Qual o Objetivo do Trabalho Missionário na Igreja SUD?

Este texto não é de minha autoria e o publico aqui na íntegra por solicitação.


Pintura de David Lindsley

Pintura de David Lindsley

Olá, caros leitores do site. Estou escrevendo este texto porque acredito que este é um bom lugar para o pensamento livre. Faz anos que eu me questiono sobre algumas práticas missionárias da Igreja e se elas são realmente eficazes ou a quem elas visam atingir realmente. Entretanto, nunca pude comentar nada na Igreja porque seria imediatamente taxado de apóstata por não acreditar em algumas dicas de Pregar Meu Evangelho (PME).

Antes de mais nada, preciso deixar claro que servi como missionário há cinco anos e peguei a fase PME. Já estudava comunicação antes da missão, mas meus estudos mais significativos ocorreram apenas depois que retornei à universidade. Enquanto estudava, percebia que havia falhas na comunicação utilizada pela Igreja em suas abordagens missionárias, fosse pelo trabalho dos élderes e sísteres, fosse em programas como “Mãos que Ajudam”. Hoje não tenho tantos pudores para comentar esse tipo de assunto porque não frequento mais a Igreja. Embora eu duvide de uma série de coisas, eu não tenho ódio pela igreja e, inclusive, me permito indicar alguns amigos aos missionários. Gostaria de contar-lhes algo que aconteceu esta semana para poder ilustrar melhor o ponto em que quero chegar.

Eu levei duas sísteres da nossa área na casa de uma amiga minha de trabalho. Essa amiga não é uma pessoa que se possa chamar de culta. É uma menina simples, com seus problemas familiares, com muitos filhos, pouca instrução, com fé em Deus, mas sem muito estudo de escrituras ou história. Antes de chegarmos à casa dela, eu disse às missionárias que essa amiga provavelmente não era casada e que seria inútil tentar marcar uma data de batismo com ela já na primeira visita. Elas concordaram e disseram que iriam apenas conversar com ela para ver como poderiam trabalhar.

Quando chegamos, essa amiga nos recebeu com um pouco de receio porque já frequenta uma igreja evangélica. As missionárias foram conversando com ela e eu sempre tentando explicar alguma coisa ou outra sobre como funcionava a Igreja (falava sobre a Primária, já que ela tinha filhos, etc). Foi então que eu percebi certo “esforço” das sísteres para usar frases propostas pelo PME. A Sister americana disse: “nossa mensagem é muito grande e não pode ser compreendida de uma única vez”. A outra comentou que a felicidade se concentrava na família, e coisas do tipo.

Para quem não lembra, essas frases são aquelas que o PME sugere para antes de começar cada lição. Na minha época, meu presidente de missão nos mandava que disséssemos essas frases. Aparentemente, alguma “mágica” iria acontecer e as pessoas se sentiriam mais interessadas em nossa mensagem. Tal “mágica” nunca aconteceu e eu penei para encontrar pesquisadores em algumas áreas. Na época eu achava que o meu fracasso era falta de fé no que meu Presidente prometia e achava que eu não tinha fé o suficiente para encontrar aqueles pesquisadores ideais (os eleitos, como chamam). Tinha outros trechos do PME que davam a entender que quando eu tivesse mais fé, então o Senhor confiaria a mim os seus eleitos. Coisa que raramente aconteceu, apesar de eu acreditar indubitavelmente nessas promessas.

Quando retornei à universidade e comecei a estudar comunicação, percebi que a Igreja falha miseravelmente em se comunicar com seu público-alvo. Foi então que eu entendi por que eu batizei pouco na missão. Foi por culpa do meu Presidente de Missão e por sua fé cega em PME.

As sísteres que eu tinha levado na casa dessa amiga estavam totalmente robotizadas. Parecia que elas sentavam na cadeira, apertavam um botão interno na mente e então diziam as mesmas frases de sempre. Eu, quando era missionário, fazia a mesma coisa. Só obtive sucesso quando encontrei pesquisadores que se sentiam interessados em me perguntar sobre o que eu estava falando. Aí então eu me tornava “humano” de novo e, finalmente, conseguia conversar com o pesquisador.

Meu presidente de missão obrigava-nos a fazer práticas das lições. Não sei bem qual era o seu objetivo (queria que aprendêssemos a doutrina, talvez?), mas hoje reconheço o efeito nefasto que isso teve em mim: eu simplesmente me robotizei. Chegava na casa das pessoas e dizia sempre as mesmas frases e esperava que as pessoas reagissem a isso demonstrando interesse. É óbvio que não daria certo, e não deu mesmo. Imagino que as sísteres que estão servindo na minha área também estão sendo obrigadas a praticar lições e assim acabam meio que “decorando um texto”.

Que fique claro que não vejo problema nenhum de dizer algumas das frases introdutórias sugeridas pelo PME, desde que a ocasião justifique. Por exemplo, uma pessoa diz que tem uma doença como um câncer, então o missionário vem falar de profetas e apostasia? E tudo isso acontece porque é forçado a dizer essas coisas. Acredito que o missionário deve se sentir livre para dizer o que achar que deve dizer.

Depois de conversarmos sobre várias coisas do Evangelho, as missionárias deixaram um daqueles livretos das lições com a minha amiga. Era sobre a Restauração. Foi então que me dei conta que aquilo não tem nada a ver com as necessidades da minha amiga. Ela não parecia interessada em saber sobre apostasia e restauração. Ela deveria ouvir sobre outra coisa.

Outro problema desses livretos é a linguagem. O material se preocupa muito mais em ensinar conceitos para as pessoas do que lhes responder perguntas. Olhei para a minha amiga e percebi que ela não teria nenhum interesse em saber a definição do que era uma apostasia ou uma dispensação. Ela não tivera uma educação voltada à curiosidade. Ela era uma pessoa simples, com uma família grande, com problemas de saúde e que se sentia satisfeita na igreja evangélica. Aqueles livretos são apáticos e desinteressantes. Não foram feitos para serem lidos por pessoas comuns. Foram feitos para serem lidos por pessoas inteligentes que já tenham algum conhecimento sobre religiões.

Foi então que eu percebi que o esforço da Igreja quanto à obra missionária está totalmente errado. Os líderes (seja o Profeta ou os Doze) não têm noção de com quem estão falando. Parecem não conhecer as necessidades e limitações das pessoas e sequer se preocupam de escrever um material que envolva mais esse público.

Em Comunicação existe uma regra básica: conheça o seu público-alvo e então converse com ele. Se a Igreja escreve para pessoas inteligentes, e elas são raras no Brasil e no mundo, então é óbvio que teremos pouquíssimos batismos. Mas se fossem escritos para pessoas comuns, talvez estivéssemos nos tornando uma das maiores igrejas do mundo.

Se eu estivesse sendo o missionário ali, e tivesse o conhecimento que tenho hoje sobre comunicação, eu primeiro levaria uma conversa agradável com aquela pessoa. Deixaria ela me contar sobre o seu trabalho, sobre como conheceu seu cônjuge, quando teve os filhos, quais seus principais sonhos e anseios e, de forma geral, deixaria ela falar livremente sobre o que quisesse. Ouviria mais do que falaria. Então, só depois disso eu iria me preocupar em pensar em alguma coisa para falar. Talvez escolhesse apenas um dos princípios das lições e falaria sobre aquilo rapidamente para não tomar muito tempo da pessoa.

O mais engraçado é que isso tudo diz no PME. Lá fala sobre ouvir, sobre ensinar pessoas e não lições, sobre adaptar a mensagem, etc. Mas os presidentes de missão insistem em fazer os missionários praticarem e acabam robotizando seus missionários.

Não sei como está sendo o desempenho de toda a missão em relação a batismos, mas pelo que meus amigos ativos na Igreja comentam, batismo por aqui está mais raro que cometa Halley.

Fico então com as seguintes perguntas:

  1. Não será essa robotização dos missionários que está prejudicando o desempenho das missões?
  2. Será que os Presidentes de Missão recebem instruções específicas para robotizar os missionários?
  3. Se isso acontece, significa que a Igreja se arrependeu de escrever PME e dar certa liberdade aos missionários?
  4. Será que essa robotização dos missionários não é para fazê-los obedecer melhor depois que retornarem para suas casas? Às vezes, o objetivo da missão não é apenas batizar, mas também converter o jovem que se dispôs a servir como Elder ou Sister…
  5. Quando a Igreja se preocupa em ensinar conceitos complicados, será que ela não estará querendo fazer uma “peneira”? Algo como filtrar os mais pobres, mais simples e menos educados, em lugar de pessoas com maior nível intelectual e, consequentemente, mais bem empregadas e bem remuneradas?

21 comentários sobre “Qual o Objetivo do Trabalho Missionário na Igreja SUD?

  1. Tentando responder de modo simples às perguntas:

    Não será essa robotização dos missionários que está prejudicando o desempenho das missões?
    R.: Sim, o ‘automatismo’ dos missionários prejudica não só a missão como a vidas das pessoas que poderia estar ajudando. Fui da época das seis lições decoradas, poucos anos antes do PME. Minha esposa pegou a implantação do PME. Mas creio que a artificialidade das lições pode ter tanto relação com instruções de algum presidente de missão, e o modo como busca resultados, como quanto da maturidade e instrução social e espiritual do jovem (que diga-se de passagem não anda muito boa em várias partes do mundo).
    Meu trenador de missão já estudava em Harvard, e embora fosse um nerd de difícil convivência, questionava-se tanto com o modo de ensinar que criamos lições tão variadas que poderiam ser dadas tanto em 5min como em 90min. A única falha era a imposição que uma palestra deveria vir antes da outra, e ele era tão nerd ‘fiel’ que quebrar uma regra tola como essa era quase como beijar uma moça ou coisa assim. MAS, algumas vezes, ele sentia na pele a necessidade da pessoa, e várias vezes nos pegamos ensinando partes de lições posteriores só para satisfazer a necessidade do ouvinte.
    Outro detalhe: nosso presidente fazia valer a regra de decorar todas as 6 lições e 6 posteriores, mas proibia veemente que se usasse os livros durante as lições. Ele dizia que decorar saberia como começar, mas se repetisse apenas o que estava ali escrito jamais deixaria o Espírito Santo agir. Ou seja, era preciso saber o conteúdo, mas o que e quando dizer deveria ser por inspiração às necessidades das pessoas.
    Depois, já como sênior de uma dupla, era comum eu ensinar às pessoas alternando princípios e parágrafos conforme o assunto fluía ou situações diferenciadas. Numa dessas vezes, por exemplo, ensinei todo o Plano de Salvação para uma família que acabara de perder o pai sem por um momento tocar no assunto Restauração e Livro de Mórmon, que deveriam vir muito antes (pela sequência). Como percebemos que aquilo lhes deu algum alento, convidamos a irem à igreja. Depois de sua visita é que começaram as perguntas sobre Joseph e ‘nosso livro’. E ainda em outra ocasião, uma pessoa só nos deixou entrar em sua casa depois que mostrei, do nada, uma gravura do templo de SP, e lhe disse que ali se poderia ter um casamento eterno. Embora divorciada, disse depois que teria tido um sonho com aquele lugar, e ao ver soube que deveria nos dar uma chance de falar. O assunto foi templos toda essa visita.

    Será que os Presidentes de Missão recebem instruções específicas para robotizar os missionários?
    Se isso acontece, significa que a Igreja se arrependeu de escrever PME e dar certa liberdade aos missionários?
    R.: Desconheço essa instrução, embora não seja ingênuo em não perceber o foco excessivo em número de batismos e esforços administrativos referentes a isso. Creio que o PME era justamente para ajudar a acabar com isso, mas infiro que dada a experiência antiga dos atuais presidentes, estes tem problemas de aceitar essa mudança e tentam fazer do modo como faziam ou viram fazer em seu tempo.

    Será que essa robotização dos missionários não é para fazê-los obedecer melhor depois que retornarem para suas casas? Às vezes, o objetivo da missão não é apenas batizar, mas também converter o jovem que se dispôs a servir como Elder ou Sister.
    R.: Pode, com certeza, mas mais uma vez creio que isso tem mais haver com o tipo de experiência missionária que teve ou seu grau de maturidade. Talvez isso faça parte de uma metodologia percebida e aprovada por líderes gerais ou locais, mas não temos como ter certeza disso já que não é explícito e nem registrado.

    Quando a Igreja se preocupa em ensinar conceitos complicados, será que ela não estará querendo fazer uma “peneira”? Algo como filtrar os mais pobres, mais simples e menos educados, em lugar de pessoas com maior nível intelectual e, consequentemente, mais bem empregadas e bem remuneradas?
    R.: Se por intelectualmente mais refinados considerarmos pessoas inclusive de baixa renda, mas de grande potencial (afinal, pobreza não é sinônimo de falta de instrução ou burrice, embora flertem entre si), talvez faça sentido. Mas é uma aposta equivocada se buscam pessoas de ‘melhor qualidade de vida’, pois quando os números falam mais alto e o desespero bate, os missionários correm rapidinho para os primeiros que lhes abrem as portas.
    De qualquer forma, concordo em gênero e grau de que o sistema de ensino e instrução missionário, especialmente no Brasil, não atende às necessidades das pessoas visitadas. Melhorou um pouco, mas não é tão visível como o próprio PME alegava ser (a mudança). Ainda vejo muitos ex-missionários que não conseguem interpretar, resumir ou explicar algo sem ler o que outro escreveu, o que, pela prática do PME, deveria ser totalmente o oposto. E se dão aulas péssimas ou ruins agora, imagina durante o tempo de serviço? Sendo que a tese de analfabetos funcionais aqui já não convêm mais, dado aos 24 meses de intenso treinamento em leitura e ensino que poderiam facilmente ter amenizado alguma carência de aprendizado formal.

    • Creio que uma das coisas mais difíceis que existe é treinar uma pessoa para ser um bom professor, em qualquer área de conhecimento. Leva-se anos para fazer isso.
      O PME veio para combater a robotização do ensino, mas vemos que o problema da robotização não estava nas antigas palestras que eram decoradas e que enquanto em certas missões eram utilizadas como referência outras a robotização era a norma. E naquela época tinha muito mais conteúdo para “robotizar” um missionário.
      Mas os presidentes de missão não recebem treinamento adequado (apenas alguns seminários), são leigos, fazem como acham que devem fazer e recebem muita liberdade para presidirem suas missões, e se eles vieram de missões robotizadas décadas antes, o provável é tendem a repetir “o que deu certo” no tempo deles.
      Mas agora vejamos um exemplo:, eu pego um rapaz brasileiro (não conheço outras realidades), com pouca instrução, formado num ensino médio, mas sem saber fazer uma multiplicar ou escrever uma redação ou ser capaz de ler funcionalmente. Aquele rapaz que nunca apresentava trabalho mas dava para os colegas…
      Coloca esse rapaz na missão, como eu faria para ensinar ele a ensinar? Vou mandar ele decorar o que tem que falar e robotizá-lo, em 1 ano ou muito menos, ele vai saber repetir tudinho “certinho”, vai se achar o máximo e estar motivado para trabalhar, vai ser Sênior e como ele vai ensinar o companheiro dele a ensinar?
      Claro que com o tempo, a maioria acabam aprendendo a ensinar e deixam as bengalas (decoreba) de lado, alguns na missão, outros depois.
      De fato, como educador, acredito que a decoreba, seja da tabuada, seja daquelas frases de efeito antes da palestra do PME, fazem parte do processo de aprendizagem mais eficaz. Nesse processo, depois que não está mais preocupado em cada sílaba que tem que repetir e o faz de forma robotizada, começa a refletir e entender por que é assim, e quando entende porque alguém pensou que deveria ser assim, começa, linha sobre linha, e então chega um momento que pode esquecer tudo e ensinar com as escrituras.

  2. Acho que sim, a igreja robotizando os missionários tem sua parcela de culpa mas, acredito que as pessoas hoje em dia estão mais espertas quanto a religião, acredito que isso é por causa da informação, da internet presente na casa de quase todos, hoje as pessoas pesquisam muito sobre a igreja e o passado dela nunca será escondido….

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