Vodca, cerveja e poligamia

vodka rotuloCasamento plural já foi uma doutrina essencial para membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e continua sendo um tema histórico ou doutrinário de interesse para muitos. Desnecessário dizer que também é um tema tabu para um número muito grande de mórmons. Mas, em 2011, uma destilaria em Ogden, Utah resolveu usar o tema da poligamia para vender… vodca. Sim, vodca. Trata-se da Five Wives (“Cinco Esposas”).

O marketing humorístico rendeu polêmicas. Em 2012,  o estado de Idaho proibiu as vendas da Five Wives, por considerar o nome ofensivo à parte de sua população. Cerca de um quarto da população de Idaho é mórmon, enquanto o percentual passa de 60% em Utah, onde a vodca é fabricada. Note-se ainda que em ambos os estados, a bebida não pode ser encontrada em supermercados, mas apenas em liquor stores, lojas credenciadas para a venda exclusiva de bebidas alcoólicas. [1]

Foi numa loja de bebidas que me deparei com a Five Wives, durante uma visita a Salt Lake City, e confesso que tive que controlar a gargalhada. (Veja bem: entrei na loja por pura curiosidade intelectual!)

O rótulo da vodca mostra cinco mulheres em trajes do séc. XIX, exibindo suas roupas de baixo, cada uma com um gato abaixo da cintura. A imagem, histórica, não tem relação alguma com poligamia mórmon. É uma foto das Irmãs Barrison, grupo de imigrantes da Dinamarca que fez apresentações burlescas nos EUA e países europeus nas décadas de 1890 a 1910. Seu número mais celebrado era a “dança do gato”, realizada com filhotes vivos sob as roupas e fazendo um trocadilho infame com a anatomia feminina. [2]
polygamy_porter_resizedO apelo da Five Wives à poligamia mórmon pode ter sido inspirada pela popular cerveja Polygamy Porter (“Cerveja Escura Poligamia”), criada em 2001 e fabricada em Park City, Utah. Como as demais marcas de cerveja, a Polygamy Porter está bem visível, à venda nos supermercados. No rótulo, a pergunta de duplo sentido: “por que ter [ou beber] só uma[?]”.

Outro dia, em Porto Alegre, tive um novo acesso de riso: fui a um mercadinho e quem me atendeu foi uma jovem usando uma camiseta da Polygamy Porter!

Visitando uma família mórmon fundamentalista em Utah, com três esposas vivendo sob o mesmo teto, também vi uma das filhas, de 17 anos, usando uma camiseta da Polygamy Porter, algo que seria simplesmente escandaloso para muitos outros fundamentalistas – por se tratar de uma cerveja, pela referência leviana à poligamia e pela suposta falta de modéstia dos personagens do rótulo.

Senso de humor, evidentemente, não é algo universal e toma proporções mais delicadas quando trata de assuntos religiosos. Algumas pessoas chegam mesmo a não aceitar qualquer tipo de humor sobre (sua) religião.

Os casos da Five Wives e Polygamy Porter mostram a permanência da poligamia associada à imagem do mormonismo na percepção popular e talvez – e mais importante – alertem também para dificuldade que entre muitos sud de lidar com sua própria história e mesmo com o humor.

Vodca e cerveja podem fazer mal à saúde. Senso de humor faz bem.

Referências

[1] Five Wives Vodka found too offensive for Idaho
 
[2] Barrison Sisters Perform The Cat Dance (1890s)

28 comentários sobre “Vodca, cerveja e poligamia

  1. Antonio Trevisan Teixeira

    Esse seu artigo mostra como muitas vezes os estadunidenses conseguem levar as coisas mais na esportiva que muitos brasileiros. Eu como apaixonado por história secular e religiosa SUD e de teologia em si, gosto demais ao ver essas coisas. Temos que rir sim de nossa história. Ontem mesmo no Instituto foi falado sobre a D&C Seção 46 com a queimada aos membros que impediam pessoas a não ser “pesquisadores sinceros de entrar na Sacramental” e 49 e 50 que tratavam de ideias vindas de outras religiões como os Shakers. Quando lembrei de Hiram Page e sua pedra comecei a rir e citei a parte e outros na sala também riram. Seria muito mais saudável se membros agissem assim sem ficar com a “face of butt”.

    Só por curiosidade: Sabia que Trevisan é o nome de uma loja de móveis chiques no sul de Minas Gerais?

  2. Às vezes tenho a impressão que sim, a cultura sud brasileira tende a ser mais rígida em muitos aspectos.

    O episódio de Hiram page e sua pedra é interessante e mereceria um estudo mais detalhado. Muitos membros da Igreja no séc. XIX tinham suas próprias pedras de vidente.

    Não sabia dos Trevisans em Minas. Tem muitos Trevisans pelo país que não são necessariamente relacionados. Os meus vieram de Sertãozinho (SP) para Apucarana (PR) e de lá para Porto Alegre (RS). Minha avó materna era de Chácara (MG), mas tinha outro sobrenome italiano, Stroppe.

    • Não creio que seja cultura irmão mas hipocrisia mesmo, estou passando isso em minha ala atualmente.Tenho um testemunho de Cristo do Profeta Joseph Smith e do LDM, sou apaixonado pela história da Igreja com suas partes belas e até as partes polemicas e bizarras (principalmente essas).Mas confesso que de um tempos pra cá não tenho sentido o mesmo animo para socializar com as pessoas, fora que acredito na poligamia e sei que isso é um passo pra excomunhão.Muitos suds são especialistas em ser hipócritas e falsos.Sendo de humor é tudo!!

      Grato

      • Não creio que será excomungado por crer. Somente não incentivando ou vivendo não tem nada demais. Pelo que entendo é isso.

        Abraços…

      • Vou te ser sincero, minha esposa crer nisso tanto quanto eu e só não vivemos isso porque não foi revelado.Mas se algum dia for possível pelo menos com ela não vou ter problema.

        Abs

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