Lição sobre linhagem, 1970

A Primeira Presidência à época: presidente Joseph Fielding Smith e seus conselheiros President Harold B. Lee, e Eldon Tanner.

A Primeira Presidência à época: presidente Joseph Fielding Smith e seus conselheiros Harold B. Lee e Eldon Tanner.

Em dezembro de 1970, a Missão Brasil Norte de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias publicava para seus jovens missionários a mais recente versão de uma palestra a ser usada com potenciais membros brasileiros. Nela, após revisar conceitos sobre revelação, profetas e autoridade divina, falava-se sobre os negros não poderem ser ordenados ao sacerdócio.

Era afirmado pelos missionários que os negros descendiam de Caim e as razões para sua exclusão do sacerdócio não eram plenamente conhecidas. Garantia-se ainda, usando uma citação de David O. McKay, que futuramente o direito ao sacerdócio seria dado aos homens negros. Depois de ter presidido a igreja por quase duas décadas, McKay havia falecido em janeiro daquele ano.

Na parte final da palestra, os missionários deveriam perguntar se a pessoa tinha antepassados negros. Em caso negativo, a pessoa deveria firmar um compromisso de que, caso viesse a descobrir ascendência africana em sua genealogia, informaria o presidente de ramo local. Curiosamente, as duas questões vinham após a pergunta se o homem aceitaria o sacerdócio caso lhe fosse oferecido.

Nessa palestra pré-estabelecida não constam instruções de como os missionários deveriam agir caso a pessoa declarasse ter antepassados negros.

Havia diferentes versões desta palestra circulando em diferentes missões do Brasil e do mundo? Você lembra de ter usado esta palestra como missionário? De tê-la ouvido como não-membro?

Em um próximo post, veremos uma outra versão da palestra utilizada em 1978, antes de Spencer W. Kimball anunciar que membros negros receberiam o sacerdócio.

Pg. 1 - Palestra do SacerdcioPg. 2 - Palestra do SacerdcioPg. 3 - Palestra do SacerdcioPg. 4 -Palestra do Sacerdcio

24 comentários sobre “Lição sobre linhagem, 1970

  1. Fui batizado aos 15 anos, em 1971, no Ramo Jardim Botânico, na Cidade do Rio de Rio de Janeiro (quando havia apenas um distrito em toda a Região Metropolitana) e me lembro muito bem dessa doutrina: os missionários que ensinavam minha família, ao final das lições e sem deixar claro o objetivo, pediram para ver fotos antigas de nossos parentes vivos e antepassados falecidos. Como não possuíamos nenhum de cor negra, a data do batismo foi marcada. Alguns anos mais tarde, quando nos mudamos para o Espírito Santo, o Ramo de Vitória promoveu, juntamente com o Ramo de Vila Velha, uma “Expomórmon” a fim de atrair investigadores (à época, havia apenas dois ramos em todo o Estado, ligados diretamente à antiga Missão Brasil-Norte) . Os visitantes eram convidados a deixar seus nomes, endereços e telefones em um caderno para que os missionários pudessem mais tarde entrar em contato com eles. Mas, recordo-me que junto ao nome daqueles que tinham a pele escura — e sem que o interessado soubesse — era inserida a letra “C”, significando “descendente de Caim”.

    Se a Igreja fosse oficialmente racista, isto tudo seria explicável, embora, talvez, não justificável. O problema, no entanto, vai muito mais além: pelo que sabemos hoje, negros eram batizados e ordenados ao Sacerdócio durante a Presidência de Joseph Smith, deixando de sê-lo a partir da Presidência de Brigham Young e voltando a sê-lo na Presidência de Spencer Kimball. Se a Igreja é supostamente guiada por revelação, será que Deus teria dado uma ordem a Joseph Smith, voltado atrás com Brigham Young, e, muitos anos mais tarde, sob Spencer Kimball, retornado à orientação anterior? Essa história me parece muito mal contada, e desses fatos posso, em princípio, inferir duas hipóteses: a) A igreja não é guiada por revelação e sim pela vontade pessoal de seus presidentes, sendo alguns deles racistas, outros não; b) A Igreja é, sim, guiada por revelação, mas Deus muda de vez em quando de opinião para ver como nos comportamos aqui no andar de baixo em questões tão sensíveis como a racial. Recuso-me a acreditar que Deus dirija sua criação jogando dados, assim sou forçado a entender que a primeira hipótese seja a mais provável.

    Calma, não há razão para deixarmos em massa nossa Igreja! Continuo acreditando que ela é possuidora da maior parcela da verdade frente a outras igrejas, porém creio também que durante os quase dois séculos que se passaram entre a Restauração e hoje, a natureza humana por detrás de sua liderança pode ter jogado um papel muito forte no sentido de moldá-la segundo outros interesses que não aqueles que justificaram sua criação. Sinceramente, penso que é preciso retornarmos ao que é básico, quem sabe dando as mãos novamente às duas outras denominações que levam o nome da nossa: a Igreja Fundamentalista de JCSUD e a Igreja Reorganizada de JCSUD (Comunidade de Cristo). Me procure quem desejar dar um passo nessa direção.

      • Caro irmão Danilo, meu e.mail pessoal é friederi@voila.fr. Vai ser um prazer me corresponder com você e com quaisquer outros irmãos e irmãs que desejarem. Abraço para você e para todos. Friederick.

    • Irmão Friederick, gosto muito de ler seus comentários, são um poço de sabedoria inteligência e História da Igreja na versão nacional, com a visão de um judeu-alemão-brasileiro, convertido ao Evangelho restaurado. Confesso que pelo fato de ser de descendência palestina-afro-brasileira-nordestina (bem mestiço, por sinal), eu me simpatizo contigo. Confesso que fico com o coração chateado quando leio sobre esse passado da Igreja, mas tento não ficar muito negativo com a Igreja (ou seus lideres brancos). Confesso que depois dessa conferência cheguei a perguntar para o meu irmão se ele acha que a Igreja é racista, sua resposta foi interessante, mas nela pude perceber, meu irmão absorveu o racismo institucional da nossa organização religiosa.

  2. Hj está claro para mim que essa questão de negar o Sacerdócio para negros foi puro e simples racismo; coisa de homens, nada de Deus envolvido. Acho que a revelação de 1978 foi mais um puxão de orelhas do que um “agora pode”. Pq não falar a verdade né? Fica bem menos feio do que inventar trezentas histórias diferentes pra justificar isso… Como negra isso me incomoda pero no mucho até pq é passado, já foi, já aconteceu, já era… me incomoda mais os racistas de hj em dia na Igreja mas racista tem em todo lugar, pq na Igreja seria diferente né?

  3. Alguns SUDs ainda afirmam que os nativos americanos não têm marcadores de DNA judeus porque Leí não era descendente de Judá, mas de José, que foi vendido para o Egito.
    Mais especificamente, Leí era descendente de Manassés. Bem, quem entende o mínimo de história bíblica, sabe que José e Judá eram irmãos e tinham os mesmos marcadores de DNA judeus, pois vieram do mesmo pai.
    Porém, o que salta aos olhos é o fato de que Leí alegou descendência de Manassés, cuja mãe era egípcia. Essa mãe teria proibido Leí e todos os seus descendentes – todos os nefitas e lamanitas – de possuirem o sacerdócio. Bem, o efeito dominó é impressionante.
    Imaginemos um suposto livro que Deus preservou com a finalidade de restaurar a autoridade da igreja, mas que foi escrito por um povo proibido de possuir essa autoridade, o Sacerdócio.
    Temos então Joseph Smith, que alega descendência de Efraim, outro filho de José, que também era metade egípcio. Portanto, este livro para restaurar o evangelho ea igreja foi dado a alguém que não podia possuir a autoridade para restaurá-lo? Então, qual é a importância do LdM?
    Todos os mórmons que afirmam, através de suas bênçãos patriarcais, que eles também são descendentes de Efraim, também os tornariam proibidos de possuirem o sacerdócio (pelo menos até 1978)!

  4. Cara irmã Euzinha: compreendo bem sua indignação com essa questão do racismo de brancos contra negros, certamente presente entre nós, na Igreja. Até porque, como cidadão brasileiro, experimento o racismo de pardos e negros contra brancos na questão das cotas para as universidades e para concursos públicos. Para mim não faz sentido que pessoas que são biologicamente semelhantes a mim e formalmente detentoras dos mesmos direitos civis que eu possam gozar de privilégios legais aos quais não tenho acesso. E também vejo negros sendo expulsos da África pelos próprios negros com base em diferenças culturais e/ou étnicas (veja o caso dos “barcos da vergonha”, que saem do Norte da África e aportam no Sul da Europa. São negros fugindo de negros e pedindo socorro aos brancos!). A limitação do Sacerdócio aos brancos, bem como as cotas para negros, parecem ser expressões do mesmo ódio de seres humanos contra seres humanos, importado desse país estranho chamado Estados Unidos e fomentado em nações imitativas como a nossa . Tenho a impressão de que se não pudessem ser racistas muitos estadunidenses inventariam outra coisa, como inventaram no passado e continuam inventando no presente — a demonização do Comunismo e do Islamismo, por exemplo, com este último, aliás, presente em grande parte dos casos do atual êxodo africano. Às vezes lastimo que nossa Igreja tenha nascido nos Estados Unidos, país que para mim figura como a principal a matriz do mal neste planeta.

    Mas o problema com o qual estamos lidando é mais complexo: trata-se de saber se nossa Igreja é realmente guiada por revelação. Com base em várias evidências empíricas que parecem sinalizar o contrário, somos tentados a questionar nossas crenças e até a deixá-las para trás. Já pensou se teólogos como Lutero, Calvino e outros tivessem pensado desta maneira? Não teríamos tido esse extremamente fértil período na história da Humanidade e que os livros de História ensinam como sendo a Reforma Protestante, seguida da Contra-Reforma Católica. Sinceramente, acho que nós, da IJCSUD, estamos no limiar de um processo semelhante, tal o volume de contradições entre nossa teoria religiosa e nossa prática eclesiástica. Mas oro para que esse processo, ao invés de promover a negação de nossa fé, a desqualificação de nossa religião e a destruição de nossa Igreja, tenha como objetivo nos fazer retornar às origens, aquela abrigada nos ensinamentos do profeta Joseph Smith e anterior ao grande cisma de onde resultou o poder de Brigham Young e seus sucessores. Naquela época não havia discriminação contra negros no Sacerdócio, o Casamento Plural era um mandamento, a Palavra de Sabedoria estava presente em nossas cozinhas e a Lei da Consagração e Mordomia era nossa lei econômica. Sinto que isso é possível, basta que queiramos.

    • Friederick, teu comentario eh interessante e pertinente, exceto nas ultimas seis linhas e meia do primeiro paragrafo, quanto se perde num anti-americanismo futil. Os americanos nao inventaram o racismo. Racismo esta no mundo todo e se manifesta em maior ou menor grau dependendo da conjuntura local. No Japao, qualquer um que nao seja nativo, eh tratado com rematado desprezo, pergunte a qualquer dekassegui que foi tentar a vida la.. Estive em Angola e Mocambique a trabalho e perdi a conta de quantas vezes fui chamado de “branquelo” e outros adjetivos impronunciaveis..No Brasil, o racismo oficial do governo petista inventou as cotas, decretando que negros sao menos capazes e precisam de ajuda oficial pra conseguir coisas que nao negros conseguem com o proprio esforco. Teu comentario eh perfeito neste tema asqueroso chamado cotas.

      Os americanos nao “demonizam comunismo e islamismo”. Se me lembro bem, comunismo eh aquele modelo de gestao e governo que NAO DEU CERTO em lugar nenhum do mundo, certo? Alguns pterodactilos citam a China como exemplo de pais comunista de sucesso, mas isso eh apenas vigarice intelectual, porque a trata-se de Capitalismo de Estado, como bem sabemos. Quem demonizou o comunismo foram seus criadores e defensores..Stalin, Lenin, HItler, Mao, Pol Pot, Guevara, Fidel..o resultado que esses caras conseguiram foi cerca de 120 milhoes de mortos, a maioria pela fome.. O comunismo nao precisa que os americanos o demonizem..ele eh conceitualmente uma coisa do demonio, como bem disse o Presidente David Mckay. Os Estados Unidos da America sao a terra da Liberdade: Comunistas e Islamicos odeiam a liberdade..Note que uma das primeiras atividades dos comunas eh construir muros ao redor de seus dominios, nao pra impedir a entrada das pessoas, mas pra impedir sua populacao de fugir..Fidel nao precisou fazer muros porque sua ilha-prisao eh cercada pelo mar, nao obstante os cubanos nao hesitam em jogar na agua qualquer coisa que flutue pra tentar fugir do “paraiso comunista” e chegar a “matriz do mal” pela costa da Florida.. Os Estados Unidos da America sao a terra da Livre Iniciativa: Comunistas e Islamicos odeiam a livre iniciativa. Eles nao gostam de gente que pensa e quer fazer as coisas por sua propria vontade..todos tem que ser iguais, ou em outras palavras, sem iniciativa e mansos. Os Estados Unidos da America sao a terra da Meritocracia, onde os melhores se destacam: comunistas e islamicos odeiam a meritocracia. Eles amam a igualdade..geralmente eh a igualdade na miseria e na ignorancia. Os Estados Unidos da America concedem aos islamicos que estao em seu territorio liberdade de expressao e pensamento que nenhum deles teria em seu pais de origem. Isso eh respeito pelas pessoas.

      Estados Unidos da America eh um lugar onde existe o imperio da lei, e vale para todos. Tambem ha crimes, bandidos e gente ruim, mas os criminosos serao pegos e punidos de maneira exemplar. O tal odio mencionado por voce de “seres humanos contra seres humanos” eh muito maior no Brasil, que tem uma taxa de homicidios quase 9 vezes maior que nos EUA. Em cada 100 mil brasileiros, 27 sao assassinados por ano. Em cada 100 mil americanos 2.8 sao assassinados por ano..Onde esta o “odio de seres humanos contra seres humanos..”?

      No Norte da Africa os islamicos fomentam a Cristofobia..pessoas sao assassinadas – queimadas, decapitadas, esquartejadas, mutiladas – pelo simples fato de serem Cristaos.. Os Cristaos sao hoje as maiores vitimas do islamismo no mundo, e entendo que como estudioso voce deve saber disso. Nao temos noticias que islamicos sao vitimas de perseguicoes deste tipo nos EUA ou em alguma outra nacao civilizada.

      • E complementando: daí vem a insegurança geral em todos as outras doutrinas e etc, eu entendo. Eu creio que o Pai Celestial tem muita misericórdia de nós e de tantos milhares que tentam viver o Evangelho de Cristo com tantos enganos e mesmo, creio que A Igreja é a mais correta realmente, mas não é perfeita. Creio que Joseph Smith traduziu as placas mas também deu muita topada na vida, por isso eu detesto essa adoração toda que o povo bobo da Igreja tem com ele. A Igreja tb é uma forma de ter disciplina na vida: eu preciso de alguém me falando “faz isso, faz aquilo” pq senão eu desencaminho (isso pra mim). A Igreja me ajuda nisso, me ajuda a ser mais sociável, a ter um caráter melhor, enfim… Fosse assim, ninguém de outras religiões receberia revelação, entendeu? Só nós! Olha que injustiça! Deus é justo e bom, não esse ser malvado só que às vezes nos ensinam na SocSoc. Por isso eu acho que vale a pena continuar.

    • Oi!! Compreendo plenamente o que vc disse. Eu creio que a Igreja é sim guiada por revelação sim mas essas revelações foram contaminadas (e continuam sendo e sempre serão) por ideias e concepções dos homens e que também ocorrem ENGANOS gerados pela influência do meio onde a Igreja está estabelecida. Eu já frequentei reuniões da Igreja em vários lugares do Brasil e alguns mundo afora e em cada lugar eu, que sou observadora, percebi jeitos e jeitos em como as coisas são conduzidas. Pra mim, a questão da proibição do Sacerdócio aos negros não foi nada mais do que um belo de um ENGANO que foi tido como revelação, mas isso afetou milhões de pessoas (tanto os que estavam na Igreja e não receberam tanto com os que saíram da Igreja ou nunca entraram por causa disso). Meu Pres. de Estaca já negou a investidura para uma amiga totalmente digna, mas como ela era solteira e não havia servido missão, ele achou que ela não deveria receber. e falou que havia recebido uma revelação. Passaram-se alguns meses, ele a chamou no escritório e pediu desculpas, dizendo que havia interpretado as coisas de maneira errada e enviesadas. Agora, como uma meleca dessa ficou tanto tempo em vigor e ninguém consertou antes de 1978 realmente é um mistério. Talvez não quisessem desagradar o que já era certo… são várias possibilidades. Por isso eu disse que a revelação de 1978 foi um belo de um puxão de orelhas e que seria mais digno falar “olha gente, nós interpretamos errado, pedimos desculpas, vamos viver o Evangelho e ser felizes” do que ficar inventando um milhão de histórias diferentes tentando justificar um erro. Só eu já ouvi pelo menos umas 4 versões diferentes!

  5. Antônio Trevisan Teixeira

    Mas e se depois descobrisse que era descendente de negros e contasse ao Presidente do Ramo? O que acontecia? Retiraria o sacerdócio através de uma ordenança?

    Sou pardo(filho de um negro e uma branca) e no caso sei que até 1978 não receberia o sacerdócio. Sei que há racismo entre os Elderes dos EUA e um companheiro de Missão ironizou na época que apenas o queniano Joseph W. Sitati era dos Setenta. Muitos do meu grupo passaram por dificuldades até entre a população que tratava melhor quem era dos EUA que seus compatriotas. Sempre digo que se foram racistas pagarão por isso no último dia.

    E antes que me esqueça, estados do sul dos EUA como Alabama, Geórgia e Carolina do Sul são evangélicos batistas e há muito racismo. A Ku Klux Klan foi fortíssima nesses locais sendo um grupo de apenas protestantes.

    • Excelente pergunta, J.SUD! Eu ainda não encontrei relatos desse tipo de situação. *Imagino* que ordenações ao sacerdócio e ordenanças do templo seriam invalidadas a partir dessa informação de ascendência negra. Com sorte, encontraremos mais informações sobre esse período em artigos acadêmicos e relatos de membros e missionários. Diga-se de passagem, há uma enorme lacuna a ser preenchida no que se refere à história mórmon no Brasil. Todo esforço de coletar documentos e realizar entrevistas orais é bem-vindo.

    • Já ouvi inúmeras afirmações de que missionários sud brasileiros seriam de alguma forma menos qualificados do que os norte-americanos. Eu servi no Japão e lá notei algo semelhante por parte dos membros – não só maior desconfiança dos missionários que não eram dos EUA, como às vezes também dos poucos missionários japoneses.

      • Antonio, tenho um amigo escritor que costuma dizer que “nao podemos negar a dura realidade dos fatos”. Os missionarios brasileiros sao o retrato da nossa sociedade. Ao compara-los com os jovens americanos, o abismo eh latente e o exercicio de comparacao se torna uma exposicao de contrastes.

        Os americanos, em sua quase totalidade, chegam a idade missionaria tendo passado toda a vida na Igreja. Na maioria das vezes representam a 3a, 4a e ate quinta geracao de missionarios na familia. Suas familias estao pagando todas as suas despesas, pois vem da classe media americana, moram bem, estudaram em boas escolas (publicas!), cresceram lendo livros e em familias estruturadas. Quando servi como missionario, varios de meus companheiros americanos ja haviam “sido aceitos” em uma universidade e assim que voltassem pra casa, iriam estudar e desfrutar de uma vida muito provavelmente prospera.

        Por outro lado, os jovens brasileiros que estavam na missao conosco, eram em sua maioria, pobres…alguns, muito pobres que dependiam totalmente da mesada mensal paga pela Igreja pra se manter. Alguns eram o unico membro da familia ativo na Igreja. Tambem a maioria dos missionarios brasileiros tinham pouco tempo na Igreja. Era raro aparecer um que o pai havia sido missionario, ou entao que sua familia estivesse pagando suas despesas. Alguns, por virem de regioes muito pobres do Brasil, nao eram totalmente alfabetizados e atividades simples como ler uma escritura ou um folheto em publico se tornavam um desafio, algumas vezes constrangedor. Ao voltar pra casa, a unica certeza eh de uma vida muito dificil pela frente e via de regra, tera que se virar sozinho, embora isso ele so ira descobrir depois que voltar.

        Uma realidade distinta faz dos jovens americanos missionarios mais qualificados do que os jovens brasileiros.

        Naturalmente podemos tentar fechar os olhos e fingir que essas diferencas nao existem, que sao todos jovens especiais, dedicados ao servico missionario e bla, bla, bla..mas isso seria negar a dura realidade dos fatos.

      • Sem dúvida, os contrastes existem, Taborda, e merecem uma análise mais atenta. As vantagens culturais, no entanto, não são uma garantia de honestidade e outros traços psicológicos que deveriam ser encontrados em missionários.

        Incentivar um jovem que não terminou o ensino médio a servir uma missão é talvez uma grande sacanagem por parte dos líderes locais contra aquele jovem.

      • Meu bispo não deixava de jeito nenhum ir pra Missão sem o Médio completo. Houve uma briga feia entre um pai e ele: o pai queria que o filho fosse de qualquer jeito pra Missão e meu bispo não deixou. Esperou mais um ano pra ir. Nisso meu Bispo, que dava umas mancadas de vez em quando, acertou em cheio!

  6. Caro irmão Taborda: obrigado pela sua resposta ao meu comentário. Acho que você e eu concordamos que o racismo é deletério e está presente na Igreja, como na sociedade humana. Porém divergimos de opinião no que se refere ao papel dos Estados Unidos na organização e na fomentação de ideias racistas. E divergimos ainda mais, acho, quanto à natureza e papel social e histórico do Comunismo. Isso é natural e próprio de seres humanos que pensam e que não se deixam levar por conceitos e ideias preconcebidas.

    Minha crítica aos Estados Unidos advém de ter morado naquele país e de ter trabalhado para o seu governo durante muito tempo, além de pertencer à Igreja há mais de 40 anos. Estadunidenses aprendem cedo, em casa e na escola, que seu país foi eleito por Deus para liderar o mundo e para ser o paradigma da liberdade e da democracia. E que quem é contra os Estados Unidos da América é contra a liberdade e a democracia. No entanto, não é assim.

    Lá atrás, no Século 18, a Independência dos Estados Unidos foi realizada com base no poder do gênero masculino, na propriedade burguesa e na escravidão humana, refletidos impropriamente no texto constitucional que lhe foi subsequente como “Nós, o povo”. Nós, quem, cara pálida? Onde estavam as mulheres, os pobres e os escravos na escrita desse texto constitucional? Depois, a Guerra da Secessão: foi o conflito armado em que mais morreram estadunidenses, e morreram em função da execrável instituição escravagista.

    No Século 19 os Estados Unidos se esqueceram de que tinham sido um colônia britânica e decretaram que os países americanos deveriam ser independentes e que ficariam sob sua proteção contra eventuais tentativas de potências europeias de retomar suas possessões coloniais. Surgiu daí a ideia da “América para os americanos”, de que nosso continente deveria ser um quintal para que os Estados Unidos fizessem o que bem entendessem, do que resultaram invasões militares e ocupações com um claro sentido imperialista.

    O Século 20 viu os Estados Unidos surgirem como um dos dois protagonistas na cena internacional, primeiro ao entrarem tardiamente na Segunda Guerra Mundial e auxiliarem a União Soviética a vencê-la. Depois, na Guerra Fria, ao comandarem o mundo “livre” capitalista contra o mundo comunista, o qual certamente fazia churrasco de criancinhas. Para defender seu modo de vida egoísta e consumista internamente, os Estados Unidos tutelaram ditaduras anticomunistas mundo afora, inclusive aqui, no Brasil.

    Felizmente, o fim da União Soviética não correspondeu à consolidação dos Estados Unidos como única superpotência global, já que aquele país precisa dividir espaço com a União Europeia, a Federação Russa e a República Popular da China. E sabe que se não se comportar haverá mísseis nucleares, sobretudo russos, prontos a reduzir a pó sua arrogância e prepotência frente às nações civilizadas. As patas, quero dizer, as botas dos soldados americanos, hoje pisam em ovos quando saem de seus quartéis, sabedoras de que sempre haverá respostas correspondentes à sua loucura.

    Os Estados Unidos e sua máquina de propaganda, que inclui peças poderosas como Hollywood e a Igreja Mórmon, demonizaram o mundo, sim, ao fazerem pessoas inteligentes e de bem acreditarem que aquilo que não é capitalista e americano é do Diabo. Na realidade, há evidências cada vez mais fortes de que o Diabo se instalou no governo dos Estados Unidos, e que busca utilizá-lo em seus propósitos de dominação mundial. E tenho a pretensão de dizer que se instalou também em parte considerável da Igreja Mórmon, a qual reproduz o ciclo ideológico inventado nos laboratórios da CIA.

    Felizmente, também, o Diabo não comanda totalmente o Inferno, o qual está dividido em diferentes partidos. Um deles o que chamo de “Inferno Verde”, por gostar de nos vender a ideia de que nosso planeta vai acabar por conta de um não provado “aquecimento global” e de tentar nos impingir a necessidade de seguirmos a trilha da globalização do capital, da ignorância virtual, do multiculturalismo e da corrupção. Esse partido luta para para se impor frente principalmente a dois outros, mas anda perdendo muito espaço, por conta de suas mentiras e contradições.

    Pois é, irmão Taborda, lamento muito que o Mormonismo tenha surgido nesse estranho país chamado Estados Unidos. Mas talvez haja um jeito de reunificá-lo e refundá-lo em outro lugar…

  7. A História do mundo tem muito haver com o Evangelho de Jesus Cristo. Desde a fundação da Terra, vivemos em dispensações de diferentes contextos e o Evangelho segue seu ciclo assim com a história do mundo em diferentes épocas, trazendo novos e diferentes conflitos e até mesmo mudanças.Acredito que a questão racial e a Igreja estão interligadas nesse processo da vida.

  8. Creio que o FPE, ajuda e muito a minimizar esta distância e dar um pouco mais de esperança e alento àqueles que aceitam diligentemente o chamado missionário e servem honradamente suas respectivas missões.

  9. Sou negra e até hoje me arrepio de saber que defendi e fui membro dessa igreja tão racista, deus, se existisse, nunca me tornaria inferior a ninguém por ser negra, isso tudo foi invenção de JS. E lendo doutrinas de salvação percebemos que o racismo nunca acabará, eu serei julgada de forma inferior aos brancos mesmo me arrependendo e fazendo tudo.

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