Editora do New York Times Rebate Mórmons Sobre Thomas Monson

O editorial do The New York Times oferece uma resposta, e uma reprimenda, aos membros d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, por não compreenderem (ou fingirem não compreender) o que significa, e como funciona, ética jornalística.

Presidente Thomas S. Monson no lobby do Prédio Memorial Joseph Smith em junho de 2011. (Foto: Scott G. Winterton, Deseret News)

Tudo começou com o falecimento do Profeta e Presidente da Igreja SUD Thomas Monson. A seção de obituários do respeitado jornal The New York Times emitiu uma nota de falecimento reconhecendo sua passagem, como de costume com figuras públicas. E os membros da Igreja imediatamente entraram em ação.

A editora Lara Takenaga, da seção de obituários do respeitado jornal The New York Times, explica:

Os leitores reagiram fortemente ao nosso obituário de Thomas S. Monson, que serviu como profeta e chefe da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias por quase uma década. Em centenas de mensagens para o New York Times e dezenas de comentários sobre o obituário, os leitores, incluindo muitos mórmons, escreveram que o obituário se concentrou muito estreitamente nas políticas e controvérsias da Igreja Mórmon e ignorou as contribuições do Sr. Monson para a comunidade.

Essa sequer é uma descrição plena da reação histérica entre membros da Igreja. Apenas em uma petição destinada a exigir uma retratação oficial do New York Times, mais de 166 mil mórmons assinaram para “pressionar” o jornal por “pedidos de desculpas” e uma cobertura mais “honesta, neutra, e equilibrada”.

Petição assinada por mais de 166 mil mórmons, até a data de hoje, exigindo do New York Times que “Reescreva o obituário de Thomas Monson no New York Times”

Takenaga passa, então, a explicar aos membros da Igreja porque eles estão completamente equivocados em seu zelo emocional:

“Eu acho que o obituário [do Sr. Monson] apresentou uma contabilidade fiel das questões mais importantes que o Sr. Monson encontrou e tratou publicamente durante seu mandato. Algumas dessas questões – o papel das mulheres na igreja, a política da igreja em relação ao homossexualismo e casamento do mesmo sexo, entre outras – foram amplamente divulgadas e discutidas, e é nossa obrigação, como jornalistas, em um obituário ou em outro lugar, chamar atenção completamente a estas questões de ambos os lados. Eu acho que nós fizemos exatamente isso, retratando com precisão as posições do Sr. Monson como líder da igreja, e as dos fiéis e demais que questionaram as políticas da igreja.

Eu acho que também demos o devido crédito às conquistas do Sr. Monson: sua abertura ao novo trabalho de estudiosos da igreja, “permitindo”, como dissemos, “acesso notável aos registros da igreja”; a expansão da força missionária global da igreja e a duplicação do número de mulheres jovens nas fileiras das missionárias; e suas causas humanitárias abrangentes, muitas vezes em colaboração com grupos judeus, muçulmanos e outros cristãos.”

Objetivamente, diz Takenaga, o jornal foi imparcial porém abrangente em sua cobertura da vida profética de Monson. Ela, então, segue com uma lição e explicação para os membros da Igreja do que é a ética jornalística e a integridade e responsabilidade intelectuais que a acompanham:

“Em geral, ao publicar um obituário, como você decide quais os pontos da vida de uma pessoa a se destacar?

A regra geral é que se alguém “foi notícia” de algum tipo durante a vida dele, sua morte provavelmente também é digna de informação. Portanto, temos que olhar para os pontos que definiram um indivíduo na mente pública – o que quer que tenha feito a essa pessoa ser conhecida pelo público em geral: alcançar um avanço científico, alcançar poder político, ganhar um Oscar, fazer o gol de um título de campeonato.

Eu também acrescentaria que, ao lidar com pessoas em posições de poder – seja como chefe de um país, uma corporação ou uma igreja – polêmica vem com o território e, em grande medida, polêmica, pontos de fricção de algum tipo, é o que faz ser notícia. Um dia calmo na Casa Branca não é notícia; o choque de um presidente com o líder da maioria do Senado é. Então, um obituário – que em muitos aspectos reporta a notícia de antigamente – vai lembrar as controvérsias, assim como deveria.

Nós não paramos por aí, é claro; nós também tentamos traçar o arco de uma vida, desde o nascimento – em parte para sugerir o que pode ter levado uma pessoa a ter sucesso, conseguir e encontrar a fama (ou, no caso dos infames, interromper a ordem social).

E tentamos dar um sabor do homem ou da mulher – algo da sua personalidade e impacto pessoal. Mas temos o cuidado de não desempenhar o papel de elogista, simplesmente cantando o louvor de alguém. Nós não escrevemos tributos. Nós nos esforçamos pela biografia com verrugas e tudo, em forma curta.

Muitos leitores mórmons não pensaram que o obituário para o Sr. Monson refletia os sentimentos positivos que grande parte da comunidade mórmon tinha por ele. Ao escrever um obituário para um líder religioso, existe a obrigação de prestar tributo de qualquer maneira?

Não estamos no negócio de prestar homenagens. Nós somos jornalistas em primeiro lugar. Eu acho que ao traçar a vida de um líder religioso, quase não haveria necessidade de dizer que ele ou ela ganhara o respeito e a admiração de quem os colocara em cargos de liderança. Mas podemos citar alguém explicando esse respeito ou admiração, se isso oferecer algo substancial para a compreensão dos leitores sobre um indivíduo. Em outras palavras, não vamos citar alguém dizendo simplesmente: “Sr. Smith foi uma pessoa maravilhosa. “Mas nós vamos citar alguém dizendo por que ele era.”

Em outras palavras, mórmons precisam aprender que jornalistas (e historiadores) não têm nenhuma obrigação de fazer apologia ou hagiografia de líderes religiosos, mas sim tem a obrigação intelectual, ética, moral, e – bem – jornalística de escrever os fatos veridicamente e construir as narrativas honestamente baseando-se nesses fatos.

Integridade e honestidade intelectual demanda imparcialidade, e imparcialidade exige que apologias ou hagiografias, mesmo que por boas e puras intenções, sejam ignoradas:

“Nós também entendemos que essas audiências serão mais sensíveis do que a maioria de como retratamos alguém conhecido por elas. Alguns podem ter uma agenda de algum tipo, querendo que retratemos alguém como eles querem que essa pessoa seja lembrada, talvez em uma luz que lhes sirva melhor seus interesses.

Não podemos nos dobrar a isso, é claro. Temos que deixar os fatos da vida pintar a imagem completa. Na minha experiência, quando fazemos isso de forma justa e precisa, há poucas queixas.”

Takenaga, contudo, não era só críticas para a comunidade mórmon, expressando também simpatia. Por exemplo, muitos membros da Igreja tomaram ofensa que Monson não fora estilizado como “Presidente Monson”, como é o costume SUD, mas como Senhor Monson. Para ela, isso não era uma forma de desrespeito, mas sim de respeito.

“Por que nos referimos ao presidente Monson como “Sr.” no obituário e não por seu título na Igreja Mórmon, presidente? Alguns leitores se ofenderam com isso.

Nenhum desrespeito foi pretendido. Poderíamos ter nos referido a ele como “Presidente Monson” pelo menos uma vez, de acordo com nosso livro de estilo, mas esse livro também diz: “Sr. e o Dr. também são apropriados “.

Em qualquer caso, “Sr.” é um honorífico comum em nossas páginas para ministros (somos obrigados a dizer “Sr. Jones” em segunda referência, não “Reverendo Jones”) e até mesmo presidentes dos Estados Unidos (você vai encontrar uma abundância de “Sr. Trump” em nossas páginas).

Aliás, notei que o [jornal oficial da Igreja SUD]  Deseret News em Utah usava “Presidente” em cada referência ao Sr. Monson, mas que o The Salt Lake Tribune – como quase todas as outras publicações americanas – dispensava qualquer honorífico. Ao meu ouvido, “Sr. Monson “parece muito mais respeitoso do que apenas” Monson”.”

Entre leitores brasileiros, essa confusão entre a apologia emocional versus o pensamento racional e integridade intelectual não foi muito diferente. Muitos se manifestaram para reclamar da nossa cobertura do falecimento do Profeta, que embora se assemelhe ao obituário do The New York Times, é notoriamente mais simples e mais branda.

Por exemplo, uma reação à nossa nota no Facebook:

Achei o artigo ruim! Vocês pegaram alguns erros da vida do Presidente Thomas Spencer Monson e colocou em um artigo. Não gostaria de que quando eu morresse, um artigo das minhas falhas fossem escrito, mas sim do mosaico completo.
Pegar Pedro e somente dizer que ele negou cristo, foi acusado de pouca fé e falava coisas inspiradas por satanas, é tão ruim… pois nunca saberemos quem realmente foi Pedro. Vocês semelhantemente fizeram o mesmo com Thomas Spencer Monson. Lamentável. As vezes vocês fazem artigos tão bons. As vezes fazem artigos tão pobres.”

Coincidentemente, a nossa resposta para esse leitor fora justamente citar a cobertura do The New York Times:

Outro exemplo, outra reação à nossa nota no Facebook:

“Aprender sobre a Igreja (…) do ponto de vista de seus desertores, é como entrevistar Judas para entender Jesus. Desertores sempre nos falam mais sobre si mesmos do que sobre a organização que abandonaram.
Jesus disse: ‘Bendizei os que vos maldizem, (…) e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem’.
Que ofereçamos bondade aos que criticam o Salvador Jesus Cristo, o profeta Joseph Smith ou os demais sucessores, sabendo em nosso coração que Jesus Cristo é nosso Mestre dos mestres e cada um dos demais foi um Profeta de Deus e sendo consolados pelo fato de que tudo isso foi há muito predito.”

Outro exemplo, reação ao artigo aqui no site:

“quanto mimi, as pessoas que criticam o profeta são as mesmas que não vivem nem 1 terço do que ele viveu e como viveu. Estou vendo pessoas criticando e duvidando de um profeta de Deus, nada fora do normal, na época de Moises isso já era comum, por que as pessoas viam o profeta como um homem comum, sempre valorizando os que já haviam morrido. Alem do que é fácil pegar informações da internet e destorcer. Mas para aqueles que duvidam do profeta e sobre revelações, ore e pergunte a Deus. E se não tiverem respostas lembre desse ditado: “Não se enche um copo cheio” isso serve pra que acha que a igreja é repetitiva e cansativa. Então deixem o copo vazio e orem. Isso tambem serve para as aulas, manuais e obras padrão.
Aproveito para testemunhar que Thomas S. Monson foi um Grande homem, que sempre colocou as pessoas em primeiro lugar e por onde passou uniu e fortaleceu as pessoas. Alguem que quando era jovem levava seu avo incapacitado, para passear todo o final de semana, abdicando de se divertir com amigos, isso é so uma coisa desse grande homem.quanto mimi, as pessoas que criticam o profeta são as mesmas que não vivem nem 1 terço do que ele viveu e como viveu. Estou vendo pessoas criticando e duvidando de um profeta de Deus, nada fora do normal, na época de Moises isso já era comum, por que as pessoas viam o profeta como um homem comum, sempre valorizando os que já haviam morrido. Alem do que é fácil pegar informações da internet e destorcer. Mas para aqueles que duvidam do profeta e sobre revelações, ore e pergunte a Deus. E se não tiverem respostas lembre desse ditado: “Não se enche um copo cheio” isso serve pra que acha que a igreja é repetitiva e cansativa. Então deixem o copo vazio e orem. Isso tambem serve para as aulas, manuais e obras padrão.
Aproveito para testemunhar que Thomas S. Monson foi um Grande homem, que sempre colocou as pessoas em primeiro lugar e por onde passou uniu e fortaleceu as pessoas. Alguem que quando era jovem levava seu avo incapacitado, para passear todo o final de semana, abdicando de se divertir com amigos, isso é so uma coisa desse grande homem.”

Ironicamente, o leitor queixa-se de “mimi” (sic) no nosso obituário enquanto ele está reclamando do nosso obituário, o que é literalmente a definição de “mimimi”.  Inclusive, a descrição desta expressão “como uma onomatopeia, uma reprodução de sons que imitam um choro, ladainha ou lamúria” é inteiramente apropriada a todas essas expressões de membros da Igreja contra uma avaliação objetiva e factual da administração de Thomas Monson enquanto profeta e líder da Igreja SUD. Como explica Takenaga acima, o jornalista (ou o historiador) não se preocupa em elogios e hagiografias, mas sim na discussão dos fatos, sejam positivos, sejam negativos.

Felizmente, nem toda reação foi assim desprovida de capacidade de senso crítico e racionalidade. Muitos expressaram-se de maneira perfeitamente racional e lógica, inclusive entre os que faziam luto pelo falecido profeta. Citamos um perfeito exemplo:

Poxa ele estava sofrendo ha um tempão. As notícias nao eram claras mas a gente sabia, ne…..eu nao fico triste nao. Ficaria triste se tivesse ido saudavel num acidente ou com um tiro. Mas fico feliz porque ele cumpriu sua missão. Ele ja nao estava nem com condições de fazer nada. Enfim, o Senhor levou. Terminou. Ficou o trabalho que fez e as pessoas que influenciou, de um jeito ou de outro. A morte chega pra todos. Feliz daquele que a recebe idoso, em casa, rodeado de amor e com uma vida inteira de trabalho. Vai em paz. Obrigada por seu serviço.

É possível, como se pode notar acima, manter a fé e a emoção e o respeito enquanto mantém-se o senso crítico, a racionalidade, e a integridade intelectual. Não se trata de uma escolha binária, preto-e-branco, esse ou aquele, fiel ou apóstata.


O velório de Thomas S. Monson será realizado no Centro de Conferência da Igreja no dia 12 de janeiro p.f., ao meio-dia em horário local (5 horas da tarde no horário de Brasília), e será aberto para o público em geral dos 8 anos em diante. O velório aberto ao público de todas as idades ocorrerá na véspera, 11 de janeiro, das 9 da manhã às 8 da noite, horário local (das 2 da tarde à 1 da manhã no horário de Brasília).

Todos os presentes ao funeral devem estar presentes no Centro de Conferência (capacidade máxima de 21 mil pessoas) antes das 11:30 da manhã, e serão aceitos por ordem de chegada. O funeral será televisionado para os prédios adjacentes do Tabernáculo, do Assembly Hall, e do Teatro do Centro de Conferência na Praça do Templo.

Para o público brasileiro, o velório e o funeral serão transmitidos em português no site oficial da Igreja SUD [clique aqui]. O enterro ocorrerá logo após o funeral no Cemitério de Salt Lake City e será fechado a familiares e amigos próximos.

2 comentários sobre “Editora do New York Times Rebate Mórmons Sobre Thomas Monson

  1. Um dos menos populares dentre todos os “profetas”, passou muito tempo só falando mal dos gays e no outro tempo que restava, só repetia as mesmas coisas, esses são os “profetas modernos”… A maioria dos membros não lê as notícias de outras fontes que não sejam os sites “inspirados” da igreja e quando o fazem nunca entendem e ainda querem ter razão e obrigar o mundo todo a pedir perdão para eles. Se poupem.

  2. Grata pela deferência.
    Creio que o obituário do The New York Times está irretocável. Uma figura pública é lembrada pelos pontos marcantes de sua vida e pela diferença que fez na vida daqueles a quem influenciava.
    T.S. Monson fez diferença para o bem e para o mal com sua gestão, e isso é minha perspectiva portanto é apenas uma visao diante de tantas outras possíveis. Nao virou santo só porque morreu nem diabo só porque tomou decisões polêmicas. Serviu, de uma maneira ou de outra, por toda a vida, com ou e ajuda de custos, a um ideal. A uma ideia que ele acreditava e defendia. Eu particularmente ja estava incomodada com a pratica repetida da igreja de nao divulgar para seus fiéis seu real estado de saude e ate mesmo de ter feito ele passar por algumas situações questionáveis, como discursar sendo segurado. Isso porque antes de profeta, era um ser humano. E por conta disso, errou e acertou.
    E terminou a carreira. A hora do ajuste de contas chegou e nao cabe a nós.
    A vida é trem-bala, parceiro.
    Segue o baile.

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