‘O Que Está Morto Não Pode Morrer’: Segredos da Ressurreição na Bíblia e em Game of Thrones

Aviso: este artigo contém spoilers para aqueles que não estão atualizados com a sexta temporada de Game of Thrones.

Acontecimentos na série de TV Game of Thrones da HBO fizeram as pessoas falar sobre o que significa retornar dos mortos. Mas, embora a ressurreição pareça ser uma possibilidade muito real para algumas das religiões do mítico Westeros — não menos àquela que ressuscita Jon Snow, a “sacerdotisa vermelha”, Melisandre —, o que a Bíblia pode adicionar à discussão?

Game of Thrones, sexta temporada. Imagem: Divulgação/HBO.

De fato, retornar dos mortos era um evento bastante raro à época de Jesus. Poucos gregos e romanos antigos conseguiram sair do Hades, mas aqueles que fizeram eram heróis, como Hércules e Protesilau.

Orfeu mitologia

Orfeu e Eurídice, de Auguste Rodin (1893). Imagem: Metropolitan Museum, NY

Um exemplo particularmente famoso é o de Orfeu, que viaja ao submundo obscuro para resgatar sua amada Eurídice. Quando Orfeus está levando Eurídice para fora da escuridão, ele se volta para olhar para ela, rompendo o acordo que ele fez — e Eurídice é levada de volta às profundezas do Hades, para nunca mais voltar. Essa história foi popular na antiguidade, representada em uma variedade de artes, e continua sendo hoje.

The Arcade Fire, “Afterlife,” do álbum Reflektor, 2013; o álbum interpreta o mito de Orfeu. Versão anterior do vídeo oficial mostrava cenas do filme brasileiro “Orfeu Negro”, de 1959.

O que é claro na antiguidade é que são heróis, como Orfeu, não mortais comuns, que retornam dos mortos.

Ressurreição na Bíblia

Talvez como alguns heróis, a própria ressurreição de Jesus aponta para sua extraordinária identidade como o Filho de Deus. A ressurreição não era uma característica fundamental do messias esperados no judaísmo antigo, mas se tornou um tropo comum para descrever salvadores após o surgimento do cristianismo. Mas Jesus não é o único ressuscitado na Bíblia. A história de Lázaro só é encontrada no Evangelho de João, mas também tem milênios de reinterpretações na arte.

David Bowie, “Lazarus”, do álbum Blackstar, de 2016.

Em Betânia, Jesus descobre que o irmão de Maria e Marta, Lázaro, morreu e já está sepultado — ele está morto há quatro dias. Ele diz a Marta que “todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá” (João 11:26) e então ordena que Lázaro saia do túmulo, vivo, mas ainda envolto em seus panos de sepultamento (João 11: 43-44).

Um sarcófago esculpido (século 4 da Era Comum) mostra Jesus levantando Lázaro (à direita). A imagem de Jesus usando uma vara para realizar milagres era comum durante os primeiros séculos do cristianismo. Imagem: Dra. Meredith J. C. Warren.

A afirmação de Jesus de que “todo aquele que vive e acredita em mim nunca morrerá” nem sempre foi interpretada como se referindo à vida eterna de Lázaro no céu; alguns seguidores de Jesus parecem ter acreditado que Lázaro nunca mais morreria uma morte corporal depois de sua ressurreição. O capítulo final de João, por exemplo, tido pela maioria dos estudiosos como uma adição posterior, informa que um “rumor espalhou-se entre os discípulos que este discípulo não morreria” (João 21: 21-23). A questão que isso levantou foi se alguém trazido de volta da morte pode morrer novamente. É realmente o caso, como se acredita nas Ilhas Iron do Game of Thrones, de que “o que está morto não pode morrer”?

A morte não é o fim

Se você não está a par da sexta temporada, você vai querer parar de ler aqui.

Retornar à vida não é incomum no mundo criado por George R. R. Martin. Além do retorno dramático de Jon Snow, a temporada atual possui os Caminhantes Brancos, cujo exército de cadáveres ameaça os Sete Reinos; a ressurreição a la Frankenstein de A Montanha, Gregor Clegane, pelo desonrado meistre Qyburn; o segundo escape de Daenerys Targarian das chamas; e o afogamento de Euron Greyjoy como uma espécie de batismo para o Deus Afogado das Ilhas de Ferro. De fato, o que está morto nunca pode morrer.

O retorno de Jon Snow à vida é facilitado por Melisandre. Os sacerdotes e sacerdotisas vermelhos, que servem ao deus R’hllor, Senhor da Luz, parecem chamar de volta os mortos segundo a sua vontade. O ressuscitador mais bem sucedido é provavelmente Thoros, que trouxe de volta Beric Dondarrion seis vezes até agora, sempre orando ao Senhor da Luz. No livro de Martin Game of Thrones, A Storm of Swords — que difere da série de TV — Catelyn Stark também é trazido de volta à vida como Lady Stoneheart por Beric Dondarrion. Como Lázaro, Jon Snow havia morrido por algum tempo quando voltou à vida.

Dos contendores restantes ao Trono de Ferro, Jon Snow, Daenerys Targarian e Euron Greyjoy voltaram dos mortos. Tanto Melisandre quanto a última sacerdotisa vermelha a participar da série, Kinvara, conhecem uma profecia sobre um prometido “príncipe”. Melisandre costumava crer que era uma referência a Stannis Baratheon, mas passou a ver Jon Snow como o profetizado — a morte (permanente) de Stannis o removeu da disouta, mas a ressurreição de Jon Snow parece confirmar sua elegibilidade. Como aprendemos mais recentemente, Kinvara acredita que a profecia fala sobre Daenerys, “a que não queima”, que retornou do que parecia a morte certa nas chamas, não uma, mas duas vezes.

ressurreição Bíblia Game of Thrones

Ressurreição, de Andrea Mantegna, século 15. Imagem: Museu do Louvre.

‘O Que Está Morto Não Pode Morrer’

A ideia de um salvador ressurrecto, cujo reino salvará o mundo conhecido dos exércitos da escuridão, baseia-se claramente nas imagens cristãs de Jesus como governante divino e vencedor da morte. Mas esse olhar mais próximo da ressurreição talvez levante mais perguntas — são personagens que voltaram a viver para morrer, ou, por exemplo, Jon Snow terá agora capacidades especiais contra os Caminhantes Brancos mortos-vivos?

Aliás, é a ressurreição uma condição para governar os Sete Reinos — e, em caso afirmativo, os primeiros candidatos, como Gendry, estão fora da corrida para sempre? O que é claro é que as figuras do messias na cultura popular contemporânea são construídas à imagem de seus antepassados bíblicos. E esse tropo certamente não parece morrer em breve.


Meredith J. C. Warren é professora de Estudos Bíblicos e Religiosos, da Universidade de Sheffield.

Artigo original publicado aqui. Reproduzido com permissão.



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