Leonard Arrington: Política e Raça Entre Mórmons Latino-Americanos

Escrevendo acerca da Conferência Geral SUD de outubro de 1979, Leonard J. Arrington fez algumas observações sobre os santos dos últimos dias na América Latina, baseado em suas conversas com os representantes regionais da Igreja na região. Percepções sobre raça e inclinações políticas, segundo o historiador, marcavam diferenças entre mórmons nos Estados Unidos e seus pares nas Américas Central e do Sul, e mereciam a atenção da hierarquia em Salt Lake City.

Retrato de Leonard Arrignton | Imagem: Acervo da Utah State University, cortesia do Herald Journal

Arrignton fala em tons elogiosos dos Representantes Regionais que conheceu na Conferência, dentre eles o brasileiro Osiris Grobel Cabral. Para o Historiador da Igreja, tratavam-se de “pessoas jovens, enérgicas”, expressando um contraste sutil com as Autoridades Gerais. Um dos Representantes, Jeff[rey] Allred, é lembrado como alguém que “gosta de ler a história ‘verdadeira'”, uma constante preocupação que Arrington expressa em seus diários.

A instituição de Representantes Regionais foi anunciada em 1961 pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e marcou um importante passo para uma menor centralização no gerenciamento de uma igreja crescentemente internacional.

Representantes Regionais agiam como gerentes profissionais da Igreja, de tempo integral, representando os Doze Apóstolos, por vezes em mais de um país. Osiris Cabral, por exemplo, era um Representante Regional dos Doze no Brasil e no Uruguai. Em 1977, ele havia sido chamado como Supervisor de área do Bispado Presidente para o Brasil, Paraguai e Uruguai.

Segundo Arrington, os líderes latino-americanos não estavam contentes em ser racializados como pela Igreja em Utah. Havia um foco exagerado por parte da Igreja, segundo o relato, na imagem dos povos indígenas, enquanto a maioria dos membros SUD latino-americanos era de ascendência européia.

“Eles ficaram especialmente irritados com as ilustrações – na capa – da edição latino-americana especial da revista A Liahona, que tinha tantas fotos de índios”, observa Arrington.

As observações sobre raça  e a irritação dos Representantes Regionais a respeito do tema provavelmente evidenciavam sua necessidade de definirem-se como brancos, bem como talvez sua visão de uma suposta inferioridade dos ameríndios. Não fica claro se a caracterização de indígenas latino-americanos como “caçadores de cabeças” relata literalmente a caracterização por parte dos Representantes Regionais ou uma tentativa de Arrington de interpretar suas falas.

Um ano antes do encontro descrito por Arrington, o templo de São Paulo havia sido dedicado por Spencer W. Kimball. Em junho daquele ano, Kimball havia liderado entre as Autoridades Gerais o fim da segregação racial na Igreja, a qual excluia homens e mulheres negros do templo e do sacerdócio mórmons. Talvez o mesmo proceso que expandia o trabalho missionário no continente pressionava os líderes locais a reafirmarem sua brancura. Evidentemente, o conceito de “branco” nos EUA diferia e difere do conceito de “branco” no Brasil e em outros países do continente.

O segundo problema abordado nas conversas com os Representantes Regionais era

“a ênfase constante de algumas Autoridades Gerais em aspectos da cultura branca que realmente não fazem parte do evangelho básico, mas que às vezes são apresentados como se fizessem”.

Para o Representante Regional na Guatemala, Jeffrey Allred, os membros da Igreja na América Central eram

“pessoas em áreas urbanas que se rebelaram contra o sistema conservador de negócios norte-americanos, da Igreja Católica Romana e das forças armadas”.

Nesta entrada do seu diário, Arrington escreve que os mórmons centro-americanos apresentavam “inclinações liberal-marxistas”, sem ser “comunistas”. Neste trecho, tampouco se sabe se o neologismo “liberal-marxistas” foi usado na conversa relatada ou se foi criado por Arrington durante a escrita do seu diário. Ainda, resta apenas especular se o Representante Regional sul-americano teria compartilhado dessa caracterização ideológica de seus pares, ou se se tratava de um fenômeno peculiar à América Central. No Cone Sul, as inclinações políticas predominantes entre os santos dos últimos dias poderiam estar mais alinhadas com os regimes em vigor. As ditaduras militares no Brasil e no Uruguai apenas teriam fim em 1985; no Paraguai, em 1989.

Eis a entrada do diário de Leonard Arrington.

8 de outubro de 1979 – segunda-feira

Reflexões sobre a Conferência Geral

Parece  que as multidões na Praça do Templo foram as maiores que já me lembro na conferência geral. Possivelmente isso ocorreu devido ao clima muito agradável. (…)

As sessões começaram com uma reunião de representantes regionais na sexta-feira de manhã. Atualmente, existem cerca de 190 representantes regionais. Quando se adiciona todas as Autoridades Gerais e o número de esposas e presidências auxiliares, entende-se por que os funcionários tiveram que providenciar para que os convidados fossem a uma area onde os procedimentos seriam conduzidos por circuito fechado de TV. As quatro pessoas convidadas do Departamento Histórico, Earl Olson, Don Schmidt, Florence Jacobson e eu, fomos instruídos a ir à sala de conferências no 25º andar.

Sexta-feira era meu dia [de costume] na BYU e eu estava com dor de garganta, então fiquei em casa para trabalhar e pedi a Ron Walker para ir [à conferência geral] em meu lugar. Ron ficou encantado com a oportunidade de participar dessa sessão fechada.(…)

Sábado, participei das sessões da manhã e da tarde e pude sentar na primeira fila, como sempre. Sentei-me ao lado de alguns diretores de assuntos temporais (em resumo, eles são chamados DATs – eles brincam sobre estarem tão ocupados que têm DTs [delirium tremens]). Eles incluem Jeff Allred, da Cidade da Guatemala; John Cox de Birmingham, Inglaterra; Ron Loveland, de Buenos Aires; Osiris G. Cabral, de São Paulo, Brasil; e W. Gordon Christensen, da Cidade do México, na região Norte do México. Eles são agentes de negócios em tempo integral para a Igreja nas áreas que cobrem – toda a América Central, toda a Grã-Bretanha e Argentina, Uruguai e Paraguai. Aparentemente, eles trabalham diretamente sob o Bispado Presidente. Eles são pessoas jovens, enérgicas. Jeff Allred é leitor e apreciador de Dialogue, BYU Studies, etc. Ele gosta de ler a história “verdadeira” e, aparentemente, lê meus artigos há muitos anos.

Entre as sessões, tivemos conversas interessantes. Os irmãos latino-americanos têm algumas preocupações. Uma delas é a preocupação dos norte-americanos com os índios – supondo que a maioria dos membros da Igreja na América Latina seja indígena ou descendente de índios. Eles afirmam que a porcentagem de índios na América Central e do Sul é talvez tão pequena quanto a porcentagem de índios nos Estados Unidos. Os índios são um tipo [rural], como caçadores de cabeças e representam menos de 5% dos membros da Igreja na América Latina. Cerca de 95% dos santos dos últimos dias da América Latina são pessoas urbanas de ascendência européia – ascendência alemã, italiana, espanhola e portuguesa; e, no caso do Brasil, muitos com ancestrais japoneses. O índio é tão exótico na América Central e do Sul quanto nos Estados Unidos. Eles ficaram especialmente irritados com as ilustrações – na capa – da edição latino-americana especial da revista A Liahona, que tinha tantas fotos de índios. Estes não são de todo representativos e os membros da Igreja na América Latina não gostaram disso.

O segundo problema é a ênfase constante de algumas Autoridades Gerais em aspectos da cultura branca que realmente não fazem parte do evangelho básico, mas que às vezes são apresentados como se fizessem. Jeff Allred diz que uma proporção esmagadora de membros da Igreja na América Central são pessoas em áreas urbanas que se rebelaram contra o sistema conservador de negócios norte-americanos, da Igreja Católica Romana e das forças armadas. Eles tendem a ser esquerdistas em sua orientação política, não comunistas, mas com certas inclinações liberal-marxistas. Seu vocabulário é anti-establishment e soaria esquerdista para americanos conservadores. De alguma forma, precisamos entendê-los – e por que eles são assim – e usar meios para proporcionar uma reconciliação adequada entre os princípios básicos do evangelho e as necessidades de nosso próprio país.

Quem foi Leonard Arrington?

Os diários de Arrington, publicados em três volumes pela editora Signature Books, trazem ricos detalhes do exercício de sua função, bem como de seus sentimentos pessoais como Historiador da Igreja entre os anos de 1971 e 1982.

Desde a instituição do chamado eclesiástico de Historiador da Igreja, por Joseph Smith em 1842, Leonard J. Arrington foi o primeiro não-Apóstolo, e até hoje o único não-Autoridade Geral, chamado para o ofício. Sob a égide do Apóstolo Howard W. Hunter, Arrington transformou o campo acadêmico a historiadores mórmons ao abrir os arquivos históricos da Igreja para pesquisa.

Durante uma década, Arrington estimulou uma revolução nos estudos mórmons à era popularmente chamada de “era de ouro em historiografia mórmon”. Ele teve ainda um papel fundamental na formação de uma nova geração de historiadores mórmons, até sua aposentadoria como Professor e Chefe de Departamento da Universidade Brigham Young (BYU).

Arrington  foi desobrigado de seu chamado em uma reunião secreta privada e seu novo substituto foi anunciado em Conferência Geral alguns meses depois, sem quaisquer menções a Arrington. Isso fez dele foi o único Historiador da Igreja a ser desobrigado sem votos de gratidão pela Igreja em Conferência Geral.


Referência

Bergera, Gary James. Confessions of a Mormon Historian: The Diaries of Leonard J. Arrington, 1971–1997, Volume 2, Centrifugal Forces, 1975–80 . Signature Books. Kindle Edition

2 comentários sobre “Leonard Arrington: Política e Raça Entre Mórmons Latino-Americanos

  1. Muito bom esse artigo. A contaminação do pensamento utópico da raça pura ou povo formoso , está entranhado na cultura SUD. Isso é uma forma de opressão e orgulho. Usar fenótipos para ressaltar a desigualdade na raça humana. A igreja não deve medir esforços para combater ideias racistas e sim fazer parcerias e eliminar de uma vez a mochila de pedra racista que mancha sua história.

    • Excelente comentário!!!
      Isso me lembra que já faz algum tempo eu falo que na igreja existe um sistema de castas, em que alguns membros são tipo “a” e outros são classificados como “b”, “c”, etc.
      Basta ver os presidentes de missão brasileiros: vários filhos e outros ex presidentes de missão… E por aí vai… Os tipo “a” vão se mantendo “em cima”… E nós vamos seguindo sem reclamar pq, afinal… Reclamar é coisa de apóstata.

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