O Shopping de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias inaugurou hoje o shopping center City Creek Center, que culmina o seu projeto de revitalização do centro de Salt Lake City, cujos custos atingiram a marca de 5 bilhões de dólares. [1]

USD 5.000.000.000,00. R$ 9.118.396.169,16 no câmbio de hoje [março de 2012].

O projeto do shopping inclui prédios residenciais de luxo, muito similares ao que temos no Shopping Cidade Jardim em São Paulo. Preços de venda para os apartamentos variam de USD 300.000,00 a 2.000.000,00.

Ao que tudo indica, o empreendimento é um sucesso estético e poucos duvidam de seu futuro sucesso financeiro (apesar de alguma dificuldade na venda imobiliária).

Estas  fotos aqui e os vídeos aquiaqui, e aqui (estes últimos incluindo uma entrevista com o Bispo Presidente David Burton) mostram, indubitavelmente, um empreendimento de alta qualidade.

O Complexo City Creek Center fica notoriamente ao lado do Templo de Salt Lake e dos escritórios gerais da Igreja.

Ao que tudo indica, o projeto deverá cumprir bem sua missão de revitalizar o centro da cidade de Salt Lake City, que vem passando por um processo de decadência desde a emigração dos centros urbanos nos EUA começando nos finais dos anos 60.

Mesmo após controvérsias sobre influência indevida da Igreja sobre vereadores durante as fases de aprovação municipal, a construção seguiu adiante, com 248.423 metros quadrados de área construída, a um custo exorbitante de 20.127,00 dólares por metro quadrado.

Repetidos anúncios oficiais da Igreja negam o uso de fundos públicos (i.e., todo o financiamento veio da Igreja) e de fundos de dízimos — embora esta não passe de um truque de contabilidade, onde o dinheiro de dízimo é quase em sua totalidade investido, e após alguns anos, retornado ao fundo oficial de dízimos, enquanto todos os juros e dividendos são realocados para as empresas da Igreja (e.g., Deseret Co., Reserve Inc., Hawaii Reserves, Farmland Reserve, Bonneville International, etc.), constituindo então um fundo “extra” dizimal. [2] Com estes fundos liberados diretamente das doações religiosas, a Igreja pode então investir em hotéis multi-milionários de luxo no Havaí, reservas de luxo para caça esportiva de animais, e latifúndios bilionários, etc. [3][4][5]

Não obstante todo o sucesso do empreendimento, cabe aqui, em fórum aberto e racional, fazer alguns questionamentos. O projeto foi anunciado oficialmente há pouco mais de 5 anos, embora planos já perdurem uma década, e seus custos não deveriam exceder 500 milhões de dólares. Os valores foram sendo reajustados gradualmente com o passar dos anos, até chegar ao valor de 1,5 bilhões (para apenas parte do projeto) e 5 bilhões no total (embora há analistas que acreditam que o valor total real chegará a 8 bilhões).

Para se colocar em perspectiva, a Igreja gastou em ajuda humanitária e doações para caridade USD 1,212 bilhões entre 1985 e 2010, inclusive. [6][7]

Ironicamente, coincidindo com a inauguração de um shopping multi-bilionário hoje, a edição atual da Liahona traz um discurso recente do Apóstolo Dallin Oaks onde, falando a uma audiência Africana, enfatiza a importância de se pagar dízimos antes e acima de se gastar com tradições culturais como festas de casamentos.

Então, comparemos: 1,2 bilhões em 26 anos para ajuda humanitária versus 5 bilhões de dólares em 6 anos para shopping center de luxo.

[Comparando mais ainda para ganhar perspectiva, vemos que a Fundação Bill e Melinda Gates (voltada para ajuda nas áreas de saúde, como vacinações e remédios; pesquisa agrária e sustentabilidade; assistência direta a pobres; ajuda a empreendedores pobres e minoritários, como mulheres, etc.) conta com um fundo geral de 33 bilhões de dólares.]

Quem acha que investir 5 bilhões de dólares em um shopping center com apartamentos de luxo irá ajudar a Igreja a cumprir sua missão tríplice de 1) proclamar o evangelho, 2) redimir os mortos, e 3) fortalecer os Santos?

Quem acha que investir 5 bilhões de dólares em um shopping center com apartamentos de luxo contribui para o alívio humanitário de sofrimento, miséria, fome, e doença para bilhões de pessoas mundo afora, sem contar nos milhões de americanos (e mesmos milhares de Utahnos)?

Quanto sofrimento humano não poderia ser aliviado com 5 bilhões de dólares?

Quantas escolas ou universidades não se poderiam montar para os SUD (e, quem sabe, não-SUD) em países pobres e populosos (de SUD) como o Brasil, o México, e as Filipinas? Não seria isso uma ajuda humanitária e ainda uma alavanca para a missão tríplice?

Quem acha que investir 5 bilhões de dólares em um shopping center com apartamentos de luxo ao lado de principal Templo Mórmon na atualidade não traz lembranças de como Jesus reagiu quando viu mercadores comprando, vendendo, e lucrando ao lado do Templo de Jerusalém?

O complexo do City Creek Center incluindo shopping e prédio em construção, meados de 2009, com o Templo de Lago Salgado e o Tabernáculo Mórmon.


NOTAS
[1] Antes de mais nada, eu gostaria de pedir desculpas para aqueles que se ofenderem com o título do post. Ele é um trocadilho infame para chamar atenção para um paradoxo ético e moral sério. A revista TIME usou o título “LDS Inc.” para o mesmo propósito, mas meus dotes cômicos são muito inferiores. Aliás, a melhor piada que eu ouvi até agora sobre o CCC foi que a Igreja iria começar a chamar missionários para servir na missão City Creek Shopping, como minha cunhada que serviu como missionária de Centro de Visitantes.
[2] Eu consegui confirmação de um funcionário da Reserve, Inc. que essa prática é comum e corrente, porém este solicitou anonimato. Não consegui encontrar dados para confirmação oficial, ainda mais porque as finanças da Igreja são mais sigilosas que as ordenanças do Templo! Não obstante, enviei comunicado para a firma de contabilidade que faz a auditoria da Igreja, e assim que tiver alguma informação oficial, colocarei aqui como update. Se alguém tiver acesso à esta informação oficialmente, solicito encarecidamente sua ajuda.

264 comentários sobre “O Shopping de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

  1. >Quem acha que investir 5 bilhões de dólares em um shopping center com apartamentos de luxo >contribui para o alívio humanitário de sofrimento, miséria, fome, e doença para bilhões de >pessoas mundo afora, sem contar nos milhões de americanos (e mesmos milhares de Utahnos)?

    Para mim esta indagação reflete o maior erro do artigo. Se vendêssemos todos os prédios das Igrejas em todo mundo, Católica, SUD, Batista, etc. teríamos com certeza um patrimônio imobiliário da ordem de Trilhões de dólares. Doaríamos todos estes trilhões para mitigar a fome na África e aliviaríamos a fome daquele continente por 1 ano…6 meses…1 mês? Não poderíamos saber direito, mas com certeza após este período a fome voltaria tão avassaladora quanto antes e não mais teríamos nenhum prédio ou Igreja no mundo. A foto final estaria pior do que começou…

    Sou um grande defensor do Capitalismo, e sei que dinheiro girando, gerando empregos é a melhor forma de se eliminar a pobreza do que doações ou esmolas.
    Doações ou esmolas são paliativos temporários, não são a solução para se eliminar a fome e a pobreza no mundo. Investimentos em produção, educação são a solução para se eliminar a pobreza e o sofrimento.
    Outro dia li um artigo muito interessante em que afirmava que o rendimento per capita no mundo, se corrigido pela inflação não se alterou muito no século XX e XXI, porém os produtos se tornaram mais baratos e acessíveis à população, dando-lhe um poder de compra e bem estar social muito maior. Um carro particular na virada no começo do século XX, mesmo nos USA, somente era possível para as classes mais altas, hoje qualquer cidadão de classe média no Brasil tem pelo menos 2, apesar de receber aqui uma tributação de item de luxo.
    Esta é a beleza dos investimentos de capital, dinheiro gera dinheiro que gera mais emprego, que por sua vez revitaliza-se uma economia.
    Apesar dos investimentos privados da Igreja terem saído dos investimentos do passado ou do próprio rendimento das aplicações dos dízimos, não vejo muito problema neste projeto de revitalização.
    Os investimentos privados são apenas uma forma de se rentabilizar o dinheiro que se recebe. Eu mesmo, do dinheiro que me sobra, posso investi-los em ações, em títulos do governo, posso montar ou investir numa nova empresa, ou posso doar tudo para a caridade. Creio eu, que a melhor forma de ajudar o mundo seja investir em uma empresa própria onde gerarei mais riqueza, novos empregos e contribuirei muito mais para mitigar a fome e pobreza no mundo do que se simplesmente doasse para mitigar a fome numa sociedade. Neste aspecto, realmente produzir varas e educar homens a pescar é muito superior a dar um peixe para se comer.

    Att.

    • Marcelo,

      é indiscutível o fato que as melhores formas de ajudar os mais necessitados estão em criar meios para sua independência financeira e progresso educacional. Muitas situações de pobreza extrema, no entanto, exigem a mera e simples doação que irá tão somente minimizar o sofrimento.

      Se você crê que o investimento num shopping de luxo cria condições para a auto-suficiência dos santos dos últimos dias mais pobres (limitando nossa conversa sobre pobreza aos membros da Igreja), eu ficaria feliz em ouvir a explicação de como se dá esse processo.

      Não devemos cair aqui numa falsa dicotomia entre “tudo que a igreja faz é correto” ou “está tudo errado”. Bilhões de dólares investidos na “renovação” do centro de Sal Lake são a mais sensata ação para uma igreja mundial em tempos de economia tão frágil?

    • Marcelo,

      Obrigado pelos comentários. Embora bem articulados, me pareceram equivocados em todos os pontos:

      3) Eu vou começar com o seu terceiro argumento, por que eu sempre acho o ápice da ironia quando apologistas Mórmons vem com essa estória de que dar esmola não é uma coisa positiva!

      Vejamos o que o Novo Testamento registra como os ensinamentos de Jesus Cristo sobre o assunto:

      “Dá a quem te pedir, e não voltes as costas ao que quiser que lhe emprestes.” (Mt 5:42)

      “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue- me.” (Mt 19:21)

      “Vendei o que possuís, e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não envelheçam; tesouro nos céus que jamais acabe, aonde não chega ladrão e a traça não rói.” (Lc 12:33)

      “Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti… Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita…para que a tua esmola fique em secreto…” (Mt 6:2-4)

      Vejamos o que o Livro de Mórmon ensina sobre o assunto:

      “…socorrereis os que necessitarem de vosso socorro; dareis de vossos bens aos necessitados e não permitireis que o mendigo vos peça em vão, afastando-o para que pereça.” (Mosias 4:16)

      “…Ora, se Deus, que vos criou, de quem depende vossa vida e tudo o que tendes e sois… oh! então, quanto mais não deveríeis repartir os vossos bens uns com os outros!” (Mosias 4:21)

      “… quisera que repartísseis vossos bens com os pobres, cada um de acordo com o que possui, alimentando os famintos, vestindo os nus, visitando os doentes e aliviando-lhes os sofrimentos, tanto espiritual como materialmente, conforme as carências deles.” (Mosias 4:26)

      Me parece ser um princípio Cristão e Mórmon básico. Aliás, eu gostaria que você me mostrasse nas escrituras onde se diz: não é bom dar esmolas, mas é melhor investir na macro-economia para garantir o bem-estar social geral.

      2) Vamos em ordem reversa ao seu segundo argumento. O seu segundo argumento depende de duas falácias lógicas básicas: Espantalho e Distração.

      A discussão acima não é sobre dar ou não dar esmolas, mas sobre investir em educação e condições básicas para que as pessoas pobres (ou miseráveis) possam experimentar ascenção social. Você começou a falar sobre esmolas (que é um princípio Cristão básico, porém nunca foi o ponto central do debate acima) para criar um argumento mais fraco e mais fácil de atacar (Espantalho) e para distrair do argumento mais complexo e mais difícil de atacar (Distração), a saber, que a Igreja poderia investir menos em especulações imobiliárias e mais em educação e saúde.

      Aliás, caso você não acompanhe a literatura, considera-se investimentos em saúde como investimentos em capital humano. Uma população saudável é uma população mais produtiva e com maior mobilidade social e econômica. Investimentos em educação tampouco são considerados “esmolas”, mas investimentos em capital humano de longo prazo, o que você mesmo admite no seu comentário.

      1) O seu primeiro argumento também é uma falácia lógica: Falso Dilema.

      Ele pode-se resumir assim: já que não podemos resolver todos os problemas sociais, então não vamos resolver nenhum! A realidade é mais complexa que isso e não inclui apenas essas duas escolhas falsas e artificiais.

      Consideremos o caso da B&MGF que eu citei acima. A fundação montou um fundo que chegou a 33 bilhões de dólares e ela focou em problemas específicos que podem ser solucionados ou reduzidos com ações específicas. Malária é um problema sério, mata centenas de milhares de pessoas no mundo todo ano, então como podemos resolver isso? Mitigar? Melhorar? Qual a melhor maneira? Investir em vacinas? Redes? Esgotos? Uma ação em níveis múltiplos? E por aí vai.

      A incapacidade de resolver todos os problemas de saúde, ou todos os problemas sociais, ou toda a miséria do mundo não deteve esta fundação de tentar resolver alguns problemas que são passíveis de solução e/ou ajuda.

      Eu vou lhe fazer uma analogia mais pessoal ainda: baseado no seu argumento acima, uma família hoje pode chegar ao seu Bispo e dizer “olha, como a gente sabe que a Igreja já tem muito dinheiro, e como a gente sabe que o nosso dízimo não pode cobrir todas as despesas e custos dela, a gente achou melhor gasta-lo no shopping, porque comprando lá resolvemos os nossos problemas familiares, ajudamos as lojas e toda cadeia produtiva, e assim ajudamos os outros a manterem seus empregos!”

      Não que eu não ache que gastar dinheiro ajude a mover a economia adiante e a reduzir desemprego. Mas, como a história e a realidade nos mostram, mover dinheiro não se traduz em reduzir mazelas sociais e de saúde por si só. Vejamos os casos dos Impérios mais ricos do passado, e a República mais rica de todos os tempos (EUA), que sem exceção sofreram com pobreza, miséria, doenças, e ostracismo social e educacional de uma minoria (grande) de excluídos econômicos.

      Vou terminar comentando duas colocações finais:

      “Outro dia li um artigo muito interessante em que afirmava que o rendimento per capita no mundo, se corrigido pela inflação não se alterou muito no século XX e XXI, porém os produtos se tornaram mais baratos e acessíveis à população, dando-lhe um poder de compra e bem estar social muito maior.”

      Imagino que não foi numa revista voltada para o estudo de economia, por que trata-se de uma comparação completamente inútil! De modo a gerar dados relevantes, comparações econômicas são feitas com múltiplos critérios, e PPP + PPP per capita são dados muito mais relevantes pois expressam melhor os reais valores de poder econômico dentro de determinados contextos sociais, culturais e históricos.

      “Creio eu, que a melhor forma de ajudar o mundo seja investir em uma empresa própria onde gerarei mais riqueza, novos empregos e contribuirei muito mais para mitigar a fome e pobreza no mundo do que se simplesmente doasse para mitigar a fome numa sociedade. Neste aspecto, realmente produzir varas e educar homens a pescar é muito superior a dar um peixe para se comer.”

      Sim, justamente o argumento que eu fiz acima (além de outros comentaristas) no texto que você esta criticando. “Produzir varas e educar homens a pescar” é o que eu estava falando sobre investir em educação. “[I]nvestir em uma empresa própria onde gerarei mais riqueza, novos empregos” é o que eu estava falando sobre investir em infra-estrutura. Investimentos de especulação imobiliária (shoppings, condomínios, etc.) não é nem um, nem outro.

      No frigir dos ovos, me pareceu que você concordou com a conclusão geral do texto, porém sentiu a necessidade apologética de defender a postura financeira da Igreja.

      • Meus caros, durante uma certa Idade Média uma certa igreja achava que rendimentos em juros era pecado (=”usura”).
        Outra comunidade religiosa bem menor, além de bastante perseguida e odiada não tinha esta mesma perspectiva. Os judeus criaram os primeiros produtos financeiros da história (futuros, hedges, etc.) e isto os tornou fortes e poderosos a ponto de financiar as grandes navegações que tiraram nosso planeta da Idade Média.

        Esmolas e ajuda humanitária são importantes? Claro que são! Elas são o alívio necessário em horas de desespero, porém o trabalho e o desenvolvimento não pode ser negligenciado. Max Weber bem explicou em sua Ética protestante porque a América Latina Católica havia se desenvolvido pobre enquanto a América (e a Oceania) protestante havia se desenvolvido rica (USA, Canadá & Austrália).

        O capital da Igreja, mesmo que finalisticamente exista somente para ser doado, existe um ínterim entre a doação e o efetivo uso do dinheiro doado em que o aplicamos e giramos a economia. A Igreja já vendeu o Zion’s Bank, a ZCMI e pode um dia igualmente se desfazer de seu Shopping e usar o dinheiro da venda para construir hospitais, universidades, etc. Enquanto isto não acontece, o investimento está sendo valorizado.

        Claro que preferiria também que a Igreja investisse mais em escolas ou hospitais, tal como a Igreja católica o faz, mas creio que tudo tem seu tempo e deve ter alguém vendo os riscos e oportunidades destes investimentos. Eu sempre me pergunto por que as escolas da Igreja no Chile e na Nova Zelândia não prosperaram, enquanto as escolas adventistas são o maior sucesso no Brasil?

      • Não se esqueça, Marcelo, que a Igreja vendeu o Zion’s National Bank e a ZCMI justamente por que eles estavam trazendo prejuízo para ela e apresentavam-se em estados financeiro e administrativos lastimáveis.

        As notícias sobre o Shopping ainda não são boas. Os custos foram inflados repetidas vezes durante os muitos anos de construção, até chegar a custos 8 ou 10 ou 12 vezes maiores que os projetados e/ou anunciados, o que não sugere projeto competente para se começar. Todas as análises de mercados sugeriam que o mercado americano atual (e especialmente o de SLC não comportava um shopping desse porte e com esse foco. Os rumores de taxas medianas de ocupação de lojas e vendas de unidades preocupam até hoje.

        Até aqui, ainda não houve sinais de que se tratasse de um investimento financeiramente sucedido.

        Esta certo que, quando o projeto foi anunciado pela Primeira Presidência, a Grande Recessão não havia batido e a bolha do mercado imobiliário seguia sem estourar, o que elevava preços de construção, mas oferecia esperanças de retorno financeiro assegurado. A bolha estourou, a Grande Recessão consumiu as economias americana e mundial, e o projeto consequentemente sofreu com o péssimo timing. Não se pode culpar os líderes pelo imprevisível pois, afinal, quem poderia profetizar o futuro?! 😉

        Ademais, o seu argumento estabelece uma falsa — e falácica — dicotomia: ou se investe para ganhar dinheiro, ou se gasta em esmolas. Uma visão muito simplística e simplória. Investir em capital humano (e.g., educação, treinamento profissional, investimentos de infra-estrutura, etc.) não só representam ajuda humanitária e uma real contribuição moral e ética (especialmente comparada com um shopping!), mas de cunho financeiro: ajudando membros pobres ascenderem socialmente, a Igreja investe nos seus rendimentos futuros (via dízimos, contribuições financeiras, e trabalho voluntário).

        Finalmente, você termina com uma concessão honesta e bonita, mas embrulhada em argumentos bizarros. Tudo tem seu tempo? Qual seria o tempo? Quando a Igreja estiver multi-multi-bilionária e não apenas multi-bilionária? Quando houver membros necessitados, por que não há membros necessitados? Deve haver alguém vendo os riscos e oportunidades? Quem? Baseado em que a sua crença de que haja alguém que veja tais análises? Seriam as mesmas pessoas que planejarem um shopping de 500 milhões e acabaram gastando 5 bilhões? Ou as mesmas que não conseguem replicar o sucesso educacional adventista (que você tão bem mencionou)? Não seria por falta de investimento financeiro na educação?

      • Bom Jun,
        O argumento principal de seu 1o post foi a indagação se seria ético ou não uma igreja investir US$ 5 bilhões em um Shopping. Minha resposta foi que não vejo problema algum uma instituição usar parte de seu capital em investimentos de risco para com o lucro destes investimentos suprir parte de suas despesas fixas.
        Minha posição está baseada em única premissa:
        1) Lucro não é algo ruim, lucro é bom! Durante séculos usura foi considerado um pecado, isto estagnou uma Europa e fez prosperar os judeus holandeses.

        O Diego bem lembrou que a Igreja possui seus investimentos sem fins lucrativos (Deseret Industries) e os com fins lucrativos. Não sei se a legislação americana é a mesma da brasileira, mas a diferença básica entre estes 2 tipos de investimentos pela nossa legislação é que no 1o, os lucros obtidos devem ser obrigatoriamente reinvestidos na própria empresa, enquanto no último é permitida a distribuição de dividendos aos acionistas. Nos primeiros geralmente existem alguns benefícios fiscais, enquanto no últimos uma isonomia tributária como qualquer outro investimento privado.
        É destes dividendos que saem o estipêndio para a cobertura das despesas fixas das autoridades gerais. Se você lembra, na década de 70 e 80, as autoridades gerais costumavam se hospedar nas casas de membros SUD quando viajavam pelo mundo, hoje não mais, este encargo é inteiramente coberto por este estipêndio, aliviando esta despesas dos membros locais.
        Quanto a risco de investimentos, todos sabemos que são aplicações onde se espera um retorno no longo prazo (10 a 20 anos) e que no longo, muito longo prazo (100 anos) a quase totalidade das empresas acabam sendo vendidas ou fechando. Se o Zion’s e o ZCMI foram vendidos por não darem mais retorno, ok, mas veja o retorno de uma cooperativa de crédito e de um armazém da Igreja gerado durante 100 anos de investimento.

        Creio que a questão seria se existem outros investimentos melhores. É neste aspecto que digo que devemexistir pessoas ponderando sobre este assunto. Toda grande empresa tem um departamento de estratégia onde são projetados seus investimentos, analisados os riscos e estimados os retornos. Fiz isto durante grande parte de minha vida profissional, e algumas empresas reajem diferentemente quando sujeitas aos mesmos eventos externos. Eu, por exemplo, participei da tomada de decisão para a mudança da fábrica da FORD de Gravataí, RS, para Camaçari, na BA, quando o então recém governador eleito do RS pelo PT, voltou atrás no acordo inicial feito com a montadoras e resolveu retirar os benefício fiscais prometidos pelo seu antecessor. Nós mudamos, porém nosso concorrente na época, a GM,continou com seu projeto naquele estado. Empresas diferentes, em estágios diferentes de seus projetos, sujeitas ao mesmo evento externo tomaram decisões diferentes, cada uma com seus próprios e devidos argumentos para tal.
        Outra questão levantada pelo Diego é sobre o aspecto das autoridades gerais ainda privilegiarem UTAH em seus investimentos ao invés de outros países em desenvolvimento onde poderiam gerar mais empregos para os membros estrangeiros.
        Bom, claro que eu preferiria mil vezes a Igreja investir em escolas secundárias no Brasil no modelo das escolas adventistas do que usar este dinheiro num Shopping em Salt Lake City. Mas, antes de criticareu procuro entender ooutro lado. A Igreja não faz isto devido a sua mentalidade provinciana ou porque as AG pensam como o xerife Brigham Young, para mim a questão pode ser explicada por um simples “conservadorismo em seus investimentos”. Quando conversei com o Diretor financeiro da Igreja em 1999, percebi que a Igreja é extremamente conservadora. Derivativos financeiros são usados exclusivamente para “hedge”, nunca para especulação, e.g. Deixe-me exemplificar:(continua)

      • (continuação)
        Todos sabemos que a Agroreserves, a empresa que administra as fazendas da Igreja nos USA comprou uma fazenda em Unaí, MG. Esta fazenda estava indo muito bem, contratando tanto membros da Igreja como não membros para lá trabalharem e quando estava para começar a dar seus primeiros lucros, “boom”, um grupo de “sem-terras” invadiu a fazenda e lá acampou, impedindo a produção da fazenda por quase 3 meses. A Igreja tentou com as autoridades locais resolver o assunto, mas tudo era demorado, lento, enquanto a produção se estagnava, a Igreja mantinha suas despesas fixas (salário dos empregados, manutenção etc.) e conseguiu resolver a situação de uma forma totalmente inusitada. Por acaso Frei Beto foi participar de um evento sobre liberdade religiosa na BYU e alguém teve a brilhante idéia de pedir sua ajuda para resolver o assunto. Graças a sua intervenção e influência sobre a Via Campesina, os sem-terras concordaram em deixar a fazenda da Igreja. Eu me pergunto, e se Frei Beto durante aquela ocasião não estivesse visitando a BYU? Quanto tempo levaria para os sem-terras saírem da fazenda da Igreja, 6 meses, um ano?
        As AGs ficaram extremamente descontentes com este episódio o qual serviu para barrar todos os projetos de aquisição de outras fazendas no Brasil. Será que este tipo de risco e contigência estava previsto em seus modelos de investimento? Eu duvido, uma invasão de uma fazenda produtiva por “land-less” seria uma coisa totalmente bizarra para um americano, muito mais para um cidadão de Utah.
        Seria mais interessante nós levarmos às AGs estudos sobre investimentos viáveis no Brasil. Eu sei que a Igreja não foi feliz com o investimento de suas escolas no Chile e na Nova Zelândia, o que acabou impendindo investimentos desta estirpe no Brasil e no resto do mundo. Seria interessante alguma tese de mestrado ou doutorado em Educação ou Finanças mostrando o sucesso das escolas adventistas no Brasil, tal qual o Emanoel mencionou acima. Mostrar que Brasil não é Chile nem Nova Zelândia, a escola pública é ruim e qualquer cidadão de classe média está disposto a pagar por um preço acessível a educação de seus filhos. O exemplo dos adventistas no Brasil precisa ser mostrado às AGs, se eu tivesse tempo já teria feito isto, não posso chegar simplesmente com algumas ideias legais e achar que os analistas de investimentos da Igreja a comprarão. Devemos fazer nossa parte, não simples estimar os retornos financeiros, sociais e até espirituais que as escolas criarão no Brasil, mas também estimar os riscos, avaliar as taxas de inadimplências, as garantias da legislação brasileira sobre os educadores e sobre os pais dos alunos, etc., etc.

        Att.

      • Como estudante no final de uma graduação em “pedagogia e ciências da educação”, pretendo exatamente estudar essa área e traduzi-la em meu TCC, aprofundando essas pesquisas a nível de mestrado e doutorado nos próximos seis a oito anos, Marcelo Silva. Minha pesquisa de TCC irá introduzir a problemática de uma visão acadêmica sobre a formação do indivíduo SUD, suas concepções e características, explorando o porquê e o como estudam os mórmons. A título de mestrado, pretendo estudar a história e a filosofia das instituições educacionais da Igreja no mundo todo, incluindo as iniciativas locais (USA – notadamente Utah, Idaho, Hawaii e outras experiências a respeito), latinoamericanas (México e Chile – acho que a Igreja só teve escolas nesses países neste continente) e, por fim, no pacífico (Nova Zelândia, Tonga, Samoa, Fiji, Vanuatu e não sei onde mais…). A nível de doutoramento, quero exatamente fazer esse paralelo entre a educação adventista, a presbiteriana e a metodista com a educação mórmon internacional e refletir em fracassos e sucessos que diferenciam tais instituições.
        Só a título de comentário, a Igreja tem dois departamentos (Investment Properties Management Department e Investment Securities Department) responsáveis por lidar com análise de riscos, valores e capitais de investimento, e toda essa coisa de dinheiro e valores na bolsa. Além disso, obviamente a Deseret Management Corporation tem também suas áreas de análise de riscos e investimentos, tanto que a Beneficial Financial Group parou de vender seus serviços de seguro por algum tempo, até estabilizar seus capitais (nem sei se já voltou), bem como a Deseret First Credit Union e a própria Deseret Mutual Benefits Administrators, seguradora e fundo de pensão dos trabalhadores da Igreja (COB e CPB), das instituições sem fins lucrativos e dos missionários americanos que servem no exterior (não funciona para missionários de outros países, que arcam com seus próprios seguros ou tem atendimento médico pago pela Igreja através das missões).

      • Leonel,

        Você é vegetariano? Você abomina um churrasquinho com os amigos?

        Se respondeu negativamente às perguntas acima, responda agora então. Onde você acha que o bicho tem mais chance de sobreviver, numa reserva de caça ou na linha de produção de um abatedouro?

        Bye!

    • Gostei de quase tudo que você escreveu, mas a afirmação de que você é um grande defensor do Capitalismo, impulsionou-me, respeitosamente, a dizer-lhe que de todos os chamados “Modos de Produção” (Feudalismo, Capitalismo, Asiático, etc), o que mais se aproxima à maneira de viver, de acordo com o Evangelho, é o Socialismo, não o utópico, com bases Marxistas, vivido em alguns países. Não sou Socialista partidário, nem pretendo sê-lo, mas posso afirmar que o Capitalismo é bom mesmo para quem detém os chamados “Meios de Produção”. Acontece que a Igreja necessita adaptar-se ao Capitalismo. É isso!

    • A maioria dos empregos criados pela Igreja pagam salarios minimo, aqueles que trabalharao nesse shopping irao ganhar menos de 8 dolares por hora o que e muito baixo para os padroes Americanos. Nao vejo beneficio nesse projeto. Realmente gostaria de ver investimentos em educacao em paises pobres e Universidades em paises com muitos membros como o Brasil, Mexico, Chile e Filipinas. Alguem comentou aqui que se Cristo voltasse hoje a terra ele certamente nao iria reconhecer sua Igreja.

      • Muitos tem dito que a Igreja “deveria investir em uma Universidade em países pobres”.
        Gostaria de dizer a todos que pensam isto, que considerem novamente, após lerem meus apontamentos:
        1) Em 2002, o Pres. Hinckley anunciou o Fundo Perpétuo para a Educação. Com ele, seria possível que o jovem pudesse cursar uma boa e cara Universidade, pagando um valor muito inferior que os próprios sistemas governamentais de ensino superior concedem. Há este meio muito eficaz para que os jovens estudem onde quiserem, sem que seja necessário haver uma BYU nas proximidades.
        2) São poucos os jovens que retornam de suas missões e buscam uma boa formação. Boa parte dos jovens que o fazem, optam por carreiras genéricas como “formar-se em administração”, acreditando que por possuir um diploma, terão grandes chances de granjear bons rendimentos.
        3) Todos nós devemos conhecer pelo menos um jovem que usufruiu do FPE, e na hora de pagar pelo empréstimo, optou por não pagar, dando calote. Muitos fazem isto, tanto que a Igreja já enviou uma carta aos líderes, solicitando o acerto de contas dos inadimplentes.

        Com estes apontamentos, não creio que somos um povo tão merecedor de bênçãos como uma Universidade SUD no Brasil, se somos tão ingratos com as bênçãos que já temos.

    • Onde estavam as revelações de Joseph Smith, quando o Banco Sião faliu, este banco foi mantido as custas de John Tanner, que por causa disto teve sua família a passar fome; Joseph Smith não recebeu revelação para saber que algum espertalhão ( autoridade geral ) estava a roubar o banco, fez isto e foi embora na boa.

    • em relação a uma universidade aqui no brasil… já temos o programa pathway que reduz mais da metade o estudo para os cursos da byu.

  2. Todos falam em doar dinheiro de instituições religiosas para acabar com s fome do mundo, para ajudar paises pra cuidar disso e daquilo. As religioes não governos, os gestores públicos é que tem que fazer isso, por que não criticamos o Obama, a Dilma e Rainha Elizabeth e muitos outros como por exemplo o imperador chines.Os mormons não são exceção muitas igraja tem investido o dinheiro das doações naquilo que elas entendem ser corretos. Nos Estados Unidos os membros mormons sao em grande maioria riquissimos acho justo o investimento . E bom lembrar que eles tem ate mercados que as pessoas vão la com uma recomendação e adquirem o que precisam sem pagar nada, mandam ajuda humamnitaria para a Africa e tem ajudado muitos brasileiros com um fundo de educação. sei que isso nao é um privilegio dos mormons tem igrejas que fazem muito mais doque isso as vezes pelo simples fato de demonstrar amor atraves do trabalho abnegado de uma freira.Não critiquemos as religioes vamos meter o tacape nos políticos e nas politicas publicas em nosso pais, não interessa o que esses mormons fazem mas o que o congresso e o sendo brasileiro faz entanto discutimos milhoes de reais são desviados dos cofre publicos no Brasil.

    • Alexandre,

      Eu concordo com você que devemos cobrar de nossos governos, pois estas são indiscutivelmente a obrigação e a razão-de-existência destes.

      Não obstante, a questão aqui não é discutir políticas públicas e diretrizes governamentais. Aqui discutimos religião e Mormonismo. E a pergunta é relevante, a partir do momento que a Igreja gasta 5 bilhões de dólares em investimentos imobiliários, se não seria mais útil (visando o bem comunitário) e ético (posto que trata-se de uma organização sem fins lucrativos) investir no bem estar das pessoas (saúde, educação, etc.). Mesmo que fosse apenas das pessoas Mórmons.

      “por que não criticamos o Obama, a Dilma e Rainha Elizabeth e muitos outros como por exemplo o imperador chines.”

      A China não tem Imperador há mais de 60 anos, e a Rainha Inglesa não é chefe-de-Governo, mas sim chefe-de-estado!

      Eu acho que Obama e Dilma, por exemplo, merecem críticas. Mas o nosso site não é um site político…

      “Os mormons não são exceção muitas igraja tem investido o dinheiro das doações naquilo que elas entendem ser corretos.”

      Então o argumento aqui é que a Igreja Mórmon é igual qualquer outra igreja, e cada uma investe no que achar sua prioridade, e a prioridade da Igreja Mórmon pode ser investimentos imobiliários como shoppings, condomínios, etc.?

      “…mandam ajuda humamnitaria para a Africa e tem ajudado muitos brasileiros com um fundo de educação.”

      Mas o que você achou da discrepância: 1,2 bilhões de dólares em ajuda humanitária entre 1985 e 2010, versus 5 bilhões de dólares para shopping center entre 2006 e 2012?

      “Não critiquemos as religioes vamos meter o tacape nos políticos e nas politicas publicas em nosso pais, não interessa o que esses mormons fazem mas o que o congresso e o sendo brasileiro faz entanto discutimos milhoes de reais são desviados dos cofre publicos no Brasil.”

      Concordo. Mas você acha que uma crítica impossibilita a outra?

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