Primórdios da Segregaçāo Racial Mórmon: 3 Leituras Essenciais

Em 08 de junho de 1978, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias revertia suas políticas raciais que impediam o acesso de homens e mulheres negros a rituais do templo, proibiam a ordenação de homens negros ao sacerdócio, e condenavam o casamento entre brancos e negros.

Spencer W. Kimball, então presidente da denominação, em seu papel como profeta, dava fim às restrições racialistas iniciadas por Brigham Young 126 anos antes. A decisão de Kimball se provaria fundamental para o crescimento mórmon no Brasil e outros países onde a miscigenação e as percepções de raça já desafiavam a discriminação requerida pela sede da Igreja.

Este tema tem merecido a atenção de diversos historiadores, os quais seguem trazendo novas perspectivas e fatos à tona. Aqui destacamos três leituras publicadas no site Vozes Mórmons para entender as origens da segregação racial no mormonismo, mostrando como Joseph Smith e Brigham Young trataram o tema.

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Dia dos Pioneiros em Utah Celebra a Jornada Mórmon ao Oeste – Mas Há Muito Mais na História dos Santos dos Últimos Dias e Migração

Jeffrey Turner

Todo dia 24 de julho, o estado de Utah celebra o “Dia dos Pioneiros”. Há desfiles, rodeios, fogos de artifício, maratona, caminhadas e trajes históricos, além de muito vermelho, branco e azul – semelhante ao 04 de julho e outros eventos patrióticos nos Estados Unidos.

Dia dos pioneiros Utah Mormonismo Brigham Young
Monumento intitulado Este é o Lugar, em um parque estadual na cidade de Salt Lake, Utah | Imagem: cortesia de Utah Historical Marks

O Dia dos Pioneiros, no entanto, comemora algo único: o dia em que migrantes mórmons chegaram ao Vale do Lago Salgado. O rótulo “mórmon” refere-se a qualquer igreja com raízes nos ensinamentos do fundador Joseph Smith, embora a maior delas, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, tenha rejeitado o nome em anos recentes.

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Leonard Arrington: Joseph Fielding Smith e Genealogia Negra

Em 17 de julho de 1972, Leonard Arrington registrava em seu diário um relato de Thomas Edgar Lyon sobre sua interação com o Apóstolo Joseph Fielding, ocorrida vinte anos antes. O tema da conversa era a dúvida de um jovem membro da Igreja que, tendo descoberto sua genealogia africana, não sabia se deveria contar a sua noiva, com quem se casaria no templo, e a seu bispo.

Retrato do historiador Leonard Arrignton (1917-1999) | Imagem: Acervo da Utah State University, cortesia do Herald Journal.

Thomas Edgar Lyon, a quem Arrington chama de Ed, servira como missionário na Holanda e para lá retornara como Presidente de Missão na década de 1930. Nos anos 1940 e 50, Lyon lecionou no Instituto de Religião da Universidade de Utah, onde transcorreu o evento narrado abaixo.

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O Retrato de Jane Manning?

Nascida livre em Connecticut no início de 1820, Jane Elizabeth Manning James estava entre os migrantes que deixaram os Estados Unidos em 1847 e se estabeleceram no que hoje é o Estado de Utah. Não foi a primeira vez que Jane deixava sua casa para se juntar a um experimento utópico.

Como negra e mãe solteira, Jane ingressou no mormonismo em seu estado natal e mudou-se para Nauvoo, Illinois, onde trabalhou para Emma e Joseph Smith. Lá, recebeu a confiança suficiente do Profeta Mórmon e seu círculo interno para lavar suas “vestes do sacerdócio” e aprender com suas esposas sobre as inovações matrimoniais da nova religião. Se a cor de sua pele era uma barreira em seu mundo e em sua igreja, seu trabalho com os Smiths fez dela uma testemunha em primeira mão de conhecimentos secretos.

A vida de Jane ainda nos pressiona a romper os compartimentos entre o que consideramos história mórmon, história afro-americana, história das mulheres. Como a historiadora Quincy D. Newell escreve em sua biografia de Jane Manning,

“Embora o Oeste tenha sido um lugar de refúgio para inúmeros grupos religiosos ao longo da história americana, raramente incluímos afro-americanos entre aqueles que foram para o Oeste por motivos religiosos. Reconhecer as motivações religiosas de Jane ao se mudar para o Vale do Lago Salgado nos ajuda a começar a contar essa parte da história.” [1]

A foto abaixo de 2 3/16 por 3 3/8 polegadas foi tirada no estúdio de Edward Martin, um converso inglês, em Salt Lake City, nos anos 1860. Tradicionalmente, a fotografia tem sido identificada como um retrato de Jane Manning, mas a evidência é apenas circunstancial – aponta Quincy D. Newell, autora da primeira biografia acadêmica de Jane Manning, lançada em 2019. [2]

Retrato que se acredita ser de Jane Elizabeth Manning James. | Imagem: Cortesia da Biblioteca de História da Igreja, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

A autora ainda questiona qual haveria sido o popósito ou uso da fotografia. Continuar lendo

W. Paul Reeve: Redescobrindo os Primeiros Conversos Negros do Mormonismo

“É impossível policiar as fronteiras raciais”, afirma o historiador W. Paul Reeve. Professor da Universidade de Utah, Reeve coordena desde 2018 o projeto Century of Black Mormons (Século dos Mórmons Negros), uma base de dados digital que busca documentar a história de mórmons negros durante o primeiro século de existência do movimento religioso fundado por Joseph Smith.

W. Paul Reeve, professor da Universidade de Utah | Imagem: Cortesia de Daily Utah Chronicle.

Nesta entrevista exclusiva ao Vozes Mórmons, Reeve fala sobre sua jornada acadêmica para entender o passado racial dos santos dos últimos dias e os principais desenvolvimentos da historiografia sobre o passado racial mórmon nas últimas quatro décadas. Segundo ele, houve “três fases” de politicas raciais na Igreja SUD, fato que, observa, muitos de seus membros infelizmente desconhecem.

Reeve também pondera sobre a influência dos ensinamentos raciais passados sobre o mormonismo atual: “a Igreja”, ele afirma, “passou mais de 130 anos ensinando doutrinas e políticas raciais, mas não investiu a mesma energia para corrigir esses ensinamentos”. O historiador ainda lista as seis justificativas mais comuns entre membros SUD que reforçam a ideia de “inocência branca” durante o período da segregação racial mórmon, entre 1852 e 1978. Continuar lendo

Estátua de Brigham Young Pichada na BYU

Na manhã de segunda-feira (15/06), seguranças da Universidade Brigham Young (BYU) encontraram pichada a estátua do profeta e colonizador mórmon que dá nome à universidade.

Estátua de Brigham Young, no campus que leva seu nome, em Provo, Utah (15/06/2020). | Imagem: cortesia da Polícia da BYU.

Duas pessoas vistas pelas câmeras de seguranca da instituição haviam jogado tinta látex vermelha sobre a estátua e escrito a palavra “Racista” no seu pedestal. Um spray e uma lata de tinta foram deixados no local pelos pichadores.

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Racismo na BYU

Meu professor de “Fundações da Restauração” justificou a proibição do sacerdócio aos negros, dizendo: “Não vamos fingir que Deus não havia feito restrições raciais para o sacerdócio e o evangelho antes. Ele não queria que o evangelho fosse ensinado aos gentios em um ponto. Não sei por que Deus faz essas restrições, mas Ele deixou as duas continuarem por um longo tempo.” Embora eu possa não conhecer bem o histórico dessas restrições, fiquei ofendida com a sua declaração e com a sua tentativa de ignorar as perguntas sobre o assunto. Eu era a única afro-americana nessa classe de 200 pessoas, mas todos os que fizeram alguma pergunta tinham problemas com a proibição, e o professor respondeu defensivamente a todos eles. Sua abordagem para encerrar as perguntas dos alunos e insistir que não criticassem os profetas do passado impediu nossa capacidade de fazer perguntas e não aceitar tudo com “fé cega”.

O atual Apóstolo e Profeta Dallin Oaks, então Presidente da BYU, vestido como o mascote da universidade mórmon ‘Cosmo, o Puma’, em 1979.

Um amigo meu da BYU¹ (que é branco) e eu estávamos conversando sobre a ressurreição e o que aconteceria fisicamente conosco. Ele me perguntou: “Você não acha que após a ressurreição você ficará branca como o Pai Celestial e Jesus Cristo?” Suas suposições incorretas eram que 1) para sermos perfeitos, todos nós Continuar lendo

A Companhia Pioneira de Brigham Young

Erastus Snow e Orson Pratt

Erastus Snow e Orson Pratt

Em 21 de julho de 1847, os dois batedores da companhia pioneira de Brigham Young celebraram gritando “hosana!”. Após cerca de três meses de viagem, eles haviam avistado o vale ao norte do Grande Lago Salgado. O mais velho, de 35 anos, estava a cavalo; o de 28, a pé. Orson Pratt e Erastus Snow estavam abrindo assim o caminho para mais de 30 mil mórmons fugindo dos Estados Unidos em busco de um novo lar.

No dia seguinte, a maior parte dos carroções da companhia desceu ao vale. Mas Brigham Young, doente, só chegaria no dia 24, data celebrada até hoje em Utah como o Dia dos Pioneiros. Continuar lendo

Seminário Ensinará Origem Divina do Banimento de Negros

A mais recente publicação oficial para o ensino de adolescentes mórmons classifica a exclusão de negros do sacerdócio e das ordenanças do templo como uma lei temporária inspirada divinamente.

negros mórmons racismo seminário

Amanda e Samuel Chambers, conversos mórmons ainda no Mississippi pré-guerra, chegaram a Salt Lake City em 1870.

O novo manual para professores do Seminário sugere que os alunos situem o banimento racial mórmon (1852-1978) na mesma categoria de outras práticas e eventos, como a redução da idade para jovens saírem em missão, anunciada em 2012, e a realização de reuniões de jejum e testemunho às quintas-feiras, antes de 1896.

O novo manual do Seminário,  Continuar lendo

Cientista Explica Criacionismo [Vídeo]

Criacionismo, também conhecido como ‘Design Inteligente’, é a crença religiosa que tudo no Universo foi criado através de processos sobrenaturais. Criacionismo é largamente popular entre Mórmons, inclusive Apóstolos e Profetas.

O físico teórico e cosmologista Lawrence Krauss explica os méritos científicos do Criacionismo e seu impacto cultural e influência intelectual na sociedade em menos de 4 minutos: Continuar lendo

Eva Negra em Obra de Artista Mórmon

Eva. Arte mórmon. Racismo. Templo.

Eva e o Fruto da Árvore do Conhecimento, de J. K. Richards. (Imagem: http://jkirkrichards.com)

O artista plástico mórmon J. K. Richards é o autor do quadro “Eva e o Fruto da Árvore do Conhecimento”. Nele, a personagem bíblica reverenciada por mórmons como “a mãe de todos os viventes” é retratada como uma mulher negra, olhando para o fruto mordido. A semelhança de cor entre o fruto e a luz em torno de sua cabeça sugere possíveis simbolismos ao espectator: seria um halo mostrando sua glória divina sendo perdida, o conhecimento sendo conquistado, ou a luz do sol? Continuar lendo

Primeira Presidência: Liberdade Religiosa, Direitos Civis

Carta da Primeira Presidência d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias de 1969 ilustrando a preocupação profética em proteger suas liberdades religiosas e também os direitos civis de minorias.

A Primeira Presidência d'A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em 1969: David O. McKay, sentado e ladeado por seu conselheiros, Hugh B. Brown à esquerda da foto e N. Eldon Tanner à direita

A Primeira Presidência d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em 1969: David O. McKay, sentado e ladeado por seu conselheiros, Hugh B. Brown à esquerda da foto e N. Eldon Tanner à direita

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Primeira Presidência: Protegendo A Família

Carta da Primeira Presidência d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias de 1947 ilustra a preocupação profética em proteger a sagrada instituição da família e do casamento tradicional.

A Primeira Presidência d'A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em 1947: George Albert Smith ladeado por seu conselheiros, J. Reuben Clark, jr. à esquerda e David O. McKay à direita

A Primeira Presidência d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em 1947: George Albert Smith ladeado por seu conselheiros, J. Reuben Clark, jr. à esquerda da foto e David O. McKay à direita

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Lição sobre Linhagem, 1970

Em dezembro de 1970, a Missão Brasil Norte de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias publicava a seus jovens missionários a mais recente versão de uma palestra a ser usada com potenciais membros brasileiros. Nela, após revisar conceitos sobre revelação, profetas e autoridade divina, falava-se sobre os negros não poderem ser ordenados ao sacerdócio.

A Primeira Presidência à época: presidente Joseph Fielding Smith e seus conselheiros President Harold B. Lee, e Eldon Tanner.

A Primeira Presidência formada em 1970: presidente Joseph Fielding Smith e seus conselheiros Harold B. Lee e Eldon Tanner.

A segregação de negros e afrodescentes do sacerdócio era explicada na forma de um diálogo entre os missionários e o “Irmão Nunes”. As falas do investigador hipotético eram guiadas cuidadosamente por perguntas prescritas aos missionários.

A lição afirmava que os negros descendiam de Caim e que as razões para sua exclusão do sacerdócio não eram plenamente conhecidas. Ela ainda incluía a narrativa de que a exclusão racial na Igreja havia sido estabelecida por seu profeta fundador Joseph Smith.

Usando uma citação de David O. McKay, garantia-se que futuramente o direito ao sacerdócio seria dado aos homens negros. Depois de ter presidido a Igreja por quase duas décadas, McKay havia falecido em janeiro daquele ano.

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Professor é desobrigado da Escola Dominical por usar textos oficiais sobre negros

Brian Dawson foi desobrigado após utilizar textos do site e revista oficiais da Igreja

Em 09 de junho de 1978, Spencer Woolley Kimball anunciava o fim da longa exclusão de negros do sacerdócio e das cerimônias do templo mórmon. Após 37 anos dessa importante mudança, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias parece ainda não lidar apropriadamente com esse aspecto de sua história. Pelo menos, é o que ilustra uma recente polêmica local na Igreja em Honolulu, no estado americano do Havaí.

O casal Brian e Ezinne Dawson com seus filhos

O casal Brian e Ezinne Dawson com seus filhos

Questionado por seus alunos de 12 a 14 anos sobre o banimento dos negros antes de 1978, Brian Dawson decidiu apresentar à classe da Escola Dominical o conteúdo de Raça e Sacerdócio, ensaio publicado em inglês no site lds.org em dezembro de 2013 (e traduzido para o português cerca de um ano depois como As Etnias e o Sacerdócio). De acordo com a reportagem do jornal The Salt Lake Tribune, Dawson também utilizou artigos da revista oficial Ensign (publicação americana equivalente à Liahona) para falar dos pioneiros negros Elijah Abel, Green Flake e Jane Manning James, enfatizando que especialmente os futuros missionários deveriam entender essa história. Continuar lendo