Pornografia na Adolescência: Problema de Saúde Pública?

Em 19 de abril, o governador Utah Gary R. Herbert assinou uma resolução declarando a pornografia como uma crise de saúde pública.

A resolução tem provocado debate, mas para a maioria dos especialistas em saúde pública a ideia de que a pornografia tem alguma relevância à nossa saúde como sociedade não é muito controversa.

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Esse assunto é do meu interesse. Sou pesquisadora de saúde pública e professora, e tenho realizado vários estudos sobre o uso da pornografia por adolescentes. Pessoalmente, acho que a pornografia é um problema de saúde pública; que tem implicações para a promoção da saúde sexual e reprodutiva, e prevenção da violência.

Além de minha pesquisa sobre pornografia, leciono um curso de pós-graduação sobre a pornografia como um problema de saúde pública na Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston. Meus alunos serão requeridos a deliberar sobre se e como proteger a saúde pública — e o que seria ultrapassarem seus limites.

Assim, ensino a eles a pensar criticamente sobre o assunto, a olhar a retórica passada, e a se tornarem consumidores críticos de evidências de pesquisa. Ensino que que não há problema se eles se encontrarem às  vezes em conflito, pois determinar o que é perigoso ou saudável para o público nem sempre é simples.

Por que comecei a pesquisar pornografia

Minha própria pesquisa sobre pornografia e saúde do adolescente foi provocada por um achado inesperado em um estudo de violência em encontros. Em 2011, estava analisando dados de uma amostra de mais de 300 meninas, entre 14-20 anos de idade, da área de Boston, das quais quase metade haviam experimentado abuso físico ou sexual por um parceiro de encontros. Embora o estudo não fosse sobre pornografia, 34% das jovens pesquisadas tinham visto pornografia no mês anterior, e quase 11% relataram ter sido forçadas ou coagidas a participar de um comportamento sexual que o agressor tinha visto em pornografia. Parecia possível que a pornografia fosse um fator que contribuísse para violência sexual e namoro na adolescência.

A partir disso, realizei um estudo qualitativo. Entrevistei 23 adolescentes (16-18 anos) que tinham visto pornografia pelo menos uma vez no ano anterior. Eles disseram à minha equipa de investigação o que assistiram, com quem, por que, quando, por que razões e como se sentiram a respeito. Alguns temas emergiram, os quais ressaltaram que a pornografia poderia ser vista como uma questão de saúde pública.

Em primeiro lugar, eles tinham visto uma grande variedade de pornografia: por exemplo, pornografia heterossexual, de trios, bondage, pornografia racial específica, pornografia de humilhação, pornografia de incesto e o que eles chamavam de “pornografia de estupro”.

Em segundo lugar, a maioria deles assistiu porque estavam curiosos. Eles queriam saber como o sexo funcionava – o que fazer. Mais de uma jovem relatou que queria saber que sons fazer com seu namorado. Um menino queria saber como agradar sua namorada, e um veio com o entendimento de que muitas mulheres tinham orgasmos com sexo anal.

Em terceiro lugar, vários tinham experimentado algo doloroso e desconfortável no sexco, porque seus parceiros queriam imitar a pornografia.

E, por fim, seus pais não sabiam como falar com eles sobre pornografia.

Entrevistar esse pequeno grupo de adolescentes foi apenas um ponto de partida. Depois, realizei um estudo quantitativo. Uma amostra de 72 adolescentes de ambos os sexos, de 15-17 anos, completou uma pesquisa sobre a sua visualização de pornografia.

Pornografia era a principal fonte de informação sobre sexo para os adolescentes da amostra. Além disso, mais da metade (51%) foram convidados a assistir pornografia junto a um(a) namorado(a) ou parceiro(a) sexual, e 44% tinham sido solicitados a fazer algo sexual que um parceiro vira em pornografia.

Descobrimos também que vitimização por abuso em encontros adolescentes estava associada ao uso mais frequente de pornografia, a ver pornografia na companhia de outros e a ser solicitado a realizar um ato sexual que o parceiro viu em pornografia. Aproximadamente 50% das vítimas de abuso em encontros e 32% das não-vítimas relataram que tinham sido solicitadas a se envolver em um ato sexual que seu parceiro viu em pornografia, e 58% de todos os jovens que haviam sido solicitados não se sentiam felizes por terem sido solicitados.

Os resultados do estudo não são passíveis de generalização, e não podemos fazer inferências causais. No entanto, os resultados ajudam a moldar futuras questões de investigação sobre a possível ligação entre o uso da pornografia na adolescência e experiências de abuso. A pesquisa me convenceu de que vale a pena para os profissionais de saúde pública e estudiosos continuarem a perguntar como a pornografia pode estar relacionada à saúde adolescente.

O que ensino a meus alunos sobre pornografia

Alguns estudantes ouviram sobre minha pesquisa e se ofereceram para me ajudar com ela. Estavam interessados em formação mais formal sobre a forma de pensar acerca da pornografia, usando sua perspectiva de saúde pública. Por isso, desenvolvi um curso. Até onde sei, foi o primeiro curso sobre pornografia em uma escola da saúde pública.

Meu curso sobre pornografia e saúde pública abrange uma ampla variedade de tópicos. Estudamos o material sexualmente explícito e obscenidade ao longo da história, como as “guerras contra a pornografia” da década de 1980, ou como historicamente os esforços antipornografia têm sido usados para perseguir gays e lésbicas. Também examinamos a legislação destinada a limitar o acesso de crianças à pornografia na internet, a base de evidências sobre pornografia e agressão violenta, a ligação entre tráfico sexual e pornografia, e a saúde ocupacional e condições de trabalho de artistas de pornografia pagos.

Durante todo o curso, incentivo os alunos a analisar o rigor da pesquisa sobre pornografia, identificar as lacunas na base de conhecimento e propor políticas inovadoras e soluções programáticas que possam mitigar alguns dos danos que, suspeitamos, estão afetando o público. Por exemplo, alguns alunos apontaram que há provas insuficientes para concluir que a pornografia é “biologicamente viciante” (embora a resolução Utah referencie essa possibilidade). E alguns alunos começaram a desenvolver comigo um “currículo de alfabetização em pornografia” que será testado pela primeira vez neste verão.

Curiosamente, a resolução de Utah sugere que os cidadãos precisam de educação sobre pornografia, mas o estado proíbe escolas públicas de educar a juventude sobre as complexidades do sexo, ou defender a contracepção, homossexualidade ou sexo fora do casamento. Em vez disso, Utah usa a educação sexual chamada de “abstinência apenas”, que não é o tipo promovido por especialistas em saúde pública.

Embora haja muito debate sobre a pornografia e seu impacto potencial sobre jovens e adultos, pessoas em lados opostos da questão parecem concordar que os adolescentes merecem educação sobre sexo — e que a pornografia não é o caminho certo para aprenderem. Essa é uma das razões pelas quais faz sentido pensar sobre as implicações na saúde pública da pornografia.

Precisamos continuar estudando pornografia e saúde pública

Perguntas ainda permanecem sobre como adultos são afetados pela mídia sexualmente explícita. Algumas pesquisas sugerem que pode causar a ambos, homens e mulheres, insatisfação com seus próprios corpos e suas relações sexuais. Porém, ideias de que a disponibilidade de pornografia na internet esteja tendo um impacto significativo sobre o interesse de indivíduos em ter sexo pessoalmente, ou que a maioria das pessoas que assistem pornografia inevitavelmente procurem materiais mais e mais chocantes, permanecem como questionamentos.

Pesquisadores engajados, com formações em psicologia, sociologia, sexologia, medicina, neurociência, economia e saúde pública, em pesquisa rigorosa sobre pornografia, ajudarão a gerar evidências para guiar as futuras decisões de política pública.


Emily-Rothman5Emily Rothman é Professora Associada de Serviços de Saúde Comunitária, da Universidade de Boston.

Artigo original publicado aqui. Reproduzido com permissão.

The Conversation

12 comentários sobre “Pornografia na Adolescência: Problema de Saúde Pública?

  1. Utah com certeza e um dos estados com maior numero de acesso a pornografia. O metodo que a igreja usa para abordar esse problema e ineficaz, sem olhar na raiz do problema fica dificil oferecer uma solucao a longo prazo. No meu entendimento limitado sobre o assunto vejo o abuso na infancia como um dos principais fatores do vicio sexual e a pornografia, ja no aspecto religioso eu vejo a falta de experiencias espirituais como parte do problema. No livro de Mormon vemos o exemplo de como experiencias espirituais podem eliminar o desejo de coisas malignas e impuras e ser o melhor antidoto contra essas coisas.

    ” 2 E todos clamaram a uma só voz, dizendo: Sim, acreditamos em todas as palavras que nos disseste e também sabemos que são certas e verdadeiras, por causa do Espírito do Senhor Onipotente que efetuou em nós, ou melhor, em nosso coração, uma vigorosa amudança, de modo que não temos mais disposição para praticar o mal, mas, sim, de fazer o bem continuamente.” (Mosias 5:2)

    “33 E aconteceu que quando se levantou, Amon também pregou a eles e assim também fizeram todos os servos de Lamôni; e todos disseram ao povo a mesma coisa — que seu coração havia sido transformado; que não desejavam mais praticar o mal.

    34 E eis que muitos declararam ao povo que haviam visto anjos e que com eles haviam conversado; e, assim, relataram-lhes coisas de Deus e de sua retidão.” (Alma 19:33-34)

    O metodo da igreja atualmente em focar na proibicao e punicao daqueles que estao envolvidos em pecados sexuais nao funciona e nem pode funcionar, vicio e algo que as pessoas nao conseguem vencer sozinhas, elas precisam do poder de Deus e da ajuda de familiares e terapeutas mas somente exeperiencias como nas escrituras podera diminuir o efeito desse mal, devido a absencia dessas experiencias na igreja somente o apoio dos familiares e terapeutas profissionais podem ajudar.

  2. A pornografia vicia sim. Além disso ela distorce a maneira como as pessoas enxergam umas às outras e suas relações. Reduz a capacidade de enxergar o outro como ser humano, e a ter empatia por ele, fazendo com que o enxerguemos como objeto. Quando uma pessoa passa a adolescência mergulhada em pornografia, tem grandes chances de que isso afete toda sua vida adulta e suas relações afetivas.

  3. Quando uma pessoa passa a adolescência mergulhada em pornografia, tem grandes chances de que isso afete toda sua vida adulta e suas relações afetivas.(x2)

    Imagine então as distorções causadas pela religião. Imagine as relações afetivas de uma pessoa que passou a adolescência afundada em sexismo, racismo e homofobia.(x2)

  4. Masturbação é algo saudável e que faz bem para o corpo e mente. Ajuda o jovem a se conhecer, previne o câncer em homens, traz mais empoderamento sexual para as mulheres. A questão da indústria porno realmente tem complexibilidades, mas nenhuma que argumente contra o valor da masturbação na saúde das pessoas.

  5. A pornografia deve funcionar como uma droga, que pode ou não causar dependência, mas de alguma forma vai afetar as relações em algum aspecto. Da mesma forma com a masturbação na adolescência ou vida adulta.
    Eu acho que pornografia e masturbação são opostos à espiritualidade. Nada a ver.

  6. O sexo monogâmico frequente é ótimo para a espiritualidade, pois alivia tensões e contribui para evitar o assédio extrafísico (tentações).
    A masturbação em tese também seria, porém além de não dar a satisfação do coito sexual, acaba gerando no que se masturba pensamentos impróprios com alguém, favorecendo assédios extrafísicos.
    Abstinência sexual prolongada é péssimo de qualquer ponto de vista.
    Lamentavelmente o cristianismo impõe abstinencia sexual aos jovens, proibindo sexo até mesmo entre namorados, quando estão na fase de maior necessidade sexual, apesar de todas as terriveis consequencias da repressão sexual que repercutirão na vida adulta.
    Sexo sem compromisso não é o ideal,mas ainda assim é mais saudável do que a malfadada (e pornográfica) lei da castidade.

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