Falece Armand Mauss, Sociólogo Mórmon

Faleceu hoje, aos 92 anos, Armand Lind Mauss, um dos mais influentes intelectuais mórmons da atualidade. Ele era professor emérito de Sociologia e Estudos da Religião na Universidade Estadual de Washington, onde lecionou entre 1969 e 1999. Armand Mauss foi autor de seis livros, e autor ou co-autor de mais de 100 artigos cientificos.

Armand e Ruth Mauss. | Imagem: cortesia de Miller Eccles Study Group.

Mauss foi editor do Journal for the Scientific Study of Religion (Revista para o Estudo Cientifico da Religião) entre 1989 e 1992, e editor associado de diversos outros periódicos acadêmicos. Foi um dos fundadores da  Mormon Social Science Association (Associação de Ciências Sociais Mórmon) em 1976, e presidiu a Mormon History Association (Associação de História Mórmon) entre 1997 e 1998. Mauss foi uma forte influência na revista mórmon Dialogue, servindo durante 20 anos em seu comitê editorial.

Desafios para o mormonismo global

Após o falecimento de Thomas S. Monson e a ascenção de Russel M. Nelson à presidência da Igreja SUD, em 2018, Armand Mauss falou sobre os desafios da liderança mórmon frente às mudanças no perfil dos membros da Igreja e do significado do “custo-benefício” de converter-se ao mormonismo ou mesmo deixá-lo:

O futuro da igreja neste século dependerá, em última análise, da capacidade de seus líderes, políticas e ensinamentos de cultivar lealdade à igreja como instituição. Essa lealdade, por sua vez, dependerá de como cada membro faz a avaliação de “custo-benefício” de sua associação. (…)

No século 19, a Igreja SUD exigia o tipo de lealdade que fazia com que pessoas deixassem suas famílias (ou mesmo nações) no processo de sua conversão religiosa. No século 21, as pessoas com entes queridos gays são mais propensas a deixar a igreja do que voltar-se contra seus filhos. (…)

No mundo moderno, entrar ou sair da Igreja SUD não envolve o custo de antigamente. Os conversos costumam ser batizados após algumas semanas de proselitismo e demonstrando poucas evidências de compromisso duradouro com as mudanças esperadas em termos de comportamento. O resultado é uma alta taxa de abandono na maior parte das áreas do mundo. Sair da igreja também implica um custo muito menor do que cerca de duas gerações atrás, mesmo em Utah, para não dizer nacional e internacionalmente. (…) De muitas maneiras, a filiação e a identificação pessoal na Igreja SUD agora ocorrem quase como uma espécie de “vem fácil, vai fácil”. (…) Minimizar esse tipo de mobilidade e manter um núcleo sólido e leal de membros ativos irá sobrecarregar a habilidade e a inspiração dos líderes SUD provavelmente como nunca aconteceu antes.

Assimilação

Em 1994, Mauss publicou o livro The Angel and Beehive: The Mormon Struggle with Assimilation (O Anjo e a Colméia: a Luta Mórmon com a Assimilação, em tradução livre), onde analisava as transformações ocorridas no mormonismo durante as quatro décadas anteriores. Para o sociólogo, a Igreja SUD demonstrava uma crescente adaptação à sociedade norte-americana, de forma semelhante ao caminho trilhado pelo Protestantismo.

Apesar do forte excepcionalismo no pensamento mórmon, Armand Mauss acreditava que os santos dos últimos dias compartilhavam de experiências históricas similares a outros grupos religiosos.

Há cinco anos, Mauss previa uma maior assimilação no mormonismo, ainda que preservando certos aspectos únicos:

Entre agora e 2020, espero que a Igreja continue buscando um nível ideal de tensão entre suas reivindicações de verdade tradicionais e as pressões assimilativas da cultura secular circundante. Como santo dos últimos dias devoto, espero que “correções de rumo” apropriadas continuem a manter essa tensão ideal indefinidamente, mantendo assim a vitalidade da Igreja durante o próximo século. Por outro lado, como cientista social, vejo sinais de que a Igreja está seguindo uma trajetória familiar, embora talvez um tanto desigual, o que levará a uma assimilação mais completa, talvez no modo do protestantismo ou do judaísmo americano em geral. Para evitar, ou mesmo retardar, uma extensa assimilação, a Igreja precisará de muita habilidade em administrar sua imagem pública e em resistir às influências externas que constantemente pressionam para “domesticar” os peculiares mórmons.

Confirmando, em grande parte, a tendência vista por Mauss, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Ultimos Dias, em 2018, decidiu banir por completo de seu discurso oficial, publicações e domínios na internet os termos “mórmon”, “mormonismo” e “SUD”.

Inovação acadêmica

As memórias de Mauss foram publicadas em 2012, sob o título Shifting Borders and a Tattered Passport: Intellectual Journeys of a Mormon Academic (Fronteiras em Mudança e Um Passaporte Esfarrapado: Jornadas Intelectuais de um Acadêmico Mórmon, em tradução livre) pela Universidade de Utah. No prefácio da obra, o historiador Richard Bushman avalia:

A contribuição de Mauss à erudicao mórmon e à teoria sociológica foi argumentar que, com o tempo, o mormonismo ajustou o grau de tensão com o resto do mundo. Esse fenômeno de ajuste contínuo não havia sido reconhecido pelos sociólogos antes que Mauss o descobrisse no mormonismo. Agora, tornou-se um corolário significativo da teoria dos novos movimentos religiosos. Mauss sempre ficava na fronteira entre a universidade e a igreja, pronto para atravessar para o lado da igreja sempre que pudesse fazer a diferença.

Banimento do sacerdócio e liberdade acadêmica

Na década de 1960, Mauss iniciou suas pesquisas sobre a segregação racial mórmon, culminando com sua tese de doutorado Mormonism and Minorities (Mormonismo e Minorias), na Universidade da California, Berkley em 1970.

Refletindo sobre o fato de não ter sofrido nenhuma sanção eclesiástica, apesar do teor de sua pesquisa, Mauss comentou:

Minha própria pesquisa (publicada em uma respeitável revista sociológica revisada por pares em 1966) indicou que, em várias medidas diferentes de preconceito e discriminação anti-negros, os mórmons estavam na média, entre uma dúzia de comunidades cristãs diferentes, incluindo católicos e as principais denominações protestantes que variavam teologicamente de liberal a conservadora – um achado que se sustentou mais tarde com uma amostra muito maior em minha tese de doutorado. Foi um pequeno consolo, é claro, descobrir que os mórmons não eram piores que a média, mas pelo menos contrariou a alegação de que a política interna dos mórmons teve consequências especiais no país fora da Igreja.

Em retrospectiva de meio século, essa postura agora parece bastante conservadora, é claro; e não satisfez meus críticos não-mórmons nem meus santos correligionário mais devotos, que tendiam a ficar escandalizados por minha rejeição ao folclore doutrinário que naquela época estava sendo ensinado como verdade pelos líderes da Igreja de alto escalão. O trabalho de Lester Bush logo me convenceu de que a própria política carecia de qualquer origem autêntica na revelação; no entanto, quando a política foi finalmente abandonada em 1978, o folclore doutrinário de apoio foi deixado intocado e continuou a circular amplamente na Igreja, de modo que meus escritos continuaram a criticar isso.

Alguns fatores contextuais também ajudam a explicar por que não tive problemas com os líderes da Igreja na década de 1960: (1) Tendemos a esquecer que os membros SUD que questionaram as políticas da Igreja se sentiram mais livres para falar naqueles dias (…), quando Dialogue e a Associação de História Mórmon foram iniciados sem “permissão” dos líderes da Igreja; e (2) a Bay area [na Califórnia] não era Utah. Havia uma constante agitação social em UC-Berkeley e na comunidade negra em Oakland, então os mórmons naquela área sabiam que tínhamos um problema urgente de raça. Muitos de nós queríamos falar sobre isso. De fato, meus primeiros comentários públicos sobre o assunto foram apresentados em uma reunião sacramental de 1963 a convite do presidente da estaca (…). Cinquenta anos atrás, especialmente na Califórnia, nos sentimos mais livres como membros da Igreja (do que nas décadas posteriores) para fazer o que os estudiosos e os intelectuais normalmente fazem, sem expectativa de restrições ou sanções da Igreja. Em anos muito recentes, vemos evidências de que essa feliz situação parece ter retornado (…); mas durante as décadas de 1970, 80 e 90, isso era muito arriscado.

O tema de raça no mormonismo ainda seria o foco de dois livros de Mauss: Neither White nor Black: Mormon Scholars Confront the Race Issue in a Universal Church (Nem Branco, Nem Negro: Estudiosos Mórmons Enfrentam a Questão Racial em Uma Igreja Universal), de 1984, com Lester E. Bush; e All Abraham’s Children: Changing Mormon Conceptions of Race and Lineage (Todos os Filhos de Abraão: Mudando as Concepções Mórmon de Raça e Linhagem), de 2003.

Sua esposa, Ruth Hathaway Mauss havia falecido em 2018, aos 88 anos. O casal teve seis filhos e duas filhas.

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