“De pequenino é que se torce o pepino”, já dizia o ditado popular.
Racismo, como toda forma de preconceito, é um dos grandes males da humanidade. Ele pode ter suas raízes em simples ignorância e medo, ou pode crescer de pura maldade e imoralidade. Ele pode ser ensinado e passado de pessoa a pessoa, de geração em geração, ou pode ser instintivo e patológico. Porém, independentemente de onde o racismo nasce, ele é facilmente assimilado por crianças apenas começando a formar suas visões do mundo adulto ao seu redor. Crianças têm, por motivos óbvios, dificuldades para enxergar nuances, preferindo estabelecer padrões claros e sem ambiguidades de certo e errado, de bem e mal, e preto e branco. Quando os adultos em suas vidas ainda arrastam as mesmas dificuldades, esta inabilidade rapidamente favorece a formação de preconceitos.

Toda forma de preconceito é danosa e perigosa. Nenhuma forma, contudo, é mais danosa que aquela dirigida a si mesmo.
Eu não sei como eu nunca havia assistido este vídeo antes, mas ele simplesmente partiu o meu coração. A agência mexicana de “publicidade social” 11.11 Cambio Social filmou uma representação de estudos científicos realizados pelo casal Clark (Mamie e Kenneth) da década de 1940. Os Clarks usavam bonecos de cores diferentes, representando raças e etnias distintas, e observavam as interações de crianças com esses bonecos distintos para estudar a importância de representações raciais e étnicas para elas. Os estudos são clássicos na literatura científica e, mais importantemente, ainda influenciaram históricas decisões judiciais nos EUA durante os anos do movimento de direitos civis e impactaram profundamente as relações raciais, tanto nos EUA, como no mundo — inclusive no mundo mórmon.
Não obstante, nenhuma leitura científica consegue impactar tanto como uma imagem, ou um vídeo. E este é simplesmente inesquecível. Assita:
Os estudos dos Clark avaliaram a percepção de crianças negras em escolas segregadas versus crianças em escolas dessegregadas. Eles demonstraram claros sinais de “racismo internalizado” e “ódio próprio” como se vê no vídeo mexicano acima, porém mais importantemente, demonstraram que as crianças em escolas segregadas demonstraram sinais mais intensos e mais óbvios de “racismo internalizado” e “ódio próprio”.
As crianças nos estudos do casal Clark, e em vários estudos confirmatórios subsequentes (e mesmo na apresentação acima), apresentaram claros sinais de “racismo internalizado” de modo a expressar atitudes racistas e preconceituosas contra seu próprio grupo étnico, aceitando estereótipos negativos de sua própria raça e fantasias positivas sobre outra(s) raça(s). Esta internalização de estereótipos raciais negativos de sua própria etnia lhes força a própria descaracterização racial (buscando enxergar-se como ligado à outra raça que não a sua) e a “ódio próprio”, tipificado por baixa auto-estima, sensação de vergonha e complexo de inferioridade.
Estes conceitos não são exclusivos do preconceito contra minorias raciais e repetem-se frequentemente em instituições de preconceito contra minorias de gênero e de orientações sexuais. Contudo, a subjugação de minorias raciais serve de parâmetro de julgamento e avaliação por tratar-se de uma atitude mais óbvia e tangente, e portanto mais perniciosa e maléfica.
Mormonismo
Esta questão do “ódio próprio” e do “racismo internalizado” é muito relevante e contundente dentro do contexto mórmon. Pessoalmente, eu nasci mórmon e cresci na Igreja SUD e passei por anos de conflito interno sobre questões raciais na minha infância e adolescência.
Eu tive a felicidade de nascer homem e heterossexual, o que reduziu qualquer percepção de preconceito contra mim baseado nestes parâmetros sociais. Contudo, eu cresci numa Igreja que segregava Negros das demais raças e etnias como pertencendo a um status social (e espiritual) inferior, ouvindo inúmeras argumentações racistas (comuns até hoje) e estereotipagens negativas para justificar uma política racial oficial simplesmente injustificável. Apesar de não ser negro, o racismo contra negros não é o único preconceito racial institucionalizado no mormonismo!
O Livro de Mórmon ensina que a cor de pele escura é um sinal claro de maldição divina (ler aqui, aqui, aqui, aqui, e aqui).
E [Deus] fez cair a maldição sobre eles, sim, uma dolorosa maldição, por causa de sua iniqüidade… e como eram brancos, notavelmente formosos e agradáveis, a fim de que não fossem atraentes para meu povo o Senhor Deus fez com que sua pele se tornasse escura.
A raça normativa mórmon é a caucasóide (i.e., branca). Ela compõe não apenas a maioria, como a maioria esmagadora da classe dominate (i.e., a liderança espiritual e administrativa). Há 30 anos atrás, recém-saídos de 13 décadas de segregação racial, era quase que a raça exclusiva na Igreja SUD, sendo o estereótipo popular a do mórmon gringo de aspecto escandinavo. Eu cresci ouvindo estórias do Bispo da minha mãe ameaçando não oficializar o seu casamento com o meu pai (pálido de tão branco, e fã confesso de Hitler de tão racista) caso não pudesse comprovar a ausência de quaisquer antepassados negros. Eu cresci conjecturando, com meu irmão e alguns amigos, o possível significado da minha herança asiática, e como os nossos traços não-caucasóides poderiam significar parte na maldição divina refletida na crença mórmon (defendida pelo então Presidente da Igreja Spencer Kimball) de que “as ilhas do Pacífico” haviam sido colonizadas por Lamanitas.

Grupo Musica da BYU na década de 1970, capitalizando em estereótipos racistas de Ameríndios, Mexicanos, e Polinésios
Esta crença, popular entre as Autoridades Gerais até o final do século XX, tem sua origem na estória de Hagote, como narrada no Livro de Mórmon. Em diversas ocasiões, Spencer Kimball deixou bastante evidente de que “o Senhor os chama de Lamanitas” e que gozavam da mesma herança espiritual e sacerdotal que os Judeus do “povo escolhido”, mas que também sofriam das mesmas maldições que teriam afligido seus antepassados das escrituras — incluindo-se a maldição dos traços genéticos raciais.
Eu me recordo, ainda uma criança na Primária, quando ouvi alguém lendo este discurso por Spencer Kimball:
“Eu tenho visto um impressionante contraste no progresso do povo indígena hoje em dia… O dia dos Lamanitas está chegando. Por anos eles vem se tornando deleitosos, e agora estão ficando brancos e deleitosos, como prometido. Nesta foto de 20 missionários Lamanitas, 15 dos 20 eram tão brancos quanto os Anglos; 5 eram mais escuros, mas igualmente deleitosos. As crianças adotadas em lares de Utah são geralmente mais claras que seus irmãos e irmãs nas reservas indígenas. Em uma reunião, um pai e mãe estavam presentes com sua filha de 16 anos, e a jovem moça membro da Igreja — de 16 anos — sentada entre os pais escuros, e era evidente que ela já tinha tons mais claros que seus pais — na mesma reserva, na mesma casa, exposta ao mesmo sol e vento e clima. Havia um médico numa cidade de Utah que por 2 anos alojou um jovem índio em sua casa que testemunhou que o rapaz já estava vários tons mais claro que seu irmão recém-chegado da reserva ao programa de adoção. Estes jovens membros da Igreja estão mudando para brancos e deleitosos. Um jovem élder jocosamente disse que ele e seu companheiro estavam doando sangue regularmente no hospital com a esperança de acelerar o processo.” — Spencer Kimball (Conferência Geral Outubro 1960, ênfases nossas)
Eu imagino que a pessoa lendo este discurso acreditava que a mensagem principal nele era de que Deus sempre abençoa Seu povo, assim como estava abençoando os Lamanitas (i.e., os ameríndios). Eu, porém, internalizei que a mensagem principal era que Deus amava os brancos e castigava os iníquos com peles não brancas. Pessoalmente, me tardou preciosos anos (décadas) para assumir a minha herança genética asiática. Como fenotipicamente não aparento pertencer a nenhuma das duas raças com qualquer semblança de clareza, sempre me foi mais fácil me assumir como “branco”, sempre me foi mais razoável me identificar com os personagens históricos (e fictícios) “brancos” do que os “asiáticos”. E isto apesar de ter forte laços familiares com meus parentes japoneses e não com os meus parentes luso-brasileiros.
Crescendo na Igreja, eu certamente incorporei um certo grau de”ódio próprio” por causa de minha raça asiática e aceitei o “racismo internalizado” que me havia sido imposto culturalmente. Apenas uma compreensão madura e consciente deste legado cultural me forneceu a oportunidade de desvencilhar-me deste nefasto ciclo vicioso.
Recentemente, num discurso para as comemorações do Dia dos Pioneiros de 2010, o então Historiador Geral da Igreja Marlin K. Jensen (Primeiro Quórum dos Setenta) admitiu o problema de racismo contra Ameríndios, confessando que “…[eles] frequentemente se depara[m] com preconceito e intolerância – mesmo dentro da Igreja.”

“…[Ameríndios] frequentemente se depara[m] com preconceito e intolerância – mesmo dentro da Igreja.” — Marlin K. Jensen
Infelizmente, isto não é a realidade, como o próprio Jensen, uma Autoridade Geral com credenciais inquestionáveis, admite. Os textos racistas permanecem no cânone oficial da Igreja. As Autoridades Gerais da Igreja não se distanciam claramente das interpretações racistas das obras padrões e se recusam a alegorizar ou contemporizar narrativas que instigam o preconceito e a intolerância (sem falar na ridícula incompatibilidade científica). Esta covardia moral de enfrentar, aberta e honestamente, os erros do passado apenas incentivam o racismo velado na cultura popular.
Consideremos a questão do racismo contra negros. Por mais de um século a Igreja SUD institucionalizou abertamente seu racismo contra negro. Em 1978 esta prática de segregação racial foi suspendida, mas a imoralidade de mantê-la por 13 décadas nunca foi abordada ou discutida. No ano passado, a Igreja publicou um ensaio que serviria de reflexão sobre esta mancha ética na história da Igreja que, por sua natureza superficial, tímida e semi-escondida, mais aparenta uma pirueta de relações públicas do que uma discussão séria e coletiva. Tão escondida, diga-se, que uma busca pela internet mais rapidamente encontra estas citações do profetas mórmons do passado sobre negros do que o ensaio em questão:
Brigham Young:
“Veja que algumas classes da família humana são negras, rudes, feias, desagradáveis e de hábitos ruins, selvagens, e aparentemente desprovidos de quase todas as bençãos da inteligência que é doada à humanidade…. o Senhor colocou a marca em Caim, que é o nariz achatado e a pele negra. Rastreie a humanidade até o Dilúvio, e então outra maldição foi imposta à mesma raça — que eles seriam ‘servo dos servos’; e assim serão até que a maldição lhes seja removida.” — Brigham Young (Journal of Discourses 7:290)
John Taylor:
“E depois do Dilúvio sabemos que a maldição pronunciada sobre Caim continuou-se através da esposa de Cão, pois este casou-se com uma mulher daquela linhagem. E por que passou-se a maldição adiante depois do Dilúvio? Porque era necessário que o Diabo tivese um representante na Terra, assim como Deus.” — John Taylor (Journal of Discourses 22:304)
B.H. Roberts:
“Que o Negro é obviamente inferior ao Branco está provado tanto craniologicamente como por 6000 anos de experimentação planetária.” — B. H. Roberts (Manual dos Setenta 1:233)
Como cresce, hoje, um jovem negro na Igreja SUD lendo os ensinamentos racistas nas obras padrões contra sua própria raça e contra ameríndios? Angustiado pela crescente dissonância cognitiva alimentada pelo racismo internalizado, este jovem busca respostas na literatura de sua fé, apenas para encontrar estes comentários racistas de seus profetas venerados, e no site oficial da Igreja apenas um curto ensaio anônimo superficial e vazio de significado (se, por acaso, o achar). Como não desenvolver ódio próprio, lutando com malabarismos internos entre manter sua fé e aceitar sua identidade racial?
Negros e ameríndios não são as únicas classes dentro do mormonismo a sofrer com o preconceito e a marginalização coletiva (e institucional). Mulheres e homossexuais passam por processos de conflitos internos e ostracismo social muito similares. Estas sofrem com o mesmo mecanismo psicológico de ódio próprio e preconceito internalizado, imposto nelas pela pressão social e religiosa. O problema é tão intenso que taxas de depressão entre mulheres e suicídios entre jovens (especialmente homossexuais) em Utah são as mais altas nos EUA.
Não obstante, o problema racial é muito mais óbvio por ser mais explícito na literatura e na prática social, além de ser mais condenada (e menos aceita) pela sociedade em geral. A raíz destes problemas é a mesma, e possívelmente suas soluções também serão muito parecidas. O mesmo preconceito e intolerância que incentiva o racismo, incita a homofobia e estimula a misoginia. Infelizmente, há um longo caminho ainda para se corrigir e superar os erros do racismo no mormonismo, que dirá dos demais.

3 irmãos Sioux saindo para servir missão SUD. Quem acha que eles ficarão brancos se forem mais fiéis?

Quem acha que esse jovem missionário foi “menos valente” na vida pré-mortal? Ou que ele herdou a “maldição de Caim”?

Quem acha que essa jovem missionária nunca poderia exercer liderança na Igreja?
Acredito sim que isso ainda existe dentro da igreja sou negra….tbem e sinto que tem muitos rapazes de famílias brancas que não se misturam triste. Isso me entristece. É a única coisa dentro da igreja que me incomoda e muito !
Como mormon ha 38 anos, digo que tenho profundo respeito e amizade com pessoas negras, assim como as pessoas brancas e sei que a igreja sempre ensinou isto, de que somos iguais perante ele. Na faculdade tinha amigas negras, simples, inteligentes, amigas, alma pura e amizade sincera. Na igreja da mesma forma, como de pessoas que não membros da igreja, amo cada uma delas sem distinção.
A cada dia que passa tenho mais nojo dessa igreja ,sendo eu negra,li em doutrinas de salvação que continua a haver desvantagens contras os negros na mortalidade e não há revelação nenhuma dizendo que os escritos desse livre mudaram ou são mentira,continua até hoje mesmo que disfarçadamente,por isso não querem que a gente leia estes livros,eles não se garantem em suas doutrinas (falsas)…..
Palavras ditas por autoridades da igreja, somente podem ser consideradas doutrinas, quando todos os Apóstolos concordam ou seja, se não concordarem não é doutrina. Muito se tem dito sobre a questão dos negros na igreja, que só começaram a receber o sacerdócio em 1978, mas isso não é verdade. Quando Utah não fazia parte integralmente dos Estados Unidos, muitos negros se filiavam a igreja e donos de escravos eram incentivados pelo Profeta Joseph Smith a dar a liberdade para eles. Negros recebiam o sacerdócio de Melquisedeque na época de Joseph Smith e posso dizer que Joseph Smith era um homem de muita compreensão. Muitas pessoas esquecem ou ignoram que os Profetas e lideres da igreja são homens e como homens são imperfeitos é claro que sendo profetas ou lideres eles são mais cobrados e possuem mais responsabilidades. O que se vê em muitos casos são opiniões ( não é atoa que se diz e incentiva os membros a estudarem as escrituras, a saberem por si mesmo ou em outras palavras a buscarem conhecimento/ testemunho próprio e não se apoiarem nos testemunhos dos outros ou esperarem sentados pelas respostas. Por isso muita gente se afasta ou se torna digamos que ” anti-mórmons” e começam a falar besteiras. ´
Marce,
1) Joseph Smith nunca foi pra Utah. Ele morreu em 1844. Os primeiros Mórmons chegaram a Utah em 1847.
2) Entre os primeiros Mórmons que chegaram em Utah em 1847, 3 eram escravos Negros.
3) Em 1852, Brigham Young ordenou a legislatura de Utah a legalizar a escravidão Negra. No mesmo ato, anunciou a proibição ao Sacerdócio.
4) Quando “Utah não fazia parte integralmente dos Estados Unidos”, não havia Mórmons lá. Os EUA roubaram Utah do México durante a (injustificável) invasão norte-americana de 1846-1847. Inclusive, Brigham Young implorou ao governo federal para poder ajudar nessa invasão em troca de dinheiro e autorização para a migração para Utah.
5) Palavras “ditas por autoridades da igreja” são “consideradas doutrinas” apenas “quando todos os [15] Apóstolos concordam” e a Igreja inteira aceita em Conferência Geral. Se a Igreja, em Conferência Geral, rejeitar uma ideia, mesmo que os 15 Apóstolos a aceitem, ela não pode ser considerada doutrinária.
Colocação perfeita e esclarecedora 😀
Excetuando-se os 5 erros crassos que ele cometeu no seu raciocínio que nós apontamos acima, você quer dizer, não é?
Magnólia,Não sei onde vistes doutrinas falsas, se seguimos a Deus e seu filho Jesus Cristo e a igreja nunca desavantajou ninguém por ser de cor negra. Cuidado aos julgamentos. O negro tem as mesmas vantagens e direitos perante o senhor, desde que sejam fiéis, obedientes, persevere nos mandamentos sem exceção, Quando realmente leres os livros vc mesma se desmistificará. e verás que não obrigamos ninguém a le-los. Mas sabe-se que é pelo conhecimento das coisas que teremos o discernimento sim, agora de julgar, mas antes disto, fica–se apenas nas especulações e disse me disse de muitos que tb não leem, não investigam, não jejuam, não oram a este respeito, como vão saber?