O Declínio da Adoção

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George Q. Cannon e outros mórmons presos por “coabitação ilegal”.

Como a doutrina de progressão eterna e o casamento plural, a lei da adoção era parte essencial dos ensinamentos de Joseph Smith em Nauvoo. Com a colonização do oeste, a adoção ainda influenciava a vida social e as crenças mórmons, cumprindo os propósitos de edificar, a partir da Igreja, um povo – o grande objetivo sonhado por Joseph Smith.

Muitos santos dos últimos dias, porém, não estavam contentes com a lei da adoção e a maneira como influenciava a construção de sua família, especialmente com a adoção dos ancestrais falecidos como descendentes. O descontentamento com a lei da adoção era também partilhado por parte das autoridades gerais, incluindo Wilford Woodruff, quarto presidente da Igreja sud. No final do séc. XIX, antes de interromper completamente a adoção de ancestrais falecidos como posteridade dos membros vivos, a Igreja já havia deixado aos presidentes de templo a decisão sobre como instruir os membros nessa questão, de forma que muitos santos já estavam sendo selados a seus pais biológicos falecidos, mesmo quando esses não haviam recebido as ordenanças do evangelho em vida.

Leia aqui a primeira e a segunda partes deste estudo.

Impopularidade

A lei da adoção, que havia nascido ao lado do casamento celestial plural, teria agora seu fim logo após o fim oficial do casamento plural com o Manifesto de 1890. Em 1894, Woodruff decidiu que a ordem de selamentos dos ancestrais deveria ser revertida, seguindo a ordem biológica da árvore familiar. A nova diretriz foi proclamada por Woodruff na conferência de abril de 1894:

(…) o dever que quero que todo homem que preside um templo veja realizado deste dia em diante e para sempre, a não ser que o Senhor Todo Poderoso ordene em contrário, é que todo homem seja adotado a seu próprio pai. (…)

A decisão de Wilford Woodruff tornou as ordenanças vicárias mais semelhantes ao que é

Pia batismal no templo de Salt Lake.

realizado hoje nos templos sud. No entanto, apesar de interromper a prática dos membros serem adotados a um outro membro vivo, Wilford Woodruff ensinou que o princípio de adoção ao cabeça da dispensação deveria ser mantido, selando o último ancestral encontrado na história da família a Joseph Smith:

Queremos que todos os santos dos últimos dias tracem suas genealogias até onde puderem e sejam selados a seus pais e mães. (…) Quando chegar ao fim, deixe o último homem ser selado a Joseph Smith, que permanece à cabeça desta dispensação. (James R. Clarck (org.), Messages of the first Presidency, 3:256; ênfase nossa)

Também os critérios de dignidade não poderiam ser postos de lado, de acordo com a nova diretriz. Woodruff, na mesma mensagem, fala do caso de homicidas que porventura alguém encontrasse na sua genealogia:

“Mas,” alguém diz, “suponha que cheguemos a um homem que talvez seja um assassino”. Bem, se ele é um assassino, deixe-o de lado e conecte-se com o próximo homem depois dele. Mas o Espírito de Deus estará conosco nesta matéria. (ibidem)

Nesses dois últimos critérios, há uma clara diferença em relação à atual obra sud em favor dos mortos, uma vez que a adoção a Joseph Smith ou outra pessoa fora da linhagem familiar é simplesmente impossível e nenhum critério de dignidade pessoal é mais aplicado aos mortos.¹ Infelizmente, em minha pesquisa bibliográfica ainda não pude determinar quando a prática de adoção a Joseph Smith foi totalmente abandonada.²

Apagando o passado

Wilford Woodruff

Sob a presidência de Wilford Woodruff (1889 a 1898), a Igreja viveu um período de profundas mudanças que alterariam para sempre a organização deixada por Joseph Smith. Sob a pressão do governo norte-americano, a Igreja se viu no limite da existência tanto legal quanto física, onde os aspectos econômico, político e social da construção de Sião foram atacados diretamente, de forma que abdicar da Ordem Unida, do governo teocrático e do casamento plural foi o preço requerido pela americanização de Utah e, por conseguinte, do próprio mormonismo.

Assim como no caso do Manifesto, nunca houve o registro de uma revelação que corroborasse a decisão de mudar o princípio de adoção, embora houvesse, em ambos os casos, uma alusão ao recebimento de tais revelações. Diferente do casamento plural, a lei da adoção era bem menos conhecida do público norte-americano e, com certeza, bem menos chocante à opinião pública. No entanto, as palavras de Woodruff parecem sugerir um elo entre a lei da adoção e um passado recente que a Igreja tentava então abandonar. Falando sobre as distorções que a prática adoção havia sofrido desde seu início, o presidente Woodruff faz referência a John D. Lee, o único membro da Igreja penalizado pelo massacre de Mountain Meadows, ocorrido em 1857:

(…) um homem saia por Nauvoo pedindo a todo homem que pudesse, “se você for adotado a mim, eu vou estar à cabeça do reino e você estará lá comigo”. Agora, qual a verdade sobre isso? Aqueles que foram adotados aquele homem, se forem com ele, terão que ir aonde ele está. Ele foi um participante naquele terrível episódio – o massacre de Mountain Meadow [sic]. (idem)

John D. Lee, filho de Brigham Young pela lei da adoção

A seguir, Woodruff passa a defender Brigham Young, afirmando que este não teve envolvimento algum nos episódios de 11 de setembro de 1857. Chama a atenção o fato do nome de Lee não ser pronunciado uma única vez por Woodruff; tampouco é mencionada sua condição como filho adotivo de Brigham Young – o fato referido é que outros homens haviam sido adotados a Lee.³ Tendo relembrado a figura de John D. Lee – executado 17 anos antes por um pelotão de fuzilamento – como exemplo do potencial perigo a que se submeteram os que a ele foram selados, o presidente Woodruff diz que

Homens estão a perigo às vezes ao serem adotados a outros, até saberem quem eles [os pais adotivos] são e o que farão.

Apesar de sugerir que o selamento aos próprios ancestrais mortos seja espiritualmente mais seguro, o presidente Woodruff não aplica aos mortos o mesmo raciocínio sobre “ir aonde eles estiverem”, desconsiderando o fato de que sua trajetória mortal é em muitos casos desconhecida dos seus descendentes. Tampouco ele desenvolve o tema da validade ou não do selamento, ou sua dependência da integridade dos indivíduos envolvidos.

Uma nova era

Enquanto o Manifesto não findou totalmente a prática do casamento plural na Igreja sud, colocando-a de volta à esfera não-pública, como nos dias de Nauvoo, a mudança na ordem de selamentos dos mortos e o fim do selamento de um homem vivo a outro não encontraram uma resistência semelhante que fizesse com que a lei original da adoção sobrevivesse tal como os selamentos plurais após 1890. As distorções do princípio de adoção e a conseqüente disputa de status entre membros, as dúvidas doutrinárias sobre o princípio, a impopularidade do mesmo entre membros em geral e algumas das autoridades gerais, entre outros fatores, formaram um contexto propício para que a adoção iniciada em Nauvoo fosse abandonada durante a era de conciliação com a sociedade americana estabelecida pela presidência de Wilford Wodruff.

Tendo sido um dos princípios pelo qual o êxodo para as Montanhas Rochosas fora organizado, a lei da adoção estava também relacionada à tentativa de sair dos EUA e estabelecer uma nova nação independente para os santos dos últimos dias. Em seu discurso de conferência, a alusão ao episódio de Mountain Meadows e o nome não pronunciado de John D. Lee podem sugerir essa forte associação concebida por Wilford Woodruff entre a adoção e o passado recente da Igreja. Woodruff sentia a necessidade de colocar a Igreja numa situação segura, longe dos atritos com os EUA, suas turbas e governo, que ele e seu povo haviam vivido por tanto tempo. Havia também uma nova geração de membros da Igreja que desejavam a americanização do território e, talvez, uma Igreja menos exclusivista e menos presente nos aspectos familiares. Afinal, Utah era um novo estado dos EUA e deveria estar em paz com o povo norte-americano, abraçando também parte de sua moral e costumes.

Do ponto-de-vista da história mórmon, a lei da adoção se revela um tópico ainda pouco explorado, parte em função da pouca documentação disponível sobre seus primórdios e seu ocaso, parte pelo esforço consciente já na década de 1890 para esquecer o passado teocrático mórmon. Mas permanece como uma forte expressão da ênfase patriarcal e familiar deixada por Joseph Smith durante seus últimos anos de vida. Com o fim da Ordem Unida, do casamento plural e da lei da adoção, bem como o abandono de pretensões teocráticas, o aspecto apostólico acabou por sobrepujar o aspecto patriarcal na teologia sud, fazendo com que a Igreja hoje pregue e pratique apenas uma parte do mormonismo desenvolvido em Nauvoo.

Leia ainda

Brigham Young: A Maior Ordenança do Templo

Ensinamentos do Joseph Smith sobre Sacerdócio, Templo e Mulheres


NOTAS

1. Atualmente, na Igreja SUD, embora o batismo de um homicida não seja permitido em vida sem a aprovação da Primeira Presidência, o mesmo não se aplica às ordenanças vicárias. Mesmo que um membro se depare com o nome de um antepassado que tenha cometido homicídio, não há orientação para que o batismo no templo não seja realizado ou o indivíduo em questão não seja incluído nos selamentos entre as gerações da família.

2. A publicação História da igreja na plenitude dos tempos, usada como livro-texto do Instituto de Religião, erroneamente sugere que a adoção foi totalmente abandonada a partir de 1894, sem citar o fato de que a adoção de um membro da família a Joseph Smith fazia parte da nova política proposta por Wilfor Woodruff (p. 446-447). Tampouco Gordon Irving discute o fato em seu artigo The Law of Adoption: One Phase of the Development of the Mormon Concept of Salvation, 1830-1900, publicado na BYU Studies em 1974.

3. Em abril de 1961, a Primeira Presidência e o Quórum dos Doze se reuniram para discutir o status de membro de John D. Lee, executado em 1877 por causa de seu envolvimento no massacre ocorrido 20 anos antes. Foi decidido que Lee deveria ter sua condição de membro e suas bênçãos restauradas. As ordenanças foram então realizadas no mês seguinte no templo de Salt Lake. Juanita Brooks, The Mountain Meadows massacre, p. 223; David L. Bigler, Forgotten kingdom: the Mormon theocracy in the American West (1847-1896), p. 179.

7 comentários sobre “O Declínio da Adoção

  1. sou contra a lei de adoção, pois ela retira os direitos dos verdadeiros antepassados. sabe-se lá, se eles não serão salvos de outra forma etc…. eu não quero ser nem vou adotado por ninguém se não por Yahoshua, (Não faço convênio com homens) são pecadores como eu.

    • Faz sentido, Heber. Mas como se dá o selamento a Jesus Cristo? Eu desconheço uma doutrna que explique ou proponha isso. Há, claro, um forte indício de paternidade de Cristo sobre nós nas orações sacramentais, quando o indivíduo toma sobre is o nome de Cristo, da mesma forma como uma criança adotada toma o nome dos seus pais adotivos. O que você acha?

      No selamento de uma mulher a seu esposo, ela não está fazendo um convênio com um homem pecador? Ou, pelo entendimento que me parece mais atual, o selamento recíproco de um a outro não os faz ter um convênio também recíproco e, portanto, entre pecadores? Que lhe parece?

      Abraços!

  2. Eu também não gosto dessa idéia de ser selada a Joseph Smith,me soa como idolatria.Gosto mais da forma de selamento de hoje.

  3. Yahoshua, não é o nome de Jesus Cristo… Só para quem não sabe hebraico corretamente… Estou cansado de falar isso…
    Abraço

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