Mormonismo e Migrações

A Religião Como Rede de Segurança dos Processos Migratórios Transatlânticos

Texto de Eliott Mourier¹

Passaporte_MercosulNo contexto atual que muitos qualificam como sendo um “retorno do religioso” ou “dessecularização”, os pesquisadores em ciências sociais já não podem ignorar a dimensão religiosa chave em nossas sociedades modernas. Longe de desaparecer, o religioso voltou a ter um lugar chave na hierarquia dos fatores explicativos do fato social observável em nossas sociedades.

Essa constatação se verifica particularmente nos últimos trabalhos sobre migrações  transnacionais. Antigamente, a maioria desses focava quase que exclusivamente nos fatores econômicos e sociais do fenômeno migratório. Porém, constatamos que nos últimos anos, o fator religioso, mesmo submetido a distintos processos de globalização e pluralização, tem uma importância crescente no estudo dos processos migratórios transnacionais (Hagan & Ebaugh 2003, Peggy Levitt 2003).

De forma recíproca, um número crescente de organizações religiosas transnacionais têm se interessado pelos fenômenos migratórios, incluindo-os em seus respectivos discursos e programas (Odgers & Ruiz 2009).

Assim, por exemplo, o Papa Bento XVI declarava em 25 de dezembro de 2010 que “frente ao êxodo dos que migram de suas terras e que são empurrados pela fome, pela intolerância ou pela degradação do meio ambiente, a Igreja é uma presença que promove a acolhida”.

Além desse tipo de manifestação profética, muitas denominações participam de modo bastante concreto nas diferentes etapas da migração de seus fieis. Tais etapas são identificadas como: (1) a preparação da viagem; (2) viagem; (3) chegada; (4) instalação; (5) desenvolvimento de redes transnacionais. Às vezes também se inclui o retorno ao país de origem.

Cada fase do processo tem suas provações, dificuldades e choques econômicos, culturais, linguísticos, sociais, climáticos e assim por diante. Choques e evidências que dificultam os processos de migração, quando não os encerram. No entanto, formulamos a seguinte hipótese: a de que para muitos migrantes de regiões com forte religiosidade, como a América Latina, a dimensão religiosa pode reduzir o impacto desses choques. Chamaremos essa função de amortizador ou rede de segurança do fator religioso.

Para demonstrar a validade de nossa hipótese, e no contexto desta conferência, tomamos o exemplo de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e alguns membros de origem latino-americana, que migraram para a Europa, principalmente França e Espanha. Falarei a seguir um pouco mais dessa amostra analítica.

Não creio que seja necessário, como sempre tenho que fazer na França, apresentar a Igreja. Mas quero mencionar ou relembrar alguns dados que serão úteis ao longo da apresentação: em 2008 a Igreja de JCSUD contava com 13,5 mihões de fieis, sendo aproximadamente 5,2 milhões na América Latina, contra somente 650.000 na Europa. O fenômeno de internacionalização da Igreja se comprova com o fato de que 1997 há mais membros da Igreja fora dos EUA do que naquele país.

A América Latina tem sido, desde a segunda metade do século XX, um terreno privilegiado da expansão internacional do mormonismo. O número de santos dos últimos dias há sido multiplicado por 10 desde o final dos anos 70. Chile, Uruguai (onde a Igreja representa respectivamente 3.3 e 2.5% da população total), mas especialmente México e Brasil, onde se calcula que haja mais de 1 milhão de membros, com taxa de crescimento anual de cerca de 4%, são verdadeiros símbolos desse dinamismo. O Brasil representava em 2008 quase 8% dos Santos dos Últimos Dias no mundo.

Na Europa, o crescimento do mormonismo permanece, por várias razões que não podemos detalhar aqui, muito mais modesto. França e Itália, onde viviam em 2008 respectivamente 35.000 e 23.000 mórmons, têm taxas de crescimento bastante débeis (cerca de 1,5%). Única exceção é a Espanha, que conta com 44.000 fiéis e que tem apresentado nestes últimos anos um crescimento muito mais importante com 3,8% entre 2006-2008.

Em sua tese de doutorado sobre mormonismo na França, Cristian Euvrard, graças a uma pesquisa sociológica conduzida em 2007 com 1431 membros da Igreja, constatou que 22% dos mórmons da França se declaravam de origem estrangeira. Outro estudo de Jarvis em 1990 estimava essa proporção em 32%. Ambos nos informam sobre a proporção importante de “migrantes” no crescimento deste movimento religioso na Europa. Os conversos na França em sua maioria vêm principalmente da África e da Ásia, mas também de forma notável da América Latina (Peru, Colômbia e Brasil especialmente). Isso se verifica ainda mais na Espanha onde se estima que entre 70 e 80% dos novos conversos ao mormonismo e que 50% dos membros ativos são de origem latino-americana. Números que se verificam em uma pesquisa conduzida pela Igreja em 2007 na qual dos 44.000 membros espanhóis, 402, ou seja, 1% eram brasileiros.

Mas com a metade do membros ativos latino-americanos na Espanha, não se pode negar que esses migrantes latino-americanos formam uma força decisiva na vitalidade e crescimento do mormonismo na Europa.

1. Parte do trabalho apresentado na Conferência Brasileiira de Estudos Mórmons de 2011. Eliott Mourier é Doutor em Ciência Política no Instituto de Altos Estudos da América Latina (Paris III Sorbonne Nouvelle).

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