‘Adão, Que Era Filho de Deus’: Fragmentos Persistentes da Teoria Adão-Deus no Sistema Educacional da Igreja

Samuel R. Weber

Como estudante de graduação na Universidade Estadual de Utah entre 2004 e 2007, assisti a uma aula no Instituto de Religião SUD, em Logan, Utah, na qual o professor afirmou inequivocamente que Adão e Eva eram filhos gerados fisicamente por Deus.

Sistema Educacional da Igreja, Brigham Young

Era a primeira vez que muitos de nós ouvíamos tal ideia, apesar de sermos membros da Igreja durante a vida inteira. O instrutor garantiu à classe que essa era a doutrina oficial da Igreja, embora menos discutida. Reforçando a importância desse conceito, o exame final do curso incluiu a seguinte questão para preencher as lacunas: “O Pai Celestial foi o pai do corpo _____ de Adão, bem como de seu corpo _____.” As respostas corretas foram “espiritual” e “físico”.2

Como descobri mais tarde, este ensinamento em particular tem uma linhagem complexa, originada em antigos ensinamentos mórmons eventualmente rejeitados, mas vivendo em fragmentos quando se fazia necessário para responder a questões teológicas colocadas pela evolução biológica. Hoje, parece sobreviver principalmente no Sistema Educacional da Igreja.

Origens com Brigham Young e Adão-Deus

O conceito de Adão e Eva como filhos físicos de Deus tem suas raízes nos ensinamentos de “Adão-Deus” de Brigham Young. Joseph Smith e seus associados estabeleceram algumas das bases para Adão-Deus ao atribuir um papel celestial expandido a Adão e enfatizar o vínculo familiar da humanidade com a divindade.3 Young deu os passos seguintes na inovação doutrinária. Começando em 1852, ensinou a ideia inovadora, mas controversa, de que Adão e Eva haviam experimentado a mortalidade anteriormente, atingido um status exaltado de deuses, gerado filhos espirituais e se tornado os deuses do planeta Terra. No primeiro sermão publicado por Young defendendo essa doutrina, Adão foi, numa frase célebre, identificado como “nosso pai e nosso Deus, e o único Deus com quem temos a ver”.4

Young primeiramente sustentou essa teoria ensinando que a vida humana foi transplantada de outro mundo. Em 1856, declarou: “Adão foi feito do pó da terra, mas não do pó desta terra”.5 Falando no Tabernáculo de Salt Lake em 1859, Young declarou: “A humanidade está aqui porque é descendência de pais que foram trazidos aqui pela primeira vez de outro planeta”.6

Em segundo lugar, Young ensinou que os humanos começaram a vida como produtos de um processo natural de nascimento, e não moldados a partir do pó da terra. “Quando você me diz que o pai Adão foi feito do modo como fazemos tijolos a partir da terra, você me diz o que considero uma história inútil”.7 “[Deus] criou o homem como nós criamos nossos filhos”; ele disse, “pois não há nenhum outro processo de criação no céu, na terra, na terra, ou sob a terra, ou em todas as eternidades, isto é, que existiu, ou que existirá”.8

Terceiro, Young lançou as bases para ensinar que os corpos mortais dos humanos eram o resultado de reprodução divina:

O homem é descendência de Deus. (…) Somos tanto filhos deste grande Ser quanto somos filhos de nossos progenitores mortais. Somos carne de sua carne, osso de seus ossos e o mesmo fluido que circula em nossos corpos, chamado sangue, uma vez circulou em Suas veias como nas nossas. Assim como as sementes de grãos, vegetais e frutas produzem sua espécie, o homem é à imagem de Deus.9

Heber C. Kimball, primeiro conselheiro de Brigham Young, também ensinou que “corpos [mortais] foram formados por [Deus] e por meio dele e dele, tanto quanto o espírito. (…) Eu vim através dele, tanto em espírito como em corpo”.10 Embora Young e seus associados provavelmente estivessem se referindo a corpos humanos descendentes de Adão-Deus, essas declarações poderiam mais tarde ser reinterpretadas por outros que rejeitaram Adão-Deus para significar que Deus literalmente gerou os corpos dos primeiros humanos na Terra: Adão e Eva.

Em um sermão de 1852, Young explicou que para Adão-Deus e Eva-Deus terem filhos nesta terra, eles tiveram que “continuar a comer e beber dos frutos do mundo físico, até que esta matéria mais grosseira seja suficientemente difundida através seus corpos celestes para capacitá-los, de acordo com as leis estabelecidas, a produzir tabernáculos mortais para seus filhos espirituais”.11

Young e seus associados indicaram que a capacidade de gerar filhos físicos e espirituais era uma investidura especial relacionada à obtenção da divindade. Falando em 1872, Young ensinou: “E quando nosso espírito receber nosso corpo e, por meio de nossa fidelidade, formos dignos de ser coroados, receberemos autoridade para produzir espírito e corpo”.12

Young enfatizou que os homens e Deus pertenciam à mesma família e espécie. Mesmo enquanto se afastava de identificações em termos explícitos de Adão como Deus, Young ensinou em 1857: “[Deus] é um ser da espécie como nós próprios (…) não importa se devemos considerar [Adão] nosso Deus, ou se Seu Pai, ou Seu Avô, pois em qualquer caso somos de uma espécie – de uma família – e Jesus Cristo também é da nossa espécie”.13

Ainda que a teoria de Adão-Deus de Young não tenha sobrevivido como parte duradoura da doutrina mórmon, não foi completamente um “beco sem saída” teológico como afirmado pelo autor mórmon Terryl Givens.14 Fragmentos de Adão-Deus seriam repetidos por professores e líderes da igreja posteriores para descrever a linhagem divina de Adão e Eva.

Ênfase Renovada em Oposição à Evolução

A teoria da evolução de Charles Darwin, apresentada à maior parte do mundo através do seu texto de 1859, Sobre a Origem das Espécies, implicava a pergunta: “Se a evolução por seleção natural explica a descendência do homo sapiens, então como explicar Adão e Eva?”. Mesmo rejeitando a teoria de Adão-Deus, Joseph F. Smith e sua Primeira Presidência responderam a perguntas sobre a evolução, reiterando muitos dos princípios estabelecidos na teologia de Young: que Adão e Eva haviam sido transplantados de outro planeta, que eram o produto de nascimento natural, e que Deus era seu pai.

Embora Joseph F. Smith aparentemente tivesse aceito a teoria de Adão-Deus no início de sua carreira,15 ele mais tarde a renunciou publicamente, escrevendo certa vez:

A doutrina nunca foi submetida aos conselhos do sacerdócio, nem à igreja para aprovação ou ratificação, e nunca foi formalmente ou de outra forma aceita pela igreja. Portanto, não é, de forma alguma, obrigatória para a Igreja.16

Apesar de tal rejeição pública, muitos líderes contemporâneos da igreja empregaram a retórica de Adão-Deus em suas declarações em oposição aos ensinamentos evolucionários. B. H. Roberts escreveu em 1901 que “Somos todos ‘formados’ do pó da terra, embora, em vez de sermos moldados como um tijolo, sejamos gerados pelas leis naturais da procriação; o mesmo aconteceu com Adão e sua esposa em um mundo mais antigo”.17 Em uma conferência de estaca em 1913, Joseph F. Smith disse: “Adão, nosso pai terreno, também nasceu de uma mulher neste mundo, assim como Jesus, você e eu”.18 George Q. Cannon da mesma forma preferia pensar em Deus como o supremo progenitor do homem: “Não tivemos macacos como ancestrais, nem qualquer ordem inferior de seres. (…) Nós descendemos de Deus”.19

Em 1909, quinquagésimo aniversário de Sobre a Origem das Espécies, uma declaração da Primeira Presidência intitulada “A Origem do Homem” referia-se tangencialmente ao conceito de humanidade descendendo fisicamente dos deuses.20 Embora não negasse abertamente as afirmações evolucionárias, a declaração apresentava uma clara inclinação antievolucionária. Outras perguntas sobre o assunto levaram a Primeira Presidência de Smith a publicar uma declaração no ano seguinte que deixava algum espaço para evolução:

Se os corpos mortais do homem evoluíram em processos naturais para apresentar perfeição por meio da direção e poder de Deus; se os primeiros pais de nossas gerações, Adão e Eva, foram transplantados de outra esfera, com tabernáculos imortais, que foram corrompidos pelo pecado e pela ingestão de alimentos naturais, no decorrer do tempo; se eles nasceram aqui na mortalidade, como outros mortais, são questões que não foram totalmente respondidas na palavra revelada de Deus.21

No entanto, outras publicações da Igreja lançadas naquele mesmo ano descartaram abertamente a evolução em favor de Deus sendo o pai dos corpos dos homens. B. H. Roberts escreveu no Course of Study for Priests [Curso de Estudos para Sacerdotes], de 1910: “O homem descendeu de Deus; na verdade, ele é da mesma raça dos deuses. Sua descendência não foi a partir de uma forma de vida inferior, mas da Forma de Vida Mais Elevada: em outras palavras, o homem é, no sentido mais literal, um filho de Deus. Isso não é verdade apenas para o espírito, mas também para o seu corpo”.22 Em conferência geral, mais de uma década depois, o apóstolo George Albert Smith falou da mesma forma contra a evolução, preferindo, em vez disso, uma ancestralidade divina: “[O] homem não veio, como alguns acreditam, como alguns preferem acreditar, de algumas das mais baixas formas de vida, mas nossos ancestrais eram aqueles seres que viviam nas cortes do céu. Não viemos de alguma ordem de vida inferior, mas nosso ancestral é Deus, nosso Pai celestial”.23

Inclusão por Autoridades Posteriores

Autoridades da igreja posteriores encontraram motivos para incorporar esses ensinamentos em seus próprios sermões e escritos. Particularmente dignos de nota foram Joseph Fielding Smith e Bruce R. McConkie, duas autoridades da Igreja (aparentados por casamento) cujos prolíficos escritos deram passos largos no sentido de sintetizar a massa de ensinamentos anteriores da Igreja em uma teologia mais abrangente e sistematizada. Ambos se opuseram veementemente à doutrina de Young de que Adão é Deus,24 mas abraçaram o ensino relacionado de que Adão e Eva eram física e espiritualmente filhos de Deus.25

No entanto, a dupla também reconheceu que as referências bíblicas a Jesus Cristo como o “Unigênito” de Deus, o Pai, criavam um problema para tal teoria. Em seu compêndio, Mormon Doctrine [Doutrina Mórmon], sob a entrada de “Filho de Deus”, McConkie apresentou uma “brecha” linguística que permitia a Adão e Eva nascerem de Deus, mesmo que ainda conferisse um status especial ao nascimento de Cristo. “O pai Adão, o primeiro homem, também é filho de Deus (Lucas 3:38; Moisés 6:22, 59), fato que não muda a grande verdade de que Cristo é o Unigênito na carne, pois a entrada de Adão neste mundo foi na imortalidade. Ele veio aqui antes que a morte tivesse seu início, com sua consequente condição de existência mortal ou carnal”.26

Embora McConkie não tenha inventado a expressão “Unigênito na carne”,27 ele deu a descrição mais clara e direta de suas implicações. Além disso, os escritos de McConkie eram populares e provavelmente deram à frase uma exposição mais ampla do que teria tido de outro modo, especialmente porque não aparece em nenhum lugar no cânone SUD atual.

No início da década de 1930, Joseph Fielding Smith envolveu-se em discussões contenciosas com outros líderes da Igreja que eram mais abertos a idéias evolucionistas, incluindo o setenta B. H. Roberts e o apóstolo James E. Talmage. Roberts e Talmage estavam abertos à evidência científica da morte antes de Adão e da existência de humanóides pré-adâmicos, embora ainda preferissem pensar em Adão como o produto de uma criação especial.28 Em sua magnum opus antievolução Man: His Origin and Destiny [Homem: Sua Origem e Destino], Smith ridicularizou a ideia de um longo processo evolutivo, levantando a questão retórica: “Por que [Deus não tomaria] o caminho mais curto e os transplantaria [Adão e Eva] de outra terra como somos ensinados nas escrituras?”.29

Persistência Dentro do Sistema Educacional da Igreja

Apesar de sua história, as declarações da linhagem divina de Adão e Eva não podem ser encontradas entre os ensinamentos apostólicos SUD atuais. Embora nunca haja sido um tema dominante, Adão como filho de Deus parece ter desaparecido completamente do discurso da Igreja na década de 1980. Talvez isso se deva à maior consciência da Igreja em relação às relações públicas e ao desejo de aceitação dentro da comunidade cristã mais ampla.30 Ou talvez, em face da crescente onda de feminismo, os atuais líderes da Igreja relutam em expor os papéis ou responsabilidades da Mãe Celestial como uma mãe literal.31 Além disso, dado que a aceitação da biologia evolutiva está em ascensão dentro da Igreja e é ensinada em escolas de propriedade da Igreja, a necessidade percebida de fornecer teorias alternativas da origem da humanidade diminuiu.32 Atualmente, a teoria da herança corporal divina de Adão e Eva não é amplamente conhecida ou aceita pelos santos dos últimos dias do século XXI, não é ensinada na igreja ou na conferência geral e provavelmente seria considerada fora da corrente principal do mormonismo moderno — com uma aparente exceção: dentro o Sistema Educacional da Igreja.

Em seu livro God, Man and the Universe [Deus, o Homem e o Universo], de 1968, o professor de religião Hyrum L. Andrus33 ecoou os ensinamentos de Adão-Deus sobre o transplantar:

Primeiro, afirma-se que o homem e os animais foram organizados fisicamente pelo processo de procriação; vida vegetal por germinação de sementes. Em segundo lugar, a vida parental de onde surgiram as formas terrestres iniciais existia em outra esfera, (…) o fluxo da vida flui eternamente de mundos redimidos e glorificados para os recém-organizados. A procriação e o transplante são as duas chaves principais para a compreensão da origem da vida em uma determinada esfera.34

Andrus também enfatizou a descendência física literal do homem de Deus em seu Doctrinal Commentary on the Pearl of Great Price [Comentário Doutrinário sobre a Pérola de Grande Valor]:

O corpo físico puro, original e santificado do homem descendeu de Deus, como a progênie de Deus, herdando no nascimento a imagem física, semelhança e atributos de seus pais exaltados. (…) [A] procriação é a chave da origem da vida humana, no que diz respeito ao método de sua organização, e o transplante é a chave de como o homem chegou à terra.35

Keith H. Meservy, professor associado de escrituras antigas na BYU, fez um discurso como parte do Simpósio do Educador Religioso do Sistema Educacional da Igreja, em 1979, afirmando que “os profetas ensinaram que a procriação espiritual e física de sua própria espécie pelos deuses é a verdadeira explicação da origem do homem”.36

Em seu livro de 1990, A Bible! A Bible!, Robert J. Matthews37 testificou da crença na genealogia celestial dos corpos físicos de Adão e Eva. Ele também usou a frase “Unigênito na carne”, conforme encontrada nos escritos de Bruce R. McConkie, para distinguir a linhagem de Adão da de Cristo:

Acredito que o corpo físico de Adão era gerado de Deus, literalmente (Moisés 6:22); que ele foi gerado como um bebê com um corpo físico não sujeito à morte, em um mundo sem pecado ou sangue; e que cresceu até a idade adulta nessa condição e então se tornou mortal por meio de suas próprias ações. Acredito que o corpo físico de Adão foi gerado por nosso Pai celestial imortal e uma Mãe celestial imortal e, portanto, não em uma condição de mortalidade, uma condição que teria impedido Jesus de ser o Unigênito do Pai na carne (D&C 93: 11) – carne significa mortalidade. O corpo físico de Jesus também foi gerado pelo mesmo Pai celestial, mas por meio de uma mulher mortal e, portanto, na mortalidade”.38

Da modo semelhante, Joseph Fielding McConkie39, professor de escrituras antigas na BYU, publicou um volume em 1996 com Robert L. Millet, professor de escrituras antigas que ainda leciona na BYU, indicando uma crença no nascimento físico de Adão a partir de pais celestiais. Eles citaram a declaração em Moisés 6:22 de que Adão é “o filho de Deus” e, em seguida, afirmaram: “Não temos justificativa para supor que se trata de uma declaração figurativa”.40 Em outro volume publicado dois anos depois, Joseph Fielding McConkie novamente mencionou a ascendência divina do corpo de Adão: “Porque Adão era filho de pais divinos, ele tinha um corpo imortal”.41

Há indícios de que o erudito mórmon Hugh Nibley nutria em privado pelo menos alguma crença nos ensinamentos de Adão-Deus. Em um discurso de 1980, dado na BYU, intitulado “Antes de Adão”, ele não negou a existência de humanóides pré-adâmicos,42 mas afirmou que os descendentes de Adão “são os filhos de Adão, que também se qualificam como filhos de Deus, sendo o próprio Adão um filho de Deus.” Nibley também sugere que Adão e Eva foram transplantados de outro planeta, acrescentando: “resta saber se as especulações anteriores sobre a vida em outros mundos serão agora atualizadas para a vida [vinda] de outros mundos, mas Adão é maravilhoso o suficiente sem isso”. Abordando mais diretamente Adão-Deus, Nibley declarou: “E uma das nossas maiores pedras de tropeço é não saber como Adão se relaciona com outros seres, terrestres e celestiais. Essa é a raiz do mal-entendido Adão-Deus. (Até que examinemos o assunto com seriedade, manterei minhas opiniões em segredo.)”43 Sua declaração implica que a doutrina Adão-Deus pode ter sido mal compreendida, em vez de ser totalmente falsa. Também sugere algumas crenças privadas sobre o assunto. O genro e biógrafo de Nibley, Boyd Petersen, falou sobre isso em uma entrevista em 2013. Quando questionado se Nibley acreditava em privado nos ensinamentos sobre Adão-Deus, Petersen respondeu:

Nunca o ouvi dizer: “Eu acredito na doutrina Adão-Deus”. (…) Eu pensei: “Por que ele não abordou essa questão [Adão-Deus]?”. E então eu perguntei a ele (…) e ele disse: “Oh, nunca penso nisso.” E ele simplesmente não queria falar sobre isso, ele disse: “Bem, deixe-me revisar isso: eu não falo sobre isso.” (…) em vários de seus escritos sobre Brigham Young [ele disse] que se sentia como se Brigham Young fosse um melhor teólogo do que lhe é dado crédito. Então (…) meu pressentimento é que ele simpatizava muito com essa teologia.44

Conforme contei na introdução, como aluno do Instituto de Religião SUD, em Logan, em 2005, fui ensinado que Adão e Eva eram filhos gerados fisicamente por Deus. Explicando a doutrina, o professor baseou-se nos ensinamentos Adão-Deus de Brigham Young, afirmando que Deus, o Pai, e Deus, a Mãe, comeram do fruto desta terra até que seus corpos fossem “carregados com ele” a fim de produzir descendentes adequados a este planeta.45 Ele também se inspirou na retórica antievolução da presidência de Joseph F. Smith, insistindo que a declaração “Origem do Homem”, de 1909, fornecia uma base doutrinária clara para a humanidade ser a descendência corporal de Deus. Quando solicitado a explicar como o nascimento divino de Adão seria diferenciado do de Cristo, o instrutor repetiu a explicação “Unigênito na carne” dada por Bruce R. McConkie.46

Depois que a aula do Instituto foi concluída, fiquei curioso para saber se outros professores do Instituto partilhavam dessa teoria da ascendência de Adão ou se meu professor anterior representava um caso isolado. Eu me encontrei com outros cinco professores do Instituto em Logan e perguntei o que achavam da ideia. Descobri que nenhum deles era particularmente simpático à evolução, e todos estavam familiarizados com a ideia, ou pareciam acreditar, que Adão nasceu literalmente de Deus. Alguns desses professores possuíam compilações de declarações de líderes passados da Igreja que se alinhavam com esta visão da origem da humanidade (muitas das quais foram citadas acima).47

Que esta teoria da genealogia de Adão pode continuar a ter influência em alguns setores do Sistema Educacional da Igreja é evidente por uma simples pesquisa no Google. Materiais de referência para aulas da BYU-Idaho que apoiam essa visão podem ser facilmente encontrados online.48

A persistência desta teoria dentro do SEI pode ser devido a uma série de fatores. Na cultura SUD, as citações dos líderes da Igreja geralmente têm primazia no estabelecimento de uma doutrina válida, o que pode fazer com que os instrutores do SEI familiarizados com algumas dessas declarações se sintam compelidos a aceitá-las como doutrinariamente mandatórias. Os educadores da Igreja podem se ver como guardiões de alguns “mistérios do reino”, sabendo mais do que o membro comum da Igreja, mas sentindo-se obrigados a manter isso em segredo para não lançar “pérolas aos porcos” (Mateus 7: 6). Esta ideia do instrutor do SEI manter um silêncio sagrado enquanto ainda garante a sobrevivência da doutrina foi promovida por Keith H. Meservy quando disse que “É importante ensinarmos corretamente, mesmo que nem sempre sejamos capazes de ensinar tão claramente quanto possamos querer”.49 Por último, pode haver simplesmente uma forte tradição interna de aceitar esse ponto de vista sobre a origem do homem, como evidenciado por uma linha de educadores da Igreja endossando-o ao longo de várias décadas.

Apesar dos sinais externos deste ensino expirando no discurso oficial atual e da correspondente falta de familiaridade com ele entre os membros da Igreja em geral, a crença de que Deus foi o pai dos corpos físicos de Adão e Eva parece ainda existir no Sistema Educacional da Igreja SUD. Desse modo, fragmentos da teoria descartada de Adão-Deus sobrevivem.

Notas

1. O autor gostaria de expressar sua gratidão a Christopher Blythe, Amberly Dattilo, Matthew Jorgensen, Stephanie Dawson Pack e Hilary Weber, que leram rascunhos deste artigo e ofereceram suas críticas.

2. Recordação do autor.

3. O dístico de Lorenzo Snow resume a relação proximal que Joseph Smith estabeleceu entre o homem e Deus: “Como o homem é agora, Deus já foi; como Deus é agora, o homem pode ser”. Lorenzo Snow, Millennial Star 54 (junho de 1892): 404. Para mais informações sobre a expansão por Joseph Smith da importância divina de Adão, consulte Terryl L. Givens, Wrestling the Angel: The Foundations of Mormon Thought: Cosmos, God, Humanity (Nova York: Oxford University Press, 2015), 112–116. Ver também Samuel Brown, “William Phelps’s Paracletes, an Early Witness to Joseph Smith’s Divine Anthropology“, International Journal of Mormon Studies 2 (Spring 2009): 62–82.

4. Journal of Discourses by Brigham Young, President of the Church of Jesus Christ of Latter-day Saints, His Two Counsellors, the Twelve Apostles, and Others [Jornal de Discursos de Brigham Young, Presidente da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Seus Dois Conselheiros, os Doze Apóstolos e Outros], vol. 1 (Liverpool: LDS Book Depot, 1855-86), 50 (doravante citado como JD). Embora uma receptividade mista entre membros e líderes da Igreja a esse ensinamento tivesse levado Young a falar menos sobre os ensinamentos de Adão-Deus em seus últimos anos, Young defendeu a doutrina publicamente em 1873 e incorporou os princípios de Adão-Deus na “palestra junto ao véu” no templo de Saint George, em 1877, pouco antes de sua morte. Ver David John Buerger, “The Adam-God Doctrine”, Dialogue 15, no. 1 (Spring 1982): 14–58.

5. JD 3:319

6. JD 7:285

7. JD 7:285

8. JD 11:122; cf. JD 3:319

9. JD 9:283

10. JD 6:31.

11. JD 6:275; cf. JD 4:218

12. JD 15:137

13. JD 4:217; cf. JD 13:311

14. Terryl L. Givens, Wrestling the Angel: The Foundations of Mormon Thought: Cosmos, God, Humanity (New York: Oxford University Press, 2015), 112.

15. Joseph F. Smith relatou que “a exposição dessa douutrina deu a ele grande alegria”. Salt Lake School of the Prophets Minute Book [Livro de Atas da Escola dos Profetas de Salt Lake], entrada de 09 de junho de 1873, Arquivos da Igreja SUD, citado por David John Buerger, “The Adam-God Doctrine”, Dialogue 15, no. 1 (Spring 1982): 14–58.

16. Joseph F. Smith, carta a A. Saxey, 07 de janeiro de 1897, Arquivos da Igreja SUD, Salt Lake City, Utah.

17. B. H. Roberts, The Gospel: An Exposition of Its First Principles; and Man’s Relationship to Deity, terceira edição (Salt Lake City: The Deseret News, 1901), 280.

18. “Gala Days in History of Arizona Stakes”, Deseret Evening News (27 de dezembro de 1913): sec. 3, p. 7. Cf. JD 25:53 e Carta ao Presidente Samuel O. Bennion da Primeira Presidência, 20 de fevereiro de 1912, citado por James R. Clark, Messages of the First Presidency, Vol. 4 (Salt Lake City: Bookcraft, 1970), 266.

19. The Juvenile Instructor vol. 27, no. 23 (01 de dezembro de 1892): 720.

20. “A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, baseando sua crença na revelação divina, antiga e moderna, proclama o homem como progênie direta e linear da divindade”. Coluna do Editor, “The Origin of Man” [Origem do Homem], pela Primeira Presidência da Igreja, Improvement Era, vol. 13, No. 1 (novembro de 1909): 81.

21. Coluna dos Quóruns do Sacerdócio, Improvement Era, Vol. 13, No. 6 (Abril de 1910), 570.

22. B. H. Roberts, Course of Study for Priests (1910), 35, citado por Jerald R. Johansen, A Commentary on the Pearl of Great Price: A Jewel Among the Scriptures (Bountiful, UT: Horizon Publishers, 1985), 53.

23. George Albert Smith, Conference Report (outubro de 1925), 33.

24. Ver, por examplo, Joseph Fielding Smith, Doctrines of Salvation [Doutrinas de Salvação], Volume I, compilado por Bruce R. McConkie (Salt Lake City: Bookcraft, 1954–56), 96–99. Bruce R. McConkie, “The Seven Deadly Heresies” [As Sete Heresias Mortais], Brigham Young University Speeches, 01 de junho de 1980.

25. Ver, por exemplo, Joseph Fielding Smith, Doctrines of Salvation, Volume I, comp. Bruce R. McConkie, (Salt Lake City: Bookcraft, 1954–56), 101–103. Veja também Bruce R. McConkie, “Eve and the Fall” [Eva e a Queda] in Woman (Salt Lake City: Deseret Book, 1979), 60–61.

26. Bruce R. McConkie, Mormon Doctrine (Salt Lake City: Bookcraft, 1958), 670. See also Bruce R. McConkie, Doctrinal New Testament Commentary, Vol. 1 (Salt Lake City: Bookcraft, 1965–73), 95.

27. Também aparece, por exemplo, na declaração “Origem do Homem”, de 1909, e nas obras de Joseph Fielding Smith.

28. Richard Sherlock and Jeffrey E. Keller, “The B. H. Roberts/Joseph Fielding Smith/James E. Talmage Affair,” in The Search for Harmony (Salt Lake City: Signature Books, 1993), 93–115.

29. Joseph Fielding Smith, Man: His Origin and Destiny (Salt Lake City: Deseret Book, 1954), 276–277. Para comentários semelhantes, ver Joseph Fielding Smith, Improvement Era, vol. 23, No. 5 (março de 1920): 392.

30. O Presidente Gordon B. Hinckley, por exemplo, quando perguntado em entrevista para a revista Time se a Igreja acredita que Deus, o Pai, já foi um homem, respondeu: “Não sei se ensinamos isso. Não sei se enfatizamos isso.(…) Entendo o contexto filosófico por trás disso, mas não sei muito sobre isso, e não acho que outros saibam muito sobre isso”. David Van Biema, “Kingdom Come”, Time, 24 de junho de 2001 (acesso em 28 de agosto de 2021).

31. Apóstolo Boyd K. Packer identificou o movimento feminista como um perigo para a Igreja. Ver Peggy Fletcher Stack, “Mormon Leader Boyd K. Packer Dies — A Man of Wit, known for Tough Talk”, Salt Lake Tribune, 03 de julho de 2015 (acesso em 28 de agosto de 2021). Ver ainda Margaret Merrill Toscano, “Is There a Place for Heavenly Mother in Mormon Theology? An Investigation into Discourses of Power”, Sunstone, julho de 2004, 14–22.

32. O percentual de mórmons que aceitam a evolução aumentou de 22% para 42% entre 2008 e 2014, respectivamente. Compare “U.S. Religious Landscape Survey, Religious Beliefs and Practices: Diverse and Politically Relevant” com “Religious Landscape Study: Views about human evolution”, Pew Forum on Religion & Public Life (accesso em 28 de agosto de 2021).

33. Andrus era um diretor de estudos religiosos no Ricks College, e mais tarde se tornou professor de história da igreja e doutrina na Universidade Brigham Young.

34. Hyrum L. Andrus, God, Man and the Universe (Salt Lake City: Bookcraft, 1968), 350–351.

35. Hyrum L. Andrus, Doctrinal Commentary on the Pearl of Great Price (Salt Lake City: Deseret Book, 1973), 178–180.

36. Keith H. Meservy, “Evolution and the Origin of Man,” Church Educational System Religious Educator’s Symposium, BYU, 1979, 10. Cópia da transcrição em posse do autor.

37. Matthews começou sua carreira como professor do Seminário e Instituto e, após receber o título de doutor em escrituras antigas, lecionou na Divisão de Educação Religiosa da BYU. Foi conhecido por seu trabalho acadêmico na Tradução de Joseph Smith da Bíblia e foi o editor-chefe do Dicionário Bíblico, de 1979, da Igreja SUD.

38. Robert J. Matthews, A Bible! A Bible! (Salt Lake City: Bookcraft, 1990), 188.

39. Filho do apóstolo Bruce R. McConkie.

40. Joseph Fielding McConkie, Robert L. Millet, Joseph Smith: The Choice Seer (Salt Lake City, Bookcraft: 1996), 108.

41. Joseph Fielding McConkie, Answers: Straightforward Answers to Tough Gospel Questions (Salt Lake City: Deseret Book, 1998), edição em Kindle.

42. “Não inveje a existência de criaturas que se pareciam com homens há muito, muito tempo”, disse ele, “nem negue a eles um lugar na afeição de Deus e até mesmo o direito à exaltação – pois nossas escrituras assim permitem”.

43. Hugh Nibley, “Before Adam”, http://publications.mi.byu.edu/fullscreen/?pub=997&index=1 (accesso em 24 outubro de 2016).

44. Dan Wotherspoon, entrevista com Boyd Petersen, Mormon Matters, podcast, 26 de agosto de 2013 (accesso em 28 de agosto de 2021).

45. JD 4:218

46. Recordação do autor.

47. “Parenthood of Adam”, fotocópia não paginada em posse do autor; “The Creation and Placement of Life on the Earth”, fotocópia não paginada em posse do autor; “Inspired Statements on the Creation of Man”, fotocópia não paginada em posse do autor; “How was Adam Created?”, fotocópia não paginada em posse do autor.

48. Ver, por exemplo, “The Creation of Adam”, http://emp.byui.edu/OpenshawR/Pearl%20of%20Great%20Price/Creation%20Of%20Adam.htm (accesso em 11 de setembro de 2016); “Overview of the Plan of Salvation”, http://emp.byui.edu/huffr/Overview%20of%20the%20Plan%20of%20Salvation.htm ( accesso em 11 de setembro de 2016 ); “Statements on Adam and the Creation”, http://emp.byui.edu/openshawr/Class%20Articles/Adam%20and%20Creation%20Statements.htm ( accesso em 11 de setembro de 2016); “The Origin of Man & Organic Evolution,” http://emp.byui.edu/marrottr/originofman.htm (accesso em 22 de outubro de 2016).

49. Keith H. Meservy, “Evolution and the Origin of Man,” Church Educational System Religious Educator’s Symposium, BYU, 1979, 10. Cópia da transcrição em posse do autor.


Samuel R. Weber é psiquiatra e atua em Utah. Ele publicou anteriormente nas áreas de história mórmon, religião e saúde mental.

Artigo original publicado na revista Sunstone. Traduzido por Antônio Trevisan Teixeira e reproduzido mediante permissão do autor.


Referência original

Samuel R. Weber, “‘Adam, Which Was the Son of God’: Persistent Fragments of Adam-God Theory Within the Church Educational System“, Sunstone 185 (Summer 2017): 5-10.

Um comentário sobre “‘Adão, Que Era Filho de Deus’: Fragmentos Persistentes da Teoria Adão-Deus no Sistema Educacional da Igreja

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