Desafio de história mórmon: gravatas borboletas

O que faz esse grupo de meninos mórmons usando camisas brancas e gravatas borboletas?

bowtie

5 comentários sobre “Desafio de história mórmon: gravatas borboletas

  1. O que faz esse grupo de meninos mórmons usando camisas brancas e gravatas borboletas?

    Esse grupo de meninos está uniformizado, cumprindo assim um requisito em muitas estacas na primeira metade do século XX, para que eles abençoassem o sacramento.

    Há um excelente artigo escrito por Justin R. Bray¹, intitulado “Excessive Formalities in the Mormon Sacrament, 1928–940.” [1] que é uma ótima fonte para sabermos mais a respeito das formalidades que estavam presentes no sacramento mórmon.

    Segue abaixo alguns trechos interessantes do artigo de Bray, a partir da pag. 66-68:

    Earl Jay Glade, um portador do Sacerdócio de Melquisedeque e um líder dos diáconos da ala Highland Park, introduziu pela primeira vez o “sistema de camisa branca e gravatas pretas” em uma convenção do sacerdócio em Salt Lake City. De acordo com Glade, os uniformes não eram “apenas qualquer camisa velha, qualquer camisola velha, qualquer casaco velho”, mas sim idênticas camisas brancas e gravatas-borboletas; ele sentia que elas eram a solução para a “construção moral no trabalho do quorum dos diáconos.” A idéia de uniformes foi recebida entusiasticamente por outros diáconos líderes de quóruns e se espalhou até que um número de alas locais adotou suas próprias vestimentas uniformes para os jovens distribuírem o sacramento.

    Embora os uniformes variassem de ala para ala, as gravatas borboletas tornaram-se uma característica distintiva dos quóruns de diáconos na década de 1930. […]

    Os uniformes funcionaram de forma eficaz; uma ala que implementou um código de vestimenta imediatamente notou “mais reverência mostrada durante a distribuição do sacramento pelos membros, bem como nos próprios meninos. ” Essa mesma ala descobriu que um diácono tinha um “incentivo maior para ser cortês, atencioso e bem disposto no exercício das suas funções sagradas” quando todos os diáconos estavam vestidos iguais. Outros membros não só testemunharam um “aumento de rapazes presentes na escola dominical” após ser imposto um código de vestimenta, mas observaram que os uniformes tiveram “um efeito maravilhoso sobre os meninos de onze e doze anos de idade. Quando eles vêem estes diáconos eles anseiam em se tornar diáconos”. Os sucessos dos uniformes motivaram em alguns líderes adultos do sacerdócio a incorporação de “recursos adicionais “e regras rígidas para o processo de administrar a Ceia do Senhor.

    A maior parte das novas regras que acompanharam a criação de uniformes tratava-se da postura e invariabilidade na forma de andar e se posicionar. Por exemplo, em algumas alas diáconos deveriam surgir simultaneamente e estritamente “marchar” para e até a mesa do sacramento, mantendo os braços que seguram as bandejas em ângulos retos. Enquanto esperaram pelas bandejas serem devolvidas a eles em cada fileira, os diáconos deveriam “ficar ereto com os braços cruzados na frente deles,” a fim de evitar distrair a congregação.

    Muitas alas começaram a implementar regras ainda mais rigorosas e detalhadas. Em algumas alas, os diáconos faziam fila para receber tarefas específicas de acordo com a sua altura. Outros dividiam a distribuição do pão e da água entre vários quóruns de diáconos. Algumas alas tornaram-se tão exigente ao ponto de proibir a casca do pão do sacramento de modo que “quando os pedaços eram partidos deveriam ser uniformes em cor e tamanho”. Essas regras, juntamente com os uniformes, tornaram-se conhecidas como a “ordem militar” de administrar a Ceia do Senhor.

    Uma regra popularizada na década de 1930, o que é ainda hoje uma prática popular Mórmon, é a não utilização da mão esquerda ao passar a pão e a água. A Estaca Granite foi a primeira a divulgar esse caso no Improvement Era, uma revista distribuída pela igreja. De acordo com as suas instruções, os diáconos deveriam tomar a bandeja apenas na mão direita e manter a mão esquerda atrás das costas “em todos os momentos”. A única explicação dada pela Estaca Granite foi que “não é apropriado ter um menino manuseando o sacramento com a mão esquerda.

    […]

    Curiosamente, as freqüências nos quóruns de diáconos aumentaram consideravelmente em muitas alas no momento em que estas instruções estritas foram ensinadas aos jovens. Alas consistentemente felicitavam seus diáconos pelo atendimento perfeito através de artigos na Improvement Era, durante a década de 1930. Por que os jovens respondiam de forma positiva essas regas? Manton Moody da Estaca Deseret publicou um artigo na Improvement Era sobre o comportamento dos diáconos e enfatizou que os jovens “gostam de ser notados” e anseiam por atenção.

    A consideração extra pelos, e as regras rígidas impostas, aos diáconos ajudaram-nos a sentir o centro das atenções e “se sentir um pouco maior”, construindo assim sua moral e os inspirando. Em essência, os diáconos tinham uma nova identidade. Eles não estavam mais na parte inferior do pólo de totem do sacerdócio; eles haviam se tornado o centro das atenções.

    ¹Justin R. Bray é um arquivista da Igreja [na época em que esse artigo foi escrito] do Departamento de História de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, em Salt Lake City, Utah. Este trabalho, é uma conseqüência de sua pesquisa sobre a Ceia do Senhor na Igreja Mórmon, foi escrito enquanto terminava a sua licenciatura em História na Universidade Brigham Young, em 2011.

    [1] Disponível em: http://digitalcommons.usu.edu/imwjournal/vol4/iss1/4

  2. Que interessante, Josimar! Obrigada pela riqueza de informações e pela preciosa referência!
    Eu quase falei que era um grupo de garçons hehehehe… Para mim é relevante conhecer os detalhes da nossa história, para assim compreender nossos hábitos, crenças, costumes.
    “Se queres conhecer o passado, examina o presente que é o resultado; se queres conhecer o futuro, examina o presente que é a causa.” Essa frase é atribuída a Confúcio, e reflete bem o que quero dizer.
    Inerente à minha prática profissional é o reconhecimento de que o uniforme tem múltiplas funções. Alem de mero mecanismo de controle institucional, ele se presta também a criar uma identidade de grupo, um sentimento de equipe. Isso acontece, por exemplo, em equipes esportivas, grupos de canto coral, equipes que se unem para algum trabalho comunitário etc. Embora os conceitos e justificativas dados para a adoção do uniforme no quórum dos diáconos, explicitadas acima, sejam senso comum, o princípio é exatamente o mesmo usado por qualquer coach, educador ou treinador para justificar seu uso. Quando visto um uniforme, estou me despindo de minha identidade, ou pelo menos, relegando-a a segundo plano, para assumir a identidade do grupo, suas regras, suas crenças, suas metas. Creio que a intenção de unir e incentivar os meninos (tão novos em função tão importante) foi necessária, muito louvável e certamente funcionou, embora nota-se que com ela temos embutidas uma série de outras práticas e tradições, aprovadas naquele momento, e que vieram a se tornar parte da cultura mórmon, como uma espécie de rito sagrado. Até hoje me sinto mal se pego o pão com a mão esquerda. E não adianta ler e reler, sempre me sentirei esquisita. E é assim que um fato histórico se transforma num dogma.

  3. Suzana, muito precisa sua análise do propósito dos uniformes, principalmente no que diz respeito a importância dos mesmos na criação da identidade de um grupo. Bray, em um determinado momento de seu artigo, faz uma relação entre o papel dos uniformes de forma semelhante.

    Indo mais adiante em seu comentário, a segunda metade do século XIX até a primeira metade do século XX, muitas cerimônias foram criadas, ao passo que outras foram descontinuadas. Por exemplo, seguindo o que está escrito em D&C 20: 76-79, era costume entre os santos de Utah do século XIX ajoelharem-se em congregação enquanto o sacramento era administrado. Essa prática posteriormente foi encerrada, assim como o levantamento da mão direta por parte daquele que administrava o sacramento (no ato da oração sacramental) também deixou de ser continuada. Outro detalhe digno de nota era a participação efetiva do sexo feminino no preparo do sacramento. Mulheres adultas e moças podiam sem impedimento preparar a mesa sacramental, fazer e assar os pães, lavar e polir as louças do sacramento (bandeias), lavar e engomar as toalhas além de outros afazeres pertinentes ao sacramento. No entanto, durante a década de 1940 os copos de vidro utilizados na cerimônia sacramental foram substituídos por copos de papel, o que diminuiu os afazeres das mulheres no preparo do sacramento. Até 1933 o preparo do sacramento ainda não estava relacionado com os deveres inerentes aos portadores do sacerdócio. A partir de 1950, o Bispado Presidente atribuiu aos mestres e não mais às mulheres o preparo da mesa sacramental, entretanto, em 1955 o Bispado Presidente disse que onde fosse desejado poderiam ser atribuído às mulheres o cuidado das toalhas e das bandejas para as próximas reuniões, medida essa que permanece até os nossos dias.[1]

    A mão direita como uso formal na cerimônia sacramental tem seus apoiadores nos primeiros anos do século XX. Provavelmente perpetuou-se esse ensinamento devido a declaração de Joseph Fielding Smith em um de seus sermões ou escritos que adiante foram copilados por Bruce R. McConkie com o título de “Doutrina de Salvação”, livro este composto por três volumes. No terceiro volume, nas páginas 108-109, Joseph Fielding Smith levanta a questão do “Uso da mão direita nas ordenanças”, onde depois de feito um breve levantamento de diversos costumes feitos tanto na sociedade secular, quanto no contexto escriturístico do uso da mão direita, Smith diz: “tomamos o sacramento com a mão direita. Apoiamos as autoridades com a mão direita. Expressamos reconhecimento com a mão direita levantada.” Se não me foge a memória, creio ser de George Albert Smith uma declaração semelhante, da em abril de 1908 em Conference Report. Outrossim, em 1983 houve duas edições de a Liahona [2][3] (março e julho) em que a revista ofereceu respostas a dúvidas concernentes ao uso da mão direita na participação do sacramento. As respostas são idênticas. Ambas são respostas dadas por Russell M. Nelson , que nesse momento (1983 era Representante Regional, ex-presidente geral da Escola Dominical. Essas respostas estavam em sintonia fina com os ensinamentos de Smith que pode ser lido acima. Assim, apesar de a mão direita apresentar para a liderança da Igreja uma manifestação de respeito e de legitimação de atos solenes, hoje o que se vê, ao menos em meu contexto regional, é que não há nenhum líder que pareça se importar, ou mesmo conhecer, a importância do uso da mão direita na participação do sacramento.

    Nota: Outro fator intrigante no uso da mão direita é na cerimônia do batismo. Apesar de ser obrigatório o levantamento da mão direita em angulo reto, não há, ou ao menos eu nunca encontrei, uma escritura que legitime tal prática.

    [1] Hartley, William G. From Men to Boys. (1996) “Journal of Mormon History Vol. 22, No. 1, 1996,” Journal of Mormon History: Vol. 22. P. 129-130. Disponível em: http://digitalcommons.usu.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1026&context=mormonhistory

    [2] Disponível em: https://www.lds.org/ensign/1983/03/i-have-a-question?lang=eng

    [3] Disponível em: https://www.lds.org/liahona/1983/07/questions-and-answers?lang=eng

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