Atravessar a Distância

Nesta semana seguida à Conferência Geral, publicaremos artigos explorando alguns seletos discursos proferidos no fim de semana que passou. Em consideração hoje, o discurso do Apóstolo Dale G. Renlund.

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Fiquei impressionado na sessão da Conferência na manhã do Sábado pela citação oferecida pelo Élder Renlund: “Quanto maior a distância entre o doador e o beneficiário, mais o beneficiário desenvolve um senso de direito”. O que me causou pausa, uma vez que concordo com a declaração, é uma simples questão: O que vamos fazer sobre essa distância?

Esta parece ser uma questão crucial. O Élder Renlund salienta que esta é a razão pela qual o sistema de bem-estar da Igreja é projetado para que aqueles em necessidade procurem ajuda da família em primeiro lugar, e depois de seus líderes locais – i.e., de sua ala ou ramo. Mas não me parece que isso resolva o suficiente a distância entre doadores e beneficiários; eu vejo uma enorme distância dentro das alas e ramos, e às vezes até mesmo dentro das famílias. Demasiadas vezes doadores e beneficiários simplesmente têm pontos de vista e até culturas completamente diferentes.

Tenho lutado com a compreensão das questões e princípios em torno do bem-estar e de dar apoio aos necessitados recentemente. Como resultado, comecei a ler um livro sobre o assunto recomendado para mim, Pontes Para Sair da Pobreza, um manual para aqueles que trabalham com os necessitados, incluindo líderes comunitários e religiosos como bispos e presidentes de estaca. Este livro sugere, entre outras coisas, uma ideia muito simples: aqueles em diferentes classes econômicas vivem em diferentes culturas. Simplificando, a maneira que aqueles na pobreza pensam e agem, mesmo quando eles pensam e agem de forma lógica, é diferente da maneira que aqueles na classe média pensam e agem. E os da classe rica pensam e agem diferentemente das demais classes.

Agora, a menos que eu seja mal entendido, quero deixar claro que os autores deste livro não estão falando sobre aqueles que estão temporariamente na pobreza ou em uma classe, ou aqueles que cresceram em uma classe e recentemente migraram para outra classe. Mudando o pensamento e a ação de uma classe para outra leva tempo, e se você estiver temporariamente na pobreza você provavelmente não mudará sua cultura. Em vez disso, esses autores estão reivindicando que a cultura daqueles que são mais ou menos permanentemente em uma classe é diferente daquelas em outra classe econômica.

Estas diferenças culturais ou regras ocultas (como os autores de Pontes Para Sair da Pobreza as chamam), não são óbvias aos de outras classes. Assim como as diferenças entre culturas nacionais muitas vezes levam à confusão ou mal-entendidos, as diferenças entre as classes econômicas muitas vezes levam a dificuldades semelhantes. Neste livro, os autores apontam como isso acontece:

… se você pertence principalmente à classe média o pressuposto é que todos conhecem estas [regras]. … Muitas das regras ocultas são obviedades pressupostas por uma classe particular, que assume que elas são obviedades pressupostas para todos.

O livro oferece um exemplo de como essas diferenças culturais podem causar problemas:

… em um distrito escolar, os professores tinham ido juntos comprar uma geladeira para uma família que não tinha uma. Cerca de três semanas depois, as crianças da família sumiram por uma semana. Quando os alunos retornaram, os professores perguntaram aonde tinham ido. A resposta foi que a família tinha ido acampar porque estavam tão estressados. O que tinham que usaram como dinheiro para poder ir acampar? Os rendimentos da venda da geladeira, é claro.

Para aqueles de nós na classe média isso não faz nenhum sentido. Por que você iria tornar a sua vida a longo prazo pior por um prazer temporário? Mas o livro sugere que as classes simplesmente têm diferentes entendimentos culturais: “A motivação principal em [duradoura] pobreza é o entretenimento e os relacionamentos. Na classe média, os critérios segundo os quais a maioria das decisões são feitas dizem respeito ao trabalho e realização. Na riqueza, são as ramificações das ligações financeiras, sociais e políticas que têm o maior peso.”

Não importa se você pensa que a decisão da família que vendeu a geladeira está errada ou não. O ponto é que a cultura na qual esta família vive a influencia na direção dessa decisão. Sim, é errado abusar um presente como este família fez – mas claramente eles não viram isso como mau uso! O problema é a falta de conhecimento? Ou foi o mal-entendido dos doadores, que claramente não compreenderam a cultura da família? Eu acho que o problema realmente está na distância entre os doadores e os beneficiários.

Quaisquer medidas tomadas para ajudar alguém em necessidade deve incluir uma compreensão da cultura e da influência que ela tem. Na Igreja, nosso objetivo é o bem-estar temporal e espiritual da família; portanto, a compreensão da cultura da família é crucial para alcançar êxito no bem-estar temporal e espiritual.

Claro, as diferenças culturais que estou descrevendo aqui são muitas vezes uma grande parte da distância entre o doador e o beneficiário. Bispos e outros líderes locais são muitas vezes da classe média (se não da classe rica), enquanto que aqueles que mais frequentemente precisam de ajuda estão na pobreza. Isto significa que os líderes locais nem sempre entendem por que aqueles que precisam agem da maneira que agem. Essa distância cultural torna resolver problemas de pobreza muito difícil. Então, novamente, a pergunta precisa ser feita: o que devemos fazer em relação a esta distância?

Enquanto ouvia a Irmã Oscarson ontem de manhã mencionar o sonho de Leí e o grande e espaçoso edifício, o pensamento ocorreu-me que este símbolo também inclui a distância: é raro ver quem ousa zombar e escarnecer de outros sem a segurança de uma certa distância. Aqueles no edifício não estavam perto da árvore, eles estavam em segurança através de um rio e bem elevados acima dos alvos de sua zombaria. Eles não tinham de enfrentar aqueles de quem estavam tirando sarro. Distância os ajudava na sua zombaria e crítica.

Acho que a mesma coisa acontece muitas vezes quando se trata dos necessitados e os pobres (e os ricos, também, isso serve para todas as diferenças culturais): nós criticamos à distância, através do abismo cultural que nos separa. Trabalhamos a partir de diferentes pressupostos e ambientes e a distância nos impede de ver como e por que eles fazem o que fazem.

Mais uma vez, pergunto. O que devemos fazer em relação a esta distância?

Espero que, considerado tudo isso, a resposta seja clara. Não podemos permanecer como aqueles no grande e espaçoso edifício, criticando aqueles de uma cultura diferente desde a segurança da distância, através de um rio de mal-entendidos. É nossa a responsabilidade atravessar através do golfo para nos entendermos.

Em minha opinião, o Manual de Instruções da Igreja sugere que este seja o caso. Ele orienta os Bispos que é sua responsabilidade buscar os pobres – ao invés de esperar por eles para que peçam ajuda. Pode a nossa responsabilidade ser muito diferente? Não devemos ser vigilantes, procurando oportunidades para ajudar pessoalmente e compreender pessoalmente aqueles quem estamos ajudando?

Como eu estudei esse assunto, continuo chegando à conclusão de que a única maneira que podemos realmente ajudar aqueles em necessidade é atravessasndo a distância até eles. Precisamos conhecê-los. Precisamos entender a sua situação, as formas que entendem a vida, as suas opiniões e as suas necessidades.

Não é, penso eu, uma conexão separável entre conhecimento e amor. Só podemos amar verdadeiramente o que conhecemos. Assim, nossos esforços para servir os outros só podem ser tão bem sucedido quanto os nossos esforços para conhecer outras pessoas.

Ao invés de estereotipar outros com base em nossas suposições culturais devemos buscar conhecê-los. Ao invés de criticar do outro lado do rio imundo de mal-entendidos, devemos amar.

7 comentários sobre “Atravessar a Distância

  1. Também ponderei neste artigo, e percebo a importância dos paradoxos : oportunidade x preparação adoro uma frase do profeta Tomás S Monson que disse : Quando o dia da decisão chega o tempo da preparação já passou.Talvez o doador não tenha essa visão de preparar e acompanhar o receptor.Sair da pobreza é um processo de preparação,investimento e incentivo.Esse curso de auto suficiencia que a igreja preparou me parece uma boa idéia , a criação do chamado de especialista de auto suficiencia se funcionar vai ser ótimo.Um dos maiores obstáculos é a preguiça ,acomodação e o desânimo.Nisso deve se trabalhar o interior das pessoas.Creio que o evangelho pode sobrepujar a cultura e ajudar na mudança interior, como por exemplo crescer o desejo de melhorar de vida.

    • Otavio, o que você escreveu me confunde um pouco — você entendeu a diferença entre as culturas?

      Como escrevi acima, a classe média veja o mundo em termos de trabalho e realização — e quando você escreve “Um dos maiores obstáculos é a preguiça, acomodação e o desânimo” não acha que você está escrevendo desde dentro desssa maneira de ver o mundo?

      O que você percebe como “preguiça” não pode ser outra maneira de enfrentar o mundo? Se o que importa à gente na pobreza é o entretenimento e os relacionamentos, então serão percibidos como preguiçosos para os da classe média, não acha?

      • Olá irmão Kent, obrigado pela observação,o uso destes adjetivos pode ser sim, algo vistos pela classe média, contudo eu servi missão na favelas do Rio de Janeiro e muitas vezes presenciei e vivi o cotidiano das famílias de renda até 2 salários mínimos.Ouvi muitas críticas dos pais aos filhos sobre a despreocupação com responsabilidades e a busca de uma vida produtiva.Estes termos que mencionei também são usados como auto crítica pela classe D e E. Aprofundando o tema, temos que incluir os valores culturais dos pais que são diferente dos filhos na classe pobre.

  2. Obrigada a Kent Larsen e ao Vozes por essa publicação . Lembrei da apresentação de Joni Pinto, sobre a questão de diferenças culturais em uma das conferências e a importância de “familiarizar o exótico”.

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