Pessach — A Páscoa Judaica

Hoje comemora-se o Pessach ou, como é popularmente conhecido, a Páscoa Judaica.

Tocando um shofar, feito de chifre de carneiro, anuncia-se o sacrifício de pessach

Tocando um shofar, feito de chifre de carneiro, anuncia-se o sacrifício de Pessach

O Pessach (do hebraico פֶּסַח significando “passagem”; das raízes de passar através ou passar por sobre”) é um feriado religioso judaico que comemora o conto do Exodo Israelita presentemente narrado na Bíblia Hebraica (ou, como é conhecido entre Cristãos, o Velho Testamento), especialmente no Livro de Exodo. Comemorado no décimo-quinto dia do mês de Nisan (que neste ano de 2014 é hoje), este festival milenar celebra a estória do profeta Moisés libertando o povo Hebreu de sua escravidão no Egito e une milhares de judeus religiosa e culturalmente até hoje. Ademais, o impacto religioso e cultural desta festa pode ser sentido, profundamente, tanto no Cristianismo como no Mormonismo moderno.

Portanto, mesmo que não celebremos hoje o Pessach com uma ceia especial (chamada de Seder) ou os 7 dias de festividades (conhecidos como as festas de pães ázimos ou Chag Matzot), devemos revisitar suas origens, seus significados, e celebrar seus impactos residuais em nossas próprias religiões e culturas.

ORIGENS HISTÓRICAS

O feriado de Pessach teve seu início em festivais de fertilidade agrícola. Tipicamente, tratava-se de uma celebração dos inícios das colheitas agrícolas similar a outras sociedades agricultoras. Porque o calendário Hebreu era lunar (ao invés do calendário solar que hoje utilizamos), o feriado era especificamente calculado para cair na primeira noite de Lua Cheia após o equinócio primaveril. Para evitar que caísse antes da Primavera, por causa das flutuações anuais típicas de calendários lunares, determinava-se que ele deveria ocorrer apenas após as cevadas estivessem prontas para colheita — e um mês extra era adicionado ad hoc antes do Nisan para tais correções eventuais.

O mais antigo relato da comemoração do Pessach em seu formato religioso vem dos papíros Elefantinos (uma comunidade no Egito) datado de 419 AEC, com menção à ceia de passagem e os subsequentes 7 dias de festivais de pães ázimos (ou matzá, sem fermento). Não obstante, sabe-se que durante as reformas religiosas do reinado de Josias (641-609 AEC), o povo Hebreu passou por um processo de centralização dos cultos religiosos sob o controle do Rei. Este processo acelerou a migração de uma grande diversidade de deuses e cultos na Palestina para uma religião estatal centralizada, fortalecendo o Estado Israelita e moldando uma coesão religioso-cultural para uma identidade nacional. Entre os muitos artefatos desta consolidação ideológica, encontramos as novas encarnações dos textos sagrados (que encontramos hoje na Bíblia Hebraica) e da celebração do Pessach.

A editorialização consolidada dos textos sagrados e das muitas tradições orais existentes evoluiu numa narrativa que enfatizava perfeitamente o novo sentido de nacionalismo hebraico em contraposição à descentralizada e diversificada coalizão de múltiplas tribos palestinas. Além das mitologias fundacionais (ou mitos fundadores) construídas literariamente para redefinir esta nova nacionalidade e suas origens (em contraposição a tribos e reinos vizinhos), estas re-imaginadas narrativas legaram todo um paradigma metafísico e religioso. Diferentemente da evolução natural histórica de tribos indígenas coalescendo com o passar do tempo e de seus sucessos sócio-econômicos, descobriu-se que um herói fundador libertou um povo já coeso e nacionalmente identificado do Mal incorporado num dos impérios mais tradicionais e mais poderosos da região. Diferentemente da multiplicidade de deuses e divindades, de cultos e incantações mágicas, descobriu-se a existência de um único Deus com poderes mais vastos do que quaisquer outras possíveis magias locais, e coincidentemente representado e centralizado na figura máxima desta identidade nacional.

Encantação ritualística através de sacrifício animal para proteção contra o extermínio de crianças, comum em várias culturas Mediterrâneas

Encantação ritualística através de sacrifício animal para proteção contra o extermínio de crianças, comum em várias culturas Mediterrâneas, incorporada na narrativa de Moisés

Os rituais agrícolas ganharam novas dimensões, e a celebração da primavera e da colheita de cevada e trigo foi incorporada na comemoração da libertação do povo-nação Israelita pelas mãos de Moisés. Com novas re-interpretações de rituais antigos (e.g., pães sem levedura não indicando mais o início da colheita, mas da mitológica fuga súbita do Egito; sacrifícios animais não cultivando mais os favores dos deuses, mas relembrando o cruel assassinato em massa de crianças egípcias como favor do Deus máximo; etc.), e com a importância da unidade e conformidade religiosa para o projeto expansionista de Josias, o Pessach passou a ganhar relevância universal entre os hebraicos e sua prática re-estilizada fortemente incentivada.

Ironicamente, Josias foi derrotado por forças egípcias nas planícies de Megido e morto em batalha, enquanto estes se uniam a forças Assírias para se opor à expansão Babilônica.  Imposto um rei vassalo egípcio sobre Israel, o status quo religioso retornou lentamente às expressões mais livres, menos centralizadas, e mais diversificadas (e mais politeístas). Quando os Assírios foram eventualmente derrotados pelos Babilonios, os reinos egípcios e israelenses foram saqueados em 597 AEC, e uma subsequente revoltada Hebraica trouxe nova e maior retaliação militar e política em 587 AEC contra as classes dominantes israelenses, deportando e expatriando até 25% do povo hebraico.

Com a eventual conquista Persa da Babilonia, e seguindo os preceitos Zoroastrianos de tolerância cultural e religiosa, a elite deportada foi permitida a não só retornar para a Palestina, como a reconstruir suas estruturas imperiais, incluindo sua religião centralizada e o templo dedicado ao culto exclusivista a Yahweh. Encorajados pelo monoteísmo (e apocalipticismo) da atual religião dominante (i.e., Zoroastrianismo), a retornada elite Israelense retomou o projeto de centralização do culto hebraico, assimilando novos contos e novas redações dos textos sagrados para formar um novo sincretismo religioso. Neste novo paradigma, os cultos templários voltariam a figurar como de importância máxima, e o festival de Pessach, com seu foco nacionalista, sua mensagem anti-imperialista e xenofóbica, sua valorização do culto templário (incluindo o ritualístico sacrifício animal), e com maiores tons apocalípticos (de libertação milagrosa e divina — com retribuição e vingança) cresceu para assumir o posto maior de todos os festivais religiosos e nacionais.

Réplica do Segundo Templo, ou Templo de Herodes

Réplica do Segundo Templo, ou Templo de Herodes

Uma vez consolidado o Estado-Nação judeu, sendo estabilizado pela conquista Romana em 64 AEC e pela Pax Romana de César Augusto e centralizado pelo vassalo Romano Herodes I (ou Herodes o Grande, 74-4 AEC), o templo de Jerusalém ganhou importância e centralidade cultural sem precedentes na história hebraica. Pela primeira vez, toda a identidade israelense, seja cultura, seja política, seja religiosa convergia a este edifício, e nos rituais ali executados. Uma nova classe de elite intelectual (os Saduceus) cresce ao redor de sua influência cultural referente a seu acesso ao templo, incentivando o povo hebreu a enxerga-lo como o próprio intermediário entre o divino e o terreno, removendo a prática cultica-religiosa do lar e depositando-o nas mãos desta elite. Com toda essa nova importância, o festival religioso mais relevante para o templo evolui no ritual religioso para toda a cultura e para toda a nação. Muito além de uma celebração familiar, o Pessach passa a ser uma celebração nacional, e a peregrinação templária encorajada pela estrutura de poder constituida ganha proporções populacionais quando hordas de judeus passam a peregrinar à Jerusalém para comemorar o Pessach como uma Nação.

Após a desastrosa revolta da Primeira Guerra Judaica (66-70 EC), quando uma rebelião anti-Romana iniciada na Galiléia se alastrou por toda Palestina e resultou na completa destruição de Jerusalém e do Templo de Herodes, tanto a elite religiosa como o povo comum foram forçados a reavaliar e repensar todos os seus costumes ritualisticos que, neste momento, girava em torno do templo. Desprovidos das ferramentas de status cultural e religioso (i.e., o templo), os Saduceus se viram lentamente substituídos como elite intelectual pelos Fariseus, que progressivamente se fundiram e amalgamaram em escolas de rabinato e fundaram o Judaísmo Rabínico — que persiste até hoje. Eventos aceleraram rapidamente com a mais desastrosa segunda revolta anti-Romana liderada por Simão Bar Kochba (132-135 CE) e financiada pelos Saduceus, que resultou em nova destruição de Jerusalém, na expulsão de Judeus da Palestina e na dissolução do Estado Israelita. Espalhados pelo mundo na Diáspora Judaica, judeus e rabinos lutaram bravamente para manter um sentimento de nação dispersa através das intensas re-interpretações dos rituais para contextualiza-los para uma realidade onde não mais havia um estado-nação, não mais havia um templo, ou sequer uma terra hebraica. O Pessach evoluiu para uma festa religioso familiar, reduzindo o escopo da dimensão relacional entre Deus e Seu povo para uma entre Deus e Seus filhos.

INFLUÊNCIA NO JUDAISMO

O Pessach hoje em dia é uma festa religiosa centrada na família.

Inicia-se no 15o dia do mês de Nissan, ou melhor ao por-do-sol do dia anterior, posto que os dias do calendário hebraico se iniciam no por-do-sol da véspera até o por-do-sol no dia seguinte (e.g., do 15 de Nissan de 2014 caiu no 15 de Abril, porém ao invés do dia começar à meia-noite, ou com o alvorecer, ele iniciou no por-do-sol do dia 14 de Abril).

O feriado constitui em duas ceias familiares, no dia 15 e no dia 16, quando as famílias se reúnem para ler juntos sobre o conto de Moisés e a fuga milagrosa dos judeus do cativeiro egípcio. Nenhum alimento fermentado pode ser consumido, e muitos religiosos vendem todos os utensílios de cozinha que já prepararam alimentos fermentados (para re-compra-los novamente após o Pessach), e segue-se um ritual que serve tanto para comemorar os contos religiosos como para re-criar uma sensação comunitária maior de nação em diáspora.

1) Kaddesh (Santificação): Abençoa-se o vinho em honra do feriado e bebe-se de uma taça.

2) Urechatz (Lavagem): Lava-se as mãos.

3) Karpas (Vegetais): Molha-se um vegetal (e.g., salsa) em água salgada e come-se, um simbolizando as origens simples do povo e o outro as lágrimas derramadas na escravidão.

4) Yachatz (Partilha): Partilha-se uma das matzas (pão sem levedura).

5) Maggid (Estória): Conta-se, ou canta-se, um relato da estória do Exodo, após o que toma-se mais uma taça do vinho.

6) Rachtzah (Lavagem): Lava-se novamente as mãos, seguido de uma benção.

7) Motzi (Benção): Recita-se uma benção sobre os alimentos.

8) Matzah (Benção): Recita-se uma benção específica sobre os alimentos não fermentados.

9) Maror (Ervas Amargas): Recita-se uma benção sobre ervas amargas (e.g. rábano silvestre ou alface) e come-se, representando a amargura da escravidão.

10) Korekh (Sanduíche): Tradição teria o animal sacrificado comido como um sanduíche com matzah e maror, mas como não há mais sacrifícios animais, come-se maror com matzah em lembrança da época templária.

11) Shulcan Orekh (Ceia): Come-se, então, uma ceia festiva. Comidas variam de países e culturas, sem prescrição específica, ilustrando bem as consequências da diáspora.

12) Tzafun: Sobremesa, usualmente com matzah.

13) Barekh (Agradecimento): Um prece de graças é oferecida. A terceira taça de vinho é bebida, e uma quarta é posta sobre a mesa para o Profeta Elias, que supostamente virá num Pessach para anunciar a vinda do Messias. Uma porta é, então, aberta para a entrada de Elias. Esta tradição iniciou-se, primordialmente, para refutar as acusações de Cristãos de que Judeus bebiam sangue de crianças ao invés de vinho — ironicamente, uma acusação que Cristãos, antes de assumir o poder político da Europa no século IV, precisavam refutar de críticos Pagãos.

14) Hallel (Graças): Salmos são recitados e a última taça de vinho da noite é bebida.

15) Nirtzah (Encerramento): Uma curta prece de encerramento para concluir o Seder e expressar o desejo de celebrar o próximo Pessach em Jerusalém sob a liderança do Messias, seguido de hinos e estórias.

Têrmo Significado Hebraico
Pessach Passagem Pesach (in Hebrew)
Matzo Pão Sem Levedura ou Fermento Matzah (in Hebrew)
Chametz Comidas Fermentadas Chametz (in Hebrew)
Seder Ritual familiar constituindo em ceias nas primeiras duas noites do Pessach Seder (in Hebrew)
Haggadah Livro lido em família durante o Seder Haggadah (in Hebrew)

INFLUÊNCIA NO CRISTIANISMO

Inicialmente, Cristãos celebravam o Pessach junto com os judeus. Em três dos quatro relatos da vida de Jesus estabelecidos pelos Evangelhos, a última ceia de Jesus foi claramente um Seder de Pessach. Com o passar do tempo, a evangelização de não-Judeus para o Cristianismo, e os crescentes atritos entre as facções sectárias judaicas (Cristãos contra Fariseus, mais especificamente, resultando na expulsão de ambos grupos de Roma na década de 50 CE), os Cristãos passaram lentamente a se distanciar do Judaísmo e se desvincular de suas raízes judaicas. Entre as mudanças, como o dia de adoração (de Sábado para Domingo ou Quinta-feira, dependendo), houve a transição do festival primaveril do Pessach para o distintamente Cristão festival da Páscoa.

O têrmo Cristão Páscoa vem da tradução grega de Pessach. Πάσχα (pásrra) ou Πάσκα (pásca) também significa passagem e era o têrmo utilizado por Judeus na diáspora Romana. A terminologia grega fora utilizada por causa da ainda universalidade de grego koiné como lingua franca do Império Romana e do mundo Mediterrâneo — o motivo principal porque os textos que viriam compor o Novo Testamento foram originalmente escritos em grego koiné.

Não obstante a manutenção da mesma terminologia e significados, além da contextualização agrícola sazonal, os Cristãos mobilizaram-se para distinguir teologicamente a sua Páscoa do Pessach judeu. O primeiro a estabelecer por escrito um relato sobre Jesus, o autor do Evangelho de Marcos construiu toda sua narrativa literária ao redor do tema do último Pessach na vida de Jesus. O autor situa Jesus como um judeu que cuidadosamente observa os rituais judaicos até o dia de sua execução e morte e celebra o que viria a se tornar um ritual Cristão em si durante um Seder. Para o autor de Marcos, Jesus estabeleceu-se como o Messias e o Salvador do mundo dentro de um contexto hebraico, e seguindo as leis e costumes judaicos. Para ele, Jesus é o Filho de Deus, que intercede entre homens e Deus ao morrer por eles (simbolizado pela ruptura do véu sagrado no templo na hora de sua morte.

Literariamente dependente do Evangelho de Marcos, ambos autores dos Evangelhos de Mateus e Lucas seguiram o padrão de narrativa centralizado no evento final do Pessach, mesmo que o autor de Lucas posicionasse o seu Cristo como um Messias universal e menos distintamente judeu (talvez por isso ele tenha adicionado e misturado elementos de outro festival judeu agrícola, o Sukkot, com seu Pessach final).

Embora também (provavelmente) dependente do Evangelho de Marcos, o autor do Evangelho de João decide reduzir a importância do Pessach na narrativa da Paixão de seu Jesus ao transladar a Sua última ceia de uma Seder para uma ceia na véspera do Pessach, desconectando Jesus da participação do festival em si. Não obstante, Jesus é executado a tempo (no 15 Nissan, ao invés de  16 Nissan) para servir como perfeita metáfora para o sacrifício pascoal. Para o autor de João, com sua Cristologia mais elevada que as dos Sinóticos (i.e., Marcos, Mateus, e Lucas), Jesus literalmente vira o sacrifício animal do Pessach e torna-se o Messias. Para ele, Jesus é o Cordeiro de Deus, remendando o relacionamento entre o mundo e Deus da mesma maneira que os animais sacrificados remendavam o relacionamento entre Israel e Jeová (simbolizado por sua morte no momento em que tais animais seriam sacrificados para o Seder).

Apesar do Pessach e do Seder servirem de pontos de referência nas narrativas da Paixão de Cristo, fica evidente uma evolução de transição de uma crença ainda muito ligada às suas raízes judaicas (i.e., nos Sinóticos) para uma desvencilhando-se das práticas culticas delas (i.e., no E-João). Por décadas e séculos, Cristãos ainda celebrariam o Pessach como a passagem de escravidão espiritual para a liberdade através do sacrifício de Cristo. Controversias ocorreram entre Bispos de cidades diferentes, alguns desejando celebra-la no 15 Nissan do calendário hebraico, e outros desejando transferi-lo para um Domingo e desvencilhar-se dos costumes judaicos. Em 325 EC, o Conselho de Nicéia determinou que manteria a celebração da Páscoa como tal passagem, porém desvinculada da celebração judaica, fixando a data no primeiro Domingo após a primeira lua cheia depois do equinócio primaveril (do hemisfério Norte).

Com o passar do tempo, costumes ritualisticos foram se adicionando organicamente ao festival agrícola. O mais óbvio, e o mais inspirado no contexto agrário, é o tema de morte e nascimento, ou plantação e colheita. Para Cristãos, Jesus morreu no Pessach, mas ressuscitou-se no 17 Nissan para nova vida (eterna). Rituais envolvendo a crucificação, o sepultamento, e a ressurreição seguiram, como o ovo de páscoa (simbolizando uma pedra do túmulo, mas de onde sai uma ave cheia de vida — inicialmente, os ovos era coloridos de vermelho, simbolizando o sangue de Cristo). Eventualmente, mais temas das narrativas evangélicas foram incorporadas, como a recepção em Jerusalém com palmas, ceia comemorativa como a Seder final, e jejuns específicos.

Pode-se dizer, então, que o festival de Pessach influenciou a própria narrativa central do Cristianismo e literalmente moldou toda sua teologia e sistema de crenças ao seu redor. Ademais, influenciou em rituais que perduram até hoje e unem as mais distintas facções do Cristianismo em um único festival que (quase) todos Cristãos compartilham.

O grande mistério restante seria: De onde se adicionou a este ritual milenar todo o chocolate?

INFLUÊNCIA NO MORMONISMO

Como a maioria dos Cristãos, Mórmons celebram a Páscoa em comemoração à Paixão e Ressurreição de Cristo. Por exemplo, asssista a nova campanha publicitária da Igreja SUD, de alto valor de produção, justamente sobre o tema pascal:

Não obstante, a Páscoa não é uma festa religiosa tão importante assim entre Mórmons. Muitos Mórmons sequer celebram o feriado, poucas congregações o fazem além da inclusão de discursos sobre o tema nas reuniões dominicais, e menos ainda extendem para celebrações tão comum em outras religiões Cristãs como Domingo de Palmas ou jejuns especiais na Sexta de Paixão, etc.

Curiosamente, a Igreja SUD nunca foi tão adepta à Páscoa historicamente. Uma busca pelas publicações da Igreja em seus primeiros 100 anos pelo têrmo “Easter” (páscoa em inglês) resulta em apenas 3 menções no periódico ‘Times & Seasons’ (todos eles recontando estórias que ocorreram na Páscoa), e apenas 40 menções em todas as Conferências Gerais neste período! Quando se amplia a buscar para incluir “Passover” (o têrmo inglês utilizado para o Pessach judaico), surgem mais 18 menções, todos narrando ou lendo estórias bíblicas. Tendo em mente algumas das estórias natalinas memoráveis de Joseph Smith, nota-se que não há nenhuma menção de Páscoa em seus escritos ou diários.

Sendo a Páscoa tão ignorada, ou minimamente lembrado, pelos Santos dos Últimos Dias, como se pode dizer que houve uma influência relevante no Mormonismo de toda bagagem cultural e religiosa atribuída à esta festa (como discutido acima)?

Naturalmente, o vídeo recente da Igreja SUD é o perfeito exemplo e resposta à esta pergunta.

Em primeiro lugar, a Páscoa e sua narrativa servem de ponto focal comum entre Mórmons e demais Cristãos. Sempre lutando para se encaixar, assimilar-se, e ser aceito pela sociedade maior, Mórmons frequentemente exploram temas pascais em seus esforços de proselitismo, apostando na ressonância emocional coletiva que o assunto da Páscoa conjura — especialmente entre aqueles com memórias de infância mescladas com temas pascais, ovos coloridos, chocolate e doces, e atividades familiares.

Em segundo lugar, e de longe mais importantemente, toda a teologia e Cristologia Mórmon se ancora nas narrativas elaboradas e literariamente construídas ao redor do Pessach judaico pelos autores evangelistas. Sem o ritual de passagem e redenção divina hebraico onde escorar suas narrativas escatológicas e apocalípticas, os evangelistas teriam estruturado suas Cristologias de maneiras possivelmente bem distintas das que produziram historicamente — e, consequentemente, o Mormonismo, com sua leitura midrashica dos Evangelhos, teria evoluído também de modo bem diferente. É quase impossível conjecturar como, mas certamente diferente.


Enquanto Mórmon, como você celebra a Páscoa? Alguma vez já desejou que houvesse uma celebração maior como em outras religiões? Qual tradição pascal familiar lhe deixou lembranças positivas? Ou qual tradição pascal você tenta legar para os seus filhos/netos? Se você deixou outra religião pelo Mormonismo, sente falta das Páscoas outroras?

Como a compreensão da origem da Páscoa muda a sua percepção das suas tradições ou mesmo suas crenças pascoalinas?

8 comentários sobre “Pessach — A Páscoa Judaica

  1. Marcello

    Também me perguntava porque na igreja não comemorávamos a páscoa de um forma mais significativa. Mas como todo domingo celebramos o sacramento pessoalmente racionalizei que esse deveria ser o motivo porém, nunca busquei uma resposta da liderança.

    Por que você ao explicar o Maggid (item 5) usa Estória em vez de História?

    • Pois é, Madaleudo. Eu também sempre ouvi essa argumentação de que se celebrava a Páscoa com o Sacramento dominical, mas até aí a maioria dos demais Cristãos também celebra-na com o ritual de pão e vinho e ainda assim comemora a Páscoa Cristã.

      Com relação ao Exôdo: A estória do Exôdo Hebraico do Egito é claramente um mito fundador, sem quaisquer corroborações históricas ou confirmações arqueológicas. Como todo mito fundador, sua veracidade e importância depende predominantemente de sua importância metafórica, relevância alegórica, e proposição metafísica, mas não de sua verosimilhança histórica ou fidelidade factual.

      O exemplo do Pessach é a melhor ilustração da importância de um mito fundador. Porque nunca houve uma escravidão hebraica no Egito ou uma fuga milagrosa através do Mar Vermelho ou uma conquista Transjordânica em absolutamente nada altera o fato histórico da centralidade do ritual pascal na formação e manutenção da identidade judia através dos milênios. O poder de uma estória e de um ritual forjou uma nação através de milênios e dos continentes e das dispersões.

  2. Excelente texto, muito bem embasado em uma pesquisa histórica e com as visões cristã e mórmon… Isso não é propriamente um juízo de valor, mesmo porque não sou juiz dos textos publicado no vozes, estou apenas externando meus sentimentos sobre o texto… E como falo sobre meus sentimentos, analiso uma veia muito racional, o que não poderia jamais deixar de ocorrer sendo o autor do texto o “ilmo” Jun… Formidável… Agora estas coisas no meu ponto de vista deixam de ser racionais para quem acredita… Explicando melhor, por mais que a história afirme outra coisa eu, por exemplo, acredito que o pentateuco, ou a Torah, na visão judaica, foi escrita por Moises… E uma densa camada de misticismo judaico revestem esta crença pessoal.
    Sobre as questões colocadas ao final do texto, vivi por quase dezesseis anos católico devoto com o apoio e incentivo de minha finada avó. Me lembro que eles faziam uma festa religiosa muito formal com terços e uma série de outras demonstrações de fé, encenação da paixão de Cristo, por exemplo… Hoje estou a 33 anos professando o mormonismo e não se faz nada absolutamente de fantástico para se celebrar estes fatos históricos… Talvez pela pseudo noção de que a morte de Cristo não tenha significado e que deve-se celebrar apenas o Cristo Vivo… No entanto poder-se-ia investir mais neste momento religioso. Se o sacrifício e morte de Cristo não tenham significado particularmente festivo, poderíamos então justamente celebrar a vida e ressurreição que têm a meu ver, na terminologia mórmon maiores significados. Mas como dito no texto esta celebração restringe-se apenas a um discurso quando lembramos de fazê-lo. Na escola onde ministro aula eles tem a tradição de fazer uma celebração nos moldes da pascoa judaica inclusive me convidaram para declamar a benção dos sacerdotes em hebraico, num ano… Eu em particular vivendo entre dois pensamentos, judaico e mórmon, costumo realizar minhas rezas e leitura das escrituras, realizo uma ceia com meus filhos e lembramos do sacrifício do Cristo, é muito legal estar em família. Obrigado ao autor pela oportunidade de me lembrar.

    • Obrigado, Silvio, por seu comentário e pela generosidade.

      Embora eu concorde com você que a Ressurreição poderia ser celebrada com mais festividade entre Mórmons, eu continuo achando curioso que a Paixão não a seja também. Afinal, o sofrimento no Getsêmani têm enorme importância na teologia Mórmon.

      Ademais, a percepção que experiências dolorosas e sofridas não sejam ritualizáveis por Mórmons, com as celebrativas e vitoriosas (e.g., Ressurreição), simplesmente não me parece convincente. Afinal, milhares de Mórmons todos os anos fazem a peregrinação dos carrinhos-de-mão, instrumento de tortura e degradação humana desnecessária do passado Mórmon. Podendo-se ritualizar a celebração da dor e do sacrifício de pioneiros Mórmons, porque não do personagem central do mythos e pathos Mórmon?

      Eu acho o seu exemplo familiar de celebrar uma ceia pelo “sacrifício do Cristo” uma ideia bem bacana, e talvez algo que esteja faltando na cultura Mórmon.

  3. Em minha família, meus avós não permitiam que comêssemos carne vermelha, nem mesmo no domingo. Meu avô nunca gostou da forma que a Páscoa e o Natal, principalmente, são comemorados. Sempre ganhamos nossos chocolates e brinquedos, mas desde cedo ele nos demonstrava desgosto pelo fato de terem se tornado datas quase que exclusivamente comerciais.

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