O livro mais subestimado

John HajicekConhecemos a famosa equação que nos diz haver uma relação perfeita entre a origem histórica do Livro de Mórmon, o chamado de Joseph Smith como profeta e a Igreja sud como a única igreja que possui autoridade divina. Como não-membro, isso me foi ensinado nas palestras missionárias, e como missionário, também reproduzi isso a outras pessoas. Hoje percebo, no entanto, que pode haver um efeito nocivo, colateral, nessa equação.

O problema inicial está em nossa abordagem do Livro de Mórmon como uma porta de entrada para a Igreja. Queremos que seus leitores sejam futuros conversos. Nada mais nobre. Mas, convenhamos, isso é por demais limitador, tanto para membros quanto não-membros. E se tais leitores não se tornarem membros? O Livro de Mórmon não serve para outra coisa? Para ser lido, quem sabe? E será que nesse processo não subestimamos também a sua importância para os membros? Desconfio que sim. Subestimamos a importância dele como “uma voz que clama desde o pó”.

Como mórmons do século XXI, relacionamos a sua leitura muito mais ao processo de filiação à Igreja do que ao nosso processo pessoal de conversão. Falo conversão no sentido do nosso crescimento e aprendizado espirituais. “O Livro de Mórmon é o melhor missionário”, costumamos ouvir. Há uma enorme diferença entre conceber o Livro de Mórmon como um texto sagrado e vê-lo como “ferramenta missionária”. Questiono se devemos entender o Livro de Mórmon como essa porta de entrada para a Igreja, subordinando-o a algo que está fora dele (a Igreja), ou oferecendo a sua leitura como um processo de descoberta da Igreja, ao invés de um processo de descoberta das verdades que seu próprio texto contém. Isso mostra como temos tratado o Livro de Mórmon como uma outra coisa que não escritura.

Acredito que o Livro de Mórmon é na prática o livro mais subestimado e desconhecido entre os santos dos últimos dias, ainda que seja o mais citado na Igreja sud. Seus alertas contra o orgulho, o culto às riquezas e a divisão do povo do convênio em classes sociais não são comumente relacionados a nós, santos dos últimos dias. Baseados muito mais em tradição do que na leitura do texto em si, imaginamos que devem ser alertas para o nosso vizinho que obviamente é de outra religião ou não tem nenhuma. Atitude digna dos nefitas nos seus piores dias.

Leia mais sobre o Livro de Mórmon

Desformatação – a diagramação original do Livro de Mórmon e uma experiência de leitura

Nifai: uma nova tradução para I Néfi 3:7

O Livro Tibetano os Mortos e o Livro de Mórmon

35 comentários sobre “O livro mais subestimado

  1. Antonio; “Questiono se devemos entender o Livro de Mórmon como essa porta de entrada para a Igreja,” . Concordo com voce que a logica triangular que todos nos aprendemos e repetimos ad nauseum na missao, se o LdeM e verdadeiro, entao Joseph Smith foi um profeta e se ele foi um profeta entao a igreja e verdadeira, pode ser muito perigosa para o testemunho das pessoas. Porque esse logica coloca o peso da veracidade da Igreja sobre o Livro de Mormon, o livro se torna o alicerse intelectual sobre o qual testemunhos sao construidos, e perdidos. Porque quando se comeca a aprender sobre os problemas com o L de M , os quais sao muitos, os fieis veem seu testemunho ir por agua abaixo. Porque a inpressao e que o Lde M e perfeito, ao menos essa e a ideia que e martelada na nossa cabeca desde a primaria ao instituto, “o livro mais perfeito na face da terra. E quando essa perfeicao e provada nao ser a realidade muita gente deixa a igreja. O livro de mormon entao se transforma na porta de saida da igreja ao inves da porta de entrada. Eu na minha opiniao humilde gostaria de ver uma diminuicao da enfase no LdeM e uma enfase maior em Cristo nas palestras missionarias. Que os missionarios parem de ensinar essa logica triangular que eu mencionei acima. Afinal nos primeiros vinte anos de igreja o trabalho missionario se focalizava muito pouco sobre o LdeM, mas sim em Jesus e na restauracao, de acordo com historiadores da igreja. Eu por minha parte tenho desconstruido o LdeM em muitos aspectos e nao considero mais muitos de seus claims historicos, po plausiveis em luz da ciencia, linguistica e arqueologia moderna. E eu continuo descobrindo e reevaliando o Lde M. Mas eu sinto o espirto quando o leio e adoro a teologia do LdeM e continuo tendo um amor muito grande pelo livro.
    Daniel Lima

    • Daniel, muitos dos “problemas” encontrados não estão no livro em si, mas nas pressuposições feitas sobre ele – por ex., como o Livro foi traduzido, a proporção de descendentes dos povos israelitas entre os ameríndios, etc..

      Mesmo aqueles que têm uma visão crítica parecem querer que a Igreja responda sobre tudo isso, como se a Igreja sud fosse a guardiã do Livro de Mórmon e pudesse esclarecer tais fatos.

  2. E o se o livro não for verdadeiro – no sentido de contar um história factual? A Igreja desmoronará por causa disso? Ainda sim poderá ser relevante? Lembro de um comentário que você (Antônio) postou na comunidade Mormon Stories Brasil, no Facebook, onde você afirmava ter lido certa vez, num muro ou outdoor, a frase “Leia a Bíblia” e se perguntava se, algum dia, teríamos o LM em tão alta conta que ele passasse a ser significativo pelo valor do seu conteúdo, e não apenas por seu “caráter missionário”. Pessoalmente, acho as querelas para provar ou negar a historicidade do LM irrelevantes – como salientado no texto, o poder do LM está em sua mensagem vigorosa e relevante para todas as pessoas de todas as épocas, penso que nisto consiste sua “verdade”. Concordo quando diz que muito de sua mensagem é ignorada na Igreja SUD atualmente. Como fazemos com profetas menos consagrados – como Nietzsche e Sócrates – desbastamos o conteúdo revolucionário de sua mensagem e o tornamos, assim como fazemos com a Bíblia, na nossa caixinha de promessas pessoal.

    • Leonel, eu vejo o LM como um registro histórico. Isso é uma crença obviamente e não pode ser provada.

      Quando falo em registro histórico, eu me refiro ao que Joseph Smith tinha em mãos ou recebeu para traduzir. Sua tradução, no entanto, reflete muito da sua época, língua, crenças, etc. Talvez a existência de imperfeições no LM, que o Jonas muito bem lembra abaixo, inclua, quem sabe, a sua tradução também. Brigham Young disse que se o LM fosse traduzido hoje, seria um texto diferente.

      • Antonio, parece-me contraditório você ver o Livro de Mórmon como registro histórico. Onde estão suas fontes? No céu, levadas pelo anjo? Claro que não estou questionando sua fé. Refiro-me ao fato de você ser historiador.
        De todo modo, ao fazer essas indagações não quero diminuir a importância do Livro de Mórmon. Há muito que eu já havia percebido que o Livro de Mórmon é subutlizado e que seus ensinamentos não são muito enfatizados, exceto no seu aspecto devocional. Talvez porque alguns deles contradigam as doutrinas posteriormente ensinadas por Joseph Smith e expostas em D&C. Talvez pela fragilidade das “provas” arqueológicas.
        Mas parece-me, também, que esse desprestígio do Livro de Mórmon foi causado pelo próprio Joseph Smith, que nunca deu muita importância às suas doutrinas. Quanto ao uso do Livro de Mórmon como “ferramenta”, parece-me que esse também foi seu destino desde o início, para promover Joseph Smith e seu projeto.

  3. Prezados, O Livro de Mórmon não é a porta de entrada, mas sim a “pedra fundamental” da igreja, ele serve como mais uma testemunha de Jesus Cristo, e não só isso, mas serve sim como mais uma testemunha da restauração do evangelho através de Joseph Smith! A questão não é se ele é perfeito ou não, afinal basta ler a folha de rosto que diz que se existe falha, é falha dos homens. MAS devemos portanto, questionar se ele é VERDADEIRO, e perguntar isso a Deus. A lógica triangular faz sim muito sentido! Se o Livro for VERDADEIRO, tudo mais também é, não concordam??? Se membros enfraquecem o testemunho pelas eventuais imperfeições do Livro de Mormón, devem orar mais, buscando orientação de Deus,(Tiago 1:5).

    • Jonas, a lógica triangula faz sentido, claro. Mas para o objetivo específico de fazer novos conversos.

      O problema da triangulação é que ela reduz a importância do próprio Livro de Mórmon como escritura, fazendo dele isso que chamei no artigo de “porta de entrada” para a Igreja ou uma “ferramenta missionária” para se descobrir a veracidade da Igreja e o papel divino de Joseph Smith.

      Essa triangulação também reduz a importância de Joseph Smith, cujos ensinamentos vão muito além da teologia exposta no Livro de Mórmon. Aqui caberia contextualizar a afirmação de que o LM contém a “plenitude do evangelho”, feita em uma época em que Joseph Smith *ainda* não possuía a “plenitude do evangelho”.

      Abraços!

      • Irmão Antonio, outras Igrejas (que surgiram após a morte de Joseph Smith até nossos dias) que também ensinam sobre o Livro de Mormon não poderiam se encaixar na triangulação? Se uma pessoa conhecesse sobre Joseph Smith e o Livro de Mórmon através da Comunidade de Cristo, por exemplo, e usasse essa triangulação logo não diria ela que a Comunidade de Cristo é a Igreja verdadeira? Ou um SUD que passasse a conhecer essas outras denominações não poderia ficar confuso e se perguntar qual seria realmente a Igreja Verdadeira ou a terceira parte da triangulação? Não sei se consegui me fazer entender, mas gostaria de saber a opinião do irmão.

      • Penso que meu comentário vai fugir um pouco da discussão em curso (sendo apenas uma resposta ao comentário do Marcos), mas, na minha opinião, a “única igreja verdadeira e viva na face de toda a Terra, com a qual eu, o Senhor, me deleito” (D&C 1:30) não é uma instituição criada para atender a requerimentos legais (ou seja, uma “corporação”, com nome fantasia, estatuto, CNPJ, etc), mas sim o “corpo místico de Cristo”, formado por “[a]quele que se arrepende e vem a [Cristo]” (D&C 10:67), independente de qual seja a denominação a que estejam vinculados.

      • Nunca havia pensado nisso, sinceramente. Meu conhecimento sobre a Comunidade de Cristo é pequeno e não posso responder com toda certeza como isso se dá entre eles, particularmente sobre o que ocorre no seu proselitismo. O que tem acontecido na Comunidade de Cristo é, no entanto, um processo de retirar a ênfase no Livro de Mórmon. Como eles tampouco reivindicam ser a “única igreja viva e verdadeira”, não acredito que haja algo parecido com o que é proposto pela triangulação sud. Teríamos que pesquisar como outros ramos dissidentes da antiga RSUD encaram toda essa questão.

        Entre os diversos ramos do mormonismo que praticam casamento plural, muito poucos fazem proselitismo. Seus conversos vêm da Igreja sud principalmente e já têm uma aceitação do Livro de Mórmon e outras escrituras. O debate gira portanto mais em torno de outros ensinamentos de Joseph Smith. Ainda com poucas exceções, a maioria dos fundamentalistas não acredita ter ou ser “a única igreja”, com muitos inclusive reconhecendo a autoridade divina da Igreja sud.

        Por outro lado, sim, crer nessa triangulação e saber que há outros grupos e igrejas que também utilizam o Livro de Mórmon poderia, ao menos teoricamente, causar perplexidade. Mas como a maioria dos sud provavelmente ou não sabe da existência desses grupos ou os classifica imediatamente como apóstatas, essa confusão não deve ser algo muito comum.

        (Isso inclusive me fez lembrar a pergunta que me foi feita nas palestras missionárias: “você conhece outra igreja que tenha o nome de Jesus Cristo?”)

  4. Os missionários usam praticamente 3 passagens chaves do Livro de Mórmon como introdução a novos pesquisadores:
    1) II Néfi 31=> enfatizar a importância de seguir o exemplo de Cristo pelo Batismo
    2) III Néfi 11 => relato da visitação de Cristo às Américas após sua ressurreição. De certa forma aí se entende a frase plenitude do evangelho (evangelho = ‘boas novas’ da Ressurreição de Cristo).
    3) Morôni 10:3-5 => Desafio de Morôni para que tenhamos uma revelação pessoal da veracidade do LM

    Na verdade a ordem correta de apresentação aos pesquisadores é 2-3-1. Se o LM é uma revelação que ratifica o testemunho da ressurreição de Cristo, então você deve descobrir isto através de uma revelação pessoal. Somente a partir do conhecimento recebido através deste canal religioso, a lógica proposta na introdução do LM se forma:
    A) O LM é produto de uma revelação de Deus que ratifica a ressurreição de Cristo e seu papel como Filho de Deus e Salvador deste mundo;
    B) Se é produto de uma revelação, então o instrumento humano pelo qual ela se revelou foi um profeta de Deus (independente de suas falhas ou imperfeições)
    C) Este profeta tem autoridade para representar Cristo nos dias atuais e convida todos a seguirem a Cristo através do batismo em sua Igreja restaurada.

    Não sei se me seguiu até aqui Antônio. Mas o que quero dizer que o LM é chave para que o investigador tenha uma experiência espiritual, um conhecimento além do científico e do lógico. Todos vocês que serviram Missão se lembram muito bem como era a reação dos investigadores quando voltávamos para a 2a palestra:
    1) Investigadores não leram o LM e nem oraram => recepção fria, missionários quase como um estorvo na vida deles.
    2) Leram o LM mas não oraram => recepção média. Demonstravam curiosidade, mas ainda receosos de assumir qualquer compromisso com a Igreja.
    3) Leram o LM e oraram => bolinho e refrigerante já esperando os missionários. Só falta batizar…

    Resumindo: O LM é chave na 1a palestra, nas demais palestras a Bíblia e até mesmo D&C são mais usadas para ensinar princípios como Sacerdócio, Dízimo, Casamento Eterno, Templos, etc.

    • Marcelo,

      muito bom o seu resumo das abordagem missionária do LM.

      Imagino que baseado na sua própria experiência, você deve intuir que os três cenários que você descreve acima sobre a leitura do LM pelo não-membro são altamente genéricos. A vida real as pessoas é bem mais complexa, sem falar de requisitos para o batismo por parte da Igreja que não estão relacionadas à leitura do LM (“Palavra de Sabedoria”, frequência a reuniões dominicais, observância da castidade, eventual renúncia a outras crenças e práticas espirituais, etc).

      Sinto que toda essa ênfase na leitura do LM e obtenção de revelação pessoal a respeito de sua origem divina e a respeito de outros aspectos a ele relacionados (a missão de Joseph, o papel da Igreja, etc) não segue adiante, caso a pessoa se filie à Igreja. Uma vez que o objetivo inicial é que o não-membro se torne um membro, após o batismo a etapa já foi vencida, por assim dizer, e aquele livro passa a receber menos importância.

      Da mesma forma, passa a haver uma menor ênfase na obtenção de revelação pessoal por parte do membro para assuntos doutrinários ou históricos. Obtida a resposta inicial, basta seguir adiante.

      O uso que se faz do LM nas classes de Doutrinas do Evangelho (“membros antigos”, pelo apelido carinhoso) também é muito revelador do quanto queremos aprender sobre o LM. Em geral, muitas aulas são um recitar superficial de tradições que recebemos sobre como ler o LM, ao invés de uma exposição do seu conteúdo. A mensagem apocalíptica e milenarista do LM, por ex, é geralmente ignorada. Não lemos sobre a visita de Cristo aos nefitas pensando numa prévia da Segunda Vinda, nem – muito menos – pensamos nos alertas da decadência espiritual e social dos nefitas como um alerta para a Igreja contemporânea. “Uma bíblia, uma bíblia, temos uma bíblia e não precisamos de mais bíblia” parece descrever muito bem a atitude que prevalece entre os sud com respeito a seu conjunto de verdades.

      • Era isso que eu gostaria de dizer mas felizmente alguem com mais poder intelectual o fez. Obrigado Antonio Trevisan. Como vc bem disse ” a mensagem apocaliptica do LM e grandemente ignorada, os membros sao ensinados a depender dos lideres (confiar no braco da carne) e ignorar a mensagem vinda direta da fonte, para mim o perigo maior esta na manipulacao sutil, talvez nao intencional dos manuais e dos comentarios de introducao em cada capitulo, que acaba por condicionar o leitor a entender o livro de certa forma. Alguns resultados desses comentarios e manuais sao : membros acreditam que Lama e Lamuel eram pessoas maldosas porem se a maioria de nos estivessemos na mesma situacao que eles talvez fariamos ate pior que eles; membros acreditam que a igreja Catolica seja a tal igreja abominavel que Nefi viu sendo formada entre os gentios; membros acreditam que o homem cujo homem que Nefi viu separado da semente de seu pai seja Cristovo Colombo; membros acreditam que somente Lehi sua familia, Zoram e a familia de Ismael vieram para o continente Americano, essas e muitas outras interpretacoes que levam os membros a nao estudarem o LM como deveriam.

  5. Antonio,

    Agora eu entendi, o que vc queria dizer é que O Livro de Mórmon é sim uma ótima ferramenta, MAS não apenas isso! Eu só fiquei confuso na hora em que vc falou sobre enfraquecer o testemunho por ele não ser perfeito, pois afinal,o que temos que saber é se ele é verdadeiro ou não!

  6. Antônio, quero gritar AMEM!! ao terminar a sua postagem, pois venho sentindo assim faz anos. Para mim, desde a primeira vez que li o LM, o que me animou tanto sobre ele foi os ensinamentos belos que ele transmite sobre desigualdade económica, orgulho, e o nosso dever de cuidar de um ao outro tanto no sentido temporal quanto no sentido espiritual. Já pensei muitas vezes que se os membros da igreja aqui nos EUA realmente lerem o LM de verdade, a igreja estaria cheio de socialistas. 🙂 Bom, talvez só sinto assim porque eu gostaria de ver mais socialistas como eu por aqui, especialmente quando sinto que minhas opiniões mais progressivas (no sentido político) vieram do meu estudo do LM e as outras santas escrituras. Mas claro, como qualquer experiência na vida humana, têm tantas maneiras de interpretar as escrituras como têm estrelas no céu. Seria um início ótimo se todo mundo pelo menos lesse o LM para chegar à suas próprias conclusões, em vez de usá-lo da maneira superficial que você descreve tão claramente.

    Sei que provavelmente é difícil encontrar uma cópia fora dos Estados Unidos, mas você já ouviu falar do livro Understanding the Book of Mormon: A Reader’s Guide por Grant Hardy? Ele é um homem bem eloquente e pensativo, e aborda os temas maiores do LM de uma maneira bem diferente do que ouvimos todo domingo na Escola Dominical.

    • Oi, Rolf,

      pelo que sei da política mainstream dos EUA “socialista” é um xingamento bem feio por aí;) Logo, imagino que você não vai ter muitos aderentes ao socialismo!

      Brincadeiras à parte, é interessante lembrar que o mormonismo pode ser visto como um movimento utópico, com suas dimensões políticas e econômicas. A ordem unida, o sentido de comunidade, entre outros elementos, deveriam ter criado um povo distinto. E criou, pelo menos até 1890. Poderia criar de novo? Quem sabe na esfera pessoal e familiar de cada um…

      Já ouvi falar do trabalho de Grant Hardy e espero poder ler sua obra sobre o Livro de Mórmon. Sinto essa necessidade de resgatar” o Livro de Mórmon do lugar pobre que demos a ele. Talvez você também goste do trabalho de Daymon Smith sobre a “história cultural” de como lemos o LM, o que parece explicar um pouco da bagunça – http://daymonsmith.wordpress.com/the-cultural-history-of-the-book-of-mormon/

      Abraços!

      • Oi Antônio,

        Bom, eu e meus amigos americanos socialistas nunca ligaram muito com aquele pessoal para quem socialista é um xingamento tão forte—talvez é por isso que, na política como também com referência à trindade sagrada de música, futebol e dança (quem não gosta de um forrózão de vez em quando?), sempre fui brasileiro de coração. Pois por grande parte foi o meu tempo no Brasil, trabalhando com o Movimento Sem Terra depois da minha missão, quando fiquei ligado a muito da literatura (primeiramente Paulo Freire e vários dos pensadores maiores na teologia da libertação) que me puxou a ver muito do LM através da lente de justiça social.

        Conheço um pouco do trabalho de Daymon Smith-ouvi a entrevista dele em Mormon Stories, e já li muito do que ele tem no seu site, e acho ele bem inteligente, mas me irrita um pouco quanto ele obviamente gosta de sua própria voz, seja no falar ou no escrito.

        Na verdade, é a teologia utópica que é a parte do mormonismo que sempre mais me interessou, a procura de Sião da qual Hugh Nibley escreveu tão eloquentemente. Admito que tenho um pouco de “ciúme sagrado” dos católicos que tem a luta pela justiça social como coisa atual, não somente como parte histórica da trajetória da sua comunidade (como nós temos com a ordem unida). Quem sabe se a experiência SUD, especialmente for a dos EUA, não produz uma teologia de libertação e movimento de comunidades de base na comunidade Mórmon também? Claro, não é bem provável, especialmente com a estrutura estrita que temos graças à correlação, mas um rapazinho mórmon socialista pode sonhar, não é?

  7. Acabei de ler a postagem sobre mórmons no movimento original zapatista, e achei interrestantíssimo. Você sabe aonde posso achar sua presentação ou texto completo?

  8. Todos precisamos sonhar, Rolf 😉

    Acredito que experiência mórmon fora dos EUA tem muito a se beneficiar com uma leitura social do Livro de Mórmon e demais escrituras. Para tanto, seria necessário tirar o gesso herdado da leitura devocional mais comum na Igreja sud.

    Talvez de forma semelhante, a diversas vertentes do socialismo também possam dizer algo ao mundo de hoje abandonando seu matiz totalitário, autoritário. Por enquanto, o que temos visto na América Latina é partidos de esquerda que se converteram em excelentes gerentes do capitalismo, com pouca diferenciação dos gerentes mais tradicionais, e em muitos casos pondo em risco liberdades civis.

    O MST e a Via Campesina perderam bastante apoio popular entre brasileiros nos últimos anos à medida em que ocupações e protestos passaram a ser mais violentos. Compreendo que há diferentes correntes ideológicas dentro do movimento que o disputam entre si. Mas aparentemente, as correntes majoritárias simpatizam com o castrismo, chavismo e outros ismos arcaicos ou novos que pouco prezam a liberdade humana. Muitos trabalhadores têm medo do MST. Seja como for, a questão fundiária no Brasil é uma longa novela que se arrasta desde os tempos do império e ainda permanece por ser resolvida.

    • Já faz um bom tempo desde que trabalhei com o MST (foi em 2005), e minha experiência com eles foi bem isolado—somente trabalhei com um acampamento na Bahia que já estava bem estabelecido. Eu estava trabalhando com a escola lá, pois a maioria da minha carreira tem sido com educação para adultos, primeiramente alfabetização (trabalhei nesta capacidade por um ano e pouco também em Moçambique, com uma ONG lá). Acredito plenamente que há bastante capacidade para abuso no MST, e espero que o meu comentário não parecia insinuar uma certa ingenuidade que todos os sem-terra são bonzinhos. Como Freire próprio disse, sem procurar sincera e continuamente à conscientização crítica, é bem fácil (e natural) para os oprimidos virar os opressores, como claramente vemos com os exemplos dos irmãos Castro, o Mugabe em Zimbabwe, e tantos outros. Mesmo que eu sinta uma afiliação ideológica com o PT e o MST (e Lula e Evo Morales e outros da esquerda na América Latina), tenho muitas queixas sobre o que os dois têm feito desde que receberam mais poder (estava no Brasil durante a bagunça do mensalão). Isso sem falar da posição neoliberal que Lula tomou quando finalmente chegou no poder. Um dos perigos maiores de qualquer movimento revolucionário é a possibilidade para corrupção e violência—vemos isso mesmo comparando o legado de Nelson Mandela e a bagunça que é o ANC atual, e tantos outros exemplos. Mesmo assim, ao meu ver é importante que há “críticos leais” em qualquer movimento (ou religião), que podem apoiar os ideais no movimento e mesmo assim sobrepujar o medo de notar as faltas e fraquezas dentro dele, lutando para melhoramento de dentro.

Deixe um comentário abaixo:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s