O Shopping de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias inaugurou hoje o shopping center City Creek Center, que culmina o seu projeto de revitalização do centro de Salt Lake City, cujos custos atingiram a marca de 5 bilhões de dólares. [1]

USD 5.000.000.000,00. R$ 9.118.396.169,16 no câmbio de hoje [março de 2012].

O projeto do shopping inclui prédios residenciais de luxo, muito similares ao que temos no Shopping Cidade Jardim em São Paulo. Preços de venda para os apartamentos variam de USD 300.000,00 a 2.000.000,00.

Ao que tudo indica, o empreendimento é um sucesso estético e poucos duvidam de seu futuro sucesso financeiro (apesar de alguma dificuldade na venda imobiliária).

Estas  fotos aqui e os vídeos aquiaqui, e aqui (estes últimos incluindo uma entrevista com o Bispo Presidente David Burton) mostram, indubitavelmente, um empreendimento de alta qualidade.

O Complexo City Creek Center fica notoriamente ao lado do Templo de Salt Lake e dos escritórios gerais da Igreja.

Ao que tudo indica, o projeto deverá cumprir bem sua missão de revitalizar o centro da cidade de Salt Lake City, que vem passando por um processo de decadência desde a emigração dos centros urbanos nos EUA começando nos finais dos anos 60.

Mesmo após controvérsias sobre influência indevida da Igreja sobre vereadores durante as fases de aprovação municipal, a construção seguiu adiante, com 248.423 metros quadrados de área construída, a um custo exorbitante de 20.127,00 dólares por metro quadrado.

Repetidos anúncios oficiais da Igreja negam o uso de fundos públicos (i.e., todo o financiamento veio da Igreja) e de fundos de dízimos — embora esta não passe de um truque de contabilidade, onde o dinheiro de dízimo é quase em sua totalidade investido, e após alguns anos, retornado ao fundo oficial de dízimos, enquanto todos os juros e dividendos são realocados para as empresas da Igreja (e.g., Deseret Co., Reserve Inc., Hawaii Reserves, Farmland Reserve, Bonneville International, etc.), constituindo então um fundo “extra” dizimal. [2] Com estes fundos liberados diretamente das doações religiosas, a Igreja pode então investir em hotéis multi-milionários de luxo no Havaí, reservas de luxo para caça esportiva de animais, e latifúndios bilionários, etc. [3][4][5]

Não obstante todo o sucesso do empreendimento, cabe aqui, em fórum aberto e racional, fazer alguns questionamentos. O projeto foi anunciado oficialmente há pouco mais de 5 anos, embora planos já perdurem uma década, e seus custos não deveriam exceder 500 milhões de dólares. Os valores foram sendo reajustados gradualmente com o passar dos anos, até chegar ao valor de 1,5 bilhões (para apenas parte do projeto) e 5 bilhões no total (embora há analistas que acreditam que o valor total real chegará a 8 bilhões).

Para se colocar em perspectiva, a Igreja gastou em ajuda humanitária e doações para caridade USD 1,212 bilhões entre 1985 e 2010, inclusive. [6][7]

Ironicamente, coincidindo com a inauguração de um shopping multi-bilionário hoje, a edição atual da Liahona traz um discurso recente do Apóstolo Dallin Oaks onde, falando a uma audiência Africana, enfatiza a importância de se pagar dízimos antes e acima de se gastar com tradições culturais como festas de casamentos.

Então, comparemos: 1,2 bilhões em 26 anos para ajuda humanitária versus 5 bilhões de dólares em 6 anos para shopping center de luxo.

[Comparando mais ainda para ganhar perspectiva, vemos que a Fundação Bill e Melinda Gates (voltada para ajuda nas áreas de saúde, como vacinações e remédios; pesquisa agrária e sustentabilidade; assistência direta a pobres; ajuda a empreendedores pobres e minoritários, como mulheres, etc.) conta com um fundo geral de 33 bilhões de dólares.]

Quem acha que investir 5 bilhões de dólares em um shopping center com apartamentos de luxo irá ajudar a Igreja a cumprir sua missão tríplice de 1) proclamar o evangelho, 2) redimir os mortos, e 3) fortalecer os Santos?

Quem acha que investir 5 bilhões de dólares em um shopping center com apartamentos de luxo contribui para o alívio humanitário de sofrimento, miséria, fome, e doença para bilhões de pessoas mundo afora, sem contar nos milhões de americanos (e mesmos milhares de Utahnos)?

Quanto sofrimento humano não poderia ser aliviado com 5 bilhões de dólares?

Quantas escolas ou universidades não se poderiam montar para os SUD (e, quem sabe, não-SUD) em países pobres e populosos (de SUD) como o Brasil, o México, e as Filipinas? Não seria isso uma ajuda humanitária e ainda uma alavanca para a missão tríplice?

Quem acha que investir 5 bilhões de dólares em um shopping center com apartamentos de luxo ao lado de principal Templo Mórmon na atualidade não traz lembranças de como Jesus reagiu quando viu mercadores comprando, vendendo, e lucrando ao lado do Templo de Jerusalém?

O complexo do City Creek Center incluindo shopping e prédio em construção, meados de 2009, com o Templo de Lago Salgado e o Tabernáculo Mórmon.


NOTAS
[1] Antes de mais nada, eu gostaria de pedir desculpas para aqueles que se ofenderem com o título do post. Ele é um trocadilho infame para chamar atenção para um paradoxo ético e moral sério. A revista TIME usou o título “LDS Inc.” para o mesmo propósito, mas meus dotes cômicos são muito inferiores. Aliás, a melhor piada que eu ouvi até agora sobre o CCC foi que a Igreja iria começar a chamar missionários para servir na missão City Creek Shopping, como minha cunhada que serviu como missionária de Centro de Visitantes.
[2] Eu consegui confirmação de um funcionário da Reserve, Inc. que essa prática é comum e corrente, porém este solicitou anonimato. Não consegui encontrar dados para confirmação oficial, ainda mais porque as finanças da Igreja são mais sigilosas que as ordenanças do Templo! Não obstante, enviei comunicado para a firma de contabilidade que faz a auditoria da Igreja, e assim que tiver alguma informação oficial, colocarei aqui como update. Se alguém tiver acesso à esta informação oficialmente, solicito encarecidamente sua ajuda.

264 comentários sobre “O Shopping de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

  1. Quero deixar aqui registrado o meu testemunho. Essa é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo, sobre a face desta terra. Tenham esse testemunho, e confiem nele, então o Senhor vos dará entendimento de todo o resto! Ele vos mostrará as coisas que etão ocultas, pelo poder do Espirito Santo! Lamã e Lemuel murmuravam o tempo todo reclamando de seu pai e de seu irmão, por isso o Senhor não dava a conhecer a eles seus mistérios!

    • Quem de nos estivesse na situacao de Laman e Lemuel nao iria agir da mesma maneira? Eles deixaram a casa que tinha, a unica vida que conheciam, viajaram pelo deserto indo e voltando para Jerusalem varias vezes, o irmao mais novo dando ordens, um pai que via coisas em sonhos que nao faziam nenhum sentido, depois viajaram por um deserto mais longo rumo a um lugar que nunca ouviram falar, o pai deles declarando que nao tinha esperanca por eles e dizendo constantemente que eles seriam rejeitados pelo senhor. Imagine como vc se sentiria nessa situacao.

  2. Gostaria de alertar sobre o que essa intriga pode gerar: APOSTASIA PESSOAL.

    A forma que a igreja investe o seu dinheiro (dízimo e outras doações recebidas) é aprovada pela Primeira Presidência. Se de fato algum membro não está de acordo com isso, sua condição de membro deve ser revista, pois isso se trata de não apoiar a Primeira Presidência, em outras palavras, APOSTASIA PESSOAL, que pode ser punível com excomunhão.

    O dinheiro da Igreja é sagrado e a forma que ele é usado não é democrática e sim TEOCRÁTICA (isso é religião). Líderes eclesiásticos recebem mordomia de administrar parte desse dinheiro (a partir de Bispo na linhagem do sacerdócio até a Primeira Presidência). Cada líder que administra esse dinheiro não precisa prestar contas aos membros. O Princípio de Prestação de contas é: o menor presta contas ao maior, e não o contrário. Isso se dá não somente com o dinheiro, mas com qualquer mordomia ou comportamento.

    Portanto a forma como o dinheiro está sendo usado não é discutível. Devemos simplesmente apoiar a Primeira Presidência, ou rever nossa condição como membro.

    • Hehehehe! Obrigado, Leandro. Então, de acordo com a sua leitura da Igreja SUD, a questão resume-se assim: Você membro, obedeça tudo caladinho, pague tudo bonitinho, nunca use pensamento crítico ou tenha opinião própria ou será excomungado e condenado por toda eternidade.

      • Caro Marcello Jun, depois de ler seu artigo e seus argumentos eu me pergunto o que você faz na Igreja. Gostaria de lembrar uma escritura: “Portanto fortalece teus irmãos em todas as tuas conversas, em todas as tuas orações, em todas as tuas exortações e em todos os teus feitos. E eis que eu estou contigo para abençoar-te e livrar-te para sempre. Amém.” (D&C 108:7-8)

        Manual 1 pp.61-62

        Apostasia
        Na acepção usada neste manual , o termo apostasia refere-se a membros que:
        1. Repetidamente agem em clara, ostensiva, deliberada e pública oposição à Igreja ou a seus líderes.
        2. Persistem em ensinar como doutrina da Igreja informações que não são doutrina da Igreja, depois de terem sido corrigidos por seu bispo ou por autoridade maior.
        3. Continuam a seguir os ensinamentos de seitas apóstatas (como as que pregam o casamento plural) depois de terem sido repreendidos por seu bispo ou autoridade maior.
        4. Filiam-se formalmente a outra igreja e defendem seus ensinamentos.

        Os líderes do sacerdócio precisam aplicar ações disciplinares contra os apóstatas para proteger os membros da Igreja. O Salvador ensinou aos nefitas que eles deveriam continuar a ministrar ao transgressor, “mas se ele não se arrepender, não será contado com o meu povo, a fim de não destruir meu povo” (3 Néfi 18:31 ; ver também Mosias 26:36).

        A total inatividade na Igreja ou a frequência às reuniões de outra igreja não constituem apostasia. Contudo, se um membro se filiar formalmente a outra igreja e defender seus ensinamentos, a excomunhão ou a remoção de seu nome pode ser necessária se a pessoa não renunciar a sua condição de membro formal da outra igreja após aconselhamento e incentivo.

        Conforme o Manual 1 de Administração da Igreja (Presidentes de Estaca e Bispos) 2010 capitulo 6. Ações Disciplinares da Igreja e Remoção de Nome

        Usar pensamento critico contra a Primeira Presidência e o Quórum dos 12 como este artigo ofensivo tem feito é ir contra ao Cabeça da Igreja, Jesus Cristo, a não ser que você não acredite que a Igreja é guiada por Jesus Cristo. Nesse ponto novamente me pergunto o que você faz na Igreja então?

        Sou membro de Bispado pela segunda vez, e por conta disso eu posso opinar nas reuniões que fazemos, Reunião de Bispado, os Comitês e os Conselhos; Porém depois que eu aconselho a decisão final continua sendo da autoridade presidente. Se isso para você seria obedecer calado, então essa é sua interpretação.

    • E os líderes recebem mordomias pessoais, sendo que boa parte dos membros tem que trabalhar duro para manter a vida boa da liderança em Salt Lake. Aliás esta forma de aceitar tudo sem questionar é muita antiga, como a história do mundo, se iniciou quando o primeiro esperto encontrou o primeiro otário!
      Aliás lendo os Evangelhos, vejo que Cristo nunca ensinou que exista um maior ou menor entre seus discípulos, porém ele mesmo disse que entre vós não deve ser assim, porém todos devem ser irmãos. Aliás como você diz que a Igreja deve ser, se aplica a crítica de Jesus aos Fariseus, em Mateus 23 versículos 7 a 12, como você, há muitos na Igreja que não entendem nada o que é seguir realmente os ensinamentos de Cristo, destaco o versículo 11 de Mateus 23, onde Jesus diz: Mas o maior dentre vós, tem de ser vosso servidor!
      No mais na Igreja atualmente tudo se resume a uma questão de dinheiro, ou seja, pague, senão você não serve para nós… e se questionar isso, ai de você, você é um apóstata, deve sair da Igreja, porque como já disse não serve para nós… Por isso, não vejo em nenhum momento onde está o amor que Cristo ensinou em seu Evangelho, nem em suas palavras, nem na cultura generalizada praticada na Igreja.

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