Conhecemos a famosa equação que nos diz haver uma relação perfeita entre a origem histórica do Livro de Mórmon, o chamado de Joseph Smith como profeta e a Igreja sud como a única igreja que possui autoridade divina. Como não-membro, isso me foi ensinado nas palestras missionárias, e como missionário, também reproduzi isso a outras pessoas. Hoje percebo, no entanto, que pode haver um efeito nocivo, colateral, nessa equação.
O problema inicial está em nossa abordagem do Livro de Mórmon como uma porta de entrada para a Igreja. Queremos que seus leitores sejam futuros conversos. Nada mais nobre. Mas, convenhamos, isso é por demais limitador, tanto para membros quanto não-membros. E se tais leitores não se tornarem membros? O Livro de Mórmon não serve para outra coisa? Para ser lido, quem sabe? E será que nesse processo não subestimamos também a sua importância para os membros? Desconfio que sim. Subestimamos a importância dele como “uma voz que clama desde o pó”.
Como mórmons do século XXI, relacionamos a sua leitura muito mais ao processo de filiação à Igreja do que ao nosso processo pessoal de conversão. Falo conversão no sentido do nosso crescimento e aprendizado espirituais. “O Livro de Mórmon é o melhor missionário”, costumamos ouvir. Há uma enorme diferença entre conceber o Livro de Mórmon como um texto sagrado e vê-lo como “ferramenta missionária”. Questiono se devemos entender o Livro de Mórmon como essa porta de entrada para a Igreja, subordinando-o a algo que está fora dele (a Igreja), ou oferecendo a sua leitura como um processo de descoberta da Igreja, ao invés de um processo de descoberta das verdades que seu próprio texto contém. Isso mostra como temos tratado o Livro de Mórmon como uma outra coisa que não escritura.
Acredito que o Livro de Mórmon é na prática o livro mais subestimado e desconhecido entre os santos dos últimos dias, ainda que seja o mais citado na Igreja sud. Seus alertas contra o orgulho, o culto às riquezas e a divisão do povo do convênio em classes sociais não são comumente relacionados a nós, santos dos últimos dias. Baseados muito mais em tradição do que na leitura do texto em si, imaginamos que devem ser alertas para o nosso vizinho que obviamente é de outra religião ou não tem nenhuma. Atitude digna dos nefitas nos seus piores dias.
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