O nervinho

Texto de Sueli Patelli

670px-Put-Shoes-on-a-Baby-Step-6Numa época em que a Igreja costumava alugar casas para iniciar seus “ramos”, meu pai foi chamado para ser o presidente de um ramo no interior de São Paulo. A casa era grande, tinha cômodos amplos que acomodavam de maneira adequada toda a congregação. Para uma criança de sete anos, não importava tanto o tamanho da casa, mas o grande quintal que ela tinha.

Era lá que, depois da sacramental, brincava com meus irmãos, enquanto meu pai ficava em reuniões e entrevistas. Corríamos pelo quintal cheio de pedregulhos e gastávamos toda a energia contida durante a manhã de domingo. Tínhamos muitos amiguinhos que brincavam conosco, os filhos dos conselheiros e de outros líderes também. As mães muitas vezes ralhavam com a gente, principalmente com as meninas por causa dos vestidos, meias e sapatos.

Numa manhã de sábado, meu pai resolveu fazer uma atividade com a nossa família. Teríamos a incumbência de retirar as tiriricas que cresciam no quintal da Igreja, uma espécie de praga que se alastrava por quase todo o terreno. Enquanto minha mãe limpava a parte interna, meu pai, eu e meus irmãos começamos a limpeza do quintal. Era um tal de puxa daqui, puxa dali e comemorávamos quando conseguíamos retirar a praga pela raiz. De repente, ouvimos um grito estridente. Era minha irmã menor, de cinco anos. Vi seu dedo cortado, sagrando e ela chorando compulsivamente.

Minha mãe rapidamente chegou para avisar que iria levá-la ao hospital porque tinha perdido o “nervinho” do dedo do pé esquerdo. Não pude ir ao hospital. Fiquei na capela com uma irmã que chegara para uma reunião da Primária. As palavras da minha mãe não saiam da minha cabeça: “…ela tinha perdido o nervinho do dedo…”. Não tive dúvidas, corri até o fundo do quintal da Igreja e vi o sangue derramado da minha querida irmã. Procurei pelo “nervinho”. Tinha que achá-lo e devolvê-lo a minha irmã, pois sem ele minha mãe também falara que o dedo dela ficaria sem movimento.

Passei a tarde inteira procurando, mas sem êxito fiquei entristecida. Não encontrei nada que, na minha imaginação mágica, pudesse parecer com um nervinho. Algumas horas depois, minha mãe chegou com a minha irmã e vi seu pé coberto por ataduras. Precisava pedir desculpas a minha mãe por não ter encontrado o nervinho. Achava que tinha obrigação de ajudar a minha irmã naquele momento de aflição.  Sentei perto da minha mãe e disse: “Mãe, procurei pelo nervinho, mas não encontrei”. Ela, gentilmente, segurou em seus braços e disse que ficaria tudo bem.

Os anos se passaram e a história do “nervinho” ainda vem a minha mente como algo ingênuo e bom, mostrando a bondade, a vontade de ajudar e o amor que emana de uma criança. Penso que na época em que o Salvador Jesus Cristo disse: “Deixai vir a Mim as criançinhas porque delas é o reino dos céus”, sabia que estava falando de seres inocentes e puros de coração.

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4 comentários sobre “O nervinho

  1. Lindo texto! Ai que saudade da época da primária, saudade que dói!! A inocência das crianças…só pra ilustrar, esses dias meu filho me disse: “Mãe, eu adoro ir pra Isconde de Mauá. Lá é muito legal, mas eu ainda não entendi a parte do Isconde….isconde o que do Mauá?” Rrsrsrs (Visconde de Mauá/ RJ)

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