É a Igreja um mal necessário?

Church-pewsNão sou e nem me sinto um especialista na área de humanas e comportamento, embora minha vivência como mórmon praticante tenha me dado aval para ter experiências que refinaram minha capacidade de observação sobre mim e as pessoas que me cercam – em especial as pessoas de nossa própria fé.

Minha busca por descobrir quem realmente sou e o quanto desse ‘ser’ tem haver comigo e o quanto foi imposto pelo meio (ideias e comportamentos) tem sido meu desafio já desde algum tempo. Nesse processo minha empatia emocional e espiritual tem crescido, e posso hoje sentir isso. Assim, prefacio meu primeiro post nessa comunidade. Sem contanto desejar dar a impressão de que tenho eu algum desejo ‘oculto nas entrelinhas’ diferente do que tentarei aqui escrever no decorrer dessa aventura de postar opiniões e ouvir as dos demais. Na realidade, sinto-me como Néfi, que sabia ser muito bom no sentido oral da palavra (no meu caso, penso melhor do que falo ou escrevo), mas sentia o peso de sua inabilidade em escrever. O título? Sim, tem o propósito de chamar a atenção mesmo. Mas não se atenha apenas a ele.

Permitam-me iniciar por uma parábola, dessas que se ouvem, mas nunca se sabe de onde saiu… Eu ouvi isso há muito tempo… Conta-se de certo homem, que inquieto com a vida ‘morna’ da congregação dos santos resolveu sair procurar satanás pra lhe dizer umas ‘boas verdades’. Foi a cabarés, bares, boates, rodas de bebedeira, procurou nas penitenciárias; até em hospitais, escolas e cemitérios se aventurou. Para sua surpresa, não encontrou o sujeito. No domingo seguinte foi à reunião da igreja, como de costume. Cumprimentou os irmãos logo na entrada, e depois de algum tempo notou um senhor bem-vestido que desconhecia. Aproximou-se para puxar conversa e logo ouviu seu nome seguido da pergunta: “O que queria comigo? Eu sou satanás”.

A moral dessa história era simples na época: o maior perigo espiritual está para aqueles que acham que estão bem; e o local de maior oposição é naqueles onde ainda há vítimas potenciais. Algo que somente na atualidade percebo é o quanto as pessoas acreditam cegamente que por estarem ‘na igreja’ estarão ‘protegidas’ de ações descuidadas ou mesmo mal intencionadas de outros ‘irmãos’… Ao ignorar isso, quando ocorre, o potencial de frustração, decepção e mágoa pode ser fatal (espiritualmente falando) para alguns. Alguns casos, inclusive, sua integridade emocional, psicológica ou espiritual serão violadas por ‘pastores’ ou outras pessoas fortemente influenciadas pelo meio onde foram ‘criadas’.

Não se pode negar que dentro de nossas capelas há solo fértil para florescer vários tipos de atitudes e preconceitos terríveis contra as fraquezas dos demais, e o pior, com aval dos ‘portadores do sacerdócio locais’. Ter ministros leigos pode ser um dos fatores que permite coisas assim. E a própria inserção da cultura exterior (afinal, há tantas manias por ser um converso quanto o de não ter conhecido qualquer outra coisa que ‘mórmons’ a vida toda) dentro das reuniões dos crentes também pode ser motivo. Mas creio que de alguma forma, mais que tudo isso, Deus deve permitir, pois faz parte da oposição necessária, e Ele não fere nosso arbítrio.

Erros pessoais e pecados afastam muitas pessoas da igreja (depois ou antes de conhecerem-na), mas ‘os santos’ afastam pessoas igualmente. É tão fácil dizer que a pessoa perdeu a fé, é apóstata ou iníqua, porque exime de nós nossa responsabilidade pessoal no caso. Como se disséssemos: “A Igreja e seus santos líderes e eu fizemos tudo que podíamos, se se afastou é porque não merece estar aqui” (e coisas do tipo). Isso é meio cultural, mesmo com muitos discursos e lições que enfatizam que deveria ser diferente.

Para exemplificar poderia contar diversas experiências pessoais com tudo isso que afirmei (tanto de um lado da vítima como do algoz), mas lembro especialmente de um caso agora. Eu estava sentado num dos bancos da sacramental, adolescente, poucos meses de batismo, sei lá em que pensando da vida, e certo irmão aproximou-se, parecendo querer conversar. Eu mal o conhecia, mas por tantas vezes o ver bem falante e bem vestido, julgava ele um pouco melhor do que os demais. Suas primeiras palavras, virando-se para trás e me olhando nos olhos foram: “Tu não vai durar muito aqui. Conheço pessoas assim, logo logo tu vai se afastar”. Sequer dei chance dele terminar alguma outra maravilhosa previsão sobre minha vida, e ainda lembro de minha cara de espanto enquanto procurava me afastar dele.

Por essas e outras coisas que vi ou vivi, tomei a decisão, ainda com 15 anos, de não dar atenção a qualquer palavra ‘ociosa ou zombaria’ vinda dos ‘irmãos’, mesmo que eles não estivessem ‘naquele grande e espaçoso edifício’, mas, ao contrário, ao pé da árvore. Para mim igreja é um grupo de pessoas. A igreja não é o evangelho e tampouco infalível. E não é por ser um grupo encabeçado por Cristo que não irá fazer coisas que Lhe desagradem (mesmo os poucos discípulos de sua época já demonstravam isso).

Quando missionário alertava meus amigos, tão logo aceitavam o batismo, que iriam encontrar provações e desafios mesmo dentro da igreja, e os exortava a deixar isso de lado e servir o Cristo com quem haviam feito convênio. Por essas e tantas outras coisa, é que hoje vejo a igreja como ‘um mal necessário’ à salvação daqueles que acreditarem nas doutrinas e alegações ‘mórmons’. Vai ser tão difícil se aperfeiçoar estando afastado do grupo quanto estar alheio a seus problemas. Assim como quando missionário de tempo integral de outrora, eu resolvi ficar e alertar os incautos sobre as mazelas de ser mórmon, de um modo que eles saibam se restabelecer quando forem atingidos, assim também hoje procuro criar ambientes de aprendizado onde os mais novos na fé aprendam a manter sua fé segura, sabendo de recompor inclusive de nossa própria história (muitas vezes mal contada).

41 comentários sobre “É a Igreja um mal necessário?

  1. Estou muito grato pela tua coragem de dizer essas coisas para os recém conversos. Já sou membro a alguns anos e já vi, presenciei muitas situações desagradáveis. Embora não esteja frequentando tal como eu gostaria (não estou de licença psiquiatra no trabalho à toa, estou mesmo com dificuldade de lidar com o mundo exterior a minha casa – embora muitas pessoas não entendam isso – “membro da igreja tem a companhia do espírito e é feliz”, dizem – e se auto-enganam, afinal, ninguém é feliz 100% do dia) me sinto firme em minha fé, em minha identidade como mórmon.
    Eu achei muito interessante você se dizer não ser especialista em ciências humanas, mas levantar algumas questões chaves clássicas da sociologia e antropologia (indivíduo x sociedade; cultura x natureza). Não sei exatamente o porque estou escrevendo agora. Talvez para agradecer. Agradecer por ver que não sou o único que passa por isso. Agradecer por sentir um conforto e júbilo semelhante como senti ontem, indo ao posto de saúde, e vi a dupla de sisters caminhando na rua (me trás uma paz inexplicável; a mesma paz e gratidão que sinto ao ler o Livro de Mórmon ao acordar).

    • Obrigado, Joni Pinto.

      Espero que a leitura ao menos o tenha ajudado a peceber que existe ‘vida mórmon em outros lugares’ também, que em muitas alas e pelo mundo há pessoas realmente preocupadas com a questão humana de nossa fé, que acreditam que pessoas são mais importantes que regras.

      Acredito que se Cristo quisesse dar tanta ênfase a regras teria se filiado aos fariseus ou similares e escrito livros de conduta, mas na realidade, seus atos provam o contrário. Como pode alguém que ‘quebrou o sábado’ (e talvez até o ‘pegar sem pedir’) para alimentar discípulos ser ‘digno’ de expiar pelos pecados de todo o mundo? Mas foi exatamente isso que ele fez (não estou incentivando rebeldia geral com os mandamentos, claro). Creio que Ele, mas que ninguém, sabia do propósito por trás de cada um, e no momento que esse propósito deixa de existir, o mandamento torna-se inválido.

      Espero realmente que a leitura o tenha ajudado. Da minha parte torço para que você consiga suportar bem seu fardo, sem esquecer que há Um Amigo que nunca vai falhar contigo, mesmo quando você acha que Ele não está presente. Abraço.

  2. Boa redação, conceitou bem o fatos, compartilho de seus sentimentos, infelizmente é isto ai, quanto mais tempo de membro assíduo na igreja, mais difícil fica de compreender o comportamento e atitudes de certos membros,pior e que alguns quanto mais tempo tem de igreja menos entendem o propósito dela, quanto mais tempo ocupam cargos de responsabilidades, menos sensibilidade tem para com seus irmãos que passam dificuldades, parece que endentem o cargo como status social e não como oportunidade para servir o próximo e se converter a semelhança de Cristo.

    • Obrigado irmão, por seu comentário.

      Sim, a incensibilidade é algo que permeia a ingratidão. É semelhante aos 10 leprosos… todos foram curados, mas apenas um retornou para agradecer, pois lembrava de quem tinha sido e de seu dever de ser grato Aquele que o curou… com essa atitude, ainda assim vamos errar muito, mas ao menos seremos mais justos e mais ‘pastores’ para aqueles que realmente precisam.

      Isso me faz lembrar de D&C 59:21 (e de outras passagens semelhantes):
      “E em nada ofende o homem a Deus ou contra ninguém está acesa sua ira, a não ser contra os que ‘não confessam sua mão em todas as coisas’ [gratidão] e não obedecem a seus mandamentos.”

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