A mudança de língua na missão brasileira, 1939

Depois da abertura da Missão Sul-Americana em 1925 pelo apóstolo Melvin J. Ballard, o primeiro presidente da missão chamado foi um converso alemão, Reinhold Stoof, que serviu de 1928 até 1935. Stoof acreditava que ele havia sido chamado especificamente para alcançar os imigrantes que falavam alemão na América do Sul, a maioria dos quais vivam na Argentina e no Brasil. Na Argentina, Stoof descobriu que a população alemã estava muita dispersa, tornando a obra missionária em alemão ineficaz; já no Brasil, Stoof encontrou cidades alemãs, colônias de imigrantes que criaram comunidades inteiras que falavam alemão em suas vidas diárias. Por isso, os missionários enviados ao Brasil desde o início da obra missionária no país falavam alemão.

Igreja mórmon. Mormonismo no Brasil. Mórmons. Santa Catarina. Alemão.

O sucessor do Stoof, Rulon S. Howells, também falava alemão e não falava português. Mas no final do seu serviço como presidente da missão, em 1938, Howells decidiu que a missão teria de mudar a língua para português. Dois fatores influenciaram essa decisão. Primeiro, Howells percebeu que os missionários tinham pouco sucesso entre os falantes de alemão, os quais, como o estudioso da história da Igreja no Brasil Mark Grover sugere, estavam amarrados culturalmente à Igreja Luterana. Converter-se para o mormonismo era, portanto, semelhante a negar sua cultura, um passo que os alemães no Brasil não estavam geralmente pronto para assumir.

O segundo fator foi a atitude do governo brasileiro relativa a grupos que não utilizavam português. Depois da eleição de Getúlio Vargas como presidente do Brasil em 1930, seu governo populista e nacionalista tornou-se cada vez mais preocupado com “a população imigrante cuja cultura não era brasileira, cuja língua não era Português, e cuja lealdade política era suspeita.” Essas preocupações tinham alguma base na realidade, pois Adolf Hitler tinha apoio significativo entre a população alemã no Brasil, tanto que o antecessor de Howells, Reinhold Stoof, se recusou a permitir que seus filhos assistissem às escolas alemãs, porque “quase todas as escolas alemãs… curvaram-se à suástica.” Até os missionários mórmons sentiram essa atitude. Por exemplo, quando o senador estadunidense William H. King, mórmon e representante de Utah, criticou Hitler num discurso no Senado, os residentes alemães do Brasil criticaram os missionários e começaram a perceber a Igreja como oposta aos alemães.

Como resultado dessas preocupações, o governo Vargas começou a colocar restrições nas influências estrangeiras da população imigrante, começando em 1938 com o fechamento das escolas alemãs e a proibição do uso de qualquer outra língua que não o português em qualquer reunião pública. E essa política teve um efeito muito importante tanto nas comunidades alemãs no Brasil como também na pequeníssima Igreja SUD no país, com seus 200 e poucos membros.

Quando Howells começou o processo de tradução do Livro de Mórmon um ano antes dessas ações governamentais, suponho que ele estava ciente do desconforto do governo e poderia ter previsto a possibilidade de ação do mesmo. Seja qual for a motivação, Howells contatou um americano, membro da Igreja SUD e ex-missionário que trabalhava para a embaixada dos EUA no Rio de Janeiro, Daniel Schup. Schup tinha-se casado com uma professora brasileira, Agda Soares, e Howells pensou que essa combinação era perfeita para o trabalho. O casal aceitou o desafio de traduzir o Livro de Mórmon para português e começou a trabalhar à noite na tradução. Enquanto eles trabalhavam, e sem dizer nada a Schup no início, Howells também pediu a um amigo americano em São Paulo, William Lane, que fizesse uma tradução paralela, porque Howells temia que as diferenças dialetais entre São Paulo e Rio de Janeiro pudesse influenciar a qualidade da tradução.

A decisão de traduzir o Livro de Mórmon em Português não foi prematura. No outono de 1938, na altura da chegada do novo presidente da missão, John Bowers, o governo brasileiro começou a reprimir o uso da língua alemã nas reuniões públicas. Em pouco tempo, Bowers se viu forçado a encerrar a missão, enquanto os missionários aprendiam o Português e os 4 missionários que já falavam a língua traduziram uma quantidade mínima de material para a língua oficial. A história de Joseph Smith foi rapidamente disponibilizada em português, juntamente com o Livro de Mórmon no início de 1939. Outros folhetos, hinários e manuais seguiram rapidamente essas traduções.

Infelizmente, a mudança foi algo devastador para os membros de língua alemã, que muitas vezes não podiam entender o que era dito nas reuniões. Muitos deles culparam Bowers pela mudança, querendo que ele ignorasse a lei como o presidente Howells havia feito durante seu mandato. Embora Bowers se esforçasse para encontrar uma posição de acordo que daria os membros alemães tempo para aprender a língua, suas tentativas não satisfizeram a ninguém.

O golpe final para os membros que falavam alemão no Brasil foi feito pelo sucessor de Bowers, William Seegmiller. No meio da Segunda Guerra Mundial, submarinos alemães afundaram três navios brasileiros, dando origem a tumultos contra os alemães no Brasil. Logo após Seegmiller, querendo distanciar a Igreja da língua alemã, mandou queimar a literatura mórmon em alemão restante no país.

Acredita-se que poucos membros alemães no Brasil ficaram fieis durante esse tempo. Com a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, o número de missionários servindo no Brasil diminuiu até que os últimos saíssem do país em 1943. Somente depois da guerra a obra missionária foi recomeçada, a partir praticamente do nada. Mas dessa vez, a língua era o português.

[Fonte: Grover, Mark L., Mormonism in Brazil: Religion and Dependency in Latin America. Bloomington, Indiana, Indiana University Ph.D. Thesis, 1985. Disponível através de University Microfilms (UMI).]


 

Conheça  A Gaivota, revista oficial da Missão Brasileira da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, lançada em 1948.

Leia a entrevista de LeGrand Richards sobre os negros brasileiros na Igreja SUD.

Assista ao vídeo Estudos Mórmons no Brasil: Esboço de um Guia.

2 comentários sobre “A mudança de língua na missão brasileira, 1939

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