Risco de excomunhão

Fundadora do movimento pela ordenação de mulheres e idealizador de um fórum online foram acusados de apostasia. E todos perdemos com isso.

Kate Kelly

Kate Kelly

ATUALIZAÇÃO: Kate Kelly foi excomungada em 23/06.

 

Dois conhecidos membros sud nos Estados Unidos serão julgados por conselhos disciplinares locais, acusados de apostasia – John Dehlin, famoso pelas suas entrevistas no site Mormon Stories, doutorando em psicologia, que vive em Utah, e Kate Kelly, fundadora do movimento Ordain Women, advogada, que vive em Washington, DC. O caso tem gerado repercussão na internet e chamado a atenção da imprensa americana.

Desde setembro de 1993 – quando seis influentes intelectuais foram excomungados – não havia uma caça às bruxas na Igreja sud. No ano passado, no entanto, o ciclo de relativa paz parece ter sido interrompido, com a excomunhão do autor Denver Snuffer, que afirmava ter sido visitado por Cristo. Recentemente, Alan Rock Waterman, autor do blog Pure Mormonism, também foi requisitado a terminar com seu blog ou enfrentar a disciplina eclesiástica.

Tal como havia acontecido há 21 anos atrás, os processos disciplinares de Kate Kelly e John Dehlin serão conduzidos localmente – como todos os conselhos disciplinares. Mas a coincidência de datas sugere uma ação única partindo da mesma fonte.

John Dehlin e família. Imagem: mormonstories.org

John Dehlin e família. Imagem: mormonstories.org

John Dehlin recebeu uma carta no último sábado (07/06), em que seu presidente de estaca pede para que ele ou abdique de sua condição de membro ou enfrente um conselho disciplinar. No dia seguinte (08/06), foi a vez de Kate Kelly receber um e-mail de seu bispo, pedindo a sua presença em um conselho disciplinar no próximo dia 22, com a possibilidade de desassociação ou excomunhão.

Para Kate Kelly,

Excomunhão em nossa igreja é semelhante à morte espiritual. (…) Na verdade, você está sendo despejado de sua família eterna. Dada a gravidade da situação, sinto-me como se ser convidada para um conselho deste tipo é semelhante a ser convidada para o meu próprio funeral. Lendo histórias como esta no New York Times é como ler o meu próprio obituário.

John Dehlin afirmou a dificuldade familiar advinda das acusações:

O que eu aprendi hoje é que é ainda mais difícil de receber esta notícia sendo o cônjuge ou filho de um suposto apóstata – especialmente quando você vive em uma cidade muito conservadora mórmon, e provavelmente enfrentará considerável estigma social, como resultado das decisões de seu pai.

Eu me sinto triste por esses dois indivíduos serem acusados de apostasia. Minha tristeza não vem de concordar com todas as suas ideias ou por considerá-los fontes de inspiração ou liderança, mas pela crueldade da ação – o que lhes está sendo negado é o direito de questionar e agir como membros do corpo de Cristo. O mormonismo surgiu pelo questionamento, pela busca pessoal. Por que deveriam ser punidos aqueles que acreditam nesses princípios fundamentais?

Eu me sinto triste pela Igreja sud. Num momento em que parecia estar sendo mais sincera sobre sua história, dá um passo atrás e ataca de forma dissimulada, nem sequer assumindo a origem dos dois processos disciplinares. Talvez queiram que acreditamos na coincidência dos dois processos. Ou – na pior das hipóteses – que vejamos o castigo exemplar aplicado e tenhamos medo. Ou ainda que, como nos antigos enforcamentos, tenhamos o alívio de estar vivos e a diversão com a morte alheia.

52 comentários sobre “Risco de excomunhão

  1. Essa linha ‘sutil’ do “Manual Geral Todo Poderoso Maior que as Escrituras” dá espaço para fazer o que se quiser com quem não concorde com alguma prática SUD (verdade, é assim e talvez até pior em outras denominações também, mas…).

    Os super infalíveis sacerdotes não querem ser questionados em coisa alguma que não consigam explicar ou lhes cause embaraço, ou ainda vá contra suas crenças pessoais… ao seria mais fácil mandar uma carta à toda Igreja explicando que seja lá o que a pessoa disser ou publicar não reflete a ideia ou doutrina SUD e esta não deve ser considerada como posição da Igreja no assunto?

    Mas excomungar por uma suposta apostasia, que sequer conseque ser contestada à luz das próprias escrituras, mas apenas contesta paradigmas? Essa tática apenas impoe medo, e nós bem sabemos de onde é a origem do medo.

  2. Lamentável, muito triste mesmo. É uma pena que seja assim. Fazer essa acusação de apóstata é muito cruel, ter que ouvir isso é tão ruim quanto e ser classificado(a) como tal, acho que dispensa comentários.

    • Não tem nada de lamentável mas sim triste pois realmente se uma pessoa não aceita as ordens que lhe foram atribuídas e devidamente orientada de que temos um profeta, apóstolos, setentas de área e bispos autoridades gerais etc… e ainda assim vem recusar as ordenanças do evangelho? sim recusar as ordenanças pois receber ordens é uma ordenança também, tem que aprender que a igreja é dirigida por por um profeta e orientada por Deus então jamais a igreja vai ceder as pressões de movimentos apostatas! É absurdo isso pois eu oriento a se arrependerem para que possam serem aceitos limpos a casa do Senhor pois lembrando que desobediência é pecado e foi assim que a terça parte dos anjos caíram!

      • Luiz,

        de acordo com o relato acima, o bispo da Kate Kelly a convocou por e-mail, algo contrário às normas estabelecidas para conselhos disciplinares pelo Manual de Instruções. Podia ser uma mensagem SMS ou um recadinho no Facebook, não? A mesma publicação afirma que acusações de apostasia devem ser julgadas na estaca e não numa ala ou ramo.

        Obediência não é um valor absoluto. Se o fosse, nosso salvador deveria ser Lúcifer.

      • percebe-se que o Antônio Trevisan teixeira não conhece o procedimento inicial de um conselho disciplinar quando diz que ouve erro no e-mail e que deveria ser na estaca só pelo motivo de um dos concelhos ter sido por motivo de apostasia:
        1- todo conselho começa na ala
        2- a ala não pode excomungar homens com sacerdócio maior e por isso o do homem ter acontecido na estaca e o mulher não.
        3- apostasia é considerado um pecado grave na igreja e sendo alguém do sexo feminino pode ser feito na ala ou na estaca.

      • Conselho é com “s” querido, escrito assim é um estupro verbal… Dá tribunal também…

  3. Lembrem-se, ser excomungado não significa “morte espiritual” como foi dito, não é uma expulsão da Igreja e sim dar a oportunidade de um arrependimento verdadeiro. Segundo; essa é a Igreja é de Cristo, porém administrada por homens, portando, decisões podem ser tomadas erradas, cabe a nós a obediência à nossos líderes. Eu apoio nossa liderança geral e local.

    • Desculpe Leonardo se você ler e comenta artigos neste blog, significa que você é no minimo um dos poucos membros desta religião que “”pensa sem cordas” portanto seu comentário é bem fora da realidade. Nós sabemos o que significa ser excomungado da igreja. Anular todas as ordenanças de salvação e exaltação realizadas pela autoridade do sacerdócio impedindo supostamente do indivíduo viver com Deus novamente não é morte-espiritual ? (regrinha básica que qualquer missionário sabe) lindo e tocante seu apoio as autoridades locais, vai uma dica: cuidado com as cordas não corta muitas delas não.

    • Leonardo,

      eu concordo com sua observação de que excomunhão não equivale a morte espiritual, especialmente quando da possibilidade de uma excomunhão injusta. É compreensível, porém, que um membro sud sinta a excomunhão com uma forma de forma, como declarado acima pela Kate Kelly – dada a perda que ela poderá significar em sua vida, em termos emocionais, familiares, etc.. Coincidência ou não, também é o que afirmou o historiador D. Michael Quinn sobre sua excomunhão.

  4. Talvez a afirmação e pensamento realizados aqui sirvam como defesa “em última instância” da Kate Kelly e do irmão John Dehlin. O profeta é bem claro: – Rigidez é coisa de metodista… Reivindicar ordenança não é apostasia, é no máximo, “talvez”, um erro de doutrina… Talvez sejamos todos excomungados porque reivindicamos a verdade…

    Outra coisa, os liderem erram porque sempre tem alguns retardados para baterem continência e para apoiarem seus erros… Sei que por sermos humanos erramos, mas existem diferenças fundamentais nos erros cometidos por arrogância, por amor ao poder, por displicência e descaso ou inocência, desconhecimento, ingenuidade, alguns (são plenamente aceitáveis) outros são comparáveis a crime e quem apoia falta de caráter de líder é porque também não possui caráter algum… É maria vai com as outras, vacilão…

    Irmão Antônio e irmão Jun, vocês precisam começar a exigir que quem poste coloque pelo menos uma foto no fórum porque tem muita gente que fala bobagens tremendas escondido em avatares, colocar a cara aqui poucos têm coragem de fazê-lo.

    Shalom!

    • Silvio, desculpe minha ignorância, mas como faço para colocar minha foto no avatar? Sou completamente enrolada e essas carinhas que aparecem são muito feias!

      • Olá Su!
        Desculpe a demora… Você precisa abrir uma conta na WordPress.com e disponibilizar foto lá… Este site reconhece as respostas enviadas pelo seu perfil no WordPress automaticamente…
        Abraço

  5. Infelizmente isto está acontecendo novamente na História da IJCSUD.

    Concordo com o irmão Gerson Sena. Seria mil vezes mais fácil para a Igreja dizer que as crenças ou ideias divulgadas pela irmã Kate Kelly e pelo irmão John Dehlin não refletem as doutrinas da Igreja, ou seja, não são a posição doutrinária oficial da IJCSUD.

    Porém, também concordo com o que foi apontado pelo Antonio Trevisan em seu post. É provável que a Igreja quer “que vejamos o castigo exemplar aplicado e tenhamos medo”. É lamentável tal atitude tanto local quanto geral da IJCSUD. Todos os passos (ainda que pequenos) dados pela Igreja em direção a uma maior transparência em relação à sua história e às crenças e doutrinas do passado, acabam “sendo jogadas na lata de lixo” e literalmente esquecidas.

    Lembro-me de há algum tempo atrás ler um artigo aqui do Vozes Mórmons, escrito pelo Antonio Trevisan, no qual ele cita que não temos uma tradição em ser uma igreja do “saber”. A busca pela “verdade” como é tão cantada em alguns hinos sud ainda não faz parte de nossas práticas enquanto Igreja. Pelo contrário, ações como esta (realmente acontecendo as punições) acabam por mandar o recado de que “a verdade só é valiosa enquanto a mesma não afetar a doutrina ou até mesmo as tradições da Igreja ou até mesmo de um grupo ou apenas uma parte da Igreja”.

    “A verdade o que é, joia de valor ………. para ela LIMITES não há”. Será mesmo? Realmente como seguidores de Jesus Cristo ou como membro sud acreditamos em tal princípio? Será mesmo que líderes gerais e locais, acreditam neste princípio relacionado à verdade?

  6. Partilho da maioria das opiniões comentadas acima. No entanto não me surpreende que tais atitudes tenham sido tomadas. Aliás talvez nos EUA os membros da Igreja estejam gozando de certa liberdade em partilhar idéias ou publicá-las, Mas no Brasil, isto não existe ! qualquer idéia ou sentimento que esteja fora do “cânone doutrinário da Igreja é visto com maus olhos e reprimido pontualmente no mesmo instante. Já fui convidado a me retirar do púlpito (numa reunião de testemunho) por dizer que acreditava no livro de mórmon, sem haver necessidade de base histórica e que pra mim tanto faz se os nefitas eram ameríndios ou qualquer outro povo. O líder presidente levantou-se e sussurrou no meu ouvido que os irmão não estavam preparados para ouvir isto. Posteriormente numa entrevista intimidadora, o mesmo sugeriu que eu não dissesse aos membros que tinha formação acadêmica em história e não me envolvesse em conversas sobre a história da igreja. Isto é somente um exemplo do que ocorre aos montes na igreja De fato, o simples fato de vocês e eu estarmos compartilhando idéias sadias neste blog( blog este muito seguro e bem administrado) já nos poem em perigo de termos uma conversinha com nossos líderes “inspirados e amorosos” principalmente se você possui uma conta sud (mesmo por que imaginar que a conta SUD é apenas para fazermos nossa linda árvore genealógica e muitas “indexações” é no minimo ingenuidade patética).

  7. Em algum em uma terra distante teve um líder que teve que lidar com a mesma situação
    Aquele líder conta o livro que ele deixou seu trabalho pra dedicar tempo a corrigir os assuntos da igreja
    E ele enfrentou muita dificuldade ate uma “nação ou pais como colocaríamos” hoje para poder realizar essacorreção
    vamos la minha gente isso ja aconteceu antes.
    LIVRO DE MORMON relata isso perfeitamente em Alma

    • Ha uma diferenca muito grande entre Alma (um Profeta santificado e autorizado para pregar a palavra e administrar uma excomunhao) e um lider local que nao esta santificado perante Deus. No Livro de Mormon somos ensinados que somente homens santificados tinham o poder de clamar arrependimento ao povo e de realizar milagres. ” E sabemos que nosso registro e verdadeiro, pois eis que foi feito por um homem JUSTO- pois em verdade fez muitos milagres em nome de Jesus; e NENHUM homem havia que pudesse fazer um milagre em nome de Jesus, se nao estivesse COMPLETAMENTE limpo de suas iniquidades”

  8. Solidarizo-me com as famílias dos dois irmãos citados. Isso muito me entristece. Algum tempo atrás, isso me revoltava. Hoje somente causa tristeza, e isso é um sinal de resignação pessoal e não é nada bom. Algum tempo atrás, quando eu tinha apenas um filho bebê e era recém casada, um líder tentou agir arbitrária e desrespeitosamente com as pessoas durante uma conferência e eu o contestei. Ele me humilhou. A mim e a minha família. Nessa ocasião uma conhecida sentou-se a meu lado e me disse uma das frases mais impactantes queja ouvi na Igreja: é por isso que eu não discuto sobre nada, aceito tudo mesmo que não concorde. Pois se eu for do contra, não tenho cargos, e não tenho oportunidade de crescer”. Aquilo para mim foi tão aviltante, tão ofensivo, que sequer lhe respondi. Mas percebo que ela está correta em sua observação, não necessariamente em suas decisões. Quem pensa por si mesmo é marginalizado na Igreja, é claramente um convite a se retirar. O problema é que enquanto pensamos que a mentalidade de seus membros está se abrindo, uma nova remessa está sendo recrutada para engrossar as fileiras de pessoas cognitivamente alienadas, com clara perda de identidade, a exemplo das teorias de instituições totais. Estão objetificadas, não são mais elas mesmas, com seus pensamentos, mas sim uma parte que reflete o pensamento da maioria. E quem ousa agir na contramão deste processo precisa ser neutralizado, ridicularizado, isolado, exposto, para mostrar a todos os outros que não vale a pena seguir por este caminho. Ainda assim, como o irmão Marcelo Jun, minha vida foi a Igreja. Amo a Igreja, tudo que aprendi a ser por ter feito parte dela. Quero criar meus filhos em seu meio para que desfrutem do elevado padrão moral que ali aprendi. Por isso atitudes vilipendiosas como esta da liderança em pensar em excomungar sua pessoas por suas opiniões e pesquisas pessoais me entristecem tanto. A busca pela verdade e a liberdade para tal deveriam ser direitos ensinados e defendidos pela Igreja. Ninguém que empreende pesquisa seria sobre mormonismo o faz através de livros contrários a nossa religião, mas sim em arquivos de sua própria história. Onde estaria, então, o perigo? Mais uma,vez, sinto-me comovida, entristecida e cheia de caridade pelas pessoas envolvidas e suas famílias. Oro por vocês.

    • Discordo da irmã pois temos que pensar por nós mesmos, mas é claro dentro da doutrina fora dela corresponde apostasia e isso vale pra todos !

      • So posso pensar dentro da Doutrina? Isso quer dizer so posso pensar dentro do pasto, nao é? Ja ouviu a expressão pensar fora da caixa? Bom acho que Joseph Smith nao foi ensinado sobre esse principio, que vc diz, de que temos que pensar so dentro da doutrina.

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