Crise na Igreja SUD Influencia Novos Programas?

Ontem, o Apóstolo Dale Renlund discursou, junto com sua esposa Ruth, em uma devocional transmitida mundo afora para os jovens e jovens-adultos da Igreja SUD com o tema central de dúvidas intelectuais e fé.

O Apóstolo Dale Renlund e sua esposa Ruth discursam em devocional mundial em 13 de janeiro de 2019 dedicado a coibir dúvidas entre jovens SUD (Foto: YouTube)

O tema de dúvidas entre jovens e jovens-adultos na Igreja parece ser um problema muito importante no momento. Coincidentemente, um testemunho postado nas redes sociais na semana passada ilustra a preocupação nas alas SUD em Utah de que estão vivendo uma crise de fé ou de dúvidas entre seus jovens:

“Eu tenho freqüentado a igreja com minha esposa desde que retornamos a Utah no verão passado, quando ela me disse que não gostava de ir sozinha, e achei que era um sacrifício pequeno. Eu geralmente assistia à reunião sacramental e depois ia para casa, embora algumas vezes eu ficasse para a Escola Dominical.

Ontem, fiquei para a segunda hora, principalmente por curiosidade. A lição foi essencialmente uma introdução ao programa “Venha, siga-me”. Eles começaram com alguns videoclipes de Russel Nelson explicando os objetivos do programa da conferência de outubro passado e, depois de esboçar como iria funcionar, começaram a falar sobre as razões por trás das mudanças. Essa parte foi fascinante.

Quase todas as pessoas que comentaram falaram sobre quantas pessoas estão se afastando da igreja e como o novo programa obviamente tem a intenção de evitar que isso aconteça. As pessoas falavam de amigos e entes queridos que deixaram a igreja, e instaram uns aos outros a levarem mais a sério o estudo do evangelho em suas vidas diárias para que também não sofressem esse destino. Um homem, chorando, disse: “Uma guerra está chegando e vai ser ruim”. Uma mulher falou sobre como seus filhos estavam constantemente fazendo perguntas sobre problemas na história da igreja, como o método de tradução “pedra no chapéu”. Ela disse que, embora ela não tivesse pesquisado essas questões, se apenas nos concentrarmos no evangelho e não no passado, ficaremos bem. Outra mulher declarou que não se importava o que os líderes da igreja no passado tivessem feito ou dito, contanto que o Livro de Mórmon fosse verdadeiro.

A impressão que tive é de uma igreja sitiada por forças externas, mas também de uma instituição desmoronando por dentro. O medo e a ansiedade na sala eram palpáveis. Obviamente, não estou prevendo o colapso iminente da igreja, mas parece-me que se caiu a ficha, que o número de membros afetados pelo aumento do conhecimento da história e doutrina da igreja atingiu uma espécie de massa crítica. Não muito tempo atrás, era incomum que a maioria dos membros conhecesse um adulto participante ativo na igreja que saísse como uma escolha deliberada. Todos nós conhecíamos pessoas que tinham desaparecido de atividade, geralmente na adolescência, mas um portador do sacerdócio – quanto mais um líder – que se afastara teria sido um grande choque. Hoje em dia, a maioria dos membros da igreja tem amigos e familiares que se afastaram do que antes havia sido um compromisso pesado com a igreja.

Não sei se alguma dessas preocupações e questões desempenhou um papel no desenvolvimento desse novo programa da igreja. Dito isto, os membros da minha ala, pelo menos, acreditam que esta é uma tentativa de fortalecer a igreja contra ataques graves, erosão e decadência.”

Veja o post original aqui:

O discurso do Apóstolo Renlund parece confirmar as observações colocadas acima.

Assista o discurso em sua íntegra aqui:

Renlund relata o caso de um conhecido seu que teria exibido dúvidas intelectuais sobre a historicidade da Primeira Visão (porque descobrira que Joseph Smith foi mudando os detalhes de sua visão com o passar do tempo), as mentiras que a Igreja contou sobre abandonar poligamia (porque descobrira que profetas e apóstolos continuaram praticando poligamia após o Manifesto de 1890, conhecido hoje como Declaração Oficial 1), e o passado da segregação racial oficial (porque descobrira da proibição contra negros que durou mais de um século). De acordo com o Apóstolo, apesar de tais fatos históricos serem verídicos, eles podem ser “explicados” intelectualmente. Contudo, Renlund não os “explica” e limita-se a afirmar que tais “explicações” não são importantes, pois membros da Igreja devem simplesmente “querer acreditar” e, consequentemente, terão “fé” em tais “explicações”. O que, no frigir dos ovos, seria o mais importante.

Não obstante as protestações apostólicas, o fato objetivo e inquestionável é que Renlund, e portanto a liderança da Igreja, admite que há um problema de “dúvidas intelectuais” entre os jovens da Igreja com relação a questões históricas. Aparentemente, a resposta da Igreja não é discuti-las aberta e francamente, ou engajar com os fatos honestamente, mas simplesmente exigir que seus jovens “tenham fé”, e se não tiverem fé ainda, “queiram acreditar” e ignorar tais dúvidas.

Será que essa é uma estratégia frutífera a médio ou longo prazo? Quão diferente é essa estratégia do que já vinha sendo feito nas últimas décadas? Quão profunda será essa tendência geracional do mileniais e membros da geração Z de questionar e explorar intelectualmente suas tradições religiosas?

22 comentários sobre “Crise na Igreja SUD Influencia Novos Programas?

  1. Boa tarde irmãos. Sinceramente, estou tentando entender o porque de tantas mudanças no ensino da igreja. Estava torcendo para que vcs falassem sobre esse assunto.

    Na minha opinião, a igreja quer nos afastar do ensino da doutrina. Querem nos afastar do ensino da história da igreja. Assim não saberemos o que realmente os primeiros profetas da restauração pensavam. Fico imaginando a situação dos membros novos, dos visitantes, dos pesquisadores. Eles vão assistir a sacramental, depois escola dominical ou quórum/Soc-Soc. Muitas coisas eles nunca saberão. Com isso a igreja não precisará mais se preocupar com os “questionadores”. Não haverá mais perguntas que deixem os professores de saia justa.

    Sejamos realistas, essa conversa de que os membros estudarão mais o evangelho em casa é tudo balela. Isso não acontece. Poucos são os que param para ler uma mensagem da conferência. Poucos estudam as aulas do domingo. Acho que esse método tornará os membros mais fáceis de manipular. A igreja deveria incentivar as pessoas a conhecer a história da igreja, a teologia da igreja. Deveria incentivar as pessoas a trazerem suas dúvidas. Aqueles que estudam a fundo os ensinamentos da igreja se tornam melhor preparados para defender ou atacar. Assim funciona o livre arbítrio. Mas, como estamos vendo, o profeta está tendo uma enxurrada de revelações. Não sei se é para proteger os membros ou proteger a instituição/igreja.

    Queria poder entender mais o porque dessa mudança tão radical no ensino. Diminuição do tempo das reuniões. Mudaram os nomes de mestre familiar e professora visitante para irmãos ministradores. Mas com que intenção? Na ala que frequento muitos estão com dúvidas. Até mesmo a liderança da estaca e das alas estão sem conseguir explicar as mudanças. Apenas nos dizem para sermos obedientes e seguir as orientaçoes dos profetas.

    • Entendo você. Sempre ficará uma ponta de dúvida se a intenção das mudanças nos programas da Igreja são para fins de se adequar a nossa atual realidade e necessidade como membros, ou para não voltarmos nossos olhos para o passado e refletirmos como ele influencia na cultura, doutrina e história SUD. No entanto, acredito que as dúvidas permanecerão uma vez que quando questionamos e a resposta que recebemos é que “foi uma revelação”, encerra-se qualquer debate e somos convidados a aceitar.

      Mas sendo sincero, esta padronização e limitação de informações não é algo característico apenas no mormonismo, pois como sabemos todas as religiões são dirigidas por homens e o passado está repleto de erros, preconceitos, injustiças, e que hoje está sendo camuflado com uma doutrina de autoajuda e conteúdos superficiais.

      Se você está na Igreja terá que fazer uma escolha: obedecer sem questionar ou questionar antes de obedecer. No segundo caso dependendo da sua dúvida e do líder, certamente você será acusado de apostasia.

      • Bom dia irmão.
        obrigado por seu ponto de vista, mas acho que sempre devemos analisar por vários ângulos.
        A partir do momento que apenas obedecemos e não ponderamos, lembro do versículo de efésios 4:14.

        “14 O objetivo é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para o outro pelas ondas teológicas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela malícia de certas pessoas que induzem os incautos ao erro. ”

        O próprio Joseph Smith falou sobre isso em seus Ensinamentos.
        Isso não significa que aqueles que não concordam com as “revelações da igreja” vão se tornar apóstatas.
        Algumas vezes escolhemos não concordar, obedecer e continuar na igreja.

    • Concordo irmão, acho que posso chamar você assim.
      Pode ver a diferença dos manuais do seminário e Instituto, dos antigos e os novos, os meus que estudei, são mais “duros”, tipo tem uma citação no livro de alma do seminário que diz que pessoas que morrem sem um braço, ressuscitaram sem estes braços, já o novo, retira este citação..

  2. Acho que a mudança foi feita para atrair novos membros. Para mim, membro antigo, enfrentar as 3 horas de reuniões, era enfadonho. imagine para um visitante. 10 minutos a menos na sacramental, significa um péssimo discurso a menos. Provavelmente acho os discursantes ruins porque devo estar sem o “espirito”. (claro, há exceções. Exceções.)

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