“Desde antigamente (…) bons e grandes homens, não tendo o Sacerdócio, mas possuindo profundidade de pensamento, grande sabedoria, e um desejo de elevar seus semelhantes, têm sido enviados pelo Todo-Poderoso entre as nações, para dá-los, não a plenitude do Evangelho, mas uma porção da verdade, para que possam ser capazes de recebê-lo e sabiamente utilizá-lo”.
Orson F. Whitney, citado por Howard W. Hunter. [1]
“Os grandes líderes religiosos do mundo como Maomé, Confúcio e os Reformadores, assim como os filósofos incluindo Sócrates, Platão e outros, receberam uma porção da luz de Deus. Princípios morais foram dados a eles por Deus para iluminar nações inteiras e trazê-las a um nível maior de entendimento como indivíduos. (…) Nós cremos que Deus deu e dará a todas as pessoas conhecimento suficiente para ajudá-los em seus próprios caminhos a eterna salvação”.
James E. Faust. [2]
“A filosofia é um tipo de questionamento sobre o ‘ser mesmo’ das coisas, sobre o valor e o sentido da vida e da ação, sobre a própria capacidade de conhecer, sobre se é possível ou não atingir-se a verdade e o que seria a verdade. É o pensamento, aventurando-se nas águas do próprio pensamento”. [3]
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Considerações iniciais
Baseando-me nas afirmações e no conceito de filosofia apresentados, gostaria de tentar mostrar que podem existir algumas relações indiretas entre o pensamento de um dos principais fundadores do existencialismo [4] e elementos da fé e cultura mórmon. Com essa experiência, pretendo demonstrar que a filosofia, diferentemente do que alguns acreditam, pode ter lugar dentro do pensamento dos Santos dos Últimos Dias, auxiliando de alguma forma o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos santos, sem necessariamente ter a intenção de alterar ou desqualificar qualquer doutrina pregada por A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

O filósofo alemão Martin Heidegger propôs que a questão filosófica mais importante era: “Por que há alguma coisa ao invés de não haver nada?”.
O objetivo é apresentar um resumo do pensamento de Sören Aabye Kierkegaard. Em alguns casos farei relações simples entre este e elementos da cultura mórmon, mas no geral as conclusões finais ficam por conta de cada leitor, que pode determinar se o conteúdo apresentado é válido ou não, útil ou não, interessante ou não.
O principal estímulo para criar esse artigo foi uma afirmação de um irmão da igreja com relação à possibilidade de ocorrer um afastamento dos membros que se envolvem com o estudo da filosofia. Segundo ele, esses indivíduos correm o risco de negar o evangelho e perder o testemunho que possuem, sendo confundidos pelas ideias desses “filósofos malucos”.
Posições extremas como essa são perigosas, é sempre um risco quando existe defesa explícita de pontos de vista que menosprezam opiniões [5] alheias. Quando um dá o primeiro passo em direção à ignorância, geralmente o outro acabará cedendo, mais cedo ou mais tarde, se não possuir certo tato para lidar com a questão. No meu caso, aquele irmão não estava atacando somente a filosofia, eu havia deixado bem claro que era meu objetivo graduar-me em filosofia e, portanto, a afirmação dele caracterizava um ataque direto contra algo muito particular e importante para mim. Logicamente que existe boa e má filosofia. A consciência de cada indivíduo pode auxiliá-lo a manter-se coerente com suas próprias crenças em qualquer situação. O ensinamento de Paulo aos Tessalonicenses pode ser aplicado aqui: “Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o bem. Abstende-vos de toda a aparência do mal” (I Tess. 5:19–22; ênfase acrescentada).
Os próximos parágrafos merecem uma leitura cuidadosa, detalhada e até mesmo uma busca por mais informações em livros, revistas especializadas e na internet para que o conteúdo possa ser compreendido e conclusões “definitivas” possam ser feitas.
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Uma breve introdução ao pensamento de Sören Aabye Kierkegaard [6]
Sören Aabye Kierkegaard foi um filósofo e pensador religioso dinamarquês que se preocupava com a natureza da fé religiosa. Interessava-se principalmente em compreender e definir o que significa ser um “verdadeiro cristão”. Todo o pensamento de Kierkegaard é desenvolvido a partir do seu íntimo. Com uma vida conturbada, elaborou um pensamento baseado muito mais em suas experiências pessoais do que em sistemas filosóficos anteriores, apesar de ter sido fortemente influenciado por Sócrates.

“O povo pede o poder da palavra para compensar o poder de livre pensamento a que ele foge”
Sören Aabye Kierkegaard.
Possuía um pensamento reflexivo muito abrangente, devido ao seu nível cultural incomum e seus complexos sentimentais profundos. Através de si e de seus problemas buscava encontrar uma explicação para sua existência.
Kierkegaard identificou três estágios existenciais: Estético, Moral e Religioso. Para ele, cada indivíduo estaria vivendo em um desses estágios.
O Estágio Estético engloba aqueles que estão em buscam de saciar seus desejos, sejam eles sentimentais, materiais, profissionais, econômicos, sexuais, entre outros. Kierkegaard concluiu que neste estágio de vida os objetivos não são claros e se perdem por não ser possível alcançar satisfação. Então, quanto mais experiências forem vivenciadas nesse estágio, mais frustrado e infeliz o individuo tende a se tornar.
Os que vivem o Estágio Moral, ou Ético, procuram uma vida coerente governada por normas morais. Para ele, o casamento baseado em princípios cristãos era a única forma de se atingir o mais elevado estágio de vida ética. Contudo, Kierkegaard acabou passando por uma experiência amorosa traumática, que o levou a concluir que as mulheres situam-se naturalmente no estágio estético, onde, inclusive, elas seriam objeto de desejo em última instância. O homem, então, teria o dever de viver princípios morais elevados, pois essa seria a única forma de desviar a fragilidade feminina dos caminhos de oscilação e perigo que poderiam induzi-la à sua natureza estética e, desta forma, comprometer a relação conjugal. Assim sendo, no pensamento de Kierkegaard, somente esse esforço por parte do homem aliado a ajuda de Deus, pode salvar a vida conjugal e consequentemente, a forma de vida moral.
O Estágio Religioso seria o mais elevado dos três. Para Kierkegaard, o religioso é um estágio consequente, pois é a partir da consciência da desordem dos dois estágios inferiores que se tem a possibilidade de encontrar a realidade superior da vida religiosa. Para ele, o estágio ético fica ofuscado diante das exigências superiores do estágio religioso. Não existe valor em viver apenas pelo desejo ou apenas pela moral, sendo que a existência só encontra um significado consistente quando ocorre “um salto de fé” para uma vida mais coerente com a própria existência.
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A verdadeira fé envolve a aceitação do que é absurdo
Diferentemente de John A. Widtsoe, que acreditava ser possível a existência de uma teologia racional [7], Kierkegaard afirmava que a fé religiosa é irracional. Argumentava que as crenças religiosas não podem ser sustentadas por argumentos racionais, porque a verdadeira fé, a verdadeira crença em Deus, envolve a aceitação do que é absurdo, não somente uma aceitação, mas até mesmo um comprometimento com o absurdo. “Então vive; vive inteiramente cheio da ideia, e arrisca sua vida por ela; e sua vida é a prova de que crê”.
Um dos exemplos amplamente utilizados por ele para ilustrar essa ideia foi Gênesis 22, em que Deus, sem nenhum motivo aparente, ordena a Abraão que mate seu único filho, Isaque. Kierkegaard considerava essa história tão fascinante e importante que escreveu um livro inteiro sobre ela [8]. Insistia na ideia de que Deus deseja que, como prova de nossa fé, mantenhamos crenças e realizemos ações que são ridículas e imorais quando analisadas pelos padrões racionais. Por ter obedecido sem questionar às ordens abomináveis de Deus, Abraão era o ideal religioso de Kierkegaard, o que ele chamava de “o cavaleiro da fé”, o homem que está disposto a fazer tudo que for da vontade de Deus.
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A verdade é subjetividade
Em Pós-escritos Não Científicos Conclusivos, Kierkegaard afirmava que ninguém pode desenvolver fé através de um exame objetivo das provas [9], mas apenas por uma escolha subjetiva, “um salto de fé”. Defendia que uma quantidade de provas objetivas sustentando uma crença não a torna genuína ou verdadeira e considerava que aqueles que oferecem provas racionais para sua religião tinham “traído a religião com um beijo de Judas” – nesse sentido, Hugh Nibley seria um traidor da fé mórmon. Por outro lado, Kierkegaard dizia que a verdadeira crença é medida pela sinceridade e paixão do crente, sem preocupar-se em oferecer provas daquilo em que acredita – essa descrição recorda a posição tomada por M. Russell Ballard [10].
Segundo Kierkegaard, não precisa haver provas para a pessoa crer e viver a fé que decidiu abraçar. A fé é impossível se houver provas e certezas. Sem riscos não há fé, é uma impossibilidade. Portanto, a fé e a razão são opostas mutuamente exclusivas. Na presença da fé, se aceita o absurdo, e na aceitação do absurdo foge-se à razão.
Assim, Kierkegaard concluiu que na religião “a verdade é subjetividade”, porque depende somente da sinceridade daquele que acredita e não de provas objetivas.
Dirigiu críticas pesadas a todas as tentativas de tornar a religião racional, pois sustentava que Deus quer que os verdadeiros crentes simplesmente obedeçam e não que argumentem com Ele [11].
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Apostasia da Igreja Cristã?
Em sua escolha por uma vida religiosa solitária [12], Kierkegaard foi conduzido a uma crise com os oficiais da Igreja Luterana Evangélica da Dinamarca [13]. O filósofo compreendeu que as influências de certas escolas filosóficas haviam promovido uma descristianização do mundo. Convenceu-se de que muitas pessoas que eram oficialmente cristãs e se consideravam cristãs não possuíam a fé incondicional exigida pelo cristianismo, inclusive atacando frequentemente a Igreja Luterana, afirmando que, entre seus membros, não havia mais nenhum verdadeiro cristão.
Kierkegaard não aceitava a aproximação da Igreja com o romantismo de Hegel [14]. Criticava que era um erro imbecil [15], em âmbito religioso, considerar a filosofia cristã original como apenas um momento histórico que poderia ser ultrapassado por pensamentos e concepções filosóficas de pensadores modernos. Sua luta solitária contra o luteranismo oficial, contra pastores e bispos oficiais preocupados com suas carreiras eclesiásticas, fez aumentar seu sofrimento, tornando-o alvo de chacotas populares, o que aumentava ainda mais sua solidão.
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Considerações finais
Retomemos, agora, minha primeira citação: “(…) bons e grandes homens, não tendo o Sacerdócio, mas possuindo profundidade de pensamento, grande sabedoria, e um desejo de elevar seus semelhantes, têm sido enviados pelo Todo-Poderoso entre as nações, para dá-los, não a plenitude do Evangelho, mas uma porção da verdade, para que possam ser capazes de recebê-lo e sabiamente utilizá-lo” (Orson F. Whitney, citado por Howard W. Hunter; ênfase acrescentada).
Vejamos, então, uma nova citação: “Outra coisa que nos ajuda a ouvir a voz do Senhor ao escutarmos os profetas e apóstolos é prestar uma atenção toda especial quando eles citam outros profetas e apóstolos. O Senhor ensinou que estabelecerá Sua palavra pela boca de duas ou três testemunhas” (Élder Randall K. Bennett. “Seguir o Profeta.” A Liahona, Março de 2012, p. 45; ênfase acrescentada).
As palavras estabelecidas pela boca de Orson F. Whitney, Howard W. Hunter e James E. Faust dizem que “grandes líderes religiosos do mundo (…), assim como os filósofos”, “não tendo o Sacerdócio”, “receberam uma porção da luz de Deus (…) para iluminar nações inteiras e trazê-las a um nível maior de entendimento como indivíduos”, “para que possam ser capazes de [receber e sabiamente utilizar o Evangelho]”.
Certamente que um desses grandes homens foi Sören Aabye Kierkegaard; dentre seus ensinamentos, podemos destacar dois que nos mostram como utilizar sabiamente o Evangelho de Jesus Cristo, para que as pessoas sejam capazes de recebê-lo:
- Quão inútil é tentar provar a veracidade de uma religião ou buscar torná-la racional, pois ninguém é capaz de desenvolver fé sem que tenha feito uma escolha subjetiva, tenha dado “um salto de fé”.
- A verdadeira religião é aquela que é seguida com amor e sinceridade pelo crente, que é movido e motivado pela fé e não por evidências ou provas objetivas.
Traduzindo para o contexto mórmon:
- Contar às pessoas sobre as mais novas descobertas de evidências da veracidade do Livro de Mórmon ou fazer ligações especulativas entre óvnis, dinossauros, maias, astecas e afins, jamais fará com que elas tenham fé em Jesus Cristo ou venham a participar da Igreja, muito pelo contrário, poderá afastar essas pessoas de você por pensarem que você é um fanático iludido. Tal mudança só será possível se essas pessoas fizerem uma escolha pessoal de buscar um sentido para a existência delas, escolha essa que será responsável por desenvolver sua fé posteriormente, como descrito em Alma 32:26-43.
- Muito mais eficaz é mostrar para as pessoas como o Evangelho é importante e verdadeiro em sua própria vida, através de suas atitudes e do seu exemplo, vivendo princípios de forma clara e sem desculpas.
Quantos membros entusiásticos demonstram desconhecer o valor desses dois princípios tão fundamentais?
Qual a relação entre a fé mórmon e o pensamento filosófico de Kierkegaard? Ele altera e desqualifica as doutrinas pregadas pela Igreja ou as complementa, auxiliando o desenvolvimento e o aperfeiçoamento dos santos?
Quais outras observações valiosas poderiam ser feitas sobre o pensamento de Kierkegaard?
Sinta-se completamente à vontade para tirar qualquer conclusão sobre os assuntos apresentados, acrescentar ideias de outros filósofos que podem complementar nosso estudo ou refutar o que foi demonstrado aqui.
Poderíamos ter utilizado as ideias de filósofos tão diversos quanto John Locke, Jean Jacques Rousseau, Immanuel Kant e Michel Foucault. Grandes pensadores que buscaram contribuir nessa reflexão em busca “do valor e do sentido da vida e da ação”, da “capacidade de conhecer”, de “sobre se é possível ou não atingir-se a verdade e o que seria a verdade”.
“Se houver qualquer coisa virtuosa, amável, de boa fama ou louvável, nós a procuraremos.”
Joseph Smith [16]
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Belo texto, Anderson. Reconheço que talvez eu tenha um preconceito em relação à apologética sud, mas ela geralmente me parece um esforço de convencer os já convencidos. Claro que há diferentes tipos de apologética, com diferentes graus de sinceridade.
O caso de Hugh Nibley é singular, pois na minha opinião ele encarnou também o papel de um profeta – se me permitem usar esse termo fora do contexto hierárquico – chamando a igreja ao arrependimento e denunciando nossa má vontade em buscar conhecimento e revelação.
Muito do preconceito sud com relação à filosofia pode estar baseado – imagino – na ideia da mescla das escrituras com as “filosofias dos homens”. A frase no drama da Queda de Adão e Eva pressupõe que as escrituras estão certas e as filosofias, erradas. No entanto, um dos fundamentos da restauração é justamente a ideia de que as escrituras não nos chegaram intactas, mas que contêm erros. Portanto, assim como nem todas as escrituras são corretas, nem todas as filosofias são erradas.
Abraço!
Ao refletir sobre meu próprio conhecimento em filosofia, após a leitura do artigo e dos comentários, chego à conclusão de que, sem dúvida, o Senhor ilumina aqueles que buscam conhecimento. De fato, embora eu ame poder traçar relações e estudar e divagar sobre muitas dessas questões, o dogmatismo religioso de uma formação SUD tradicional realmente leva minha formação ao encontro dos comentários do Antônio. “Filosofias dos homens, mescladas com escritura” soam como “conhecimento é escritura, o resto é desprezível”, ao menos à mente comum, ou, treinada de forma comum. Ao entrar para a universidade, esse foi meu maior desafio, ou seja, ter vontade de aprofundar-me e correr os riscos necessários de tentar entender os pensadores, ou, ao menos atrever-me a tentar. É aí que me assusto com filósofos como Schopenhauer e Locke, ao meu ver mais radicais, até mesmo Kant ou Foucault, embora consiga encarar Rousseau sem grandes problemas. Em suma, o meu comentário vai de encontro a afirmar que eu temo, enquanto indivíduo, não ser capaz de ter a necessária capacidade de abstração, o necessário treinamento ideológico de mensurar o que deve ser retido (segundo minhas concepções e crenças) e o que deve ser desprezado, levando em consideração minha fé e formação SUD. Nesse medo, acabo fugindo, não sendo capaz de me aprofundar nesses estudos. Daí, deriva meu pensamento de que não adianta sorver de carne quem ainda precisa de leite, e, talvez, seja aí o papel do pregador, do minístro e do instrutor: preparar o alimento até que as massas sejam capazes de absorvê-lo, agindo, porém, dentro de uma ética e sem dogmatismos.
Sinceramente, artigos como este são um modo bastante bacana de deixar os medrosos como eu esperançosos de ser capazes de compreender e ter o desejo de aprofundar-se mais. Meus parabéns, Anderson!
Diego,
Bom saber que meu artigo está sendo útil.
Obrigado pela consideração e um forte abraço!