Páscoa com Adão e Eva

A libertação do pecado e da morte; a fuga da iniquidade; a busca de uma terra prometida; esta mortalidade como uma passagem; a expiação de Cristo. A celebração da Páscoa nos remete a muitas camadas de significado e reflexão em nossa vida. Mas será que temos tradições mórmons que apontem para o significado da Páscoa?

Querubim e espada flamejante, pintura de J. Kirk Richards

Ao fazer essa pergunta obviamente estou pensando que deveríamos tê-las, uma vez que as tradições sociais herdadas do cristianismo tradicional, há séculos mescladas com tradições pagãs, não parecem suficientes para abarcar significados tão profundos.

Na ausência de tradições que soem mais legítimas ou mais “sud”, vejo que a tendência entre a maioria de nós é ignorar a data no que se refere ao seu significado espiritual e/ou participar das tradições mais populares com o simbolismo de ovos e coelhos.

Ironicamente, já vi muitos membros sud que não demonstravam resistência alguma a tais práticas de origem pagã mas faziam aquele belo churrasco na sexta-feira santa, não sem certo ar de deboche da tradição católica. Também não deixei de ficar intrigado ao ir à capela em domingos de Páscoa e não saber se a Igreja estava ou não celebrando a data. Já ouvi a suposta explicação de que, uma vez que celebramos a ressurreição todos os domingos, não haveria tanta necessidade de celebrar a Páscoa. Claro que isso contrasta com a grande ênfase dada ao Natal nas congregações sud.

Na minha busca espiritual, sentindo certo incômodo nas tradições socialmente aceitas e uma necessidade de vivenciar o significado espiritual da data, conclui que um bom início seria tentar relacionar melhor a Páscoa em que lembramos da ressurreição do Messias à Páscoa que Ele próprio celebrou, lembrando da libertação do povo de Israel da escravidão. Duas dimensões do mesmo evento.

Por isso, decidi fazer a experiência de manter a memória da celebração durante toda a semana, conforme o padrão bíblico. Na falta de melhor opção, resolvi adotar a sequência do calendário judaico, tendo iniciado a celebração ontem, dia 18 de abril. Junto com minha namorada (que não possui nenhuma filiação religiosa), fizemos um sêder bastante improvisado e simples, mas que nos ajudou a construir um sentimento de singeleza e reflexão. Meu plano inicial de uma hagadá mórmon que iniciasse com a história inicial de Moisés e chegasse a Cristo foi abandonado em favor de uma hagadá ainda mais pessoal e sob medida, para responder às inquietações dela sobre a Queda e o que as diferentes tradições ensinam sobre o “pecado de Adão e Eva”.

Para minha surpresa, nada poderia ter sido mais adequado do que começar a conversa sobre a Páscoa (em hebraico “pessach”, passagem) falando da primeira “passagem” que nos relatam as escrituras e que tanto diz sobre o plano de progresso eterno ou, em outras palavras, nossa própria existência. Ao contrário do êxodo de Moisés em que uma sociedade corrompida é deixada para trás, Eva e Adão deixam um lar quase perfeito para conhecerem os opostos da mortalidade. Nossa leitura de Moisés 5:9-11 foi como uma brisa que afugenta um ar pesado, ao representar a Queda como uma bênção.

Sentir e compartilhar um espaço de espiritualidade fora dos limites institucionais e refletir sobre temas tão essenciais ao evangelho tornaram o início desta experiência aconchegante e construtivo. Talvez terá sido também o início de uma tradição de Páscoa que irei manter pelos próximos anos.

Leia também: a poesia de Wallace Stevens evoca Adão, Eva e Descartes

Qual a posição de Adão e Eva na doutrina mórmon? Leia Adão, o Deus Esquecido

6 comentários sobre “Páscoa com Adão e Eva

  1. Gostei muito do seu artigo,pois me questionei se o que normalmente nós como cristãos estamos praticando cristianismo ou paganismo.
    tenho uma boa base religiosa judaica e fiz um seder pessach assim como vc com tradições que considero verdadeiras.

  2. Legal, Alexandre. Esta não é uma ideia que eu queira promover entre os leitores, mas é muito bom encontrar mais alguém que sentiu a necessidade de celebrar a páscoa de um forma mais espiritual. Já que muitos de nós reivindivcamos um herança da Casa de Israel, faz sentido que a tradição iraelita nos sirva de fonte para lembrar a Expiação.

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