Presos Terroristas Mórmons, Um Morto

Ocupação prossegue no Oregon. Confronto com FBI e polícia estadual deixa um morto e prende oito envolvidos.

Invasor em guarda no parque federal do Oregon (Imagem: opb.org)

Invasor em guarda no parque federal do Oregon (Imagem: opb.org)

Após três semanas da ocupação armada de um parque federal no Oregon, os principais líderes do movimento foram presos e um deles morto. Nesta terça-feira (26/01), os milicianos tiveram seus veículos interceptados pelo FBI e a polícia estadual do Oregon enquanto se dirigiam a uma reunião pela rodovia entre o parque e a cidade de John Day. Por volta das 4:30 da tarde (hora local), houve troca de tiros entre as forças policiais e os milicianos. De acordo com reportagem do jornal The Oregonian, ainda não está claro de que lado partiram os primeiros disparos.

No tiroteio, foi morto Robert LaVoy Finicum, de 55 anos, do estado do Arizona. Apesar das autoridades não terem divulgado seu nome, a morte foi confirmada ao jornal por uma das filhas de Finicum. Ela afirmou que, pelo relato dos demais milicianos, seu pai foi alvejado enquanto estava com as mãos para cima. Outros que disseram ter sido testemunhas oculares contradisseram tal versão.

Finicum foi um dos primeiros a juntar-se à invasão da área federal. No dia 06 de janeiro deste ano, o rancheiro disse à imprensa que preferia morrer a ir para prisão. Com seu jeito tranquilo de falar, ele havia se tornado um dos porta-vozes da ação ilegal. No site da Amazon, está à venda um romance publicado por Finicum no ano passado, intitulado “Apenas por Sangue e Sofrimento” (em tradução livre), que trata da luta de uma família para sobreviver em meio a um cenário apocalíptico nos EUA. De acordo com a reportagem da NBC, assim como os dois principais líderes do movimento armado, Finnicum era mórmon.

Ryan Bundy, 43, de Nevada, um dos principais líderes da ocupação, teve ferimento leve devido à troca de tiros. Ele foi tratado em um hospital local e recebeu alta. O outro principal líder, seu irmão Ammon Bundy, 40, de Idaho, também foi preso. Além dos dois, outras quatro pessoas foram presas após o confronto na rodovia. Outras duas foram presas a seguir no prédio federal.

Um dos agentes na operação declarou à CNN que LaVoy Finicum e Ryan Bundy foram os únicos do grupo a não se entregarem pacificamente.

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Presos no Oregon. Acima: Brian Cavalier, Ammon Edward Bundy, Joseph O’Shaughnessy, Peter Santilli. Abaixo: Ryan Bundy, Ryan Payne, Shawna Cox, Jon Ritzheimer. (Imagem: AFP)

Um número indeterminado de milicianos ainda permanece no parque federal. O FBI estabeleceu postos de controle na região, para verificar a identidade de qualquer um que se aproxime do local.

Entenda o Caso

Em 02 de janeiro passado, o grupo fortemente armado (veja fotos aqui) invadiu um prédio federal no Oregon. Desafiando a polícia e o governo federal ao confronto, eles anunciaram o plano de permanecerem na propriedade indefinidamente.

Brandindo, além de rifles militares de assalto, a Constituição dos Estados Unidos, o grupo tomou o prédio federal do Parque Nacional Malheur para protestar contra a prisão de dois pecuaristas recém-condenados a 5 anos de prisão por incêndios criminosos em terras do governo e caça ilegal.

Dwight Hammond e seu filho Steven alegaram que provocaram uma queimada para proteger sua propriedade de ervas daninhas e incêndios espontâneos. A agência federal responsável pelas terras os acusa de causar o incêndio para esconder vestígios de caça ilegal a cervos. Em 2012, o filho cumpriu pena de um ano e o pai, de três meses. Uma inesperada decisão judicial em outubro passado, porém, exigiu que fossem novamente encarcerados, uma vez que suas sentenças não correspondiam às penas mínimas previstas pela lei antiterrorismo de 1996, a qual prevê o mínimo de cinco anos de reclusão para incêndios criminosos a propriedades federais. Ambos estão agora presos na Califórnia.

Do Protesto à Invasão

Cerca de 300 pessoas realizaram um protesto pacífico no município de Burns, Oregon, em apoio aos Hammonds.  A retórica antigoverno atraiu a participação de milicianos vindos de outros lugares dos EUA. Foi após o protesto que os terroristas invadiram a área federal, localizada a cerca de 80 km da cidade. Eles diziam ser aproximadamente 150 homens.

Os próprios Hammonds procuraram se distanciar dos milicianos. A maior organização paramilitar dos EUA criticou a ação no Oregon. Diversas milícias fizeram o mesmo.

Um invasor que identificou-se pela alcunha de “Capitão Morôni” disse a uma repórter: “não vim aqui para atirar, vim aqui para morrer”. O nome real do Capitão Morôni é Dylan Anderson, de Provo, Utah.

Liderança Mórmon

Ammon Bundy, ao lado de seu irmão Ryan, é o principal líder do movimento armado. A invasão da propriedade, declarou, não foi “uma decisão que tomamos de última hora”. Ammon postou um vídeo no Facebook conclamando “patriotas” de todos os Estados Unidos a unirem-se com suas armas à ocupação.

Os Bundys são membros d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias que ganharam o noticiário em 2014. Seu pai, o também pecuarista Cliven Bundy, de Nevada, esteve à frente de outra demonstração de força envolvendo terras federais.

Miliciano vigiando forças policiais em Nevada, em 2014. (Imagem: Jim Urquhart/Reuters)

Miliciano vigiando forças policiais em Nevada, em 2014. (Imagem: Jim Urquhart/Reuters)

Cliven deve mais de US$ 1 milhão em impostos e multas por utilizar ilegalmente terras públicas para pastagem de seu gado, durante mais de duas décadas. Após ter seu rebanho confiscado, em abril de 2014, Cliven recebeu apoio de milicianos armados para fechar a rodovia interestadual que liga Las Vegas a Salt Lake City. Na ocasião, o senador democrata Harry Reid (mórmon) classificou os manifestantes como “terroristas domésticos“.

Ao lado de bandeiras americanas, manifestantes em Nevada tinham cartazes com um famoso trecho do Livro de Mórmon. Segundo Cliven, sua desobediência ao governo foi inspirada por Deus: “Ele disse ‘Esta é a tua chance de endireitar esta coisa'”, declarou o rancheiro.

Evangelho, Política e Racismo

Oregon. Mórmons. Milícia.

O mórmon Brand Thorton toca um shofar. (Mark Graves/The Oregonian)

Discursando em Utah aos membros do Partido Americano Independente, Cliven Bundy perguntou: “Se nossa Constituição [dos EUA] é um documento inspirado pelo nosso Senhor Jesus Cristo, ela não é então escritura? (…) Então não é a mesma coisa que o Livro de Mórmon e a Bíblia?”

Transformado em uma celebridade por vários conservadores e libertários durante o impasse em Nevada, Cliven fez com que algumas figuras públicas como o jornalista Glenn Beck (também mórmon) e o senador republicano Rand Paul se distanciassem após declarações racistas. Cliven afirmou que a abolição da escravatura não beneficiou negros nem o restante da sociedade:

seguido me pergunto, eles [os negros] estariam melhor como escravos, colhendo algodão e tendo uma vida em família e fazendo coisas, ou estariam melhores com o subsídio do governo? Eles não conseguiram mais liberdade. Conseguiram menos liberdade.

Nevada. Mórmons. Bundy.

Cliven Bundy cercado por apoiadores (Imagem: John Locher/AP)

Problema Fundiário

O discurso contra o governo federal tem a simpatia de boa parte da população rural do oeste americano. O governo é o proprietário de 27,4% das terras do país, mas é no oeste que a concentração ganha proporções surpreendentes: o governo federal controla 84,9% de Nevada, 64.9% de Utah, 61.9% de Idaho, 52.9% do Oregon e 48.1% do Wyoming. Com a crescente proteção ambiental, em detrimento de práticas tradicionais das populações rurais, a frustração popular no Oregon e em outros estados tem crescido há anos.

Igreja Mórmon Condena Invasão

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias condenou em nota a invasão armada, afirmando que os líderes da Igreja

estão profundamente preocupados com os relatos de que aqueles que tomaram a instalação sugerem que o estão fazendo com base em princípios escriturísticos.

Excomunhão dos Terroristas?

Com a família Bundy fazendo referências religiosas explícitas e o consequente dano causado à sua imagem pública, resta saber se a Igreja SUD tomará ações disciplinares contra seus membros envolvidos no ato terrorista do Oregon.

Patriotismo e Decadência Espiritual

Reportagem do jornal Deseret News noticiando o repúdio da Igreja SUD à invasão citou trechos de um discurso do apóstolo Dallin H. Oaks a alunos da BYU em 1992:

Amor pelo país é certamente um vigor, mas levado ao excesso pode tornar-se a causa de decadência espiritual.

Atualizações em 28/01/15.

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