O Oue Diz a Bíblia Sobre Acolher Refugiados

Na sexta-feira, 27 de janeiro, o presidente Donald Trump assinou um decreto que veta temporariamente refugiados de sete países de maioria muçulmana. Entretanto, a entrada de refugiados da Síria será proibida pelos próximos 120 dias.

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Crianças sírias em campo de refugiados na Turquia, abril de 2016. Foto: Lefteris Pitarakis/AP

Dois dias antes, ele comprometeu os Estados Unidos a construir um muro em sua fronteira com o México. Pouco depois da ordem, o presidente mexicano Enrique Peña Nieto cancelou uma viagem programada aos Estados Unidos.

O presidente Trump também propôs que bens mexicanos sejam tributados à alíquota de 20% para prover fundos à construção do muro. Isso cumpriria sua promessa de campanha de que o México de fato pagaria pela construção do muro, apesar dos protestos dos vizinhos ao sul dos EUA.

Para os cristãos, as questões sobre a construção do muro de fronteira ou a admissão de imigrantes e refugiados aos Estados Unidos envolvem uma série de considerações associadas, não apenas sobre as especificidades da lei de imigração, sobre a economia da mão-de-obra barata que atravessa a fronteira ou potenciais ameaças terroristas.

Em debate, estão questões mais amplas e mais profundas sobre o que significa acolher o estrangeiro.

Como um acadêmico católico romano que viveu no sul da Ásia por um total de quatro anos, sei o que é ser inicialmente considerado um “estrangeiro”, mas ser rapidamente acolhido com braços abertos. E eu, como todos os cristãos, olho para a Bíblia para orientação quando pergunto sobre a melhor forma de acolher o estrangeiro.

Então, o que a Bíblia realmente diz?

Todos seremos estranhos, algum dia

A Bíblia afirma – forte e inequivocamente – a obrigação de tratar os estranhos com dignidade e hospitalidade.

Em “Love the Stranger”, um artigo escrito para o encontro anual da College Theological Society em 1991, a estudioso bíblica Alice Laffey afirmou que na Bíblia Hebraica, as palavras “gûr” e “gēr” são as mais comumente glosadas como referentes a “estrangeiro”, embora também sejam traduzidas como “recém-chegado” e “forasteiro” ou “estrangeiro residente”, respectivamente.

No Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia hebraica, a palavra “gēr” aparece quase 50 vezes, e o quinto livro, Deuteronômio, delineia uma série de disposições específicas para tratar “o estranho” não apenas com cortesia, mas também com ativo apoio e provisão.

Por exemplo, o livro do Deuteronômio estabelece a exigência de que uma parte da produção seja reservada pelos fazendeiros a cada três anos para estrangeiros, viúvas e órfãos. No “sermão do templo” atribuído ao profeta Jeremias, o povo judeu é exortado a “não oprimir o estrangeiro”.

Na Bíblia Hebraica, as exigências de hospitalidade são por vezes afirmadas de formas muito marcantes, como na história do livro de Juízes em que um anfitrião oferece sua própria filha para rufiões, a fim de salvaguardar o seu convidado.

Obviamente, os próprios israelitas foram “estrangeiros” durante a escravidão no Egito e o cativeiro na Babilônia. A Bíblia Hebraica reconhece que cada um de nós pode ser um estrangeiro e, exatamente por isso, precisamos superar o medo daqueles que vivem entre nós e que não conhecemos.

O estranho é Jesus disfarçado

No Novo Testamento, que cristãos leem em continuidade da Bíblia Hebraica ou “Antigo Testamento”, a passagem mais citada sobre o acolhimento do estrangeiro é de Mateus 25: 31-40.

Esta seção fala do Julgamento Final, quando aos justos será concedido o paraíso e pecadores não arrependidos serão designados ao fogo eterno. Cristo diz aos que estão à sua direita que eles são “abençoados” porque

Eu estava com fome e você me deu comida, eu estava com sede e você me deu bebida, eu era um estranho e você me recebeu.

Os justos então perguntam:

Quando o vimos, um estranho, e o recebemos?

Cristo responde:

Em verdade digo a vocês que, como fizeram a um destes meus irmãos mais pequeninos, fizeram a mim.

Como Mateus 25 deixa claro, cristãos devem ver todos como “Cristo” na carne. Na verdade, estudiosos argumentam que, no Novo Testamento, “estranho” e “vizinho” são de fato sinônimo. Assim, a Regra de Ouro, “ame o próximo como a si mesmo”, não se refere apenas a pessoas que você conhece – seus “vizinhos” no sentido convencional – mas também a pessoas que você não conhece.

Além disso, nas cartas escritas por Paulo de Tarso (um dos mais notáveis dos primeiros missionários cristãos), muitas vezes conhecidas como “Epístolas” Paulinas, fica claro que em Cristo,

Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, não há homem nem mulher.

Dessa perspectiva, ser “um em Cristo” deve ser tomado literalmente como não reconhecendo diferenças fundamentais de espécie entre os seres humanos.

A Bíblia é inequívoca em sua mensagem

É claro que no cristianismo as fortes admoestações para tratar o estrangeiro com dignidade coexistiram com ações que parecem indicar uma atitude oposta: os pogroms contra judeus, a escravidão, o imperialismo e o colonialismo foram sancionados por cristãos que, no entanto, teriam afirmado princípios bíblicos sobre o cuidado com aqueles que parecem “outros” ou “estrangeiros”.

De fato, quando se trata de questões específicas sobre a construção de um muro na fronteira dos estados Unidos com o México ou o acolhimento de imigrantes e refugiados, alguns cristãos argumentam que isso não viola quaisquer preceitos bíblicos sobre hospitalidade com o estrangeiro, uma vez que a questão é de legalidade E, é claro, um bom número de cristãos realmente apoiaram a candidatura de Donald Trump para a presidência.

Outros cristãos assumiram uma posição diametralmente diferente e pediram que cidades e instituições educacionais fossem separadas como “zonas seguras” para imigrantes sem documentos.

É verdade que a aplicação dos princípios bíblicos aos assuntos contemporâneos de política é menos clara para os muitos cristãos que tomaram lados opostos acerca de como os Estados Unidos deveriam lidar com imigrantes, trabalhadores sem documentos e refugiados.

No entanto, na minha leitura da Bíblia, os princípios sobre acolher o estrangeiro são de amplo alcance e sem ambiguidade.


image-20161209-31402-1wyl45bMatthew Schmalz é Professor Associado de Religião, no College of the Holy Cross. Possui doutorado pela Universidade de Chicago.

Artigo original publicado aqui. reproduzido com permissão.

11 comentários sobre “O Oue Diz a Bíblia Sobre Acolher Refugiados

  1. O artigo aborda uma questão muito importante e chama atenção para a hospitalidade cristã , e fundamentalmente essa é uma questão importante …
    Porém situando e contextualizando a questão muçulmana é extremamente complexa ….
    Aja visto que os países vizinhos , não integram essas populações em suas sociedades muitos nem permitem a entrada ,então aqui falamos de discriminação ocidental porém oque os vizinhos árabes estão fazendo por esses refugiados .
    Outro ponto claro que não devemos nos pautar por esses campeões em humanismo ,mas em muitos casos os refugiados não querem se integrar a sociedade ocidental e acabam criando redutos de extremismo .
    Então se por um lado há um princípio que pode ser bem positivo biblicamente falando por outro é como o ocidente tivesse que se islamizar pra receber essas pessoas … e oque acontece é o que temos vista em colonia … na Alemanha .

    • Estatísticas mostram que muçulmanos nos EUA tendem a adotar valores e ideias da cultura local, inclusive influenciando suas visões religiosas. Por ex., apenas 4% da população em países de maioria muçulmana considera homossexualidade “moralmente aceitável”; já entre muçulmanos nos EUA esse índice dispara para 45%. O islamismo em uma sociedade com liberdade e pluralidade religiosas também está sujeito aos desafios do secularismo, da evasão e de casamentos interreligiosos. Essa assimilação cultural e liberalização dos muçulmanos nos EUA tem consequências internacionais, ao enfraquecer o discurso antiamericano de grupos terroristas e privá-los de recursos humanos e econômicos. Por outro lado, ações irracionais e cruéis como a de Trump dão combustível a organizações como ISIS, que esperam ver muçulmanos “normais” sendo radicalizados após a perseguição coletiva por parte de governos ocidentais.

      • Muito interessante os dados que apresentou então pelo que me diz os muçulmanos americanos vivem uma realidade diferente de por exemplo oque acontece na Inglaterra.

      • As estatísticas apresentadas são, no mínimo, duvidosas. Note que são produzidas por um certo David Bier, conhecido militante esquerdista, que trabalha no famigerado Cato Institute que não passa de uma ONG que defende liberação das drogas, casamento gay, imigração livre, e outras pérolas.
        O Terrorismo Islâmico não se combate com palavras. Os caras são radicais que pregam o extermínio de quem não concordar com eles. O islamismo É a única religião no mundo que prega isso. Controlar fronteiras e chamar as coisas pelo nome que elas têm é só um começo pra combater e desmontar a “rede de proteção” que a PRAGA chamada Politicamente Correto teceu ao redor dessa gente. O terrorismo islâmico tem seus maiores aliados na imprensa Ocidental, incluindo a brasileira, que trata os terroristas islâmicos como “jovens”, “militantes” e “ativistas”…os jornalistas querem ser tão certinhos e fofos que não conseguem escrever “terrorismo islâmico” nem quando um louco joga um caminhão em cima de um monte de crianças..As ações do Trump não são irracionais e cruéis. São duras e vão endurecer ainda mais, mas são ações pra proteger o povo americano, e se isso evitar que alguém gritando “alá é grande” degole criancinhas e esfaqueie religiosos de 90 anos, já terá valido a pena.

      • Parabéns pelo seu comentário, Nery. É possível que ele bata recordes mundiais por desonestidade intelectual, ignorância dos fatos, e falácias lógicas (por palavras escritas). Vejamos:

        As estatísticas apresentadas são, no mínimo, duvidosas. Note que são produzidas por um certo David Bier,

        Falácia lógica do argumentum ad hominem.
        Falácia lógica do arranque vermelho.
        Falácia lógica do argumento non sequitur.

        conhecido militante esquerdista, que trabalha no famigerado Cato Institute

        Além de insistir nas falácias lógicas citadas acima, demonstra sua desonestidade intelectual e/ou completa ignorância dos fatos.

        O Cato Institute é uma ONG de pesquisas de extrema direita fundada pelo multi-biolionário do petróleo Charles Koch (das Indústrias Koch), que com seu irmão David é um dos grandes financiadores da extrema direita norte-americana.

        que não passa de uma ONG que defende liberação das drogas, casamento gay, imigração livre, e outras pérolas.

        Três questões que nada tem a ver com noções de dicotomia político-econômica direita-esquerda, mas sim com direitos e liberdades individuais.

        O Terrorismo Islâmico não se combate com palavras. Os caras são radicais que pregam o extermínio de quem não concordar com eles. O islamismo É a única religião no mundo que prega isso.

        Mais uma desonestidade intelectual e/ou ignorância dos fatos. Existe terrorismo cristão até hoje. Mórmons pregaram e cometeram terrorismo no século 19, também. Alguns mórmons acreditam em cometer terrorismo ainda hoje.

        Controlar fronteiras e chamar as coisas pelo nome que elas têm é só um começo pra combater e desmontar a “rede de proteção” que a PRAGA chamada Politicamente Correto teceu ao redor dessa gente.

        Nunca nenhuma pessoa queixa-se da “PRAGA chamada Politicamente Correto” (sic) sem defender uma proposição, ideia, ou postura obviamente anti-ética e imoral. O que se chama de “politicamente correto” nada mais que o “correto”, o que em si é apenas a conduta mais educada, racional, e moral entre as opções. O “politicamente correto” é não passar mão nas bundas das mulheres na rua, não xingar outras pessoas por defeitos físicos, não discriminar por raça ou cor de pele ou religião, etc., não porque há uma “PRAGA” (sic) mas porque essas atitudes são imorais e anti-éticas.

        “Controlar fronteiras” é uma das noções mais estúpidas e infantis que ainda persistem no subconsciente coletivo. Houve inúmeras tentativas para se “controlar fronteiras” em toda história da humanidade. Não houve uma bem sucedida.

        O terrorismo islâmico tem seus maiores aliados na imprensa Ocidental, incluindo a brasileira, que trata os terroristas islâmicos como “jovens”, “militantes” e “ativistas”…

        Terroristas não são “militantes”?

        Terroristas não são “ativistas”?

        Com exceção dos líderes, a maioria dos terroristas não são “jovens”?

        A “imprensa Ocidental” (sic) está torcendo pelos terroristas?

        os jornalistas querem ser tão certinhos e fofos que não conseguem escrever “terrorismo islâmico” nem quando um louco joga um caminhão em cima de um monte de crianças..

        Um “louco joga um caminhão em cima de um monte de crianças” porque é louco, não porque é muçulmano. A maioria dos muçulmanos jamais fariam isso. Assim como a maioria das crianças assassinadas por loucos no Ocidente são assassinadas por cristãos, e não por muçulmanos, e nem por isso jornalistas descrevem “terrorista cristão assassina crianças”. Não porque jornalistas querem ser “certinhos e fofos”, mas porque eles querem ser racionais, objetivos, inteligentes, e éticos.

        As ações do Trump não são irracionais e cruéis.

        Não há nada de racional nas “ações do Trump” (sic). Nos últimos 40 anos, exatamente zero americanos foram mortos por atentados cometidos nos EUA por cidadãos de qualquer um dos 7 países banidos por Donald Trump. Nos últimos 37 anos, exatamente zero americanos foram mortos por atentados cometidos nos EUA por refugiados de quaisquer países. Analistas (conservadores, da direita, que votam em Republicanos), estimam que as chances de um americano ser morto por um refugiado seria de 1 em 3,7 bilhões.

        São duras e vão endurecer ainda mais, mas são ações pra proteger o povo americano,

        1 em 3,7 bilhões. Apenas uma mente profundamente irracional crê que medidas extremas são necessárias para afastar um risco na casa de 1 em 3,7 bilhões.

        e se isso evitar que alguém gritando “alá é grande” degole criancinhas e esfaqueie religiosos de 90 anos, já terá valido a pena.

        1 em 3,7 bilhões. As chances de ser atingindo por um relâmpago andando na rua durante sua vida é de 1 em 3 000. Valeria mais a pena proibir as pessoas de andaram na rua?

        E com um pouco menos de ignorância você saberia que “Alá” não é um nome próprio, mas a palavra árabe para “Deus”. “Alá é grande” nada mais significa que “Deus é grande”.

        Nery, todos tem o direito de ser preconceituosos. Todos tem o direito de ser ignorantes. Todos tem o direito de recusar raciocínio lógico. Mas, por favor, seja mais honesto. E, nesse fórum, tente ater-se aos fatos, à razão, e à lógica.

      • “O muro [proposto por Donald Trump para a fronteira com o México] é a coisa mais idiota que eu já vi ou ouvi na minha vida. Um muro para quê? Você acha que um muro vai barrar pessoas passando fome? Bons empregos no México, crescimento econômico no México, igualdade é o que vai barrar pessoas de atravessaram a fronteira.”

        Quem disse isso foi algum “militante esquerdista”? Não. Quem disse isso foi Jorge Perez.

        Quem é Jorge Perez? Perez é um empreendedor multibilionário dos ramos de construção civil e imobiliária.

        Então Jorge Perez é inimigo de Donald Trump? Não. Perez não só é amigo pessoal de Trump, como é seu parceiro de negócios. Perez construiu vários imóveis onde Trump afixou seu nome.

        Por que Perez está comentando o “muro de Trump”? Porque Trump pediu para que Perez construísse o tal muro.

        Então Perez vai construir o “muro de Trump”? Não. Como Perez explicou em entrevista, ele julga a noção do muro a “coisa mais idiota” que ele viu em toda sua longa carreira e declinou o pedido de Trump.

        Então essa entrevista foi publicada por algum jornal “famigerado” de “militante esquerdista”? Não. Ela foi noticiada em jornais conservadores como o Bloomberg, a Fortune, e o The Independent, entre outros.

        Não são pessoas “militantes esquerdistas” que afirmam que as políticas de Donald Trump são “idiotas”. Empreendedores de multinacionais e bilionários (viz., capitães do capitalismo) estão dizendo isso. Mentir, ignorar fatos, evitar raciocínio, e depender de falácias lógicas não tornam essas ideais menos “idiotas”, Nery.

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