Novo Historiador da Igreja Mórmon Não É Historiador, Advogado

A Primeira Presidência d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias anunciou Legrand Curtis Jr como o novo Historiador da Igreja efetivo a partir de agosto de 2019.

Mantendo uma tradição desde 1982, o Historiador da Igreja não é um historiador por profissão ou treinamento acadêmico. Ademais, assim como todos os Historiadores da Igreja desde 1997, Curtis Jr é advogado por profissão e treinamento.

O único Historiador da Igreja na história que era um historiador profissional serviu entre 1972 e 1982. Leonard J Arrington presidiu o que historiadores hoje chamam de “era de ouro na historiografia mórmon”, e é amplamente considerado como o “pai da historiografia mórmon”.

E, possivelmente, por isso vê-se a tendência atual de chamar advogados, e não historiadores.

Arrington, que foi o primeiro não-Apóstolo, e até hoje o único não-Autoridade Geral, a ser chamado para o ofício de Historiador da Igreja desde quando Joseph Smith chamou Willard Richards em 1842 para a posição, sob a égide do Apóstolo Howard W Hunter ele transformou o campo acadêmico para historiadores mórmons ao abrir os arquivos históricos da Igreja para pesquisadores. Durante uma década, Arrington estimulou e fomentou uma verdadeira revolução nos estudos mórmons à era popularmente chamada de “era de ouro em historiografia mórmon” ou “nova historiografia mórmon”.

Essa liberdade acadêmica e abertura intelectual não passou, porém, incólume. Alguns Apóstolos, como Ezra Benson, Bruce McConkie, Mark Petersen, e Boyd Packer fizeram feroz oposição ao trabalho de Arrington, até que em 1982, ele foi desobrigado em uma reunião secreta privada e seu novo substituto anunciado em Conferência Geral alguns meses depois, sem quaisquer menções a Arrington. Inclusive, ele foi o único Historiador da Igreja a ser desobrigado sem votos de gratidão pela Igreja em conferência.

Arrington, contudo, permaneceu inabalavalmente fiel e ativo na Igreja pelo resto da vida, e ainda mais importante, produzindo e orientando uma nova geração de historiadores até sua aposentadoria como Professor e Chefe de Departamento da BYU.

Entre esses o autor da melhor biografia de David O McKay, o historiador Gregory Prince, que publicou uma biografia de Leornard Arrington intitulada Leonard Arrington and the Writing of Mormon History.

É desta biografia que descobrimos uma página do diário de Arrington, onde ele lista mudanças que julgava serem necessárias e cruciais para alterar aspectos nocivos e perniciosos dentro da instituição da Igreja SUD.

Eis a lista de práticas comuns que Arrington identificou como prevalentes e prejudiciais:

  1. Designar membros que pagam dízimos elevados para posições de liderança, ao invés de designar os mais competentes ou os mais dignos;
  2. Manter fichas de membros suspeitos de falhar em lealdade à Igreja;
  3. Supor que acadêmicos e intelectuais almejam destruir ou humilhar a Igreja;
  4. Insistir em votos unânimes entre os Doze Apóstolos, o que significa que o mais teimoso e obstinado sempre vence;
  5. Insistir em escolher o novo Presidente da Igreja entre o Apóstolo mais sênior, o que significa que a Igreja sempre será liderada por alguém que já ultrapassou há muito o seu período de auge físico, energético, e criativo.
  6. Insistir em não incluir mulheres nas reuniões de conselho dos Doze Apóstolos, ou as líderes das organizações femininas das reuniões de bispados;
  7. Insistir que mulheres não possam abençoar seus bebês ou confirmar recém-batizados;
  8. Insistir no culto à personalidade e adoração de líderes, que não é um costume saudável e nos “impede de perceber que precisamos buscar o Espírito e a Luz”.

O diário publicado em 2017 pela editora Signature Books, apresenta um trecho onde Arrington anota observações em julho de 1972 sobre o medo que Autoridades Gerais tem de fatos históricos:

“A Igreja se move como um iceberg em seus processos de tomada de decisões. Tão vagarosa, tão cuidadosa, tão cautelosamente. Nenhuma decisão é tomada a menos que tenha que ser tomada. Eles não respondem perguntas a menos que o tenham que fazer imediatamente. As Autoridades Gerais cortam as asas de homens ambiciosos ([e.g., Apóstolo Alvin R.] Dyer); e pensadores destemidos ([e.g., Apóstolo e ex-Conselheiro na Primeira Presidência Hugh B.] Brown). As Autoridades têm, na verdade, muito pouco poder. Eles são, em essência, meros rapazes mensageiros. As decisões verdadeiras são tomadas por apenas três ou quatro pessoas — os membros da Primeira Presidência que estão dispostos a exercer [poder] ([e.g., Presidente Harold B.] Lee), e talvez um ou dois dos Apóstolos que estejam dispostos a exercer [poder] ([e.g., Apóstolo Marion G.] Romney).

A Igreja sofre com o efeito bumerangue de críticas. Ela não tolera críticas dentro da Igreja, então é ele anormalmente sensível a críticas que vem de fora da Igreja. Ela não permite votos diretos aos cargos oficiais da Igreja, sejam locais ou gerais; Ela não permite uma imprensa livre; Ela se esforça para suprimir uma imprensa livre; Então as poucas críticas que surgem a atingem com um efeito ampliador; Portanto, ela é extremamente cautelosa.” 

A tensão entre historiadores e autoridades eclesiásticas da Igreja parece ter sido uma constante durante o seu trabalho pioneiro. “Tive um sonho na noite de sexta de que havia sido demitido do meu cargo como Historiador da Igreja”, escreveu Leonard J. Arrington em 11 de setembro de 1972. “Isso pode ter sido provocado”, concluiu com humor, “por comer demais frango assado e/ou por um telefonema que recebi”.

Em outra entrada de seu diário, de setembro de 1976, Leonard J. Arrington escreve sobre  seu dilema entre permanecer no cargo e submeter a narrativa de fatos históricos à correlação das Autoridades Gerais ou resignar e prosseguir na busca da história mórmon “real”. Arrington ainda confessa seu temor acerca das ideias do então Apóstolo Sênior, e primeiro na linha de sucessão presidencial, Ezra Taft Benson (o qual assumiria a Primeira Presidência cerca de três anos após a desobrigação de Arrington):

É claro que o presidente [Ezra Taft] Benson não defenderá nossa história “real”. E como ele é o próximo na linha e o presidente dos Doze, estamos em uma posição impotente e ninguém quer considerar o nosso próprio raciocínio. Nós temos certos membros dos Doze que falarão a nosso favor, caso autorizados a fazê-lo: Elder Ashton, Elder Hunter, Elder Haight. Talvez outros. Existem outros (por exemplo, Elder Packer) cujos discursos no dois ou três anos passados sugerem que ele concordaria com a crítica. A pergunta comigo é: devo manter o trabalho [como Historiado da Igreja] (assumindo que não me desobriguem) e tentar escrever uma história que será aprovada pela correlação[?]. Ou devo renunciar e continuar escrevendo “história real”[?]. – Diário de Leonard J. Arrington, 06 de setembro de 1976.

Apesar de tais conflitos não é possível superestimar o impacto de Arrington sob os estudos do mormonismo. Arrington transformou o campo acadêmico para historiadores mórmons ao abrir os arquivos históricos da Igreja para pesquisa pela primeira vez., e durante uma década estimulou e fomentou uma verdadeira revolução nos estudos mórmons.

O que trazem à mesa da historiografia mórmon administradores especializados em direito e advocacia? Quais as habilidades distintas que advogados trazem para a área de estudos históricos, dos quais historiadores como Arrington não gozam, ou até por treinamento evitam?

3 comentários sobre “Novo Historiador da Igreja Mórmon Não É Historiador, Advogado

  1. Os historiadores são especialistas no que fazem,nada se compara a pesquisa histórica como montadora dos fatos reais.O que o colega historiador enumerou como lista de práticas prejudiciais são mantidas para o sistema de “chamados”e a maneira de agraciar quem “merece”(?).Assim sendo,não vão mudar o que eles mesmos construíram como sistema de “cargos”(?) dentro da igreja.
    Se um dia assumir a liderança alguém desvinculado deste sistema talvez sejam revistos alguns pontos deste….isto se até lá o Senhor não tiver se revoltado com tantas coisas erradas..

  2. A escolha de advogados tem uma razão simples: eles não querem gente que destrinche a História da igreja, e sim gente que defenda até as coisas mais indefensáveis que a igreja, por meio de seus líderes, já fez e quer continuar fazendo.

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