Entendendo: Falácia Lógica

A falácia é um equívoco na construção de um argumento, ideia, ou raciocínio que inviabiliza a sua válidade lógica.

Filosofia

Além de ser muito frequente no discurso popular pela escassez de amplo treinamento intelectual e literário formal na população leiga, ela é, pelo mesmo motivo, uma ferramenta ubíqua entre propenentes de argumentos ou ideias desprovidos de embasamento factual.

Falácias lógicas podem se manifestar, de modo geral, em duas formas distintas: Falácias estruturais e falácias não estruturais.

1. Falácias lógicas estruturais surgem quando o padrão de raciocínio envolve um erro em sua formação estrutural lógica.

Ao se avaliar a validade lógica da estruturação de um argumento, a veracidade de suas premissas é irrelevante, repousando o foco exclusivamente na estruturação em si. Por exemplo:

  1. Se A é verdadeiro, então B também é;
  2. A é verdadeiro;
  3. Portanto, B é verdadeiro.

Logicamente, esse raciocínio é válido pois sua estruturação é lógica, coerente, e internamente consistente. Ambas premissas 1 e 2 podem ser inteiramente inverídicas e equivocadas, e a conclusão 3 idem, porém o raciocínio em si é válido.

Por outro lado:

  1. Se A é verdadeiro, então B também é;
  2. B é verdadeiro;
  3. Portanto, A é verdadeiro.

Logicamente, esse raciocínio é inválido pois sua estruturação é ilógica, incoerente, e internamente inconsistente. A premissa 2 não corresponde à premissa 1 e portanto a conclusão 3 não se segue logicamente como no exemplo anterior. (Mesmo que B seja verdadeiro, nada no raciocínio justifica concluir que A também o seja)

Essa falácia lógica estrutural é comumente entitulada “afirmação do consequente” pois confunde o antecedente com o consequente. Aliás, essa falácia é um tipo de “non sequitur” que, não coincidentemente, a maioria (se não a totalidade) das falácias estruturais são do tipo “non sequitur”: Non sequitur é uma expressão popular em latim que significa “não segue” ou “não acompanha”, e descreve o exemplo que vimos acima, onde a conclusão “não segue” as premissas.

  1. Todo político é corrupto;
  2. Marcos é corrupto;
  3. Portanto ele é um político.

Como é óbvio, a conclusão 3 “não segue” as premissas já que a premissa 2 não qualifica, ou é qualificado pela, premissa 1.

2. Falácias lógicas não estruturais surgem quando as premissas propostas por um argumento não sustentam logica ou racionalmente a conclusão final, mesmo que o padrão de raciocínio seja adequada em sua formação estrutural lógica.

Ao se avaliar, portanto, a validade lógica de um argumento, uma estruturação logicamente coerente  de um raciocínio não garante validade racional. Por exemplo:

  1. Se A é verdadeiro, então B também é;
  2. Portanto, B é verdadeiro porque A é.

Essa falácia lógica não estrutural é comumente entitulada “circulus in probando” ou “raciocínio circular” pois confunde a premissa com a conclusão e vice-versa. Em outras palavras, as premissas não alteram ou influem sobre a conclusão, não providenciando logica ou racionalmente motivos para conclusões.

  1. Salt Lake City é a capital de Utah;
  2. Portanto, a capital de Utah é Salt Lake City.

Como é óbvio, a conclusão 2 não é demonstrado por nada na premissa 1, considerando que ela apenas reafirma-a categoricamente.  Um exemplo clássico:

  1. A Bíblia afirma que é inerrante;
  2. Tudo o que está na Bíblia é verdadeiro;
  3. Portanto, ela é inerrante.

A falácia lógica não estrutural circulus in probando exibe-se no fato que o raciocínio é circular, considerando que a conclusão 3 simplesmente repete as premissas 1 e 2.

∼¤∼

Infelizmente, falácias lógicas são comuns no repertório popular mórmon. Exploraremos tais falácias em posts no futuro para ilustrar e providenciar exercícios de treinamento lógico. Sucumbir a raciocínios falácicos é muito simples e ocorre com todas as pessoas no dia a dia, e treinamento específico e constante é a única ferramenta intelectual existente que nos permita uma vida mais lógica e racional.

Conte-nos abaixo quais exemplos ilustrativos com o quais você poderia contribuir para o acervo coletivo de ilustrações mórmons de falácias populares e sugira-nos tipos de falácias específicas para futuros posts.


Leia também

A
hierarquia da discordância de Paul Graham, ou como discordar racionalmente de alguém.

Referências

Honderich, Ted (ed.), The Oxford Companion to Philosophy, Oxford University Press, 1995.

Online: Fallacy Files, Internet Encyclopedia of Philosophy,  Logical Fallacies, Stanford Encyclopedia of PhilosophyThe Nizkor ProjectYour Logical Fallacy.

 

5 comentários sobre “Entendendo: Falácia Lógica

  1. A clássica:
    1. Quando você sentir o “calor” no peito, saberá que ao Livro de Mórmon é verdadeiro.
    2. Logo, Joseph Smith foi um profeta.
    3. A Igreja é verdadeira.

    • Essa é um das piores Aiolia, calorzinho no peito não quer dizer absolutamente nada, só sabemos de algo se estudarmos e pensarmos e se aquilo não fizer sentido deve ser abandonado sim, o fato de querermos algo não torna aquilo real.

      • Uma confirmação do Livro de Mórmon não leva automaticamente a Igreja SUD ser a unica verdadeira. Uma vez que existem dezenas de religiões mórmons que o usam e alegam ser a Igreja restaurada por Joseph. Essa falácia na introdução é clássica na Igreja.

  2. Como é sabido, Joseph Smith tinha conhecimentos ocultistas. A clássica “prova” da veracidade de seu chamado profético consistiria em “sentir um ardor no peito”. Esse seria o sinal de que o Espírito Santo estaria “testificando”. No entanto, a multimilenar medicina tradicional chinesa tem outra explicação para esse fenômeno:

    “O chakra do coração, localizado no centro de seu peito, é a sede da energia do amor e da unidade. O coração leva as energias que unificam e harmonizam. QUANDO VOCÊ FOCALIZA A SUA ATENÇÃO NESTE CENTRO POR UM TEMPO, VOCÊ PODE SENTIR CALOR OU ALGO SE ABRINDO. Se você não sentir nada, simplesmente deixe isso de lado e talvez tente em outro momento.”

    Ou seja, o calor no peito provaria apenas a existência do chacra…

    Você pode provocar esse calor no peito:

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