Cadê a tradução?

Um ano depois, ensaios históricos do site lds.org permanecem sem tradução

translation2Há muitos problemas de tradução na Igreja sud. Mas um tem se destacado gravemente: a política de não traduzir.

No final de 2013, o site lds.org inicou a publicação de ensaios em língua inglesa acerca de tópicos de natureza histórica e doutrinária, recebendo bastante atenção nas discussões online sobre mormonismo. Os ensaios não foram anunciados em Conferência Geral, promovidos na Liahona e Ensign e sequer receberam destaque no próprio site. De fato, é até mesmo difícil localizá-los.

Em que pesem os problemas, penso que a iniciativa apontou para uma maior abertura da Igreja sud em lidar com seu passado, uma vez que tem abordado temas controversos como violência entre mórmons no séc. XIX,  a historicidade do Livro de Abraão e os quatro ensaios relacionados ao casamento plural , incluindo a prática em Kirtland e Nauvoo, entre pioneiros em Utah  e seu fim oficial com o Manifesto.

Senti uma satisfação especial ao ler o ensaio intitulado “Raça e sacerdócio“, ao ver informações que a Igreja admitia pela primeira vez a respeito de um tema tão doloroso quanto relevante para o mormonismo no Brasil. Infelizmente, minha resenha publicada aqui há um ano permanece como a única fonte em língua portuguesa para tais informações. Continuar lendo

Monson plagia Monson

Na Conferência Geral de outubro de 2014, o presidente Thomas S. Monson reciclou discursos de anos anteriores.

tsm cabeçaAs conferências gerais de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias são eventos considerados sagrados na cultura mórmon. Os discursos do presidente da Igreja, especialmente, são tidos por muitos não apenas uma fonte de inspiração mas um oráculo que pode revelar a vontade divina para a Igreja e a humanidade.

Na década de 1950, introduziu-se a referência ao presidente da Igreja como “o profeta”, expressão até então usada para referir a Joseph Smith. Uma publicação oficial usada nas aulas dominicais de visitantes e novos membros diz que seus discursos teriam, a princípio, a mesma importância das escrituras canônicas:

Devemos estudar suas palavras e ouvir seus discursos nas conferências.

Além desses quatro livros de escrituras, as palavras inspiradas dos profetas vivos tornam-se escritura para nós. (p. 42, 49)

Outra afirmação do mesmo livro, porém, sugere que as palavras do presidente da Igreja seriam ainda mais importantes do que as obras-padrão:

Muitas pessoas acham fácil acreditar nos profetas do passado. Entretanto, acreditar no profeta vivo é algo muito mais importante. (p. 42)

Diferentemente dos primórdios do mormonismo — e contrário aos princípios escriturísticos de ensinar o que o Espírito Santo venha a inspirar no momento (Mat. 10:19-20; Luc. 12:11-12; Mor. 06:09; D&C 68:03; 84:85; 100:05-06) —, os discursos nas Conferências há várias décadas são escritos de antemão. Eu nunca havia percebido, porém, a prática do autoplágio na Conferência. Continuar lendo

A Causa do Movimento Planetário

Ross Wesley LeBaron

Ross Wesley LeBaron

Ross Wesley LeBaron (1914-1996) foi um líder mórmon fundamentalista, que na década de 1950 organizou uma pequena denominação chamada Igreja do Primogênito, proclamando-se o herdeiro patriarcal de Joseph Smith. Ele ficou conhecido em Utah pelo seu programa de rádio, onde expunha suas doutrinas e polemizava com a Igreja SUD e outros fundamentalistas. Ross se sustentava como mecânico, zelador e com outros trabalhos braçais, morando num container na última fase da sua vida. O texto abaixo é um panfleto seu publicado em 1952. Continuar lendo

Dr. Rey faz campanha em capelas

Dr. Rey é mórmon – devo essa descoberta à sua candidatura eleitoral – e quer o voto dos mórmons. Ele não apenas tem enfatizado sua identidade como mórmon na mídia (como na recente entrevista à Folha de São Paulo), como tem tirado proveito de seu novo status entre os sud brasileiros. Em uma foto publicado em seu perfil no Facebook, Rey aparece no interior de uma capela, ao lado de uma vereadora e um candidato a deputado estadual. “Hoje na Igreja com Candidato a Deputado Estadual Dr Daniel e’ Vereadora Rachel Carvajal. BRASIL NÃO TEM VERGONHA DE DEUS E DEUS NÃO TERA VERGONHA DO BRASIL!! Campaigning full blast!! (Candidato para Deputado Federal #2014 ) Obrigado!!”, escreveu o médico. Em tradução livre, “campaigning full blast” é “fazendo campanha a todo vapor”.

dr rey

Mulheres: Não Falem Demais

cartazOntem aconteceu a “Reunião de Irmãs da Área da Europa”,  realizada na Alemanha e transmitida ao vivo pela internet, destinado às mulheres sud europeias. Entre os oradores estavam M. Russell Ballard e David A. Bednar, do Quórum dos Doze Apóstolos, e Donald L. Hallstrom, da Presidência dos Setenta. O cartaz do evento já havia suscitado a observação de que trazia a foto de três oradores homens numa reunião voltada exclusivamente para mulheres, o que seria revelador da posição da mulher na Igreja. Mas o discurso dado pelo Élder Ballard superou as expectativas do que poderia ser inadequado no trato com as mulheres.

Este é um trecho do seu discurso em que é afirmada a importância da participação feminina na Igreja:

Não podemos, não podemos cumprir nosso destino como a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em preparar este mundo para a segunda vinda do Salvador do mundo sem o apoio e a fé das mulheres desta igreja. Precisamos de vocês. Precisamos de suas vozes. Elas precisam ser escutadas. Precisam ser ouvidas em sua comunidade, em seus bairros, precisam ser ouvidas dentro do conselho da ala ou conselho do ramo. Mas não falem demais nessas reuniões de conselho, apenas corrijam os irmãos rapidamente e sigam adiante. Estamos construindo o reino de Deus.¹

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Wilford Woodruff: Revelação de 1880

woodruffTrechos da revelação recebida por Wilford Woodruff, em 26 de janeiro de 1880, perto das Montanhas Sunset, no Arizona, conforme registrada em seu diário.

Wooduff era à época membro do Quórum do Doze. Sete anos mais tarde, com a morte de John Taylor, ele viria a assumir a liderança da hierarquia mórmon, sendo escolhido como Presidente da Igreja em 1889. Continuar lendo

Autonomia da Sociedade de Socorro – parte 2

eliza2Investidura e Imposição de Mãos

Toda mulher que houvesse recebido sua investidura no templo estaria qualificada para dar bênçãos por imposição de mãos a uma pessoa enferma. Essa foi a afirmação de Eliza R. Snow, quando presidente da Sociedade de Socorro. O trecho abaixo é de uma seção de perguntas e respostas no jornal The Woman’s Exponent (O Expoente da Mulher), de 15 de setembro de 1884 (página 61).

“É necessário as irmãs serem designadas para oficiar nas sagradas ordenanças de lavar, ungir e impor as mãos ao administrar aos doentes?”

Certamente não. Toda e qualquer irmã que honra sua santa investidura não apenas tem o direito, mas deveria sentir como um dever, sempre que chamada para administrar a nossas irmãs nessas ordenanças que Deus graciosamente confiou às Suas filhas, assim como aos Seus filhos; e testificamos que quando administradas e recebidas em fé e humildade são acompanhadas de grande poder.

Na medida em que Deus, nosso Pai, essas sagradas ordenanças e as confiou aos Seus Santos, não é apenas nosso privilégio mas nosso dever imperioso aplicá-las para o alívio do sofrimento humano. Achamos que podemos seguramente dizer que milhares podem testificar que Deus sancionou a administração dessas ordenanças por nossas irmãs com a manifestação de Sua presença curadora.

A prática de mulheres mórmons imporem as mãos sobre enfermos surgiu com a própria formação da Sociedade de Socorro, antes do desenvolvimento da investidura, e foi defendida publicamente por Joseph Smith.

Leia a primeira parte desta série: Juízas em Israel.

Autonomia da Sociedade de Socorro – parte 1

elizaJuízas em Israel

De acordo com Eliza R. Snow, as mulheres da Sociedade de Socorro não deveriam buscar aos bispos para aconselhamento, mas usar a estrutura da Sociedade feminina para resolver seus problemas. O trecho abaixo é de uma seção de perguntas e respostas, pela então presidente da Sociedade de Socorro, no jornal The Woman’s Exponent (O Expoente da Mulher), de 15 de setembro de 1884.

‘Devem os membros da Sociedade de Socorro buscar o Bispo para conselho?’

 

A Sociedade de Socorro foi criada para ser uma organização autogovernada: para aliviar os Bispos, bem como aliviar os pobres, para lidar com seus membros, corrigir abusos, etc. Se surgirem dificuldades entre os membros de um ramo que não podem resolver entre si próprios, auxiliados pelas professoras, em vez de incomodar o Bispo, o assunto deve ser encaminhado para a presidente e suas conselheiras. Se o conselho de ramo não puder decidir de forma satisfatória, o recurso para o conselho da estaca seria o próximo passo; se isso falhar para resolver a questão, o próximo passo a traria [o problema] perante o conselho geral, a partir do qual o único recurso é o Sacerdócio; mas, se possível, devemos aliviar os Bispos em vez de aumentar suas inúmeras tarefas.

Conselho de ramo, conselho de estaca e conselho geral eram instâncias da Sociedade de Socorro.

Leia a segunda parte desta série: Investidura e Imposição de Mãos.

Artimanhas sacerdotais e as eleições

Pode uma estaca da Igreja sud apoiar um candidato a cargo eletivo? Pode seu presidente declarar tal apoio? Foi isso o que fez Francisco de Assis dos Reis, presidente da Estaca Castelão, em Fortaleza. No último dia 07 de agosto, o presidente de estaca escreveu no Facebook:

estaca2

Não há nada de errado que um líder eclesiástico mórmon declare apoio a um candidato ou participe da sua campanha. O que é problemático é um presidente de estaca afirmar que sua estaca esteja apoiando um candidato, partido ou coligação política.  Continuar lendo

Ordenanças do templo – parte 3

Vitral na Catedral de Saint-Julien de Mans, França

Vitral na Catedral de Saint-Julien de Mans, França

Simbolismo maçônico e o Ancião de Dias

Os rituais mórmons em Kirtland não teriam sido por si só suficientes para o desenvolvimento das cerimônias do templo em Nauvoo. Dois elementos ainda faltavam para formar a teologia e o ritual do templo: a posição de Adão e a maçonaria.

Muitas das revelações recebidas por Joseph Smith foram motivadas por algo que havia lhe chamado a atenção. Não foi diferente com os rituais maçônicos. O mormonismo surgiu em um contexto em que a maçonaria ainda era uma instituição relevante no acalorado debate político e religioso da época. A nova religião foi capaz de atrair a suas fileiras tanto maçons quanto antimaçons.

A denúncia de combinações secretas na narrativa do Livro de Mórmon – que tanto agradava aos mórmons de sentimentos antimaçônicos – não impediu que Joseph Smith viesse a acreditar na ideia de segredos antigos estavam sendo preservados pela maçonaria e que o segredo seria um elemento essencial para as inovações realizadas na década de 1840. De acordo com Benjamin F. Johnson, referindo-se a Joseph Smith:

Ele me disse que a Franco-Maçonaria, no presente, era as investiduras apóstatas, assim como a religião sectária era a religião apóstata. [1]

É fato inegável que Joseph Smith fez empréstimos do ritual maçônico para a investidura mórmon. Seria ingenuidade ou simplificação extrema, porém, considerá-la como uma mera cópia ou imitação.

Em sua celebrada biografia de Joseph Smith, o historiador Richard Bushman aponta as diferenças de objetivos nos rituais maçônicos e mórmons:

No difícil mundo do capitalismo emergente, as lojas [maçônicas] estabeleceram um universo alternativo de virtude e amizade contido em imagens e rituais antigos. Na superfície, o templo [mórmon] parece com o mundo fechado, fraternal das lojas. Mas o cerne espiritual da investidura de Nauvoo não era a ligação masculina. Em 1843, mulheres estavam sentadas nas salas de ordenanças e passando pelos rituais. Adão e Eva, um par homem-mulher, eram as figuras representativas, ao invés do herói maçônico Hiram Abiff. O objetivo da investidura não era fraternidade masculina, mas a exaltação de maridos e esposas. [2]

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Pioneiros mórmons: um novo olhar

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Pioneiros mórmons em South Pass, Wyoming, aproximadamente 1859.

Dia 24 de julho marca a entrada do primeiro grupo de pioneiros, liderados por Brigham Young, no Vale do Lago Salgado, em 1847. Fugindo dos Estados Unidos, eles adentraram uma região em disputa com o México. Dois artigos publicados nesta semana, nos jornais Salt Lake Tribune e Deseret News, trazem informações pouco conhecidas e desfazem alguns mitos a respeito das condições de vida dos pioneiros mórmons.

Carrinhos de mão – cerca de apenas 5% dos imigrantes mórmons usavam carrinhos de mão (3 mil dentre 70 mil,

Pintura de Cloy Kent.

Pintura de Cloy Kent.

aproximadamente), de acordo com Paul Reeve, historiador da Universidade de Utah. Houve 10 companhias de carrinhos de mão que fizeram a jornada a oeste entre 1856 e 1860. O grupo que chegou em 1847 usava carroças, assim como a maioria dos demais pioneiros. Continuar lendo

Igreja processada por violar direitos autorais

Prédio do Escritório da Igreja

Prédio do Escritório da Igreja

A Corporação do Presidente de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias tem sido bastante zelosa em relação aos seus direitos de propriedade intelectual, processando indivíduos ou empresas que usem o que considera ser suas marcas registradas. Agora é a vez da Igreja ser processada por violar os direitos de uma empresa nos Estados Unidos. A Litchfield Associates, sediada na Flórida, está processando a Igreja – juntamente com as empresas Intellectual Reserve, Inc.e Deseret Book Company – por desrespeitar o acordo envolvendo o uso de sua Bíblia em versão audiolivro.¹ Continuar lendo

A autoridade nunca falha

Porque sim’ não é resposta. Quem assistia ao programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum deve lembrar dessa frase, tão divertida quanto verdadeira. No cotidiano da Igreja sud muitas vezes nos deparamos com a resposta “porque sim.” Geralmente é traduzida como

– “está no manual”;

– “é o que a igreja ensina”;

– “os líderes decidiram”.

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Para silenciar perguntas, apela-se à autoridade, seja de uma publicação (que ninguém sabe qual é), seja de uma entidade (da qual o indivíduo que questiona também é parte), seja de um grupo de homens (que podem ou não ser apoiados pelo indivíduo). Esse é um vício danoso, que tem causado estragos enormes na cultura mórmon.

Antes do início da Copa do Mundo, eu havia escrito sobre o aparente descontentamento entre membros sud brasileiros sobre o envolvimento do Mãos Que Ajudam no evento da Fifa. Em uma pesquisa informal, mais de 70% dos nosso leitores disseram que tal envolvimento não eram condizente com os propósitos do projeto humanitário e que não seria positivo para a imagem da Igreja no Brasil.

Não deixei de ficar um pouco surpreso, porém, ao ver na página da Sala de Imprensa da Igreja comentários críticos à atuação do Mãos que Ajudam na Copa da Fifa. Vejamos um exemplo: Continuar lendo

Hinário não é brinquedo

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Ordenanças do templo – parte 2

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Planta do templo de Kirtland

O que significavam “investidura” e “selamento” para os mórmons na década de 1830?

Em dezembro de 1830, Joseph Smith recebeu uma revelação que ordenava a migração para o estado americano de Ohio, onde, além da maior segurança, os santos seriam “investidos com poder do alto”. ¹ Na década de 1830, mórmons interpretavam a palavra “investidura” como um fenômeno espiritual a ser buscado, pelo qual indivíduos seriam dotados de poder ou dons espirituais, manifestos em profecias, visões ou dom de línguas. Os relatos do período de Kirtland são ricos na descrição de experiências dessa natureza. Os rituais realizados em Kirtland para a busca de tal “investidura” do Espírito eram mais simples do que os que seriam desenvolvidos em Nauvoo. As abluções e unções seguiam um padrão semelhante ao descrito no texto bíblico.² Continuar lendo