Quanto Ganha um Apóstolo Mórmon?

Primeira Presidência

Henry Eyring tenta ler o extrato bancário de Thomas Monson. Ele também quer saber…

Quanto Ganha um Apóstolo Mórmon?

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Santos dos Últimos Dias se orgulha de depender de um clero exclusivamente voluntário, não profissional e não remunerado.

Embora isso seja verdade em âmbito local e regional, onde as funções eclesiásticas são preenchidas por líderes voluntários, a estrutura administrativa da Igreja depende de um exército de profissionais e a liderança máxima da Igreja constitui claramente um clero remunerado.

Pergunte a qualquer Mórmon (i.e., SUD ou membro da Igreja), e ele invariavelmente rechaçará a afirmação de que o clero máximo da Igreja seja profissional e remunerado porque eles recebem apenas uma “ajuda de custo” para manter-se (afinal, ninguém se mantém com apenas 5 pães e 2 peixes por um ano inteiro). E este Mórmon não estaria errado, visto que essa é a posição oficial da Igreja, que afirma não pagar salários a seus líderes religiosos mas apenas “ajudas de custo”.

Será, contudo, essa afirmação uma explicação realmente adequada? Em realidade, quanto recebe da Igreja o Presidente da Igreja? Os Conselheiros da Primeira Presidência? Os Apóstolos? Os Setenta nas Presidência dos Setenta? Os Setenta do Primeiro Quórum?

Por enquanto, eu acredito que seja impossível de responder essas perguntas porque a Igreja não divulga essa informação, nem nenhuma informação da qual se poderia estimar os salários as ajudas de custo. Estes dados financeiros são secretos sagrados!

Não obstante, eu recebi recentemente uma peça de informação que pode ajudar a oferecer um insight, ou uma percepção, mais apropriada de como a Igreja aborda essas questões.

Vazou recentemente para o público um manual oficial da Igreja que é secreto sagrado: o Manual Para Presidentes de Missão (edição 2006)! [1]

Neste manual, o apêndice B lida com questões financeiras, e elucida como a Igreja cuida dos vários presidentes de missão espalhados pelo mundo.

Missionários Mórmons voluntários são sustentados pelas próprias famílias ou congregações.

Missionários Mórmons voluntários são sustentados pelas próprias famílias ou congregações. Já seus presidentes…

Para quem não esta familiarizado, a Igreja mantém um sistema voluntário de missionários jovens que viajam para diferentes partes do mundo e realizam proselitismo por 2 anos. Estes jovens não recebem salários e devem pagar do próprio bolso pelos custos de seu serviço missionário, embora as comunidades locais podem ajudar a financiar os jovens que não possuem tais recursos.

Para cada grupo de 180-240 jovens, um adulto é convocado para lidera-los por 3 anos, chamado de Presidente de Missão. Teoricamente, este também é um serviço voluntário e não assalariado.

Contudo, o manual oficial da Igreja para esses presidentes de Missão estabelece que, apesar da Igreja não lhes pagar salários, e de esperar que eles se mantenham com seus próprios fundos, ela oferece algumas “ajudas de custo”.

Por exemplo, a Igreja oferece reembolso total para as seguintes despesas familiares do Presidente de Missão, enquanto serve voluntariamente sem salários por 3 anos:

  1. Convênio Médico e Odontológico para toda a família, além da quaisquer custos médicos adicionais necessários (exceto cirurgia cosmética);
  2. Aluguel;
  3. Contas de luz, telefone, internet, gás, lavanderia e supermercado;
  4. Um carro oficial para o Presidente, com combustível e manutenção;
  5. Um carro extra-oficial para a esposa do Presidente, com combustível e manutenção;
  6. Roupas para a família;
  7. “Atividades familiares” (não especificado o que possa excluir dessa categoria);
  8. Contas de telefone de longa distância (para familiares que não vieram para a missão);
  9. Passagens de ida e volta para filhos com menos de 26 anos, que não vieram para missão mas desejam visitar seus pais;
  10. Presentes “modestos” de Natal e aniversários para familiares;
  11. Custos para filhos servindo missão de tempo integral;
  12. Escola para filhos em idade escolar (5-18 anos) incluindo materiais escolares, uniformes, transporte escolar, matrículas, etc.;
  13. Atividades extra-curriculares para filhos em idade escolar, como aulas de música, esportes, balé, etc.;
  14. Faculdade para filhos em cursos de graduação, com o limite determinado pelos preços (maiores?) da BYU, com opção de bolsa integral para a BYU;
  15. Empregada doméstica (20 horas/semana);
  16. Jardineiro, se necessário;
  17. Isenção de impostos e isenção de Dízimo.
Será que a Igreja reembolsaria calças para as mulheres, ou apenas saias?

Será que a Igreja reembolsa calças para as mulheres, ou apenas saias?

Técnicamente, nada disso constitui um salário. Nenhum dinheiro excedente resulta dessa “ajuda de custo”, nada disso é contribuível para um fundo de aposentadoria, nada disso é tributável como imposto de renda, e nenhum valor pode ser economizado para o futuro ou investido para ganhos.

Não obstante, tampouco se pode afirmar que os custos da Igreja não sejam consideráveis, ou que isso representa muito mais do que qualquer salário ganho pela maioria dos membros da Igreja. Posto d’outra maneira, eu conheço poucos membros da Igreja que não trocariam seus salários por essas “ajudas de custos”.

Outro dado interessante do manual é a preocupação com evitar impostos e evitar divulgação das finanças da Igreja:

Para evitar que se levantem questões desnecessárias sobre impostos, por favor siga estas instruções cuidadosamente: 1) Nunca compartilhe informações sobre os fundos que você recebe da Igreja com seus contadores ou brokers… 2) Nunca sugira, de qualquer modo, que você é remunerado por seus serviços [à Igreja], 3) Caso seja obrigado a preencher informações de Imposto de Renda, jamais mencione quaisquer valores recebidos da Igreja…

Além disso, a natureza secreta sagrada destes fundos é reforçada de maneira inequivoca:

Os valores dos reembolsos devem ser mantidos em confidência estrita, e nunca discutidos com missionários, outros presidentes de missão, amigos ou familiares.

Autoridades Gerais

Tal e qual os Presidentes de Missão, as Autoridades Gerais tampouco recebem salários propriamente ditos. Porém, diferentemente daqueles, estes tem um chamado vitalício e continuam recebendo tais “ajudas de custos” pro resto da vida.

Além disso, sabemos que os Apóstolos recebem remunerações por servir em Conselhos Diretores das inúmeras empresas de fins lucrativos da Igreja, como a Deseret Management Corp. (receitas anuais de USD 1,2 bilhões), a AgReserves, a Hawaii Reserves, a Polynesian Cultural Center (receita de USD 59 milhões para 2010, e cujo presidente recebe salário de USD 300.000 anuais), a Ensign Peak Advisors (empresa de fundo de investimentos que movimenta bilhões de dólares ao ano), a Beneficial Life Insurance (empresa de seguros de vida com mais de USD 3 bilhões em fundos), a Intellectual Reserve, a Deseret Trust Co., etc. [2][3]

Estrutura Organizacional da Corporação do Presidente da Igreja (Fonte: Businessweek)

Estrutura Organizacional da Corporação do Presidente da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (Fonte: Businessweek)

Todas estas empresas multi-bilionárias ficam sob o controle imediato da Corporação do Presidente da Igreja, que por sua parte distribui controle destas para os demais Apóstolos e Bispos Presidentes, e ações e participações destas para as demais Autoridades Gerais. Grande parte, se não quase totalidade, das finanças, lucros, solvências, investimentos, e pagamentos destas empresas não estão abertas ao escrutínio público por decisão deliberada da Igreja (i.e., do Presidente da Igreja), então conhecimento preciso destes dados financeiros é praticamente impossível. Estimativas baseadas em alguns poucos fatores conhecidos (propriedade e localização de terras, imobiliário, volume de transações e vendas/acquisições, etc.) podem ser comparados com empresas similares cujas finanças são transparentes, e suposições lógicas são calculadas.

Milionário Mitt Romney usa a Igreja para burlar o Fisco e acaba pagando mais em Dízimo que em impostos...

Milionário Mitt Romney usa a Igreja para burlar o Fisco e acaba pagando mais em Dízimo para a Igreja do que em impostos de renda ao Governo…

Pelas leis Americanas, de acordo com o Antropólogo SUD e ex-funcionário corporativo da Igreja Daymon Smith, a Igreja pode investir os recursos religiosos (i.e., Dízimos e ofertas) em suas empresas de fins lucrativos, girar o dinheiro entre eles e outros porfólios com grandes lucros, e retorna-lo aos fundos da Igreja, que por si são isentos de impostos por tratar-se de fundos religiosos. Além disso, a Igreja recebe como doações ações de empresas como oferendas (i.e., Dízimos e ofertas) que podem ser vendidas e assim tanto ela como os doadores evitam impostos. (Mitt Romney famosamente montou um esquema desses para evitar impostos!) [4][5]

Assim sendo, a Igreja pode pagar “apenas ajudas de custos” a seus líderes religiosos, que, por não se tratar de salários, são isentos de impostos, mas paga-los através de bonus para Conselheiros Diretores e ações de corporações privadas da Igreja, e ainda longe do escrutínio público por se tratar de empresas fechadas. A própria Igreja não abre seus livros de contabilidade ao público há quase 50 anos, o que dificulta uma análise precisa, e ademais, o historiador Mórmon Michael Quinn estima que a compartimentalização de corporações e unidades admnistrativas da Igreja seja tão enorme e tão burocrática, que é possível que ninguém saiba exatamente quanto cada um (além de si mesmo) recebe das múltiplas organizações da Igreja. [6][7][8][9][10][11]

Em 2009, a Igreja SUD no Canada declarou ao governo Canadense 184 funcionários de tempo integral, cujos salários médios era de $83 mil anuais, sendo 2 deles entre 80 e 120 mil, 6 deles entre 120 e 160 mil, e 2 deles entre 160 e 200 mil. Considerando tais salários muito acima da média nacional ($50 mil para administradores), além da “ajuda de custos” generosa oferecida para presidentes de missão (como vimos acima), estas remunerações podem girar entre USD 300 e 800 mil ao ano, talvez muito mais nos escalões mais altos (i.e., Primeira Presidência). [12][13][14][15]

Contudo, devido a extrema importância dada ao sigilo sobre finanças na Igreja, estas estimativas só podem ser, por natureza, especulativas. Os poucos dados que temos nos oferecem uma noção geral, mas não são dados concretos. Alguém possui dados concretos para compartilhar conosco e para ajudar-nos a elucidar esta questão?

NOTAS E LINKS

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436 comentários sobre “Quanto Ganha um Apóstolo Mórmon?

  1. Discordo de você Giovanni e Presb.Jean, quando dizem que os problemas seriam “amenizados” se a Igreja disponibiliza-se mais do dinheiro arrecadado para ajuda humanitária,ações sociais,fazendas e produção alimenticía,a responsabilidade no que diz respeito a diferenças sociais, fome,miséria,morte etc,etc, que ocorrem na África ou qualquer parte do mundo é dos governos e seus dirigentes e recairá sobre eles a culpa por tais incidentes, a igreja faz o que pode para ajudar estes, quanto as autoridades gerais receberem para atuar em seus chamados, 24 horas por dias todos os dias, na minha opnião está certo, infelizmente não te convencerei e não convencerei à ninguém de que é certo, apenas me resta dizer que é certo, que não é absurdo e que não está em desconformidade com o que acreditamos.

  2. Numa explicação bem elucidativa Na Enciclopédia do Mormonismo, lemos:

    “Como a Igreja não tem nenhum clero profissional, é administrado a todo nível pela PARTICIPAÇÃO E LIDERANÇA LEIGA, e os oficiais, exceto aqueles das Autoridades Gerais, contribuem com seu tempo e talentos sem remuneração… Como as Autoridades Gerais são obrigadas a deixar seu emprego regular para o serviço da igreja em tempo integral, eles recebem uma modesta pensão provida da renda nos investimentos de igreja” (p.510)

    • MODESTO COISA NENHUMA!
      MILHARES DE MEMBROS GANHANDO SALÁRIOS DE FOME AQUI NO BRASIL E EM DIVERSOS OUTROS PAÍSES E AINDA PAGANDO DÍZIMO, NÃO TENDO QUALQUER TIPO DE PLANO DE SAÚDE, PAGANDO ALUGUÉIS E PASSANDO NECESSIDADES!!!!
      O SR ACHA MODESTO ALGUÉM TER DIREITO A EMPREGADA DOMÉSTICA, CARRO COM GASOLINA, PLANO DE SAÚDE, CASA PARA MORAR, CARTÃO DE CRÉDITO, PASSAGEM AÉREA………

      TÁ DE BRINCADEIRA…..

      • Em relação ao que ganhavam realmente é modesto.
        Eles eram bem sucedidos até que largaram tudo, ou melhor, deixaram aos cuidados da igreja para que fosse administrado. Só o que eles deixaram é uma bolada.
        Pesquise sobre o que faziam Richard G. Scott, Russel M. Nelson entre outros antes de serem chamados apóstolos. Fundo Perpétuo e sua história, de onde saiu esse fundo.
        É uma pena que estamos discutindo esses pormenores quando deverímos estar levando o evangelho de Cristo a todos que necessitam. Isso sim, artigos como esse não contribuem na salvação de ninguém. Em vez de procurar falhas onde não existe por que não monta um blog onde têm mensagens que inspirem as pessoas a fazerem coisas boas. Eu não tenho nada contra nenhuma religião tanto que dou essa ideia. O importante é fazermos um mundo melhor. Não importa o quanto tu ganha ou deixa de ganhar, o importante é que eu acredito que existe um Deus e Um Salvador e tenho fé que se eu fizer boas obras serei recompensado um dia em pelo menos poder beijar os Seus pés por tudo o que fizeram e ainda fazem por mim.

    • Descordo de vc, A igreja apesar de ser a verdadeira Igreja de Cristo, ela funciona mais como uma empresa, muito bem organizada por sinal. Eles nao recebem uma modesta remuneracao mas tambem o que recebem vem do seu propio dinheiro que eles consagraram para a Igreja, nao ha nada de mal nisso. O problema na igreja e que com o passar do tempo e ao se aproximar da segunda vinda a Igreja vai novamente ser testada, muitos membros se afastarao devido as perseguisoes e tambem a novos mandamentos que virao atraves de novas escrituras como esta em Apocalipse e no Livro de Mormon.

    • Acho que o responsável pelo artigo deveria estudar um pouco mais sobre consagração e entender o que significa doar tudo de si.
      Quando se vê apenas um lado, é fácil achar um defeito. Quando se acha que sabe demais, fica mais fácil ainda.
      É o tal negócio: achar pelo em ovo.

      • Acho que o responsável pelo comentário deveria estudar um pouco mais sobre a Igreja SUD e entender que escrever comentários sem o mínimo de conhecimento do assunto o expõe ao ridículo.

        As Autoridades Gerais da Igreja SUD não vivem a “lei da consagração”. Eles nunca disseram que a viviam, eles não dizem que a vivem, eles certamente não a vivem. Eles mantém para si todos os seus bens materiais, sem contribuir nada além do que qualquer outro membro da Igreja contribui, e ainda recebem dinheiro (muito dinheiro, dependendo de seu nível na hierarquia). Isso é um fato documentado, e choramingar sobre “estudar um pouco mais sobre consagração” não altera os fatos.

        Agora, já que o Rodrigo se sente “corajoso” para “escolar” sobre a necessidade de “estudar um pouco mais sobre consagração”, eu vou mencionar alguns fatos sobre os quais ele certamente é inteiramente ignorante no que diz respeito ao assunto. Por exemplo, eu suspeito que ele não saiba que, a título de consagração, Joseph Smith tomou posse de imóveis de vários membros em Ohio para financiar especulações imobiliárias dos quais parte dos lucros reverteriam a ele. Ou que Joseph Smith fundou um banco ilegal que emitia notas falsas e mentia para seus clientes (todos membros da Igreja) sobre sua solvência e seus colaterais, até que faliu e levou consigo as finanças de milhares de membros da Igreja. Ou que Joseph Smith se sentiu no direito de liderar bandos de Mórmons para ir ao condado de Daviess e roubar e pilhar os bens dos não Mórmons lá (fato, este, que desencadeadou a Guerra de 1838). Ou que Joseph Smith tentou repetidas vezes tomar o lucrativo emprego de Sidney Ridgon nos correios de Nauvoo, e após muitas negativas e brigas por dinheiro, decidiu enviar Rigdon numa missão para consegui-lo. Ou que Joseph Smith usou de sua influência religiosa e política para proibir a venda de álcool em Nauvoo, falindo vários micro-empresários, exceto no bar do qual ele era dono. Ou que Brigham Young manipulou o mercado interno de Utah para se tornar um dos homens mais ricos dos EUA e do mundo enquanto a maioria dos Santos ainda vivia em pobreza. Ou que Brigham Young “roubou” da Igreja o equivalente a USD 2 bilhões antes de morrer, e que só sabemos disso pelas tentativas de reave-los para a Igreja por John Taylor et al. Estes, meu caro Rodrigo, são alguns dos fatos históricos “sobre consagração”, do qual você deve saber quase nada, e sobre o qual você “deveria estudar um pouco mais” para não mais escrever essas asneiras em público.

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