A Cruz no Mormonismo

Monumento no cemitério de Winter Quarters, Nebraska.

Monumento no cemitério de Winter Quarters, Nebraska.

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias não usa a cruz em seus prédios ou liturgia. O mesmo é verdade para a grande maioria de outras denominações mórmons. Isso não só gera questionamentos e incompreensões por parte de outros cristão, como é também pouco compreendido pelos próprios mórmons em geral.

Em nosso último Desafio de História Mórmon, o leitor Giovanni Machado identificou corretamente a jovem da foto: Lula Young, filha de Brigham Young. Na foto original, de 1887, ela está acompanhada de outras cinco moças. Um aspecto interessante da imagem é o uso da cruz pela jovem Lula, que pode surpreender ou intrigar santos dos últimos dias contemporâneos.

cruz

Mórmons possuem uma percepção negativa da cruz, a qual remeteria ao cristianismo apóstata. Comentando a recente excomunhão do blogueiro Alan Waterman, um leitor encontrou na foto publicada evidências físicas de apostasia:

alan rock watermanA contar pelo cabelo cumprido, barba e crussifixo atrás dele já da pra perceber o tipo de membro “obediente” que era.

Ou seja, o uso da cruz por um membro da Igreja SUD indicaria um sério desvio espiritual.

Imagina-se que a ausência – ou mesmo rejeição – da cruz tenha sempre existido no mormonismo, o que não é verdade. A cruz adornando Lula Young não é uma imagem anômala na história mórmon. Vejamos outro exemplo ainda da família Young: Amelia Folsom Young, esposa plural (e, segundo rumores, favorita) de Brigham.

cruz amelia young

Amelia Folsom Young

De acordo com o historiador Michael G. Reed, “o tabu da cruz foi um desenvolvimento relativamente tardio na história mórmon” e que não pode ser imputado aos membros fundadores e pioneiros. Ao contrário do que comumente se pressupõe, afirma Reed,

membros da igreja nas primeiras décadas depois de sua organização em 1830 não subscreviam inicialmente à retórica contra a cruz, típica entre protestantes americanos contemporâneos. De fato, no século dezenove e início do século vinte, muitos santos dos últimos dias individualmente usaram e promoveram o símbolo da cruz em sua forma visual e material. O tabu atual surgiu entre mórmons em sua bases populares na virada do século vinte e tornou-se institucionalizada na metade do século sob a direção de David O. Mckay, presidente da Igreja SUD 1951-50. (Banishing the cross, p. 03)

banishingReed explorou o tema em seu livro Banishing the cross: the emergence of a Mormon taboo, de 2012 (Banindo a cruz: o surgimento de um tabu mórmon, em tradução livre). Nele, o historiador documenta o uso da cruz por mórmons na arquitetura, em jóias, lápides, arranjos florais e publicações. Embora o foco principal seja na Igreja SUD, ele também analisa o uso da cruz na Comunidade de Cristo e da igreja strangita. Segundo o autor, os primeiros mórmons não absorveram o repúdio à cruz como símbolo do catolicismo, promovido por muitas igrejas protestantes à época. No entanto, animosidades em Utah entre católicos e mórmons teriam ajudado a gerar a atual aversão ao símbolo.

11 comentários sobre “A Cruz no Mormonismo

  1. Por que os cristãos usam cruzes e/ou crucifixos? Embora seja agnóstico, é fácil compreender porque a cruz se tornou rapidamente o símbolo cristão por excelencia:
    Mateus 16.24-27: “Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e, então, retribuirá a cada um conforme as suas obras.”
    O apóstolo Paulo esquivar-se-ia com horror da idéia de gloriar-se em um mero instrumento de tortura. Contudo, esta não era a cruz na qual São Paulo se gloriava: “Quanto a mim, não aconteça gloriar-me senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.” (Gál 6, 14)
    Foi ele quem primeiro formulou uma verdadeira teologia e espiritualidade da cruz. Seu querigma pode ser resumido nestas palavras: Cristo por nós morreu na cruz e por nós ressuscitou. Para Paulo, a crucifixão e a ressurreição são dois mistérios inseparáveis.
    Eis alguns textos das Cartas de Paulo sobre o mistério da cruz.
    “Fui enviado para anunciar o Evangelho, sem recorrer à sabedoria da linguagem humana, a fim de que não se torne inútil a cruz de Cristo. Com efeito, a linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas poder de Deus para aqueles que se salvam.” (1 Cor 1, 17-18)
    “Anunciamos Cristo crucificado que para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura… O que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.” (1 Cor 1, 23-25)
    “Não quis saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo e Jesus Cristo crucificado.” (1 Cor 2, 2)
    “Cristo reconcilia dois povos (judeus e pagãos) com Deus em um só corpo por meio da cruz, na qual Ele matou a inimizade.” (Ef 2, 16)
    “Há muitos dos quais tantas vezes vos disse e agora repito chorando, que são inimigos da cruz de Cristo.” (Fl 3, 18)
    O sacrifício diário, o cordeiro pascal, o derramamento contínuo do sangue no tabernáculo e o templo, todos estes eram símbolos de Cristo crucificado. Esta é a visão do Apocalipse. «No meio do trono e dos quatro seres viventes», nos diz, «e no meio dos anciões, estava em pé um Cordeiro como imolado» (Apoc. 5:6).
    P.S. Parece-me que as filhas de Young usavam cruzes, não crucifixos.

Deixe um comentário abaixo:

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.