Manuais da Primária e Dieta Vegetariana

O que têm em comum manuais da Primária e dietas vegetarianas?

Quem se lembra da Primária? Eu adorava a Primária, adorava as aulas, as lições, e as músicas. Nem me incomodava que a minha mãe era a Presidente da Primária, o que significava que se não me comportasse, a bronca vinha em duplicata.

Como é de se esperar de lições voltadas para crianças, as aulas da Primária são simples, infantilizadas, e coloridas. Nada mais justo. É impossível ensinar lições de vida e moralidade para crianças sem simplificar a mensagem para ideais caricatos, vestidos em roupagens coloridas e divertidas.

Na época da minha Primária, a minha mãe gostava muito de usar as estórias e as lições de morais do seriado He-Man. E nós achávamos o máximo esse uso “contemporâneo” de cultura pop.

Mas, voltando aos manuais. Tomemos o exemplo da estória de Noé. Animais de zoológico num barco gigante numa chuva épica e um profeta que salva os bichos e sua família porque foi obediente ao Pai Celestial. Tudo muito colorido, tudo muito simples, tudo muito fantástico, e com lições claras: obediência à Deus, comportamento social ético, amor à família, respeito aos animais.

Construindo a Arca (Pregação de Noé Desdenhada), por Harry Anderson

Após uma infância protegida, e uma adolescência prolongada, chegamos todos à fase adulta, e o mundo deixa de ser colorido para tons graduados de cinza, e nossas crenças e esperanças infantis dão lugar a conhecimento racional e científico, e uma visão do mundo mais realista e lógica.

Afinal, que adulto acreditaria que centenas de milhares de espécies animais caberiam num barco gigante? Que adulto não sabe que o arco-íris é um efeito físico inerente da luz (existente desde quando existe luz, mas bem compreendido apenas no século XVII)?

Não. Passadas algumas décadas, experiências de vida no mundo real, e educação formal e a estória da Arca de Noé se torna uma lenda, uma alegoria, uma metáfora, enquantos as lições permanecem: obediência à Deus, comportamento social ético, amor à família, respeito aos animais.

Enquanto nós, como crianças, víamos morais nas estórias coloridas e extraordinárias, nós, como adultos, vemos estórias coloridas e extraordinárias nas metáforas morais.

Paulo, o Apóstolo, escreveu:

“Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.” (1 Cor 13:11)

Há quem acredite que adultos devam manter o mesmo entendimento espiritual e moral que crianças. Há quem acredite que os manuais dominicais para os adultos devam manter a mesma abordagem que os manuais para as crianças.

Ironicamente, os que defendem essa abordagem também gostam de citar o Apóstolo Paulo:

“Leite vos dei por alimento, e não comida sólida, porque não a podíeis suportar; nem ainda agora podeis.” (1 Cor 3:2)

Cabe, então, a todo Santo dos Últimos Dias, a todo Mórmon, e mesmo a todo Cristão, decidir por si mesmo se sua fé e sua religiosidade deve permanecer no estágio de maturidade de uma criança ou no estágio de um adulto.

Eu não acho que há que se impor uma ou outra opção a ninguém. Cada um sabe onde sente-se mais a vontade e satisfeito. Pessoalmente, eu não consigo me ver — ou compreender que se fique — contente no mesmo estágio de crescimento emocional, espiritual, e intelectual em que me encontrava há 20 ou 30 anos atrás, mas cada indivíduo tem a sua própria jornada de vida, e cada indivíduo conhece os seus próprios limites pessoais e sua própria zona de conforto.

A impressão que tenho, e conheço muita gente que sente o mesmo, é que a Igreja SUD decidiu, há algumas décadas, que o melhor para seus membros seria mantê-los num estágio mais homogeneizado e infantilizado. A esse processo chamamos de “correlação”, e os padrões dos manuais da Primária passaram mais e mais para os manuais dos adultos. A conversa e as discussões dominicais — para adultos — voltou-se para o “leite metafórico”, longe da “comida sólida”.

Nota-se isso nos manuais dominicais, nas revistas, e até nos discursos de Conferência Geral.

Eu não estou aqui para criticar a Igreja por isso. Ela deve saber o que quer e espera de seus membros, e aos membros cabe saber se o que se espera deles lhes satisfaz pessoalmente.

O que fazem, porém, os membros que não estão satisfeitos com a dieta “lacto-vegetariana” dos domingos?

Uma das opções está aqui: o site Vózes Mórmons se propõe justamente a servir como espaço aberto para que Mórmons de opiniões e visões as mais diversas tenham um espaço aberto para debater, discutir, conversar, ponderar, discordar, e compartilhar suas ideias e ponderações sobre Mormonismo, sobre religiosidade, sobre fé, sobre dúvidas, a vida, o Universo, e tudo o mais.

O site Vózes Mórmons é vinculado à Associação Brasileira de Estudos Mórmons. A missão da ABEM é promover o estudo acadêmico sobre Mormonismo — e especialmente sobre Mormonismo no Brasil — e, por isso, veremos artigos e debates no Vózes Mórmons que aborde Mormonismo sob um prisma mais acadêmico. Não obstante, a missão do site é mais abrangente, e inclui debates sobre aspectos sociais, culturais, literários, e contemporâneos de interesse no mundo Mórmon.

Há aqueles que reclamam, ou demonstram preocupações, sobre assuntos negativos. O que pensar de um artigo que debate os méritos da Igreja investir bilhões de dólares num shopping center? Ou de um artigo que discute a influência da Maçonaria nos ritos e nas crenças Mórmons? Ou de um artigo que questiona o valor coletivo de se ter um político Mórmon desonesto nos holofotes?

No Livro de Mórmon há um aviso sobre o que “igrejas falsas” diriam no futuro:

“Tudo vai bem em Sião; sim, Sião prospera. Tudo vai bem — e assim o diabo engana suas almas e os conduz cuidadosamente ao inferno.” (2 Ne 28:21)

O que pensar de tais artigos?

Eu penso o seguinte:

  1. Não há nenhum motivo religioso ou espiritual que justifique não se investigar as coisas que “não vão bem em Sião”. Eu imaginaria que cabe a todo Mórmon que ame sua religião ou sua tradição ponderar o que vai mal e o que se pode melhorar.
  2. Para os que acham que #1 não é um argumento válido, há sempre a opção para voltar para a dieta lacto-vegetariana e manter-se sempre apegado aos manuais dominicais e nada mais.
  3. O site Vózes Mórmons não é o lugar para dietas lacto-vegetarianas. Aqui, encorajaremos sempre o estudo ponderado de assuntos e temas, sempre baseados em critérios de racionalidade, lógica, ética, honestidade, e tolerância.
  4. É perfeitamente normal — e aceitável — que a Igreja não deseje incluir discussões sobre ética na política, ou critérios acadêmicos em historiografia, ou mesmo as ramificações negativas de algumas crenças populares Mórmons (racismo, machismo, homofobia, etc.) nas reuniões dominicais. O que não significa que esses assuntos não merecem ser discutidos.

Aos incautos e noviços, que desejam participar conosco, algumas sugestões:

1) Se você se sente intimidado com algo, não o leia.

Conheça os autores e selecione quais escrevem sobre os assuntos que lhe interessem, e quais escrevem “sólidos” demais pra sua zona de conforto.

2) Escreva artigos e envie-os para publicação.

O site é de vocês. A proposta é ouvir todas as Vózes Mórmons sobre todos os assuntos que lhe interessem! Não tem interesse em História Mórmon, mas tem interesse em poesias? Então publique aqui suas poesias (sempre respeitando direitos autorais, é claro). Não tem interesse em poesias, mas tem interesse em estudos de escrituras? Então publique aqui os seus discursos ou devocionais sobre suas escrituras favoritas. Seu interesse é humor? Escreva aqui suas piadas, preferencialmente relacionadas as suas experiências Mórmons.

O site é o que vocês fazem dele.

3) Se você leu um artigo que lhe deixou incomodado ou desconfortável, comente sobre ele.

Faça perguntas, solicite ajuda, peça sugestões de leituras extra-virtuais (i.e., livros e artigos). Nenhuma pergunta é estúpida ou inválida, e muitas vezes é bom ler opiniões de várias pessoas com visões distintas e abordagens diferentes. Enriquece o debate e aprendemos todos.

Os manuais da Primária são ótimos e seguros… para crianças. A Igreja não quer que a experiência dominical seja muito mais complexa do que isso, e isso é um caminho possível. Para os viajantes que desejam se aventurar pelo Mormonismo em busca de algo “mais sólido”, aqui é o seu lugar. É um lugar aberto, mas ele só é tão bom e tão relevante dependendo do quanto queremos aqui contribuir.

29 comentários sobre “Manuais da Primária e Dieta Vegetariana

  1. Acho que o senso comum é de não tratar de temas muito profundos nas reuniões dominicais, pois pode assustar os pesquisadores.
    Mas aí fica a pergunta: em que momentos vamos debater esses assuntos? No instituto? No templo?
    O instituto só é para jovens até 30 anos. O Templo é muito longe.
    Acho que, no final das contas, estes assuntos só acabam sendo abordados em rodas de conversas informais junto com pessoas que gostam desse tipo de conversa ou nos sites como este.
    Aproveito o tema para “cobrar” os artigos sobre o estudo da bíblia que anunciaram aqui há algum tempo.

    Forte abraço.

    • Rafael, obrigado pelo comentário e pela lembrança. Eu já tenho 3 posts prontos, e vou começar a posta-los no começo da próxima semana. Essa semana eu tenho 2 posts que eu quero postar antes.

      Eu concordo com você. Nada mais justo que manter as reuniões dominicais para temas devocionais. Eu discordo apenas por que eu acho que o Instituto deveria oferecer a oportunidade de debates mais intelectualizados — afinal, a sua proposta original é educacional, e não devocional. Mas, você tem razão: enquanto o Instituto não oferece isso, esse site cumprirá essa missão! 🙂

      • Olá meu amigo Marcello…. Concordo com você! Que artigo interessante…
        Também acho que o Instituto deveria trazer este debate mais rico e aprofundado, e até participei de uma classe incrível assim por dois anos, mas foi criado um Instituto mas perto da minha região, daí o que pensei que seria uma benção por conta da proximidade, trouxe-nos seguidos diretores (consequentemente professores) que buscaram trazer o seminário e as escola dominical para o programa… 😦 Que pena…

        Recentemente, fiz a seguinte sugestão documentada em e-mail para a minha Presidência de Estaca:

        Caros amigos da Presidência da Estaca…
        Como demonstração de apoio que sempre procurei demonstrar, somada a grande humildade que sempre vi em vocês ao receber sugestões, venho aqui apenas reforçar uma idéia que eu já havia mencionado antes, mas talvez seja mais oportuno agora.

        Sei que temos uma grande ênfase na reativação de menos-ativos e de batismos de conversos, claro devemos continuar com esta ênfase profética, mas parece-me que seria interessante olharmos também para a raiz do problema, ou seja, podemos ponderar na questão:
        Por que será que tantos bons homens, sejam conversos ou de mais tempo de membro, decidem se afastar? Por que retemos tão pouco e consequentemente parece que estamos estagnados no que se refere ao crescimento real?

        Ao meu ver, uma das possíveis respostas a esta importante e complexa pergunta, está na lição ensinada abaixo:
        “A doutrina verdadeira, quando devidamente compreendida, muda as atitudes e o comportamento.” (Pres. Boyd K. Packer – Ensign, NOV/1986)

        Meu 2º Presidente de Missão (Robert Layton) costumava perguntar referindo àqueles que deixavam de fazer algo correto ou que faziam algo errado: “Qual a doutrina que eles não entendem?”

        Com base nas citaçoes acima, penso que uma das possíveis iniciativas, além de reciclar nossos professores e líderes, com o aumento da frequência e consequentemente da qualidade das aulas e treinamentos, poderíamos incluir sempre um discurso doutrinário nas reuniões de sacerdócio da estaca, contendo sempre um discurso por alguém com melhor domínio, para apresentar a beleza de alguma doutrina do evangelho pré-selecionada, assim, fortalecendo os irmãos que já estão numa rota segura e prevenindo com a verdade àqueles que são “facilmente levados por toda sorte de doutrina”!

        O que acham?

        Seu eterno amigo e servo….
        Att.
        David Marques

      • Que heresia, David! Falar de outra coisa na reunião do sacerdócio que não seja visita de mestre familiar?! Que absurda sua proposta!

        Falando sério, acho muita lúcida sua ideia, especialmente levando em conta que as pessoas se convertem pela doutrina. Pelo menos foi assim comigo e não acredito ter sido uma exceção.

      • kkkkk

        Mas falando sério, vejo no texto do Marcello mais coisas… Alguns realmente preferem se manter na superfpicie e neutralidade, mais acomodados… Vejo na Igreja o que Dan Brown em um de seus incríveis romances dissertou muito bem a respeito daqueles que vivem abaixo de seus privilégios, que “é o mesmo que caminhar por uma imensa biblioteca se tocar se quer em algum livro!”

        Quando falamos a respeito de pesquisar, aprofundar, filosofar, saudávelmente questionar, ou em outras palavras, especular (do latim, speculum, significa espelho, reflexo, reflexão, observar com atenção, estudar), tem um sabor amarguíssimo para os conservadores e porque não ignorantes… Falar em especulação com membros da igreja, é apostasia…

        Por isso, tenho pra mim o seguinte dilema: “Eu admiro homens e mulheres que desenvolveram o espírito questionador, que não têm medo de novas idéias, como degraus para o progresso. Nós devemos, obviamente, respeitar as opiniões dos outros, mas devemos também não ter medo de discordar – se estivermos informados. Pensamentos e expressões competem no mercado de pensamento, e nesta concorrência a verdade triunfa. Só o erro teme a liberdade de expressão… Esta livre troca de ideias não é condenável, contanto que os homens e mulheres se mantenham humildes e abertos ao ensino. Nem o medo das consequências ou qualquer tipo de coerção deve jamais ser usada para garantir a uniformidade de pensamento na igreja. As pessoas devem expressar seus problemas e opiniões sem ter medo de pensar em consequências negativas … Temos de preservar a liberdade de pensar na igreja e resistir à todos os esforços de suprimi-la.” (Hugh B.Brown, An Abundant Life: The Memoirs of Hugh B.Brown, Salt Lake City, 1988, pp.137-39)

      • É preciso entender, que o SENHOR tem o método dele de ensino, devidamente ordenado e chamado para tal. Mesmo que uma pessoa frequente regularmente todas as reuniões da igreja e vá ao instituto. Mesmo que ela leia todos os livros da igreja e conheça todos os segredos ocultos. Ainda assim, o método do SENHOR é o mesmo ensinar pelo espirito. Não sepode receber um verdadeiro conhecimento desta obra a não ser que ele lhe seja concedido literalmente pelos céus… Nos discursos de BY você encontrará esta doutrina onde ele até mesmo afirma que o Espirito Santo ao ensinar um homem e revelar luz sempre faz em parcelas e em alguns momentos é apenas um teste para ver o que ele fará com o conhecimento se irá guardar ou irá lançar aos porcos ou irá abrir o conhecimento para todos. O metodo do SENHOR não é revelar toda a verdade a todos, mas sim revelar parte por parte preceito sobre preceito esta mesma doutrina era ensinada por Joseph o profeta. Assuntos profundos sem a revelação do espirito serão com conhecimento acadêmico.

      • Excelente Renato. Obrigado por seu comentário.
        Deu uma aula com maestria a respeito de se ganhar conhecimento através de revelação pessoal… Incrível! Parabéns e obrigado!

        No meu entender, acredito que estamos abordando outro ponto, ou seja, penso eu que estamos reivindicando que as coisas que já foram reveladas e/ou documentadas não sejam omitidas ou descartadas, ou pior, intencionalmente encobertas… O espírito não revelará coisas já reveladas, mas tem a função de nos lembrar as coisas que já aprendemos por revelação e/ou estudo (João 14:26).

        A meu ver, estudos acadêmicos e racionais são ricos, mas não substitui o conhecimento obtido por experiências místicas… Por isso, acredito que o segredo é buscarmos conhecimento em tudo, tanto pelo estudo quanto pela fé, as duas ferramentas são importantes e indispensáveis!!!
        “Buscai diligentemente e ensinai-vos uns aos outros palavras de bsabedoria; sim, nos melhores clivros buscai palavras de sabedoria; procurai conhecimento, sim, PELO ESTUDO E TAMBÉM PELA FÉ.” (D&C 88:118)

  2. Alguns pesquisadores não estão preparados para os temas profundos.E eu acho correto a igreja não ensinar doutrina muito profunda na igreja.Eu creio que por isso somos orientados a estudar as escrituras em casa e ponderar sobre o significado delas.A cada dia aprendo mais com elas,um dia estava lendo o Livro de Mórmon e vi coisas nas escrituras que eu nunca tinha imaginado antes.

    • Mariane, eu não estava me referindo aos manuais voltados para investigadores. Por exemplo, os manuais de Escola Dominical são voltados para membros com mais de um ano de Igreja.

      Por outro lado, o manual voltado para investigadores e membros novos inclui a menção de uma “doutrina profunda” que o próprio Presidente da Igreja, Gordon Hinckley, desmentiu em público repetidas vezes (i.e., a doutrina do Deus-Homem).

      • Marcello, ótimo texto, mas poderia dar mais detalhes sobre as vezes em que o Presidente Hinckley desmentiu a doutrina e em qual (quais?) outros momentos ela aparece, sem ser no manual para investigadores (e onde exatamente está nesse manual)?

      • Aron, obrigado pelo elogio.

        Gordon Hinckley desmentiu, em repetidas entrevistas (pro Larry King da CNN, pro Mike Wallace da CBS, pra revista Time, e pro jornal San Francisco Chronicle) que a Igreja ensina — ou que os SUD acreditam — na Doutrina da Eterna Progressão do Homem (i.e., que Deus já foi como o Homem, que o Homem será como Deus).

        A doutrina foi estabelecida por Joseph Smith no Discurso de King Follett, e você pode le-la nos Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, e sobre ela no capítulo 4 do manual da Escola Dominical Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Brigham Young, e no capítulo 47 do manual da Escola Dominical para investigadores e membros novos Princípios do Evangelho.

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