A Igreja sud afirma ter uma neutralidade política, não endossando partidos ou candidaturas. Por isso, um membro da igreja que se candidate a cargo eletivo não é apoiado oficialmente como um representante da igreja. Mas será que os membros não veem tais pessoas como representantes quando tais são líderes proeminentes?
Recentemente desobrigado como presidente de missão em Portugal, o ex-deputado federal Morôni Torgan está de volta à política eleitoral brasileira, concorrendo à prefeitura de Fortaleza pelo DEM. Mas Torgan é também um líder eclesiástico: na última Conferência Geral, ele foi um dos novos setentas de área chamados.
Na minha imaginação limitada, caso eleito, Torgan não poderia dar continuidade ao seu chamado como setenta. A não ser que transforme seu chamado numa espécie de título de nobreza, o que evidentemente não é típico na igreja. Mas voltando ao aqui-agora, pergunto como um líder sud consegue liderar a igreja sendo ao mesmo tempo um candidato e não fazer campanha eleitoral entre seus irmãos.
Longe de mim imaginar que um homem tão famoso e articulado aceitaria um chamado de setenta para dar um empurrão em seu sonho de ser prefeito, mesmo porque se ele obtivesse uma votação em bloco dos membros da igreja isso não seria suficiente.
Hoje um membro da igreja em Fortaleza está sendo praticamente convidado por Torgan e a Igreja sud a não ver nem fazer distinção do setenta e do candidato. O voto de apoio dado a Torgan em abril e voto na urna eletrônica em outubro que vem se mesclam numa feia mistura de poder eclesiástico, financeiro e político.
Morôni Torgan pode ser talvez um bom candidato e até um bom líder sud. Não disputo isso. Felizmente, estou longe o suficiente dele para estar escrevendo isto sem nenhum julgamento da sua pessoa, que desconheço. Mas é a junção do setenta com o candidato que não é saudável para a igreja. Por dignidade e para não comprometer o arbítrio dos membros da igreja, assim como a neutralidade política da igreja no Brasil, Torgan deveria pedir sua desobrigação como setenta. Desculpem, mas quem achar outra saída digna para essa situação embaraçosa me diga.

Ezra Taft Benson já era membro do Quórum dos Doze quando foi indicado pelo presidente Eisenhower como secretário da agricultura dos Estados Unidos em 1952. Ele não perdeu sua condição de Apóstolo, mas teve que se mudar para Washington para assumir o cargo e exercer suas funções como secretário.
Independente de ser contra ou estar em conformidade com a política da igreja, eu não acho que seria interessante um membro ter um uma função elevada como 70 ao mesmo tempo que está no mandato de prefeito. É notório que a visibilidade da igreja aumentaria muito, mas a que custo, todas as ações dele estariam sendo acompanhadas muito bem em busca de qualquer deslize e macular o nome da igreja. Traria também a oportunidade de ele mostrar ao país que é possível sim existir políticos honestos e assim incentivar uma quantidade maior de bons cidadãos a se interessar em política. É uma faca de 2 gumes.
Acho que seria bom, mas sinceramente, tenho medo do desconhecido afinal, seria a primeira vez de um acontecimento do tipo.