também já vem explorando esse tema faz anos.
Então, por que falar mais disso nos Vozes Mórmons?
Bem, pelo menos da minha parte, o motivo é que estou bem insatisfeito com um lado dessa conversa pública sobre o mundo mórmon: estão esquecendo (na maior parte) o melhor aspecto dele, a cultura e vida dos mórmons fora dos EUA.
O Estereótipo Mórmon
A maioria aqui já sabe daquilo que vou descrever agora — há um estereótipo dos mórmons prevalece muito nos EUA, e aqui não estou falando das percepções erradas que as pessoas têm sobre a gente (especialmente sobre a prática continuada de poligamia) ou dos padrões e normas de vida que são identificados com membros da Igreja (como a Palavra de Sabedoria, o uso de garments, e outros mais) — estou falando das características estereotipadas que vão além de tudo isso, e que enchem o saco ainda mais porque têm alguma base na realidade. Aqui nos EUA, este estereótipo é mais forte com respeito aos homens (em parte, eu acho, por causa da ênfase da Igreja desde os anos 50 no princípio que diz que a mulher deve se manter em casa, e por isso fica fora do olhar público). Então, como parece este estereótipo do homem mórmon?
Branco. Pelo menos classe média, senão rico. Casado cedo com um monte de filhos (ou pelo menos com a expectativa de tal). Homem de negócios, muitas vezes com MBA na mão. De política conservadora, normalmente registrado nos EUA como Republicano ou Libertário.
Esse estereótipo é forte não só porque é refletido no mórmon atualmente mais famoso do mundo, Mitt Romney, mas porque é também refletido em muitos outros (A familia Huntsman, com o ex-governador de Utah Jon, Jr. e seu pai, Jon, Sr., fundador de uma empresa bem sucedida de química; a família Marriott, com a sua rede enorme de hotéis de luxo; Nolan Archibald, CEO de Black & Decker; David Neeleman, fundador das linhas aéreas JetBlue e Azul; e tantos outros).
Pessoalmente, sou muitas destas coisas–sou branco, criado numa família de classe média alta com pais que são professores universitários, casei mais ou menos cedo (aos 25 anos) e eu e minha esposa queremos três filhos, senão mais.
Ao mesmo tempo, não sou muito a fim de uma carreira de negócios (para mim, parece igualzinho ao sétimo grau do inferno descrito por Dante). Minha política vai mais ao lado dos socialistas e hippies (posso indicar meus pais como os responsáveis disso, que se descrevem como “hippies mórmons” e se encontraram em São Fransisco no início dos anos 70 — cresci ouvindo Bob Marley desde o ventre).
Mas estou começando a fugir do tema — se já eu fujo desse estereótipo como homem branco de classe média, quanto mais mórmons negros, mórmons pobres, mórmons asiáticos, latino-americanos, ou mais especificamente nesse caso, mórmons brasileiros, com toda a diversidade que esse grupo já tem em si? Sei pela minha experiência que há muitos mórmons brasileiros que se acercam desse estereótipo (entrando pelos negócios, torcendo politicamente pela centro-direita), muitas vezes em parte pelo incentivo de líderes da Igreja dos EUA, mas o que adorei sobre minhas experiências na Igreja durante os anos que já passei no norte e nordeste do Brasil (antes, durante e após a missão) é a diversidade de gente que entra pelos portões a cada domingo. Não é que esta diversidade não exista também em várias partes ou diversas alas nos EUA — adorei minha ala no Harlem quando fui professor da escola primária em Nova Iorque, onde tinha uma mistura gostosa de gente negra, latina e imigrante de toda parte (Haiti, Gana, Nigéria, República Dominicana, e toda parte da América Latina). Também adorei o ano em que minha esposa e eu passamos na Reserva Indígena da Tribo Navajo, onde também fui professor da escola primária. E ainda nem falei da diversidade de experiência e opinião que existe nos cantinhos de qualquer ala ou ramo nos EUA, mesmo que muitas vezes essas pessoas tenham receio de abrir a boca durante a Escola Dominical. O problema é que nos EUA, mesmo que você saia do estereótipo, ele ainda existe no pensamento da sociedade como todo.
Pelo menos ao meu ver (e estou ansioso para ser corrigido) parece que o maior estereótipo mórmon que existe no Brasil é dos missionários, não dos membros, e por falta de expectativa cultural do que seja “normal” entre os mórmons, há mais espaço para todo tipo de gente.
O que vocês acham? Sei que isso pode variar em várias partes do Brasil, como meus amigos Marcello e Antônio me mostraram quando conversamos no podcast da Mormon Matters na semana passada. Eles me disseram que na experiência deles em São Paulo, Rio e Rio Grande do Sul, onde a Igreja é melhor estabelecida, não há muita tolerância para diversidade de opinião que saia da ortodoxia.
Quero chutar esta pergunta para todos vocês: além de viver os padrões da Igreja, há um estereótipo de um “estilo de vida mórmon” no Brasil aos quais os membros são comparados?
Entrevista com Fundadores da ABEM
O excelente podcast norte-americano ‘Mormon Matters’, dedicado a explorar atualidades e cultura Mórmon, entrevistou dois dos fundadores da ABEM e administradores do Vozes Mórmons, para explorar suas histórias pessoais, a fundação e missão da ABEM e o Mormonismo no Brasil.
Ouça a entrevista, em três partes, aqui.
Acompanhe o brilhante podcast ‘Mormon Matters’ aqui.
“Mormon Matters” pode ser traduzido como “assuntos Mórmons”. O podcast é curado por Dan Wotherspoon, editor da famosa revista ‘Sunstone’ entre 2001 e 2008, e encontra-se entre os sites, blogs, e podcasts mais populares no segmento Mórmon.
Céus e terra
O Profeta Índio. Ou Joseph Smith?
A evolução da doutrina mórmon ao longo da história deixou muitas marcas nas obras publicadas pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, incluindo o próprio Livro de Mórmon. O exemplo a seguir mostra como uma profecia específica em 2 Néfi 3:24 teve sua interpretação reformulada em décadas recentes.

Esquecendo os lamanitas? Imagem: John Rocha.
Numa porção do Livro de Mórmon que santos dos últimos dias acreditam se referir à restauração do evangelho original, há a menção a um personagem futuro:
E levantar-se-á entre eles um poderoso que praticará o bem, tanto em palavras como em obras, sendo um instrumento nas mãos de Deus, com fé extraordinária para operar grandes maravilhas e fazer o que é grandioso aos olhos de Deus, a fim de levar muita restauração à casa de Israel e à semente de teus irmãos.
Alguns mórmons dos séc. XIX e XX identificavam esse personagem como um futuro “profeta índio” ou “profeta lamanita”. Na edição em espanhol do Livro de Mórmon lançada pela missão mexicana em 1920, por exemplo, as notas de rodapé elaboradas por Rey Lucero Pratt, então presidente da missão, faziam questão de esclarecer aos modernos descendentes dos lamanitas que o hombre poderoso referido no versículo acima era un profeta Lamanita.
“Dentro do império mórmon”
Esta é a América capitalista, não? Sheri Dew, CEO da Deseret BookAs finanças da Igreja sud mais uma vez têm sido objeto de discussão na mídia, especialmente desde a candidatura de Mitt Romney e a construção de um super shopping em Salt Lake. Na semana passada, a revista Bloomberg Businessweek, especializada em economia e negócios, publicou uma reportagem de capa sobre o assunto. A revista destaca principalmente a alta lucratividade de algumas empresas mantidas pela Igreja e a falta de transparência de suas finanças. Assinada por Caroline Winter, “Dentro do império mórmon” não é sensacionalista, apresentando opiniões diversas e dados concretos (ver lista abaixo). Ou seja, bom jornalismo. Continuar lendo
Aquisição do Conhecimento que Salva
Eu apenas ouso repetir as palavras de Joseph Fielding Smith, quando o mesmo escreveu o que mais tarde viria a ser a coleção Doutrinas de Salvação. Eu sempre me questionei a respeito disso, sempre coloquei em xeque algumas das coisas que aprendemos durante nossa experiência na vida, especialmente a experiência como SUD. E, se me permitem, gostaria de desenvolver um pouco o assunto.
A aquisição de conhecimento é parte da vida do ser humano desde que ele entrou no mundo. Não me lembro, duvido que alguém lembre; mas deve ter sido uma experiência assustadora e ao mesmo tempo excitante sentir o ar gelado inflar os pulmões pela primeira vez, ao nascer. Deve ser por isso que os bebês choram tanto quando nascem. Não deve ser lá muito agradável no começo, mas realmente é uma dádiva incrível poder respirar. E como vítima de bronquite, sei bem o valor do ar. Continuar lendo
Neutralidade política ameaçada
A Igreja sud afirma ter uma neutralidade política, não endossando partidos ou candidaturas. Por isso, um membro da igreja que se candidate a cargo eletivo não é apoiado oficialmente como um representante da igreja. Mas será que os membros não veem tais pessoas como representantes quando tais são líderes proeminentes?
Recentemente desobrigado como presidente de missão em Portugal, o ex-deputado federal Morôni Torgan está de volta à política eleitoral brasileira, concorrendo à prefeitura de Fortaleza pelo DEM. Mas Torgan é também um líder eclesiástico: na última Conferência Geral, ele foi um dos novos setentas de área chamados. Continuar lendo
Quantos Mórmons no Brasil?
Há pouco mais de um ano nós havíamos postado uma pergunta muito simples, porém ao mesmo tempo surpreendentemente complexa: Quantos mórmons há no Brasil?
Em parte, o problema para respondê-la reside na falta de estatísticas disponíveis sobre as centenas de igrejas e grupos mórmons menores e menos conhecidos. Contudo, sem dúvidas a maior dificuldade está na completa falta de transparência por parte da Igreja Mórmon mais famosa e mais popular no Brasil (e no mundo).
Agora temos dados estatísticos recentes e confiáveis para considerar essa questão.
O resultado do Censo de 2010 sobre religiões finalmente foi publicado essa semana pelo IBGE (órgão federal vinculado ao Ministério da Economia e responsável pelo censo demográfico do governo federal), e temos um número estatístico de quantas pessoas se auto-denominam membros d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias:
Investidura II
O sentimento expresso por Brigham Young sobre a necessidade de administrar a investidura em partes e sem apressar as ordenações ao sacerdócio maior foi ecoado também pelo apóstolo Erastus Snow (1818-1888).
Um converso dinamarquês registrou em seu diário pessoal o seguinte ensinamento de Snow: Continuar lendo
BYU vs. Apologistas
El, Jeová e Elohim
Uma informação e uma provocação
Na Bíblia hebraica, o nome Elohim ocorre 2570 vezes, enquanto YHWH (“Jeová”) aparece em 6823 vezes. Já o termo El aparece apenas 238 vezes. No entanto, o uso desses termos é muita vezes combinado, sugerindo a identidade única de Jeová e Elohim. Isso evidentemente passa despercebido a leitores de traduções para o português ou outras línguas ocidentais, uma vez que essas traduções acabam por uniformizar os nomes e esconder o uso dos nomes originais.

Tetragrammaton (YHWH) escrito em alfabeto paleo-hebraico no pergaminho 8HevXII, datado do primeiro século EC
Observemos esta passagem de Deuteronômio, de acordo com a tradução de Ferreira de Almeida: Continuar lendo
Mais um mórmon candidato à presidência dos EUA
Enquanto Mitt Romney segue sua campanha para suceder Obama, há mais um mórmon concorrendo à presidência dos EUA. Edward C. Noonan, um comerciante aposentado da Califórnia, é o candidato do Partido Independente Americano, o mesmo partido que nomeou Ezra Taft Benson em 1968.
Sem projeção social ou muito dinheiro, sua candidatura é bem nutrida de teorias conspiratórias. Continuar lendo
Manuais da Primária e Dieta Vegetariana
O que têm em comum manuais da Primária e dietas vegetarianas?
Quem se lembra da Primária? Eu adorava a Primária, adorava as aulas, as lições, e as músicas. Nem me incomodava que a minha mãe era a Presidente da Primária, o que significava que se não me comportasse, a bronca vinha em duplicata.
Como é de se esperar de lições voltadas para crianças, as aulas da Primária são simples, infantilizadas, e coloridas. Nada mais justo. É impossível ensinar lições de vida e moralidade para crianças sem simplificar a mensagem para ideais caricatos, vestidos em roupagens coloridas e divertidas.
Na época da minha Primária, a minha mãe gostava muito de usar as estórias e as lições de morais do seriado He-Man. E nós achávamos o máximo esse uso “contemporâneo” de cultura pop.
Mas, voltando aos manuais. Tomemos o exemplo da estória de Noé. Animais de zoológico num barco gigante numa chuva épica e um profeta que salva os bichos e sua família porque foi obediente ao Pai Celestial. Tudo muito colorido, tudo muito simples, tudo muito fantástico, e com lições claras: obediência à Deus, comportamento social ético, amor à família, respeito aos animais.

Construindo a Arca (Pregação de Noé Desdenhada), por Harry Anderson
Após uma infância protegida, e uma adolescência prolongada, chegamos todos à fase adulta, e o mundo deixa de ser colorido para tons graduados de cinza, e nossas crenças e esperanças infantis dão lugar a conhecimento racional e científico, e uma visão do mundo mais realista e lógica. Continuar lendo







