Texto de Larissa Arce Centurião
Sobre a separação de tarefas por gênero dentro da igreja
Comecei a prestar mais atenção em certos ensinamentos na igreja para compreender por que me prometiam a felicidade mas estavam, de um certo modo, se tornando um incômodo. De princípio até acreditei que meus questionamentos eram desnecessários e que a necessidade de mudança devia estar fora de cogitação. Afinal, quem é que nunca escutou a velha frase: ‘A Igreja é perfeita’?
Porém tomei conhecimento de que o problema estava em algumas doutrinas repletas de sexismo, e isso definitivamente não é saudável para o crescimento de mulheres na igreja (digo mulheres pois são as mais prejudicadas, mas os homens não fogem das consequências). Principalmente para que tenham a plena noção de que os estereótipos extremos na sociedade não fazem nenhum bem, tornando assim o evangelho duvidoso.
Acredito que a base para esses ensinamentos esteja nas organizações dos jovens (ORM). Quando uma criança completa doze anos de idade, ela desvincula-se da primária e passa a ter aulas separadas e especificas de acordo com o seu sexo.
Essas aulas dão ênfase para os jovens de seu verdadeiro papel na terra, e eu como Laurel aprendi nesses quatros anos meu verdadeiro papel como mulher e claro minhas responsabilidades diante da família. Creio que os irmãos já imaginam quais ensinamentos tive nesses quatro anos, pois nas organizações dos adultos não é diferente, a questão é que para os jovens passa-se uma visão ‘natural’ das coisas, ensinando toda a visível divisão de tarefas de modo sútil durante tais aulas.
Aprendi que sou uma moça, naturalmente mais frágil, possuo uma afinidade maior e uma responsabilidade maior com os afazeres domésticos, devo ter filhos (sem mas), a responsabilidade de cuidar deles é minha, devo cuidar e ajudar meu futuro esposo com o sacerdócio, e de um modo aprendi também o papel do homem: ele é o cabeça, tem a responsabilidade de me sustentar e o direito de tomar as decisões finais da família.
Com essa explicação objetiva dos ensinamentos devo assustar alguns, mas a prova que tenho de que o que falo é verídico é muito simples, os manuais com metas para obter um testemunho pessoal de Jesus Cristo – diferentes para meninas e meninos.
Ao analisar Dever para com Deus (dos Rapazes) e Progresso Pessoal (das Moças) é óbvia a separação de tarefas por gênero. Observamos o foco para os rapazes fazerem o trabalho missionário, adquirir conhecimento e habilidades para um futuro emprego. Já o Progresso Pessoal das Moças foca na “natureza divina da mulher”, aconselhando sobre o natural instinto materno, com metas para ajudar a família em afazeres domésticos, aprender a cozinhar, costurar, e ainda possui uma opção no projeto de boas obras de “ser uma boa dona-de-casa”.
“Ah! Mas no dever para com Deus também possui meta para os rapazes cumprirem atividades no lar” “Ah! Mas no Progresso Pessoal existe meta de obra missionária”. Ok irmãos, gosto de falar em números, alguém ai já comparou?
O sistema de metas dos dois livrinhos é completamente diferente. Até mesmo entre os jovens é reconhecido que o Progresso Pessoal das Moças é mais difícil, pois depende de um tempo e um foco maiores, moldado aos seus oito valores (fé, natureza divina, valor individual, conhecimento, escolhas e responsabilidades, boas obras, integridade e virtude – Princípios básicos para uma boa moça Sud). A Organização dos Rapazes não possui tais valores como foco, nem se comenta esses valores especificamente. Por que não focar em virtude com os Rapazes assim como nas Moças?
Repetidas vezes no Dever para com Deus é possível ver imagens de missionários, e apenas duas imagens de meninos lavando a louça (páginas 26 e 75), exemplos dados para as metas de servir ao próximo (qualquer próximo), diferentemente do Progresso Pessoal das Moças, em que todas as atividades referentes ao lar são claramente colocadas para nos preparar a uma futura responsabilidade dentro da família: “O serviço é um princípio essencial da vida familiar. Por duas semanas, ajude a preparar o cardápio de sua família, consiga alimentos e prepare parte das refeições” (Boas Obras, p. 54).
Quando comentado no começo do texto de que os homens não fugiam de tais consequências não houve nenhuma ideia precipitada, afinal, a maneira como eles são ensinados e cobrados da responsabilidade masculina de sustentar toda a família e tomar sobre si todos os problemas fora da responsabilidade materna (filhos, limpeza), e a obrigação (sim, obrigação) de cumprir uma missão de tempo integral também é de se preocupar.
“Se você tiver uma renda, desenvolva e siga um planejamento pessoal de despesas e de poupança. Inclua o pagamento do dízimo e uma poupança para a missão.” Pg.57
Muitos irão criticar o que escrevo, dizendo que é impossível questionar algo que veio da inspiração do Senhor, mas digo: sim, acredito que um manual para os jovens poderem facilmente adquirir um testemunho de Jesus Cristo deve existir, acredito que ensinar sobre a importância do trabalho missionário e a importância de servir também é necessário, acredito que ensinar afazeres domésticos para a proximidade da independência e a importância do aprendizado para os cuidados de uma criança também é extremamente importante, porém, quando ensinado igualmente para os dois.
As pessoas gostam também de lutar contra este argumento apresentando o famoso testemunho dos apóstolos “A Família: Proclamação ao Mundo”: ‘Segundo o modelo divino, o pai deve presidir a família com amor e retidão, tendo a responsabilidade de atender às necessidades de seus familiares e de protegê-los. A responsabilidade primordial da mãe é cuidar dos filhos.’
Não existe documento mais contraditório e patriarcal. Esse documento foi feito por homens. Existe sim um equívoco. Deve haver a necessidade de todos compreenderem a importância da família, porém, não dessa forma.
Infelizmente acho triste mulheres se fecharem a essas ideias, ou então, procurar igualdade ‘até onde convém’. Nós podemos ser mais do que nos apresentam que podemos ser.
Eu não estou querendo dizer que todas as mulheres devem abolir o pensamento de responsabilidade dentro do lar, mas sim, que TODAS devem ter a noção de que sua escolha e sua liberdade não se limitam a isso, todas devem ter a visão de que estar ali é uma escolha e não uma obrigação.
Acredito que devem e vão haver algumas mudanças. Uma prova é o direito de sisters ocuparem cargos na missão antes negados. Ainda falta muito, mas já seria excelente se os membros começassem a compreender e a se sentirem livres para argumentar e questionar certas doutrinas da igreja.
Sei que os problemas apresentados estão presentes nos moldes da sociedade, mas se este é o evangelho de Cristo deve-se então desprender-se dessas ideias e procurar o melhor para seus membros. Todos sofremos as consequências do patriarcado, e o ensinamento igualitário atrai benefícios em qualquer situação.
*Sobre a autora:
Larissa Arce Centurião tem 16 anos e acaba de ingressar no Curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.





Larissa Centurião, grato pelo convite feito a mim para ler seu artigo. Estou vislumbrado com tamanho poder de argumentação, parabéns ! Não estou aqui pra dizer se está “certo ou errado”, mas sim para contribuir com informações adicionais com o intuito de fomentar este debate. Agora a pouco eu e minha esposa estudávamos em nossa noite familiar o manual chamado: CASAMENTO ETERNO, pgs 127 á 130, artigo de autoria do então Segundo Conselheiro na época, o Pres. Gordon B. Hincley, em jan de 1984. Aqui ele nos ensina sobre 4 pedras angulares de um Lar Feliz, fala sobre o relacionamento entre um Homem e uma Mulher, reflete sobre o que muitas vezes se torna realidade, porém não é o que o Evangelho de Cristo ensina.
Gostaria que você pudesse ler este artigo para incrementar suas palavras, ampliando ainda mais sua visão, e enriquecendo o debate.
Vou colocar aqui um pequeno trecho que acredito ser pertinente, porém ficaria muito feliz se você lesse na íntegra(mando o arquivo com o Manual do Casamento Eterno em pdf pra você, ok!):
-Pres. Gordon B. Hincley-
“(…)É preciso haver respeito pelos interesses do outro. É preciso haver oportunidades e incentivo para o desenvolvimento e a expressão dos talentos individuais.Todo homem que nega à esposa o tempo e o incentivo para que ela desenvolva seus talentos, nega a si mesmo
e a seus filhos a bênção que ela poderia conceder ao lar e transmitir a sua posteridade.
É comum dizermos que somos filhos e filhas de Deus.Não existe base no evangelho que justifique a inferioridade ou a superioridade entre marido e mulher. Acham que Deus, nosso Pai Eterno, ama menos as Suas filhas do que os Seus filhos? Nenhum homem pode
menosprezar ou maltratar sua esposa, que é uma filha de Deus, sem ofender
seu Pai Celestial. Sinto-me ofendido pela falsa declaração de que o único destino da mulher SUD é ficar confinada ao lar e estar sempre grávida. É uma frase de efeito, mas é
falsa. Evidentemente acreditamos que devemos ter filhos. O Senhor ordenou-nos
a multiplicar-nos e encher a Terra para que tenhamos alegria em nossa posteridade, e não
há maior alegria do que a proporcionada por filhos felizes numa boa família. Mas Ele não determinou o número de filhos, tampouco o fez a Igreja. Isso é um assunto sagrado entre o casal e o Senhor.”
Larissa,em 1984 o Pres. Hincley disse isso, e se até hoje pouco mudou…precisamos melhorar e muito. A letra mata o espírito vivifica. Cada um de nós forma o que chamamos de Igreja, no que estamos nos tornando ? O que nos define?
Bons Estudos.
Abraços, Marcos Lázaro – Pres. Rapazes da Ala Bandeirantes.
email: marcoslz83@hotmail.com
*encaminha um email em branco para o meu, que retorno com o arquivo contendo o Manual – Casamento Eterno, para estudar as páginas 127 á 130.
Imensamente grata por aceitar meu convite lendo o texto, obrigada pela dica de leitura. Abraços irmão Marcos.
Irmão Marcos, como sou grata ao Pai Celestual quando vejo tão sabias palavras em um site como esse! Posso sentir o amor que você tem por mosso Pai Celestial e Jesus Cristo nosso redentor!
Seu comentário é de uma demonstração de amor pelo próximo tão grande e reflete o verdadeiro evangelho de Cristo. Só fico triste que parece que foi pouco lido pelas pessoas que comentaram ou pouco compreendido. Que o Pai Celestial continue te inspirando e dando força para levantar a Bandeira em devesa da verdade e retidão!
Amei ler o teu texto, Larissa. Quanta maturidade, sensibilidade e coragem, parabéns! Não canso de elogiar os textos dos meninos, mas ler o teu foi ainda mais prazeroso. Concordo com tudo, tenho a mesma percepção, mas a sensação de impotência. Esse é o começo para uma mudança, mesmo que lenta. Peço que continue compartilhando as tuas idéias aqui e não te deixa abalar por comentários negativos, medianos e sem noção. Tenho certeza que está muito acima disso. Aproveito para acrescentar que tenho formação, trabalho fora e amo o que faço, mas meu sonho era ter a minha família e cuidar da minha própria casa e ter meus filhinhos, TAMBÉM… kkk. Confesso que me acho meio caretona por isso, mas essa dupla jornada é totalmente possível e digna, ainda mais nos dias atuais. Quero uma filha igual a ti!! rsrsrs… Beijinhos!
Muito Obrigada Graciela .
Quem acredita em mudança sempre se sente impotente, mas acabamos por esquecer que todas elas só ocorrem com o que já estamos fazendo-questionando!
Jamais que você é careta ! Eu quero sim e pretendo ter uma dupla jornada futuramente, com o seu comentário tive mais certeza de que é possível, deve ser uma mãe maravilhosa! Obrigada mais uma vez ! Beijos.
Obrigada Graciela !
Quem acredita na possibilidade de mudança sempre se sente impotente, porém nos esquecemos de que já estamos fazendo o fundamental -questionando !
Jamais que você é careta, aliás ser careta por escolher isso é outro ponto social hahaha, eu quero sim também poder conseguir ter dupla jornada, e seu comentário me deu mais afirmação de que isto é possível ! Você deve ser uma mãe maravilhosa ( assim como a minha :p ) Agradecida mais uma vez 😀