A Fé Mórmon e as “Vãs Filosofias”

“Desde antigamente (…) bons e grandes homens, não tendo o Sacerdócio, mas possuindo profundidade de pensamento, grande sabedoria, e um desejo de elevar seus semelhantes, têm sido enviados pelo Todo-Poderoso entre as nações, para dá-los, não a plenitude do Evangelho, mas uma porção da verdade, para que possam ser capazes de recebê-lo e sabiamente utilizá-lo”.

Orson F. Whitney, citado por Howard W. Hunter. [1]

“Os grandes líderes religiosos do mundo como Maomé, Confúcio e os Reformadores, assim como os filósofos incluindo Sócrates, Platão e outros, receberam uma porção da luz de Deus. Princípios morais foram dados a eles por Deus para iluminar nações inteiras e trazê-las a um nível maior de entendimento como indivíduos. (…) Nós cremos que Deus deu e dará a todas as pessoas conhecimento suficiente para ajudá-los em seus próprios caminhos a eterna salvação”.

James E. Faust. [2]

“A filosofia é um tipo de questionamento sobre o ‘ser mesmo’ das coisas, sobre o valor e o sentido da vida e da ação, sobre a própria capacidade de conhecer, sobre se é possível ou não atingir-se a verdade e o que seria a verdade. É o pensamento, aventurando-se nas águas do próprio pensamento”. [3]

Considerações iniciais

Baseando-me nas afirmações e no conceito de filosofia apresentados, gostaria de tentar mostrar que podem existir algumas relações indiretas entre o pensamento de um dos principais fundadores do existencialismo [4] e elementos da fé e cultura mórmon. Com essa experiência, pretendo demonstrar que a filosofia, diferentemente do que alguns acreditam, pode ter lugar dentro do pensamento dos Santos dos Últimos Dias, auxiliando de alguma forma o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos santos, sem necessariamente ter a intenção de alterar ou desqualificar qualquer doutrina pregada por A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

O filósofo alemão Martin Heidegger propôs que a questão filosófica mais importante era: “Por que há alguma coisa ao invés de não haver nada?”.

O objetivo é apresentar um resumo do pensamento de Sören Aabye Kierkegaard. Em alguns casos farei relações simples entre este e elementos da cultura mórmon, mas no geral as conclusões finais ficam por conta de cada leitor, que pode determinar se o conteúdo apresentado é válido ou não, útil ou não, interessante ou não.

O principal estímulo para criar esse artigo foi uma afirmação de um irmão da igreja com relação à possibilidade de ocorrer um afastamento dos membros que se envolvem com o estudo da filosofia. Segundo ele, esses indivíduos correm o risco de negar o evangelho e perder o testemunho que possuem, sendo confundidos pelas ideias desses “filósofos malucos”.

Posições extremas como essa são perigosas, é sempre um risco quando existe defesa explícita de pontos de vista que menosprezam opiniões [5] alheias. Quando um dá o primeiro passo em direção à ignorância, geralmente o outro acabará cedendo, mais cedo ou mais tarde, se não possuir certo tato para lidar com a questão. No meu caso, aquele irmão não estava atacando somente a filosofia, eu havia deixado bem claro que era meu objetivo graduar-me em filosofia e, portanto, a afirmação dele caracterizava um ataque direto contra algo muito particular e importante para mim. Logicamente que existe boa e má filosofia. A consciência de cada indivíduo pode auxiliá-lo a manter-se coerente com suas próprias crenças em qualquer situação. O ensinamento de Paulo aos Tessalonicenses pode ser aplicado aqui: “Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o bem. Abstende-vos de toda a aparência do mal” (I Tess. 5:19–22; ênfase acrescentada).

Os próximos parágrafos merecem uma leitura cuidadosa, detalhada e até mesmo uma busca por mais informações em livros, revistas especializadas e na internet para que o conteúdo possa ser compreendido e conclusões “definitivas” possam ser feitas.

Uma breve introdução ao pensamento de Sören Aabye Kierkegaard [6]

Sören Aabye Kierkegaard foi um filósofo e pensador religioso dinamarquês que se preocupava com a natureza da fé religiosa. Interessava-se principalmente em compreender e definir o que significa ser um “verdadeiro cristão”. Todo o pensamento de Kierkegaard é desenvolvido a partir do seu íntimo. Com uma vida conturbada, elaborou um pensamento baseado muito mais em suas experiências pessoais do que em sistemas filosóficos anteriores, apesar de ter sido fortemente influenciado por Sócrates.

“O povo pede o poder da palavra para compensar o poder de livre pensamento a que ele foge”
Sören Aabye Kierkegaard.

Possuía um pensamento reflexivo muito abrangente, devido ao seu nível cultural incomum e seus complexos sentimentais profundos. Através de si e de seus problemas buscava encontrar uma explicação para sua existência.

Kierkegaard identificou três estágios existenciais: Estético, Moral e Religioso. Para ele, cada indivíduo estaria vivendo em um desses estágios.

O Estágio Estético engloba aqueles que estão em buscam de saciar seus desejos, sejam eles sentimentais, materiais, profissionais, econômicos, sexuais, entre outros. Kierkegaard concluiu que neste estágio de vida os objetivos não são claros e se perdem por não ser possível alcançar satisfação. Então, quanto mais experiências forem vivenciadas nesse estágio, mais frustrado e infeliz o individuo tende a se tornar.

Os que vivem o Estágio Moral, ou Ético, procuram uma vida coerente governada por normas morais. Para ele, o casamento baseado em princípios cristãos era a única forma de se atingir o mais elevado estágio de vida ética. Contudo, Kierkegaard acabou passando por uma experiência amorosa traumática, que o levou a concluir que as mulheres situam-se naturalmente no estágio estético, onde, inclusive, elas seriam objeto de desejo em última instância. O homem, então, teria o dever de viver princípios morais elevados, pois essa seria a única forma de desviar a fragilidade feminina dos caminhos de oscilação e perigo que poderiam induzi-la à sua natureza estética e, desta forma, comprometer a relação conjugal. Assim sendo, no pensamento de Kierkegaard, somente esse esforço por parte do homem aliado a ajuda de Deus, pode salvar a vida conjugal e consequentemente, a forma de vida moral.

O Estágio Religioso seria o mais elevado dos três. Para Kierkegaard, o religioso é um estágio consequente, pois é a partir da consciência da desordem dos dois estágios inferiores que se tem a possibilidade de encontrar a realidade superior da vida religiosa. Para ele, o estágio ético fica ofuscado diante das exigências superiores do estágio religioso. Não existe valor em viver apenas pelo desejo ou apenas pela moral, sendo que a existência só encontra um significado consistente quando ocorre “um salto de fé” para uma vida mais coerente com a própria existência.

A verdadeira fé envolve a aceitação do que é absurdo

Diferentemente de John A. Widtsoe, que acreditava ser possível a existência de uma teologia racional [7], Kierkegaard afirmava que a fé religiosa é irracional. Argumentava que as crenças religiosas não podem ser sustentadas por argumentos racionais, porque a verdadeira fé, a verdadeira crença em Deus, envolve a aceitação do que é absurdo, não somente uma aceitação, mas até mesmo um comprometimento com o absurdo. “Então vive; vive inteiramente cheio da ideia, e arrisca sua vida por ela; e sua vida é a prova de que crê”.

Um dos exemplos amplamente utilizados por ele para ilustrar essa ideia foi Gênesis 22, em que Deus, sem nenhum motivo aparente, ordena a Abraão que mate seu único filho, Isaque. Kierkegaard considerava essa história tão fascinante e importante que escreveu um livro inteiro sobre ela [8]. Insistia na ideia de que Deus deseja que, como prova de nossa fé, mantenhamos crenças e realizemos ações que são ridículas e imorais quando analisadas pelos padrões racionais. Por ter obedecido sem questionar às ordens abomináveis de Deus, Abraão era o ideal religioso de Kierkegaard, o que ele chamava de “o cavaleiro da fé”, o homem que está disposto a fazer tudo que for da vontade de Deus.

A verdade é subjetividade

Em Pós-escritos Não Científicos Conclusivos, Kierkegaard afirmava que ninguém pode desenvolver fé através de um exame objetivo das provas [9], mas apenas por uma escolha subjetiva, “um salto de fé”. Defendia que uma quantidade de provas objetivas sustentando uma crença não a torna genuína ou verdadeira e considerava que aqueles que oferecem provas racionais para sua religião tinham “traído a religião com um beijo de Judas” – nesse sentido, Hugh Nibley seria um traidor da fé mórmon. Por outro lado, Kierkegaard dizia que a verdadeira crença é medida pela sinceridade e paixão do crente, sem preocupar-se em oferecer provas daquilo em que acredita – essa descrição recorda a posição tomada por M. Russell Ballard [10].

Segundo Kierkegaard, não precisa haver provas para a pessoa crer e viver a fé que decidiu abraçar. A fé é impossível se houver provas e certezas. Sem riscos não há fé, é uma impossibilidade. Portanto, a fé e a razão são opostas mutuamente exclusivas. Na presença da fé, se aceita o absurdo, e na aceitação do absurdo foge-se à razão.

Assim, Kierkegaard concluiu que na religião “a verdade é subjetividade”, porque depende somente da sinceridade daquele que acredita e não de provas objetivas.

Dirigiu críticas pesadas a todas as tentativas de tornar a religião racional, pois sustentava que Deus quer que os verdadeiros crentes simplesmente obedeçam e não que argumentem com Ele [11].

Apostasia da Igreja Cristã?

Em sua escolha por uma vida religiosa solitária [12], Kierkegaard foi conduzido a uma crise com os oficiais da Igreja Luterana Evangélica da Dinamarca [13]. O filósofo compreendeu que as influências de certas escolas filosóficas haviam promovido uma descristianização do mundo. Convenceu-se de que muitas pessoas que eram oficialmente cristãs e se consideravam cristãs não possuíam a fé incondicional exigida pelo cristianismo, inclusive atacando frequentemente a Igreja Luterana, afirmando que, entre seus membros, não havia mais nenhum verdadeiro cristão.

Kierkegaard não aceitava a aproximação da Igreja com o romantismo de Hegel [14]. Criticava que era um erro imbecil [15], em âmbito religioso, considerar a filosofia cristã original como apenas um momento histórico que poderia ser ultrapassado por pensamentos e concepções filosóficas de pensadores modernos. Sua luta solitária contra o luteranismo oficial, contra pastores e bispos oficiais preocupados com suas carreiras eclesiásticas, fez aumentar seu sofrimento, tornando-o alvo de chacotas populares, o que aumentava ainda mais sua solidão.

Considerações finais

Retomemos, agora, minha primeira citação: “(…) bons e grandes homens, não tendo o Sacerdócio, mas possuindo profundidade de pensamento, grande sabedoria, e um desejo de elevar seus semelhantes, têm sido enviados pelo Todo-Poderoso entre as nações, para dá-los, não a plenitude do Evangelho, mas uma porção da verdade, para que possam ser capazes de recebê-lo e sabiamente utilizá-lo” (Orson F. Whitney, citado por Howard W. Hunter; ênfase acrescentada).

Vejamos, então, uma nova citação: “Outra coisa que nos ajuda a ouvir a voz do Senhor ao escutarmos os profetas e apóstolos é prestar uma atenção toda especial quando eles citam outros profetas e apóstolos. O Senhor ensinou que estabelecerá Sua palavra pela boca de duas ou três testemunhas” (Élder Randall K. Bennett. “Seguir o Profeta.” A Liahona, Março de 2012, p. 45; ênfase acrescentada).

As palavras estabelecidas pela boca de Orson F. Whitney, Howard W. Hunter e James E. Faust dizem que “grandes líderes religiosos do mundo (…), assim como os filósofos”, “não tendo o Sacerdócio”, “receberam uma porção da luz de Deus (…) para iluminar nações inteiras e trazê-las a um nível maior de entendimento como indivíduos”, “para que possam ser capazes de [receber e sabiamente utilizar o Evangelho]”.

Certamente que um desses grandes homens foi Sören Aabye Kierkegaard; dentre seus ensinamentos, podemos destacar dois que nos mostram como utilizar sabiamente o Evangelho de Jesus Cristo, para que as pessoas sejam capazes de recebê-lo:

  1. Quão inútil é tentar provar a veracidade de uma religião ou buscar torná-la racional, pois ninguém é capaz de desenvolver fé sem que tenha feito uma escolha subjetiva, tenha dado “um salto de fé”.
  2. A verdadeira religião é aquela que é seguida com amor e sinceridade pelo crente, que é movido e motivado pela fé e não por evidências ou provas objetivas.

Traduzindo para o contexto mórmon:

  1. Contar às pessoas sobre as mais novas descobertas de evidências da veracidade do Livro de Mórmon ou fazer ligações especulativas entre óvnis, dinossauros, maias, astecas e afins, jamais fará com que elas tenham fé em Jesus Cristo ou venham a participar da Igreja, muito pelo contrário, poderá afastar essas pessoas de você por pensarem que você é um fanático iludido. Tal mudança só será possível se essas pessoas fizerem uma escolha pessoal de buscar um sentido para a existência delas, escolha essa que será responsável por desenvolver sua fé posteriormente, como descrito em Alma 32:26-43.
  2. Muito mais eficaz é mostrar para as pessoas como o Evangelho é importante e verdadeiro em sua própria vida, através de suas atitudes e do seu exemplo, vivendo princípios de forma clara e sem desculpas.

Quantos membros entusiásticos demonstram desconhecer o valor desses dois princípios tão fundamentais?

Qual a relação entre a fé mórmon e o pensamento filosófico de Kierkegaard? Ele altera e desqualifica as doutrinas pregadas pela Igreja ou as complementa, auxiliando o desenvolvimento e o aperfeiçoamento dos santos?

Quais outras observações valiosas poderiam ser feitas sobre o pensamento de Kierkegaard?

Sinta-se completamente à vontade para tirar qualquer conclusão sobre os assuntos apresentados, acrescentar ideias de outros filósofos que podem complementar nosso estudo ou refutar o que foi demonstrado aqui.

Poderíamos ter utilizado as ideias de filósofos tão diversos quanto John Locke, Jean Jacques Rousseau, Immanuel Kant e Michel Foucault. Grandes pensadores que buscaram contribuir nessa reflexão em busca “do valor e do sentido da vida e da ação”, da “capacidade de conhecer”, de “sobre se é possível ou não atingir-se a verdade e o que seria a verdade”.

“Se houver qualquer coisa virtuosa, amável, de boa fama ou louvável, nós a procuraremos.”

Joseph Smith [16]

NOTAS E REFERÊNCIAS 

[1] Orson F. Whitney. Conference Report, Apr. 1921, pp. 32-33; quoted by Howard W. Hunter, “The Gospel – A Global Faith.” Ensign, Nov 1991, 18.

[2] James E. Faust. “Communion with the Holy Spirit.” Ensign, May 1980, 12.

[3] Inês Lacerda Araújo. História da Filosofia: Introdução à Filosofia. Curitiba: Gráfica Dom Bosco, p. 2.

[4] Doutrina filosófica que tem na existência metafísica humana o ponto de partida e objeto fundamental das suas reflexões, desde a essência até o significado da vida. Costuma apresentar o ser humano como uma realidade imperfeita e inacabada.

[5] “Quando vemos qualidades virtuosas nos homens, devemos sempre reconhecê-las, seja qual for a compreensão que tenham em relação a credos e doutrinas; porque todos os homens são livres (…) para agir como quiserem e dizer o que quiserem, enquanto mantiverem o devido respeito para com os direitos e privilégios de outras criaturas, sem infringir nenhum deles. Essa é a doutrina que apoio e pratico do fundo do coração” (History of the Church, volume 5, p. 156; pontuação modernizada; divisão de parágrafos alterada; extraído de uma carta de Joseph Smith para James Arlington Bennet, 8 de setembro de 1842, Nauvoo, Illinois).

[6] Pela dificuldade ou impossibilidade de resumir alguns conteúdos, parte deste artigo teve que ser extraído integralmente ou com muito poucas alterações da Enciclopédia e dicionário Koogan Houaiss e da página existencialismo.sites.uol.com.br/kierkegaard, que são as principais fontes para esse texto.

[7] John A. Widtsoe, apóstolo e erudito mórmon, buscou demonstrar que a doutrina d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é baseada em um pensamento lógico/racional satisfatório à mente humana em seu livro, Rational Theology: As Taught by the Church of Jesus Christ of Latter-day Saints.

[8] ‘Temor e Tremor‘ de 1843.

[9] Ver O papel da apologética SUD no século XX.

[10] Ver o último capítulo de Nossa Busca da Felicidade, de M. Russell Ballard. O livro todo apresenta histórias que o Élder Ballard diz saber que são verdadeiras, embora não faça esforço algum para provar suas afirmações ou dar muitos detalhes com relação a elas. É interessante notar que o livro, inclusive, não possui nenhuma referência bibliográfica, sendo somente uma declaração das crenças pessoais dele – que, logicamente, refletem a doutrina oficial da Igreja.

[11] Vejo uma relação entre essa ideia e a escritura que diz: “E assim os provaremos para ver se farão todas as coisas que o Senhor seu Deus lhes mandar” (Abraão 3:25).

[12] Devido a sua dificuldade em entender e relacionar-se com o sexo feminino, Kierkegaard decidiu viver dedicado somente a Deus, sem o casamento, pois considerava que o casamento não era a única solução para chegar ao mais alto grau de ética, sendo a escolha por uma vida totalmente dedicada a religiosidade tão superior quanto à de um marido em busca do casamento perfeito no estágio moral.

[13] Religião oficial da Dinamarca.

[14] Filósofo alemão que tentou desenvolver um sistema filosófico que abrangesse uma enorme variedade de concepções diferentes, pois encarava as mais diversas formas de pensamento como estágios no desenvolvimento do espírito em direção a uma maior maturidade.

[15] “Quantas vezes demonstrei que, fundamentalmente, Hegel torna os homens pagãos, em uma raça de animais com o dom do raciocínio. Pois no mundo animal, “indivíduo” sempre é menos importante do que raça. Mas a peculiaridade da raça humana é justamente porque o indivíduo é criado à imagem de Deus, o “Indivíduo” está acima da raça. Isto pode ser entendido erroneamente e terrivelmente abusado, reconheço. Mas isso é o cristianismo. E é aí que a batalha deve ser travada” (Sören Aabye Kierkegaard. The Journals of Kierkegaard. 1958).

[16] “Embora nunca tenha sentido o desejo de obrigar qualquer pessoa a aceitar minha doutrina, regozijo-me de ver o preconceito dar lugar à verdade e as tradições dos homens serem dispersas pelos puros princípios do Evangelho de Jesus Cristo” (History of the Church, volume 6, p. 213; extraído de uma carta de Joseph Smith para Joseph L. Heywood, 13 de fevereiro de 1844, Nauvoo, Illinois).

17 comentários sobre “A Fé Mórmon e as “Vãs Filosofias”

  1. Complexa a matéria, irmão Faccio. Mas quem diria que filosofia ou filosofar é fácil de a compreender ou de a fazer/possuir?

    Minha consideração final: matéria vantajosa, em todos os sentidos.

    Wandrey

  2. Muito bom o texto, caro Anderson. Tenho uma admiração muito especial por Kierkegaard desde que li pela primeira vez “O Desespero Humano”. Tenho me deixado governar por essa perspectiva que a fé não carece da prova racional, tendo dedicado um esforço especial para demonstrar isso em meu blog “A Fé Absurda” (http://afeabsurda.blogspot.com), que surgiu exatamente da discussão entre “fé racional” e “fideísmo”, conduzida no site do irmão Marcelo Todaro (http://marcelotodaro.info/?p=1048).

    De acordo com as Escrituras, a fé pressupõe a crença em coisas que não se podem ver (Hebreus 11:1; 2 Coríntios 5:7), não é um conhecimento perfeito (Alma 32:26), não deve se apoiar em “palavras persuasivas de sabedoria humana” (I Coríntios 2:5) e nos convida à obediência sem explicações prévias (Moisés 5:6). Em outras palavras, a fé tem muito mais a ver com revelação pessoal que com estudo e reflexão. Foi assim como Noé, Abraão, Moisés e Joseph Smith. O estudo pode até nos apontar o caminho a seguir, mas, é sempre Deus quem vem ao nosso encontro e não o contrário. Aliás, não foi através do estudo que Joseph Smith chegou à conclusão de que a igreja necessitava de uma restauração.

  3. Embora, pessoalmente, não goste muito de Kierkegaard, eu acredito que você levantou duas máximas muito importantes e muito relevantes:

    “…inútil é tentar provar a veracidade de uma religião ou buscar torná-la racional, pois ninguém é capaz de desenvolver fé sem que tenha feito uma escolha subjetiva…” e “verdadeira religião é aquela que é seguida com amor e sinceridade pelo crente, que é movido e motivado pela fé e não por evidências ou provas objetivas.”

    Não obstante, eu acho que a relevância para Mormonismo é ainda maior que você infere.

    Frequentemente, põe-se relevância indevida em eventos históricos e afirmações ontológicas que podem ser falsificadas, mas que, em si, levam a uma religiosidade injustificadamente arrogante, consequente de uma superioridade epistêmica subjetiva e não racional.

    A “verdadeira religião” deve, sim, abrogar-se de afirmações racionais e objetivas, apegando-se ao amor, à sinceridade, e à fé, e especialmente aos preceitos morais universais de amor e caridade, provido que a conduta comunitária seja ancorada nos conceitos pluralistas e racionais do mundo pós-moderno e pós-iluminista.

  4. Sören Kierkergaard, ao lado de William James e C.S.Lewis são os filósofos mais comumente identificados com o Mormonismo. Pelo menos nas aulas de Filosofia da BYU são os mais freqüentemente citados, e podemos ver referências ao famoso “leap of faith” em vários discursos e artigos da Igreja. (Ex.: http://www.lds.org/liahona/1989/05/trust-in-your-marriage?lang=eng&query=“leap+of+faith”)
    A abordagem de Kierkergaard sobre a religião se aproxima muito da linha mais tradicional do pensamento SUD, onde enfatizam-se os aspectos fé e obediência e negligenciam-se os aspectos razão, lógica e ciência. Na verdade esta é a eterna dicotomia entre Fideísmo x Fé Racional.
    Em minhas 2 apresentações nas Conferências de Estudos Mórmons procurei descrever que existem 3 esferas de conhecimento do Homem, 3 canais por onde pode vir seu conhecimento. Através da experimentação (Ciência), através da racionalização ou lógica (Filosofia) ou através da revelação (Religião). As 3 esferas têm o seu próprio valor e propósito. Apesar de concordar que em vários momentos de nossa vida precisamos dar realmente um “salto de fé” (Batismo, Missão, Casamento, etc.), este salto somente pode ser dado se como homens estamos prontos ou receptivos para passar por um momento religioso (experiências espirituais). Se o terreno ainda não está fértil para isto, a fé racional, a Apologética podem prepará-lo. Neste aspecto eu jamais diria que os trabalhos de um Hugh Nibley ou qualquer colaborador da FARMS seja uma “traição” ou um “desserviço” à verdadeira religião, eles são apenas trabalhos de preparo de campo, uma limpeza dos espinhos para que uma semente de fé do evangelho possa vir a florescer.
    Sendo assim, eu concordaria mais com John Windstoe, a fé pode e deve ser racional, apesar de em muitos aspectos eu ainda não ter todas as explicações lógicas e necessárias. Nestes casos eu compartimentalizo minhas dúvidas, dou meu “salto de fé” com a esperança que mais adiante mais luz e conhecimento possam um dia transformar aquela minha fé em um conhecimento perfeito.
    Sendo assim, a Akedah, poderia realmente ter sido completamente “irracional” para Abraão, porém a medida que mais luz e conhecimento é recebido e entendemos que a Akedah na verdade é um arquétipo do sacrifício de Cristo (Jacó 4:5), ela se torna então mais lógica e racional.
    Lembrando ainda que a negligência da razão no aspecto religioso muitas vezes leva ao fanatismo e à intolerância, um aspecto que não vi ser levado em conta em lugar algum no texto.

    • Marcelo,

      concordo que os artigos da Neal A. Maxwell Institute são importantes e valiosos para a Igreja e os membros no sentido de ampliar nosso conhecimento do Livro de Mórmon e das doutrinas da Igreja de uma forma acadêmica. Contudo, não acredito que qualquer pessoa tomaria a decisão de converter-se ao Evangelho de Jesus Cristo apenas por saber que existem evidências dando apoio ao mormonismo.

      Essas evidências podem ser facilmente assimiladas por membros que possuem um testemunho da Restauração, mas podem soar como “tentativa de distorcer a verdade para encobrir as mentiras” para aqueles que não possuem tal testemunho. Exemplos são facilmente encontrados na internet.

      Particularmente gosto muito de ler os artigos publicados no “Journal of the Book of Mormon and Other Restoration Scripture” e acredito que os estudiosos por trás desses artigos procuram ser defensores da fé e não traidores.

      Aqui está o detalhe importante: eles criam artigos em defesa da fé e não para conduzir pessoas à fé.

      O que acontece é que muitos membros leigos utilizam essas supostas evidências para tentar conduzir as pessoas a acreditar no Livro de Mórmon e na Restauração ao invés de simplesmente pedirem para que essas pessoas perguntem à Deus sobre o assunto, tornando-se traidores da fé por demonstrarem acreditar mais na eficácia das evidências (fator racional) que no poder de uma simples oração sincera (fator irracional).

      “The Book of Mormon will remain in the realm of faith. It has a bodyguard of scholars who now surround it and protect it from the frail attacks often made on it. But even so, it’s the witness of the Spirit that matters most.” Neal A. Maxwell

      “Lembrando ainda que a negligência da razão no aspecto religioso muitas vezes leva ao fanatismo e à intolerância, um aspecto que não vi ser levado em conta em lugar algum no texto”.

      Não foi levado em conta porque não vejo necessidade para tal. Essa afirmação demonstra uma compreensão distorcida do texto. Kierkegaard ensina que a “natureza da fé religiosa” é irracional e não que devemos deixar a razão longe do aspecto religioso. Uma leitura cuidadosa e detalhada do conteúdo apresentado nos conduzirá, inclusive, a ideia de que todas as religiões podem ser consideradas verdadeiras de forma individual e subjetiva, dependendo da sinceridade daquele que crê. A compreensão desse aspecto não resulta em intolerância e fanatismo, muito pelo contrário.

  5. Belo texto, Anderson. Reconheço que talvez eu tenha um preconceito em relação à apologética sud, mas ela geralmente me parece um esforço de convencer os já convencidos. Claro que há diferentes tipos de apologética, com diferentes graus de sinceridade.

    O caso de Hugh Nibley é singular, pois na minha opinião ele encarnou também o papel de um profeta – se me permitem usar esse termo fora do contexto hierárquico – chamando a igreja ao arrependimento e denunciando nossa má vontade em buscar conhecimento e revelação.

    Muito do preconceito sud com relação à filosofia pode estar baseado – imagino – na ideia da mescla das escrituras com as “filosofias dos homens”. A frase no drama da Queda de Adão e Eva pressupõe que as escrituras estão certas e as filosofias, erradas. No entanto, um dos fundamentos da restauração é justamente a ideia de que as escrituras não nos chegaram intactas, mas que contêm erros. Portanto, assim como nem todas as escrituras são corretas, nem todas as filosofias são erradas.

    Abraço!

  6. Ao refletir sobre meu próprio conhecimento em filosofia, após a leitura do artigo e dos comentários, chego à conclusão de que, sem dúvida, o Senhor ilumina aqueles que buscam conhecimento. De fato, embora eu ame poder traçar relações e estudar e divagar sobre muitas dessas questões, o dogmatismo religioso de uma formação SUD tradicional realmente leva minha formação ao encontro dos comentários do Antônio. “Filosofias dos homens, mescladas com escritura” soam como “conhecimento é escritura, o resto é desprezível”, ao menos à mente comum, ou, treinada de forma comum. Ao entrar para a universidade, esse foi meu maior desafio, ou seja, ter vontade de aprofundar-me e correr os riscos necessários de tentar entender os pensadores, ou, ao menos atrever-me a tentar. É aí que me assusto com filósofos como Schopenhauer e Locke, ao meu ver mais radicais, até mesmo Kant ou Foucault, embora consiga encarar Rousseau sem grandes problemas. Em suma, o meu comentário vai de encontro a afirmar que eu temo, enquanto indivíduo, não ser capaz de ter a necessária capacidade de abstração, o necessário treinamento ideológico de mensurar o que deve ser retido (segundo minhas concepções e crenças) e o que deve ser desprezado, levando em consideração minha fé e formação SUD. Nesse medo, acabo fugindo, não sendo capaz de me aprofundar nesses estudos. Daí, deriva meu pensamento de que não adianta sorver de carne quem ainda precisa de leite, e, talvez, seja aí o papel do pregador, do minístro e do instrutor: preparar o alimento até que as massas sejam capazes de absorvê-lo, agindo, porém, dentro de uma ética e sem dogmatismos.
    Sinceramente, artigos como este são um modo bastante bacana de deixar os medrosos como eu esperançosos de ser capazes de compreender e ter o desejo de aprofundar-se mais. Meus parabéns, Anderson!

  7. Anderson,
    primeiramente parabéns pelo excelente texto. Particularmente, penso também que grandes filósofos e pensadores da história como Kierkegaard, foram inspirados a escrever obras que teriam “porções” de verdades que poderiam nos ajudar a compreender de maneira mais ampla o evangelho de Jesus Cristo, e até mesmo que através dessas “verdades” ou “conceitos” destes pensadores poderíamos (assim como você fez em seu texto) traçar paralelos com as verdades ensinadas pelo evangelho de Jesus Cristo.
    Também já tive experiências pessoais nas quais percebi o preconceito existente entre membros da Igreja, em relação às “vãs filosofias do mundo”. Já ouvi de alguns membros que é muito “perigoso” para um membro da Igreja estudar no ensino superior cursos como Filosofia, História, Ciências Sociais, Psicologia e por aí vai (Humanidades no geral). Ora, por qual motivo seria “perigoso”? Porque tal membro teria que entrar em contato com as falsas e “vãs filosofias do mundo”? Neste ponto acredito, assim como o Antônio Trevisan Teixeira, que existe o preconceito na IJCSUD em relação a qualquer outro tipo de conhecimento que não venha do cânon das obras-padrão, justamente pela frase expressa no drama da Queda de Adão e Eva. Assim sendo, todo e qualquer conhecimento advindo de fontes externas que não as escrituras, deveriam ser deixadas de lado, porque não contém a verdade. Mas também vejo, que podemos encontrar “porções” de verdades aqui e acolá, que podem certamente enriquecer nosso conhecimento do evangelho, e nossa fé e testemunho. Acho maravilhoso o grande princípio ensinado por Joseph Smith de podermos buscar “verdades” (conhecimento e luz) em outras fontes além do evangelho. Assim sendo, acredito que seria muita prepotência e orgulho por parte de algum membro da Igreja acreditar ou ser levado a acreditar que não exista nada de bom, justo e louvável que poderíamos encontrar nas “vãs filosofias do mundo”. Com certeza é necessário, como o Diego bem colocou no comentário dele, nos despojarmos do medo, o que acredito que não é fácil. Acredito que devemos nos guiar por uma escritura que está no capítulo 7 de Morôni, ao buscarmos conhecimento produzido e acumulado pela humanidade ao longo da História: “[…] pois tudo o que impele à prática do bem e persuade a crer em Cristo é enviado pelo poder e dom de Cristo; por conseguinte podeis saber, com conhecimento perfeito, que é de Deus” (Morôni 7:16).
    Novamente meus parabéns pelo texto!
    Obs: Sou formado em História e só gostaria de saber algo à título de curiosidade: você já é estudante de Filosofia? Se ainda não for, vá em frente que você tem talento! Um abraço.

    • Olá Jamil,

      Obrigado por seus comentários a cerca do assunto!
      Com certeza, como você disse, podemos encontrar “porções” de verdades aqui e acolá, que ajudam a enriquecer nosso conhecimento do evangelho, nossa fé e, consequentemente, nosso testemunho.

      “Deus usa mais de uma pessoa para que seja cumprida sua grande e maravilhosa obra. Os Santos dos Últimos Dias não podem fazê-lo sozinhos. É muito amplo, muito árduo para qualquer um. (…) Nós não temos nada contra os Gentios. Eles são nossos parceiros sob certo aspecto.” (Orson F. Whitney, Conference Report, April 1928, p. 59; citado por Ezra Taft Benson, “Civic Standards for the Faithful Saints,” Ensign, Jul 1972, 59).


      No momento estou aguardando meu chamado para a missão chegar e por esse motivo ainda não estou plenamente envolvido com essas questões profissionais, embora esteja pensando seriamente em estudar Filosofia futuramente. Vamos ver como as coisas serão quando eu voltar.

      Abraço!

  8. Quero felicitar a todos vocés que tem uma sede por ter maior conhecimento, alem daqueles conhecimentos que ja tem; suas respostas com certeza nos ajuda a descobrir mais fontes que podem iluminar nosso entendimento da verdade de todas as coisas, desde antes do começo desta terra ate as eternidades.
    Mas quero pedir para vocés outro asunto que vem a minha cabeça, depois de falar com uma de minhas alunas. Temos pouca informação acerca de Maria, a mãe terrena de nosso Senhor Jesus Cristo;o qué aconteceu com a vida dela, a sua morte; e qual é a posição da igreja a respeito dela; e como nos, os membros desta igreja podemos responder as perguntas dos pesquizadores e amigos, especialmente aqueles que são católicos, sem distorcionar a verdade, de uma manera que possamos manter o contato com eles, e ajudar-os a comprender o real papel ou missão que Maria teve na terra.??. Gostaría respostas não só tocando a superficie do assunto, mas falando com doutrina profunda para nosso aprendizado. Obrigado irmãos.
    DANNY OISHI

    • “(…) Todas as objeções (…) basicamente dependem de sabermos se Joseph Smith e seus sucessores foram e são profetas de Deus que recebem revelação divina (…).

      (…) O único problema que a pessoa que tem dúvidas precisa resolver por si mesma é saber se o Livro de Mórmon é verdadeiro. Porque se o Livro de Mórmon for verdadeiro, então Jesus é o Cristo, Joseph Smith foi Seu profeta, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é verdadeira e está sendo liderada hoje por um profeta que recebe revelação.

      Nossa principal tarefa é declarar o evangelho e fazê-lo eficazmente. Não temos a obrigação de responder a todas as objeções. Todo homem acabará tendo que confrontar a questão da fé e então terá que tomar uma decisão” (Ezra Taft Benson, “A Witness and a Warning,” pp. 4-5).

  9. Pingback: Anjos “fora dos padrões”? | Vozes Mórmons

  10. Gostei muito do artigo sobre filosofia e parabenizo o autor. Teoricamente falando, não me considero um tomista mas nutro grande respeito e reverência pelo pensamento filosófico de Tomás de Aquino.Tomás de Aquino soube aliar perfeitamente em seus escritos a fé (fides) e a razão (ratio).Entendo que a relação entre fé e razão deva ser equilibrada, pois o mesmo Deus que nos dá a inteligência, também nos dá a fé. E por fé, entendo um assentimento intelectual à uma verdade revelada por Deus, muito mais que um sentimento, a fé na minha concepção, é um ato também racional.
    Tenho lutado muitos para esclarecer os que estão à minha volta, de que não existe conflito entre fé e razão, entendo que a recta ratio (reta razão) demonstra os fundamentos da fé, e a fé livra e defende a razão de erros. Li em uma obra inspirada no pensamento do Aquinate que dizia o seguinte: “A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade.”
    “credo ut intelligam et intelligo ut credam” (Creio para entender e entendo para crer) citação de Agostinho de Hipona.

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