Joseph Smith: Abolição da Escravatura

No começo de 1836, o Profeta Joseph Smith redigiu e enviou uma carta a Oliver Cowdery, então editor do jornal oficial da Igreja Mórmon¹ O Mensageiro e Defensor dos Santos dos Últimos Dias, para publicação. Com ela, Smith desejava deixar clara e pública a sua posição – e, assim, a posição oficial da Igreja – sobre a questão da “Abolição da Escravidão Negra”.

A carta foi publicada em 09 de abril de 1836, e nela Smith explorava todas as grandes questões e dilemas do maior problema social e político dos Estados Unidos na época: escravidão negra e o movimento abolicionista.

Assim como o Brasil, os Estados Unidos da América foram inicialmente colonizados por europeus que, percebendo oportunidades agrícolas (e não encontrando jazidas de metais preciosos), instauraram a hedionda prática de escravidão africana para exploração agrária em prol das metrópoles. Durante o movimento de independência norteamericana (1775-1783) e durante a Convenção Constituinte (1787) propôs-se repetidas vezes abolir a instituição da escravidão negra, sempre com forte oposição dos estados da região Sul, mais caracterizados por latifúndios e mais dependente de trabalho escravo (ao contrário dos estados da região Norte, mais caracterizados por minifúndios e fazendas familiares). Não obstante, com o passar das décadas os estados do Norte passaram a abolir escravidão em seus estados respectivos, aumentando pressão sobre o governo federal para aboli-la nacionalmente.

Em 1808, o Congresso Federal proibiu a importação de escravos africanos e na década de 1820 o movimento religioso que percorreu a nação, hoje denominado de “Segundo Grande Despertar” (que tanto influenciou Joseph Smith), inspirou vários movimentos de reformas sociais com fervor religioso (entre os quais, o movimento de temperância), inclusive o Abolicionismo. Em 1833, a Sociedade Americana Anti-Escravidão, primeira organização formal, foi fundada por nomes que se consagraram no consciente coletivo americano, da época e na história: William Lloyd Garrison, Robert Purvis, Theodore Weld, etc.

Mapa dos EUA, 1837

Mapa dos EUA, 1837, indicando estados escravocratas e estados livres — sem escravidão — e o Condado de Jackson para contextualização geográfica (clique no mapa para aumenta-lo).

O movimento cresceu muito com o passar das décadas, chegando a completamente dominar o debate público em menos de duas décadas e causando diretamente uma ruptura completa entre as duas secções que dividiriam o país entre estados “livres” e estados “escravocratas” e levando a uma sangrenta guerra civil. Antes disso, contudo, na década de 1830, o movimento era pequeno demais para impactar o país inteiro, mas grande o suficiente para influenciar a Igreja Mórmon e o Mormonismo.

Em 1831, Smith ordenou parte de seus seguidores a estabelecerem-se no Condado de Jackson, no Missouri, bem na fronteira dos Estados Unidos. Porém, os colonizadores mórmons entraram em repetidos conflitos com os seus vizinhos em Missouri por, entre outras coisas², uma suspeita de que mórmons fossem abolicionistas. O Missouri era um estado escravocrata. Cinco anos depois, após a forçada relocação dos colonos mórmons do Condado de Jackson (para um condado criado especificamente para protegê-los em Caldwell), Smith sentiu a necessidade de publicar uma declaração pessoal, oficial, e inequívoca sobre o abolicionismo e a instituição da Escravidão.

Abaixo segue uma tradução do texto do Profeta Joseph Smith, como publicado originalmente no jornal O Mensageiro e Defensor (cujas cópias escaneadas encontram-se na Biblioteca de História da Igreja). Incluí o texto original em inglês, como publicado na História da Igreja, volume 2, capítulo 30, nas notas de rodapé.

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O Conselho de Deuses e o Conselho dos 50

William Clayton (1814-1879), secretário do Conselho dos 50

William Clayton (1814-1879), secretário do Conselho dos 50

William Clayton foi secretário do Conselho dos 50 e suas anotações pessoais constituem uma das importantes fontes sobre aquela organização. Durante nosso primeiro Podcast Mórmon, que tratou do Conselho dos 50, percebi a dificuldade de explicar – e mesmo de entender – a relação intrínseca que mórmons no séc. XIX viam entre a sua religião e outros aspectos da vida humana como economia e política.

A anotação feita por William Clayton em seu diário¹ é valiosa por mostrar a sua percepção do Conselho dos 50 como uma entidade que representava o núcleo de um futuro governo teodemocrático, mas era à semelhança de um governo divino anterior à formação da Terra. Em 10 de março de 1845, enquanto revisava as atas do Conselho, Clayton anotou em seu diário:

Enquanto escrevendo e copiando os registros do Reino, estava escrevendo estas palavras dadas pelo Élder H. C. Kimball no conselho no dia 04, “se um homem pisar fora dos seus limites, ele perderá seu reino como foi com Lúcifer e será dado a outros mais dignos”. Essa ideia me veio à mente. É doutrina ensinada por esta igreja que nós estávamos no Grande Conselho entre os Deuses quando a organização deste mundo foi contemplada e que as leis de governo foram todas feitas e sancionadas pelos presentes e todas as ordenanças e cerimônias decretadas. Agora não é o caso que o Conselho do Reino de Deus agora organizado sobre esta terra está fazendo leis e sancionando princípios que em parte governarão os santos após a ressurreição, e depois da morte não serão essas leis dadas a conhecer por mensageiros e agentes como o evangelho nos foi dado a conhecer[?]. E não há uma similaridade entre esse grande conselho e o conselho estabelecido antes da organização deste mundo[?].

 

1. An intimate chronicle: the journals of William Clayton. George D. Smith (ed.) Signature. Salt Lake, 1995.

Podcast Mórmon #101 – O Conselho dos 50

A Associação Brasileira de Estudos Mórmons e o Vozes Mórmons anunciam o início de um projeto coletivo de podcasts para discussão de temas relacionados ao Mormonismo: O Podcast Mórmon.

Neste primeiro episódio Antônio Trevisan e Marcello Jun discutem o passado e o futuro da pesquisa acadêmico-histórica de um importante capítulo na história Mórmon: a fundação e o crescimento do Conselho dos 50, estabelecido por Joseph Smith em março de 1844 para servir como o braço político do Reino de Deus na Terra.

Assista aqui o podcast na íntegra:

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O Conselho dos 50

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Em 1844, apenas três meses antes de sua morte, Joseph Smith estabeleceu uma nova organização composta por 53 indivíduos – incluindo três “gentios” (não-mórmons). Tratava-se de uma instituição teocrática, cuja existência era desconhecida dos membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Tal organização secreta deveria preparar o governo milenar de Cristo na Terra, constituindo um núcleo político inicial do Reino de Deus. Continuar lendo

Jane Manning James – parte I

jane3A história de Jane Elizabeth Manning James (1822-1908) tem se tornado cada vez mais conhecida por um número crescentes de mórmons e estudiosos do mormonismo. Uma história que inclui fome e perseguição; seu abandono pelo marido durante longas duas décadas; sua insistência junto a um presidente da Igreja para receber certas ordenanças; sua convivência no lar de Joseph e Emma Smith, e muitos outros acontecimentos que tornam sua vida como mulher mórmon e negra uma narrativa única e impressionante. Continuar lendo

Podcast Mórmon #101 – Conselho dos 50: O Governo Teocrático Mórmon

Podcast Mórmon #101 – Conselho dos 50: O Governo Teocrático Mórmon

A Associação Brasileira de Estudos Mórmons e o Vozes Mórmons anunciam o início de um projeto coletivo de podcasts para discussão de temas relacionados ao Mormonismo.

Buscando não ser redundante com a missão do site Vozes Mórmons ou das Conferências Anuais de Estudos Mórmons, o Podcast ​Mórmon consistirá em diferente mídia, e mais importantemente, diferente formato.

​Estruturado num modelo de programa ao vivo, o Podcast Mórmon incluirá resenhas de livros, entrevistas, debates​, e curtas apresentações com interação dos ouvintes através de perguntas, réplicas, e questionamentos enviados em tempo real (via Twitter, Facebook, e aqui pelo próprio Site).

General de Divisão Joseph Smith, jr.

General de Divisão Joseph Smith, jr.

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Profeta Mórmon Processado

O Profeta Mórmon Thomas Monson esta sendo processado por fraude no Reino Unido.

thomas-monson-2O 16o Presidente d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias Thomas Spencer Monson foi citado em dois processos judiciais por fraude há duas semanas. Mais especificamente por 7 casos de fraude corporativa. O caso vem, desde então, gerando muita discussão e controvérsia por causa de sua natureza religiosa e, mais surpreendentemente, do julgamento de validade do processo aferido pelo Juíz Distrital de Westminster.

O que segue é uma introdução básica sobre o caso, seu contexto histórico, e uma entrevista exclusiva com o autor do processo.

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A Bíblia e sua restauração de uma pedra de tropeço

Texto de Daymon Smith para a Conferência Brasileira de Estudos Mórmons, realizada em 2013. Daymon Smith possui doutorado em antropologia pela Universidade da Pensilvânia e é o autor de The Book of Mammon e os três volumes de A Cultural History of the Book of Mormon, entre outros trabalhos. Possui o blog Mormonism Uncorrelated. Comentários e perguntas dos leitores e as respostas do autor serão traduzidas pelo Vozes Mórmons.

book-whirlUma das ironias do Livro de Mórmon é que seu tradutor e seu escriba frequentemente entendiam mal o que diz o texto. O termo “restauração”, por exemplo, é claramente definido por Alma e outros como algo muito maior do que trazer de volta alguma igreja cristã, imaginariamente tirada das páginas do Novo Testamento. A restauração da Casa de Israel é trazê-la de volta a Deus, e isso acontece pela restauração do conhecimento sobre seus convênios e sua misericórdia desde a Criação até esta tarde.

Restauração era um termo do Livro de Mórmon, nele definido claramente, descrevendo geralmente algo como karma: aquilo que sai de você voltará a você, para sua condenação ou salvação, se sua vida tiver sido misericordiosa ou injusta.

Seis meses depois de o livro ser publicado, porém, um grupo amplo de restauracionistas afiliados a Alexander Campbell e seu amigo Sidney Rigdon foram reunidos na fazenda de Isaac Morley, próxima a Kirtland, Ohio. Eles viviam o que consideravam ser um comunismo cristão, uma parte distintiva do seu esforço de restaurar a antiga ordem das coisas. Campbell e Rigdon não praticavam a comunidade de bens, entretanto, e ocasionalmente discutiam sua restauração. Continuar lendo

A Sociedade de Socorro e o Sacerdócio

Em 1842, a organização da Sociedade Feminina de Socorro de Nauvoo fazia parte do complexo quebra-cabeças teológico e organizacional desenvolvido por Joseph Smith em seus últimos anos de vida.

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Emma Smith

Muito mais do que uma sociedade dedicada à caridade, as atas da Sociedade de Socorro nos mostram que ela foi criada para ser uma organização sacerdotal que prepararia as mulheres para exercer dons espirituais e autoridade divina. Continuar lendo

Atas do Conselho dos Cinquenta serão publicadas

js-booksAs atas das reuniões do Conselho dos Cinquenta virão a público pela primeira vez, segundo afirmação de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. O Departamento de História da Igreja poderá utilizar as atas para referências e notas do próximos volumes do projeto Joseph Smith Papers e um volume único contendo as atas será publicado. Não foi divulgada uma data para tal publicação.

O Conselho dos Cinquenta foi instituído por Joseph Smith em 1844 e constituía, no entender de seus membros, o Reino de Deus. A publicação de suas atas deve preencher uma importante lacuna na compreensão da história mórmon. Continuar lendo

Curso realizado em Porto Alegre

Durante o mês de junho, realizei em Porto Alegre o curso Introdução à Doutrina de Nauvoo (1939-1844). Com encontros nas tardes de sábado, tivemos 10 horas de estudo sobre o período mais revolucionário do mormonismo do séc. XIX. Com uma abordagem histórica, buscamos compreender os ensinamentos de Joseph Smith em seus últimos anos de vida, as inovações organizacionais e ritualísticas daquele período, incluindo os primórdios do que pode ser considerado o verdadeiro ápice da obra de Joseph Smith: as ordenanças do templo. Continuar lendo

A Profetisa Eliza R. Snow

ElizaEliza R. Snow (1804-1887), chamada por Joseph Smith de “a poetisa de Sião”, é uma das mulheres mais reverenciadas da história mórmon. Eliza foi autora de diversos poemas e hinos, além de escrever também textos sobre questões doutrinárias e o papel da mulher na sociedade.

Um dos hinos mais conhecidos de sua autoria, Ó Meu Pai, constitui a única referência explícita à doutrina da Mãe Celestial amplamente difundida pela Igreja

Com a organização da Sociedade Feminina de Socorro em março de 1842,  Eliza foi convidada a redigir os estatutos da nova Sociedade e assumiu a função de secretária.  Em junho daquele ano, ela foi selada a Joseph Smith como sua esposa plural, vivendo durante seis meses na casa dos Smith. Continuar lendo

Sacerdotisas

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(…) o homem que honra seu sacerdócio [his priesthood], a mulher que honra seu sacerdócio [her priesthood], receberão uma herança eterna no reino de Deus. (Brigham Young, Journal of Discourses 17:119)

Santos dos últimos dias estão acostumados a pensar o sacerdócio como sendo algo exclusivo para os homens. Muitas vezes até ouvimos a palavra “sacerdócio” para designar coletivamente os homens membros da Igreja sud. A citação acima de Brigham Young, porém, nos faz questionar nossa compreensão do que é o sacerdócio e de como ele pertence a homens e mulheres. E olha que Brigham não era exatamente um feminista.

O uso do sacerdócio por parte das mulheres é um dos temas mais fascinantes – e, mais do que nunca, atuais! – da história mórmon. As percepções que herdamos – ou “tradições dos homens”, literalmente – , porém, bloqueiam nosso entendimento; ou ainda, nos fazem ver o passado mórmon a partir das doutrinas e práticas da Igreja sud no presente. Continuar lendo

Igreja reconhece ordenação de negros no séc. XIX mas insiste em “nós não sabemos”

O novo cabeçalho da Declaração Oficial 2

Elijah Abel (1808 -1884)

Elijah Abel (1808 -1884)

Recentemente, a Igreja SUD lançou em formato digital os novos cabeçalhos para suas obras-padrão. Entre as mudanças mais significativas, está a nova introdução para a Declaração Oficial 2, documento que encerrou, em 1978, um longo período de exclusão de membros negros da ordenação ao sacerdócio, investidura e selamentos.

O texto, disponível apenas em inglês até o momento, diz

Durante a vida de Joseph Smith, uns poucos membros negros da Igreja foram ordenados ao sacerdócio. No início de sua história, líderes da Igreja pararam de conferir o sacerdócio a negros de origem africana. Os registros da Igreja não oferecem uma compreensão clara sobre a origem dessa prática. Líderes da Igreja acreditavam que uma revelação de Deus era necessária para alterar essa prática e buscaram por oração uma orientação. Continuar lendo

O Sacerdócio, por Hugh Nibley

hughnibleyHugh Nibley (1910-2005)

O sacerdócio deixa de ser eficaz quando exercido “em qualquer grau de iniqüidade” (D&C 131:37), mas ele opera pelo espírito e o espírito não é enganado, mas é extremamente sensível ao menor sinal de fraude, fingimento, auto-justificação, ambição, crueldade, etc.. “Quando nos propomos… a exercer controle ou domínio ou coação sobre a alma dos filhos dos homens, em qualquer grau de iniqüidade, eis que os céus se afastam; o Espírito do Senhor se magoa e quando se magoa, amém para o sacerdócio ou autoridade desse homem” (D&C 121:37). Mas e o domínio justo do sacerdócio? Este pode ser facilmente reconhecido, pois opera apenas por “persuasão, com longanimidade, com brandura e mansidão e com amor não fingido; com bondade e conhecimento puro, que grandemente expandirão a alma, sem hipocrisia e sem dolo… com as entranhas cheias de caridade a todos os homens” (D&C 121:41-45). Mesmo nas eternidades o poder do sacerdócio flui “sem ser compelido… eternamente” (D&C 121:46).

Quem pode negar tal poder a outro? Nenhum homem. Quem pode conferi-lo a outro? Nenhum homem. Gostamos de pensar que a Igreja se divide entre aqueles que o tem e aqueles que não o tem; mas é a mais pura tolice achar que podemos dizer quem o tem e quem não o tem. Apenas Deus sabe quem é justo e até que ponto justo; no entanto, “os direitos do sacerdócio são inseparavelmente ligados com os poderes do céu” e estes “não podem ser controlados ou exercidos a não ser de acordo com os princípios de retidão” (D&C 121:35). O resultado é que se há alguém que realmente porta o sacerdócio, ninguém está em posição de dizer quem é – apenas pelo poder de comandar os espíritos e elementos tal dom é aparente. Mas no que se refere a comandar ou dirigir outras pessoas, cada homem deve decidir por si mesmo. Continuar lendo