Testemunhas Especiais do Nome de Cristo

Apóstolos são “testemunhas especiais de Cristo” ou “testemunhas especiais do nome de Cristo”? Qual a diferença entre as duas definições? Que implicações doutrinárias há nessa mudança de linguagem? Embora grandemente despercebida, a mudança na tradicional definição do papel dos Doze Apóstolos ocorreu em uma das publicações de maior tiragem de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o livro Princípios do Evangelho.

princípiosUm profeta, sob a direção do Senhor, dirige a Igreja. Esse profeta é também o Presidente da Igreja. Ele possui toda a autoridade necessária para dirigir o trabalho do Senhor na Terra (D&C 107:65, 91). Dois conselheiros ajudam o Presidente. Doze apóstolos, que são testemunhas especiais de Cristo, ensinam o evangelho em todas as partes do mundo.  Edição de 1995, p. 112.

principios-do-evangelhoUm profeta, sob a direção do Senhor, dirige a Igreja. Esse profeta é também o Presidente da Igreja. Ele possui toda a autoridade necessária para dirigir o trabalho do Senhor na Terra (D&C 107:65, 91). Dois conselheiros ajudam o Presidente. Doze apóstolos, que são testemunhas especiais do nome de Cristo, ensinam o evangelho e governam os assuntos da Igreja em todas as partes do mundo.  Edição de 2009, p. 100.

Lição sobre Linhagem, 1970

Em dezembro de 1970, a Missão Brasil Norte de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias publicava a seus jovens missionários a mais recente versão de uma palestra a ser usada com potenciais membros brasileiros. Nela, após revisar conceitos sobre revelação, profetas e autoridade divina, falava-se sobre os negros não poderem ser ordenados ao sacerdócio.

A Primeira Presidência à época: presidente Joseph Fielding Smith e seus conselheiros President Harold B. Lee, e Eldon Tanner.

A Primeira Presidência formada em 1970: presidente Joseph Fielding Smith e seus conselheiros Harold B. Lee e Eldon Tanner.

A segregação de negros e afrodescentes do sacerdócio era explicada na forma de um diálogo entre os missionários e o “Irmão Nunes”. As falas do investigador hipotético eram guiadas cuidadosamente por perguntas prescritas aos missionários.

A lição afirmava que os negros descendiam de Caim e que as razões para sua exclusão do sacerdócio não eram plenamente conhecidas. Ela ainda incluía a narrativa de que a exclusão racial na Igreja havia sido estabelecida por seu profeta fundador Joseph Smith.

Usando uma citação de David O. McKay, garantia-se que futuramente o direito ao sacerdócio seria dado aos homens negros. Depois de ter presidido a Igreja por quase duas décadas, McKay havia falecido em janeiro daquele ano.

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Percepções de duas antropólogas sobre o mormonismo no Nordeste dos anos 70

Há quase 40 anos, quando sequer tínhamos uma estaca no Nordeste, duas pesquisadoras, que mais tarde se tornariam acadêmicas de renome, viram o mormonismo como algo interessante para se estudar.

Sobre uma delas, já comentamos ano passado em um artigo que discorria sobre o impacto trazido pela política racial, que perdurou até 1978, no perfil socioeconômico dos conversos brasileiros: Nádia Fernanda Maia de Amorim, alagoana, professora da UFAL, autora de Mórmons em Alagoas: religião e conflitos raciais.

Nádia Amorim (esq.) e Fátima Quintas. (Imagens: Agência Alagoas, Unicap.)

Nádia Amorim (esq.) e Fátima Quintas. (Imagens: Agência Alagoas, Unicap.)

Antes desta, a hoje presidente da Academia Pernambucana de Letras, Maria de Fátima de Andrade Quintas, debruçou-se no estudo do grupo religioso que pouco tempo antes havia construído uma capela no bairro da Ilha do Leite, no Recife.

Do esforço da pesquisadora pernambucana surgiu Os mórmons em Pernambuco: uma sociedade fechada, obra que, ao lado do trabalho de Nádia Amorim, nos ajuda a compreender os primórdios do mormonismo nordestino e como a religião fundada por Joseph Smith foi percebida pela literatura acadêmica brasileira.

Fátima Quintas frequentou as reuniões da capela localizada na Rua das Ninfas, nº 30, Recife; à época, talvez a única capela construída em todo o Norte/Nordeste do país. A despeito de reconhecer o quase total desconhecimento da população brasileira sobre os mórmons, a pesquisadora já notava implicações sociais na penetração do mormonismo em solo pernambucano. Seu trabalho, embora tenha analisado os membros locais, foi muito voltado à apreensão das visões dos missionários de tempo integral que atuavam na época – eram seis no total, todos norte-americanos.

Nádia Amorim fez uma pesquisa mais longa. Atraída pela existência de um grupo religioso que promovia a segregação racial em plena Maceió dos anos 70, a autora se propôs a escrever sobre as afinidades entre as perspectivas da religião por ela analisada e a tradição estadunidense de segregação entre brancos e negros.

Porém, algo muito importante aconteceu: enquanto a alagoana desenvolvia seu trabalho, ela tomou conhecimento da mudança na política racial SUD. Sua investigação foi prolongada, e ela pôde observar a súbita expansão daquele pequeno grupo que, apesar de zeloso no proselitismo, caminhava a passos lentos por mais de uma década na capital de Alagoas. Continuar lendo

A Cruz no Mormonismo

Monumento no cemitério de Winter Quarters, Nebraska.

Monumento no cemitério de Winter Quarters, Nebraska.

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias não usa a cruz em seus prédios ou liturgia. O mesmo é verdade para a grande maioria de outras denominações mórmons. Isso não só gera questionamentos e incompreensões por parte de outros cristão, como é também pouco compreendido pelos próprios mórmons em geral. Continuar lendo

Desafio de história mórmon: moça do crucifixo

Quem é a jovem na foto?

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Leia sobre o uso da cruz no mormonismo.

Professor é desobrigado da Escola Dominical por usar textos oficiais sobre negros

Brian Dawson foi desobrigado após utilizar textos do site e revista oficiais da Igreja

Em 09 de junho de 1978, Spencer Woolley Kimball anunciava o fim da longa exclusão de negros do sacerdócio e das cerimônias do templo mórmon. Após 37 anos dessa importante mudança, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias parece ainda não lidar apropriadamente com esse aspecto de sua história. Pelo menos, é o que ilustra uma recente polêmica local na Igreja em Honolulu, no estado americano do Havaí.

O casal Brian e Ezinne Dawson com seus filhos

O casal Brian e Ezinne Dawson com seus filhos

Questionado por seus alunos de 12 a 14 anos sobre o banimento dos negros antes de 1978, Brian Dawson decidiu apresentar à classe da Escola Dominical o conteúdo de Raça e Sacerdócio, ensaio publicado em inglês no site lds.org em dezembro de 2013 (e traduzido para o português cerca de um ano depois como As Etnias e o Sacerdócio). De acordo com a reportagem do jornal The Salt Lake Tribune, Dawson também utilizou artigos da revista oficial Ensign (publicação americana equivalente à Liahona) para falar dos pioneiros negros Elijah Abel, Green Flake e Jane Manning James, enfatizando que especialmente os futuros missionários deveriam entender essa história. Continuar lendo

Joseph Smith como o Espírito Santo

Joseph_Smith,_Jr._portrait_owned_by_Joseph_Smith_IIINa teologia desenvolvida por Joseph no período final de sua vida, o Espírito Santo é um deus integrante da Trindade que, diferentemente do Pai e o Filho, não possui um corpo físico. Explicando sobre essa diferença, Joseph Smith declarou:

O Pai tem um corpo de carne e ossos tão tangível como o do homem; o Filho também; mas o Espírito Santo não tem um corpo de carne e ossos, mas é um personagem de Espírito. Se assim não fora, o Espírito Santo não poderia habitar em nós. (Doutrina e Convênios 130:22)

A ideia de que tal membro da trindade estaria passando por uma vida mortal nesta terra durante a época de Joseph Smith foi sugerida por ele em um discurso em Nauvoo, segundo o relato do apóstolo Franklin D. Richards: Continuar lendo

Igreja SUD terá sistema online para dízimo

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias contará em breve com um website para recebimento de dízimos e outras ofertas monetárias. A novidade será implantada durante 2015 apenas nos Estados Unidos. Para usar o serviço, é necessário ter uma conta bancária nos EUA. Continuar lendo

Uma República Mórmon

… o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e esse reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos e será estabelecido para sempre.

– Daniel 2

Quando Joseph Smith nasceu, em 1805, os Estados Unidos eram um jovem país em formação, havendo conquistado sua independência há apenas 22 anos. Durante as três primeiras décadas do século 19, os movimentos por independência se espalharam por todo continente americano. Haiti (1804), Paraguai (1811), Argentina (1816), Chile (1818), Colômbia (1819), México (1821), Equador (1822), Brasil (1822), Peru (1824), Bolívia (1825), Uruguai (1828), entre outros, libertaram-se de metrópoles europeias naqueles anos. Para os membros da jovem Igreja de Cristo, Continuar lendo

Ordenanças do templo – parte 4

O Quórum dos Ungidos, a Investidura e as Segundas Unções

Em 04 de maio de 1842, 49 dias após seu ingresso na maçonaria, Joseph Smith introduziu uma nova cerimônia, que posteriormente passaria a ser chamada de “investidura”. Como já havia acontecido em Kirtland, o profeta mórmon não aguardou que o templo de Nauvoo estivesse pronto. Juntamente com seu irmão Hyrum, Joseph Smith administrou a investidura a um grupo de oito homens. Na casa de tijolos vermelhos em Nauvoo, Joseph e Hyrum Smith administraram a um grupo de oito homens a “ordem sagrada”. No dia seguinte, os dois irmãos receberam as mesmas cerimônias. Continuar lendo

Desafio de História Mórmon: Carta de Joseph Smith

O Profeta Joseph Smith escreveu essa carta no dia 11 de abril de 1842. Embora trate-se de correspondência pessoal, ela foi publicada pela Igreja na História da Igreja (vol. 5, pp. 134-136)

Pintura entitulada 'Joseph Smith Pregando aos Lamanitas' por William Armitage (1890)

“Aquilo que é considerado errado em uma circunstância pode ser, e freqüentemente é, correto em outra.” — Joseph Smith (Pintura intitulada ‘Joseph Smith Pregando aos Lamanitas’ por William Armitage, 1890)

Para quem ele escreveu e enviou essa carta?

Qual o seu contexto histórico?

O que Joseph Smith queria expressar com essa carta?

Qual o seu resultado imediato?

Como o contexto altera a interpretação do seu conteúdo?

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Super-herói Mórmon: O Jovem Guerreiro

Conheça Sam Shepard, um jovem Mórmon que em sua noite de núpcias recebe a visita de um anjo como uma missão divina, e super-poderes, para ele.

 

STRIPLING WARRIOR

O Jovem Guerreiro, criado e escrito por Brian Andersen e ilustrado por James Neish

 

O criador da comic ‘Stripling Warrior’, uma jogada com a expressão “jovens guerreiros” usada no Livro de Mórmon para se referir à legião de 2,000 adolescentes que lutam com o Capitão Moroni, publicou sua primeira edição e abriu uma campanha no Kickstarter para angariar fundos para a publicação das próximas edições.

Eis a descrição que o autor Brian Andersen oferece do seu projeto:

 

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Minha religião me aproxima de Deus?

Calma, não seja apressado(a) em dar a resposta. Vamos antes entender juntos o contexto do que quero dizer com ‘aproximar de Deus’, depois vamos à nossa própria consciência e buscar a resposta.

Detalhe de A criação de Adão, de Michelangelo (aprox. 1512).

Detalhe de A criação de Adão, de Michelangelo (aprox. 1512).

Essa pergunta me ocorre já há algum tempo, e quase sempre tem relação com a atitude de algum ‘santo dos últimos dias’ (entre os quais mais convivo) ou algum membro de alguma outra denominação (cristã ou não).

O contexto para a pergunta quase sempre se dá em ocasiões onde percebo casos de intolerância, mesquinhez, insensibilidade aos problemas alheios, egoísmo e coisas do tipo, sem contar os casos de artimanhas sacerdotais e ‘domínio injusto’. Tudo isso, pasmem, em defesa do ‘nome do bom deus’ e ‘sua vontade’. Pelo menos é o que dizem ou mentem a si mesmos. Continuar lendo

Desafio de história mórmon: gravatas borboletas

O que faz esse grupo de meninos mórmons usando camisas brancas e gravatas borboletas?

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God Bless America

Deus preparava as nações para receber seu ensinamento, submetendo todas ao único imperador de Roma, e impedindo que o isolamento das nações devido à pluralidade das realezas não tornasse mais difícil aos apóstolos a execução da ordem de Cristo: Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos.” [1]

A citação acima é extraída de uma importante obra apologética do século III, chamada Contra Celso. Para seu autor, Orígenes, a ascensão de Augusto e o autoritarismo gerador da Pax Romana estavam nos planos de Deus, e serviam como preparação para que Cristo nascesse em um contexto de relativa paz.

Mesmo vivendo em uma época anterior à Virada Constantiniana, Orígenes já percebia a importância da estabilidade do Império Romano – cujos territórios estavam unidos por importantes portos e por uma grande rede de estradas, através dos quais cristãos e suas ideias puderam se espalhar com rapidez.

Se dermos um pulo na história e direcionarmos nossos olhares para o primeiro documento escrito da história do Brasil, vemos desde lá uma a associação feita pelos portugueses entre a terra recém-descoberta e a conversão ao cristianismo dos habitantes dela.

Pero Vaz de Caminha, após elogiar a fertilidade da Ilha de Vera Cruz, comenta sobre o que ele considerou mais promissor da terra: Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. [a]

Um século depois, terras mais ao norte seriam colonizadas por imigrantes europeus, muitos deles fugindo de perseguições religiosas que assolavam a Europa naquela época. Com forte apelo religioso, essas pessoas pareciam ver sua nova morada como um lugar sagrado. Uma interessante pregação da época ilustra bem esse sentimento:

Deus escolheu a América para que aqui se construísse a sede do paraíso terrestre, por isso, a causa da América será sempre justa e nada de mal jamais lhe será imputado. Os colonos são os verdadeiros herdeiros do povo eleito, pois prestavam a Santa Fé. Nossa missão é liderar os exércitos de luz em direção aos futuros milênios. (Pregações Puritanas, 1660) [b] Continuar lendo