Um missionário brasileiro na Colômbia

MARLON 2Texto de Marlon Paes de Farias

Talvez você tenha visto, em sua ala ou ramo, missionários de língua hispânica. Ou jovens brasileiros que receberam seu chamado missionário para servir em outros países da América Latina. Para os membros que tem um pouco mais de tempo na igreja, a grosso modo parece algo novo, ás vezes causando até certa tipo surpresa. Eu, há quase dois anos, servi numa missão de língua hispânica. Nesse período, tive o prazer de aprender algumas das razões políticas-sociais para essa nova trajetória missionária.

Servi na missão Colômbia Bogotá-Sul, uma missão que pedia, até o crescimento da obra missionária feita pelo profeta Monson, uma média de 4 missionários brasileiros por vez, já que tinha fronteira com Tabatinga, uma cidade brasileira  da Missão Manaus, que não queria ensinar por lá, por ser longe e sem segurança. Logo cabia a nós, brasileiros-colombianos, ficar um ano pregando em um local onde se falavam 3 línguas – o espanhol, o português e o portunhol.

Fui o quinto missionário dessa missão, o que foi uma surpresa para o Presidente e para mim, já que o Presidente “jogou na minha cara” esse fato inédito , uma prova de que algo eu deveria fazer por lá, pois normalmente a igreja cumpre com aquilo que o Presidente de Missão pede. Sim, pareceu-me novo saber que o Presidente de Missão tem o poder de selecionar a possibilidade  e a quantidade de missionários estrangeiros em sua missão e creio que deve ser novo para alguns dos que estão lendo também.

Essa missão tinha um apelido: era a missão ” cruzeiro do amor”, apelido esse que explicarei mais adiante.

É de conhecimento geral que houve uma guerra civil na Colômbia, que na verdade ainda existe e assombra várias cidades afastadas. Mas o governo colombiano intervém midiaticamente para que isso não fique no conhecimento de todos, já que, sua propaganda tem focado muito em uma falsa segurança para o turismo. Explicar sobre isso levaria horas de questões a serem abordadas e o mínimo de conhecimento sobre o passado já basta para explicar certos acontecimentos.

Na década de 60, houve uma guerra brutal na Colômbia, porque havia uma dualidade política, de um lado os de direita que tinham o poder e o apoio americano, do outro um grupo rebelde de esquerdistas rurais, que além de lutar contra o governo, tinham que se defender dos traficantes, assim criando um grupo de paramilitares, que são mercenários comprados para matar traficantes que tentavam produzir drogas em suas terras. Com o passar o tempo, esses paramilitares ficaram sem trabalho e viraram outro grupo de guerrilheiros, ou seja, a situação parecia cada vez ficar pior. Os americanos com aquele plano de acabar com o “comunismo comedor de criancinhas” incitaram o governo a atacar os contrários ao capitalismo, ajudando-os com armamentos e com um grupo de pessoas especializadas em vencer taticamente tanto os esquerdistas quanto os traficantes, o que trouxe uma paz interna, mas  uma dependência externa.

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Essa guerra criou um caos missionário, pois como sabemos, os gringos americanos estão por todas as partes e lá não era uma exceção. Só que dessa vez o povo colombiano ficou contra a influência dos estadunidenses em seu governo. Até os próprios paramilitares, as Farc, os ELN aprenderam que um gringo sequestrado dava muito lucro para o grupo armado. Assim não é difícil escutar histórias de missionários torturados, sequestrados e até mortos como forma de inibir os estadunidenses e seu exército de influenciarem seu país. Atualmente o exército americano fica em locais estratégicos para poder “ajudar” o governo a combater tais revolucionários terroristas, ou seja, ainda um gringo não é bem-vindo na sociedade. Na verdade desde a separação entre Colômbia e Panamá, que teve influência americana, um estadunidense tinha o mesmo amor que um traficante das Farc, ou melhor, o próprio Escobar era mais amado pelos colombianos do que qualquer gringo.

Então o externo influiu drasticamente a continuidade de missionários gringos, tanto que por muitos anos, qualquer missionário com aparência norte-americana não poderia ir para a Colômbia. Países como Nicarágua e Venezuela, passaram por situações semelhantes, por isso, teologicamente a igreja nesses países sofreu um atraso de 30 anos, onde criaram-se culturas próprias, já que as autoridade gerais não podiam ter uma influência positiva em tais locais.  Em Efésios 4, vemos a importância de profetas e apóstolos para não mudar o foco doutrinário, nesses países os estudos bíblicos foram utilizados para compreensões pessoais, sem apoio do mormonismo, assim não é incomum ver um membro admirar um orador que fala bem em passagens que nem ele mesmo compreende. Nas áreas onde passei, ouvir ideias como 2 Espíritos Santos, 4 Deuses e não mais a trindade, já que Abraão tornou-se um assim como Cristo, entre outros exemplos são comuns e servem para entender como a não entrada da primeira presidência por 30 anos afetou a doutrinação e a cultura nesses locais.

Desde 1995 a história começou a mudar, templos sendo construídos foram a forma mais impactante para a igreja dizer, agora estaremos próximos de vocês, nesse momento começaram a aparecer um pequeno grupo de missionários estadunidenses, isso em lugares específicos, pois até hoje a igreja indica certos locais onde pessoas de cabelos loiros, como era o meu caso, não poderiam pregar o evangelho. Diferente do que acontece no Brasil, a criminalidade não é contra a população, mas sim contra o governo, por isso, apesar de ser o país com mais assassinatos da América Latina, para o cidadão é mais seguro que o nosso próprio país, desde que você não seja um loiro estrangeiro que fale engraçado. Já que colocamos o Brasil nessa parte do texto, vale saber que o povo colombiano tem uma afeição muito grande para com o brasileiro, conta-se uma história de que, uma vez Pelé foi jogar na Colômbia e foi expulso, no entanto todo o estádio começou a vaiar o juiz e pedir a volta do rei aos gramados, como já se imagina, ele terminou a partida e ainda deu um passe para um gol. Por essa febre futebolística, o brasileiro é super recebido, na verdade o preconceito é somente contra argentinos (como sempre), contra americanos e contra nicaraguenses, pois esses últimos tiveram uma Guerra com a Colômbia, onde para eles, a Nicarágua roubou uma parte de seu oceano, pode até parecer algo se muita importância, mas trouxe uma rixa gigante entre ambos.

Até aqui entende-se o porque de aparecerem missionários dos EUA na Colômbia, mas não explica muito o porque de os brasileiros começarem a ir para lá. Para entender melhor sobre isso, vale lembrar que, os colombianos motivados com o templo e com o crescimento missionário, começaram uma união missionária contínua, por isso, muitos membros começaram a apoiar os missionários, o que fez crescer muito o número de futuros Elderes e Sisteres, além do número de membros. Isso fez crescer o número de missões, só que, a Colômbia com a moral política abalada, sempre que um missionário recebia seu chamado para os EUA, acabavam por ter que ficar no próprio país, porque nunca recebiam o visto. Como isso era algo genérico, ou seja, não só para mórmons, mas para todos, os próprios colombianos dificultaram a entrada de gringos, o que fez ter um vácuo grande de missionários em seus respectivos chamados, ou seja, algo teria que acontecer.

A ideia foi brilhante! Começaram a aparecer missionários latinos ao invés de gringos. Se pensamos que no Brasil o movimento esquerdista também estava e está forte, provavelmente esse efeito parecido tenha sido um fator importante para a chegada de missionários latinos. Como sabemos, existe uma dificuldade enorme de conseguir um visto para ir aos EUA, como o MERCOSUL está aí facilitando a entrada de todos, nada melhor que evitar confusões e focar naquilo que é mais fácil.

Espero ter dado uma pequena introdução sobre os motivos de existirem mais latinos aqui e de nós brasileiros estarmos indo mais frequentemente para lá. Como missionário na Colômbia, lidei várias vezes com esse problema, certos missionários esperavam um ano e meio até decidirem servir no próprio país, administrativamente foi uma escolha inspirada, pois todo o transtorno de vistos se acaba, tendo mais missionários aonde deveriam estar, visto que, não era raro o número de missionários e missionárias que desistiam de ir para a missão por desânimo de não poder cumprir uma missão tão sonhada como a de pregar nos EUA.

Agora que ficou um pouco claro, no começo do texto prometi explicar o porque da missão Bogotá-Sul ser conhecida como a missão “cruzeiro do amor”. Como não houve por muito tempo uma intervenção da igreja sobre os missionários e sobre os membros, não é comum um missionário estar na rua, ser chamado por uma moça jovem e ela contar que tem um filho de um élder, tanto que o meu penúltimo Presidente de Missão, nos três primeiros meses de sua missão, excomungou 32 missionários e mandou para casa mais de 60. Uma história muito conhecida entre os missionários é de uma mãe reclamando com um apóstolo, porque seu filho fora chamado para a missão Cali. Esse apóstolo contesta para ela que, somente os especiais são chamados para tal lugar!

Vale lembrar que nesse período a Missão Colômbia Bogotá-Sul tinha como 10 estacas, a emoção da esperança de crescimento era grande, até que percebeu-se que tanto a liderança como os próprios missionários estavam cometendo pecados sexuais, o que causou uma dor em muitas famílias ditas como tradicionais e uma dor em jovens recém-batizadas e pesquisadoras. Atualmente existe na Missão onde servi 7 estacas e uma pequena volta na confiança em missionários, que havia acabado depois dos muitos acontecimentos descobertos. Talvez esse tenha sido outro ponto para que voltassem os missionários gringos, porque os missionários que cometeram esses erros, quase que em sua totalidade eram peruanos, bolivianos, equatorianos e chilenos. Ou seja, como os latinos estavam em baixa com os membros, nada melhor do que um apoio americano para a volta da confiança, o que foi um sucesso.

Países como Peru, Equador, Colômbia e Venezuela são conhecidos como grandes batizadores, entre os que mais batizam no mundo, tendo em média 2.500 batismos por ano em cada missão, assim atualmente Setentas e Apóstolos têm estado frequentemente visitando para fortalecer e tentar unificar a doutrina. Até o próprio departamento missionário veio ensinar como melhorar a missão e sua retenção, que é um dos grandes problemas, por sorte tive a oportunidade de conversar com dois dos organizadores do “Preach My Gospel”, tudo com a finalidade de restaurar o dano de 30 anos de exclusão.

Enfim, esse é um pequeno relato sobre a complexidade que há na Colômbia e sobre algumas situações que levaram ao crescimento de missionários latinos em nosso país, assim como o inverso. Espero ter ajudado na compreensão e tirado algumas dúvidas históricas sobre um país tão pouco comentado, mas que sofreu tanto por intervenções americanas e pela própria corrupção por poder de seus políticos, assim como ajudar com algumas curiosidades que só quem morou lá e pôde vivenciá-la poderia contar. Concluo afirmando a beleza que é a Colômbia. Infelizmente o que mais eles têm de famoso é o café e a bebedeira em ruas, coisas não muito úteis para os mórmons. No entanto, suas paisagens são belas, sua história é linda e seu povo é tão animado e receptivo quanto o brasileiro.

7 comentários sobre “Um missionário brasileiro na Colômbia

  1. Como eu sempre digo, nada melhor do que ‘sairmos’ de nossa ‘bolha’ de compreensão do mundo, e eis uma das grandes heranças de ser missionário (claro, para os que conseguem entender e aproveitar esse aprendizado).

    Obrigado pelas informações.

    Em tempo, parece que não era apenas no centro-oeste que havia casos de ‘cruzeiro do amor’. Sei que pra muitos pode ser chocante, mas temos que entender que além de serem casos que dificilmente viram uma ‘epidemia espiritual e moral’ são coisas que acontecem por nosso caráter fraco e em desenvolvimento. Nada que seria para se escandalizar tanto, já que há coisas bem piores que poderiam acontecer.

    • De nada pela informação, é sempre bom poder compartilhar e aprender.

      Sobre o aprendizado, fatalmente cada um aprende aquilo que vê, logo aos que são movidos por seu vitimismo ou seu senso de pecado individual, tal cena poderia ser uma “brecha” para o ceticismo religioso. No meu ver foi uma aprendizado para minhas debilidades e um certo testemunho das regras não entendidas com precisão na missão.

  2. Não concordo com muitas das coisas que vc disse. Servi em Colômbia e tive a oportunidade de servi em duas missões comecei na Barraquilla e terminei na Medellin assim que ela “abriu” fui transferido e tem muita coisa linda la.
    acho que deveria ser informa um pouco de como esta agora. Nao vejo Colômbia muito diferente de Brasil.

    • Não percebi a parte onde ele afirma “a Colômbia é assim” no texto, pareceu mais que ele falava do passado e de o porquê das coisas estarem mudando atualmente. Claro, verdade que uma lida superficial do texto dá essa impressão, mesmo que de longe.

      Inclusive sugeriria que o autor melhorasse um pouco a qualidade dos parágrafos e pontuação para tornar o texto mais claro e confortável a leitura.

  3. Pra ser sincero, eu até prefiro quando vejo e recebo mais missionários brasileiros em minha Ala, do que missionários americanos que se acham tive muitos companheiros americanos e aff! Queria que o Brasil fosse assim, dificultasse mais a entrada de americanos (em meu ponto de vista: se acham melhor que nós brasileiros).

  4. Ficou um pouco confuso, mas deu pra entender a mensagem. Tambem servi na Colombia, missão Bogota norte de 2012 a 2014 e com certeza as coisas mudaram muito por lá , principalmente em relação aos norte americanos . Hoje eles são aceitos numa boa e sem nenhum tipo de preconceito , tive 3 companheiros americanos e vi como eles são adorados como se fossem a melhor raça ,igual acontece por aqui… em algumas alas que passei eu me sentia até meio invisivel kk pois muitos nunca falavam comigo e reconheciam o merito do nosso trabalho como sendo só dele e inclusive um desses meus companheiros percebeu isso e quando perguntavam as coisas pra ele,me deixava responder e foi quando “perceberam” que eu tambem estava la!! Também vi muitos colombianos indo para os EUA , inclusive missionarios, então acredito que ja não exista essa rixa entre as duas nações. Ouvi muitos desses relatos que você contou e vi casos semelhantes na minha missão, mas o que posso dizer é que também aprendi muito sobre aquele país e a ter um grande apreço por aquelas pessoas , foi uma grande benção ter tido a oportunidade de servir àquele povo. São uma gente que sofre ainda com a guerrilha e que vivem amedrontadas pela sombra do medo de perder suas casas, seu pedaço de terra , seus filhos , entre outras coisas. Todavia, não é só de sofrimento que vivem os colombianos, realmente são muito alegres e festeiros ,com uma historia rica e um país muito belo, gente de muito boa qualidade !!!

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