Teodemocracia

Observar os pré-candidatos mórmons à presidência dos EUA e as implicações políticas do que tem sido considerado o “momento mórmon” naquele país nos faz também comparar a evolução do pensamento político mórmon ao longo de nossa história. Uso “evolução” para falar de uma mudança que não necessariamente significa um aprimoramento em si, ainda que sugira uma maior e melhor adaptação ao meio.

O mormonismo do século XIX não foi apenas uma nova religião no sentido em que comumente entendemos hoje o termo, mas um movimento que incluía princípios sociais, econômicos e políticos. Como observado por Harold Bloom, a grande realização de Joseph Smith foi transformar uma igreja em um povo. E esse povo precisava governar a si mesmo.

Para Joseph Smith, o sacerdócio era uma forma de governo divino e deveria ser recolocado em seu lugar natural:

(…) esse sacerdócio é uma perfeita lei de teocracia e se dispõe como Deus para dar leis ao povo, ministrando vidas eternas para os filhos e filhas de Adão. (Joseph Smith, Teachings of the prophet Joseph Smith, p. 322)

Esse governo abarcaria vários níveis, do material ao espiritual, incorporando os princípios democráticos republicanos. Joseph Smith expôs o conceito de uma teodemocracia:

O mundo é governado demais, e não há uma nação ou dinastia hoje sobre a terra que reconheça o Todo Poderoso como seu legislador, e uma vez que ‘coroas obtidas pelo sangue, pelo sangue devem ser mantidas’, eu sou enfática, virtuosa e fraternalmente a favor de uma Teodemocracia, onde Deus e o povo possuam o poder de conduzir os assuntos dos homens em retidão. (Joseph Smith, Nauvoo Neighbor, 17 de abril de 1844)

Joseph Smith acreditava haver um excesso de poder concentrado nos governos humanos – “O mundo é governado demais…”. Tendo sido vítima de excessos praticados contra ele e seu povo, prezava a liberdade acima de tudo.

Como parte da apostasia concebida por Joseph, os governos patriarcais dirigidos por revelação haviam ficado no passado, dando lugar à usurpação do poder que separou sacerdócio e governo. Como resultado da decadência humana, a direção política da humanidade se afastou do sacerdócio, sequer reconhecendo os mandamentos como leis.” … e não há uma nação ou dinastia hoje sobre a terra que reconheça o Todo Poderoso como seu legislador…” –

Tais governos em menor ou maior grau exerciam tirania e se mantiveram no poder pela violência, seja contra outros povos, seja contra seus próprios cidadãos ou súditos – ‘coroas obtidas pelo sangue, pelo sangue devem ser mantidas’ .

Para sanar essa situação, o governo de Deus sobre a terra não seria apenas uma teocracia nem uma democracia, mas uma combinação dos dois pólos –“eu sou enfática, virtuosa e fraternalmente a favor de uma Teodemocracia, onde Deus e o povo possuam o poder de conduzir os assuntos dos homens em retidão”. Assim, os homens ou o povo estariam abaixo de Deus, agindo como Ele, presidindo em retidão suas famílias e aqueles que estão sob a sua influência. Abaixo do Rei e Sacerdote maior, portanto, haveria uma sucessão de outros reis e sacerdotes com o direito e o dever de governar a família de Deus.

Brigham Young provavelmente se referia a um conceito similar quando falou sobre uma “teocracia democrática”:

Creio numa verdadeira teocracia republicana e também numa verdadeira teocracia democrática, no sentido em que o termo democrático é atualmente usado; pois para mim, em seu uso atual, esses termos podem ser usados indistintamente. (Brigham Young, Journal of Discourses 6:346, Discursos de Brigham Young, p. 354)

Como os planos de Joseph Smith concorrer à presidência dos EUA e o estabelecimento do Conselho dos 50 estavam relacionados à sua busca pela teodemocracia? Analisaremos esses desdobramentos históricos no próximo post.

11 comentários sobre “Teodemocracia

  1. Politica e Religiao…Água e vinho…

    Teodemocracia… Utopia impossivel. Uma vez que os homens nem sempre pensam como Deus e Deus nao pensa como os homens como podem entao juntos governar o mundo?

    E o que fazer com os homens ateus, os que nao creem em Deus ou que preferem outra religiao que nao seja a cristã? O que fazer com os Budistas, Muculmanos, Judeus, etc?

    Ele nao poderiam governar obviamente. O que fazer deles entao? Como garantir que o governo teodemocrata iria satisfazer suas necessidades, atender as suas aspirações e desejos e resolver seus problemas?

    Aburdo. Pior é achar que isso é bacana, moderno, diferente, culto, etc e postar aqui.

    • Olá, Fernando. Veja, por favor, algumas respostas abaixo.

      “Politica e Religiao…Água e vinho…”

      Alguns podem achar que são água e vinho, água e óleo, ou outras combinações quaisquer. Mas o fato é que historicamente há uma relação entre as duas.

      “Teodemocracia… Utopia impossivel.”

      Há muitas utopias que já foram sonhadas e experimentadas em pequena escala. Quando nos voltamos para elas é para aprender alguma lição sobre seus sucessos ou fracassos, ou para compreender como pessoas puderam doar suas vidas para essas causas supostamente impossíveis, ou simplesmente para admirar a beleza dos seus sonhos.

      Como mórmon, eu me sinto instigado a saber mais sobre os projetos utópicos de Joseph Smith e entender como e por que foram abandonados pelos seus sucessores. Ou como foram reinterpretados. É interessante como a Igreja de Cristo estabelecida em 1830 passou a ser um povo em determinado momento (década de 1840), para depois voltar a ser uma igreja novamente (1890).

      “Uma vez que os homens nem sempre pensam como Deus e Deus nao pensa como os homens como podem entao juntos governar o mundo?”

      Pelo pensamento de Joseph Smith e seus amigos, isso se daria pelo proceso de revelação. Eles acreditavam que o ser humano podia se comunicar com Deus e relatavam eventos sobrenaturais em que haviam experimentado isso.

      “E o que fazer com os homens ateus, os que nao creem em Deus ou que preferem outra religiao que nao seja a cristã? O que fazer com os Budistas, Muculmanos, Judeus, etc?”

      Garantir e defender suas liberdades. Como você irá ler no próximo post sobre o Conselho dos 50, Joseph Smith incluia os “gentios” como parte do governo civil de Deus.

      “Ele nao poderiam governar obviamente.”

      Não consigo pensar numa evidência para tal conclusão. Conheço evidências ao contrário. Como a formação do Conselho dos 50 corrobora sua conclusão?

      ” O que fazer deles entao? Como garantir que o governo teodemocrata iria satisfazer suas necessidades, atender as suas aspirações e desejos e resolver seus problemas?”

      Justamente garantindo que tenham representação, pelo modelo proposto por Joseph Smith.

      “Aburdo. Pior é achar que isso é bacana, moderno, diferente, culto, etc e postar aqui.”

      Cada um tem o direito de fazer sua lista de itens proibidos. Às vezes o index de um pode ser o filé de outro e vice-versa. Quem quiser história correlacionada a encontrará. Mas estamos abertos às sugestões por parte dos leitores deste blog de temas bacanas, modernos, diferentes, cultos.

      Abraços!

      • Antonio,

        Olá veja o que penso sobre o que falou:

        Questao 1 ) “Teodemocracia… Utopia impossivel.”

        “Há muitas utopias que já foram sonhadas e experimentadas em pequena escala. Quando nos voltamos para elas é para aprender alguma lição sobre seus sucessos ou fracassos, ou para compreender como pessoas puderam doar suas vidas para essas causas supostamente impossíveis, ou simplesmente para admirar a beleza dos seus sonhos.”

        Resposta ) Em termos de política não podemos ter experiencias nem sonhos. Política envolve a vida das pessoas. Não podemos acreditar em algo sem fazer uma crítica, uma análise rigorosa para provar a validade dos argumentos.

        Questão 2 ) Como mórmon, eu me sinto instigado a saber mais sobre os projetos utópicos de Joseph Smith e entender como e por que foram abandonados pelos seus sucessores. Ou como foram reinterpretados. É interessante como a Igreja de Cristo estabelecida em 1830 passou a ser um povo em determinado momento (década de 1840), para depois voltar a ser uma igreja novamente (1890).

        Resposta ) Você é articulado, muito articulado. Mas não tem nada a ver com o que falei. Tente usar a razão, pensar e refletir sobre o que lhe é apresentado, antes de apenas seguir as idéias de outra pessoa, qualquer que seja ela.

        Questão 3 ) “Uma vez que os homens nem sempre pensam como Deus e Deus nao pensa como os homens como podem entao juntos governar o mundo?”

        Pelo pensamento de Joseph Smith e seus amigos, isso se daria pelo proceso de revelação. Eles acreditavam que o ser humano podia se comunicar com Deus e relatavam eventos sobrenaturais em que haviam experimentado isso.

        Resposta ) Veja que nem todos acreditam em comunicação com Deus, em oração. Nem todos são cristãos. Nem todos acreditam em Deus. O modelo político deve ser democrático, para todos e não apenas para os que acreditam poder se comunicar com Deus. De outra forma não é governo democrático, é governo dos que podem se comunicar com Deus.

        Questão 4 ) “E o que fazer com os homens ateus, os que nao creem em Deus ou que preferem outra religiao que nao seja a cristã? O que fazer com os Budistas, Muculmanos, Judeus, etc?”

        Garantir e defender suas liberdades. Como você irá ler no próximo post sobre o Conselho dos 50, Joseph Smith incluia os “gentios” como parte do governo civil de Deus.

        Questão ) “Ele nao poderiam governar obviamente.”

        Não consigo pensar numa evidência para tal conclusão. Conheço evidências ao contrário. Como a formação do Conselho dos 50 corrobora sua conclusão?

        Resposta ) Não poderia governar de forma democrática, democraticamente. Acho que assim eu me expresso melhor. Conselho dos 50 seguidores de Joseph Smith? Não creio que fosse democrático. Seria o governo dos 50 seguidores de Joseph Smith. Já pensou que ele pode ter sido preso e morto justamente porque tentou a candidatura a presidencia dos EUA?

        Questão ) ” O que fazer deles entao? Como garantir que o governo teodemocrata iria satisfazer suas necessidades, atender as suas aspirações e desejos e resolver seus problemas?”

        Justamente garantindo que tenham representação, pelo modelo proposto por Joseph Smith.

        Resposta ) ter representação nâo garante governabilidade se ela não estiver alinhada aos interesses de quem detém o poder.

        Questão ) “Aburdo. Pior é achar que isso é bacana, moderno, diferente, culto, etc e postar aqui.”

        Cada um tem o direito de fazer sua lista de itens proibidos. Às vezes o index de um pode ser o filé de outro e vice-versa. Quem quiser história correlacionada a encontrará. Mas estamos abertos às sugestões por parte dos leitores deste blog de temas bacanas, modernos, diferentes, cultos.

        Resposta ) Fui grosso com voce. Peço que me desculpe. Nessa questão voce está certo. Todos temos o direito de nos expressar e colocar nossas idéias.

        Antonio, Veja o que acontece no mundo. A sua teoria está em andamento.

        Recentemente Mitt Romney declarou que “Deus quer que os EUA liderem o mundo.”. Ele foi mais alem e disse que os EUA não criados por Deus para serem uma nação de seguidores. Disse também que se for eleito irá lutar para que o século XXI seja um século americano.

        É fato que desde Joseph Smith até os dias de hoje, sempre houve candidatos mórmons a presidência dos EUA. O próprio pai do Mitt Romney foi candidato a presidente dos EUA em 1968.

        Quando digo que religião e política são água e óleo é porque são duas atividades opostas mas que tem algo em comum que é a busca pelo poder.

        Poder e Autoridade. Quantas vezes você já ouviu estas palavras na Igreja?

        Eu prefiro acreditar que o mundo será melhor se for guiado pela razão ao invés de pela fé. Pela fé muitas barbaridades foram feitas. E quem vai conseguir fazer um crente pensar de outra forma?

        Ao invés de um único país liderando o mundo inteiro que houvesse uma divisão de poderes, com potencias regionais, com respeito mútuo, diálogo e negociação.

        Pois a religião e a fé já fizeram guerras e barbaridades demais no mundo. Desde a antiguidade até os dias de hoje. Veja o que os muçulmanos fazem em nome da fé. Homens-bomba explodem em um café ou em uma escola em Israel e levam a vida de várias pessoas inocentes. Mas se voce tentar fazer um homem-bomba refletir, sob a razão, a respeito do que ele faz será inútil. Porque ele acredita, ele tem fé e a fé não te deixa racionar por si mesmo. A fé atropela a razão. Por isso o perigo.

        Alem disso, a liderança dos EUA só tornou o mundo pior. Desde 1945 não houve uma só guerra em que os EUA, nação criada por Deus segundo Mitt Romney, não tenha participado. Foi Coréia, Vietnam, Panamá, Cuba, granada, El Salvador, Iraque, Afeganistão, Líbia e por aí vai. Isto sem falar nas ditaduras militares que os EUA implantaram na américa latina e na Africa e que assassinaram milhares de pessoas, civis, professores, trabalhadores, apenas por pensar diferente ou ter uma outra ideologia politica. Soma-se a isso os golpes de estado no Irã nos anos 50 e em vários outros países, recentemente em Honduras. Sem falar no Chile nos anos 70. O que fizeram lá foi uma atrocidade. Tudo em nome da democracia e liberdade que os EUA pregam. Detalhe que em muitos destes países, os presidentes depostos foram eleitos democraticamente. Sinceramente um país que tem uma política externa assim não tem condição de liderar nada. Creio que o melhor seria termos o poder mundial dividido regionalmente pelo mundo e que os países tivessem as questões resolvidas pelo diálogo, diplomacia e negociação. Os EUA não fazem isso porque não respeitam a soberania de ninguém.

        Mas como eu estava dizendo eu não acredito que se possa fazer experiencias com política, com modelos teodemocraticos, isto não existe em lugar nenhum. Porque política é muito sério, não dá pra brincar com isso.

        Os povos antigos certamente tinham uma forma de governo onde a religião tinha uma influencia muito grande. Era muito comum nas primeiras civilizações, mesmo entre os judeus primitivos. Mas veja que nunca foi uma democracia pois a ordem vinha de cima para baixo, sem questionamento, sem negociação. Então não era mesmo democrático. Com a revolução francesa e as mudanças politicas do século 19 que se separou de forma definitiva a religião do estado. Os estados modernos são assim. Existem algumas exceções como o Irã que tem o aiatolá como líder supremo. Se ele mandar atacar Israel nenhum senador ou deputado iraniano irá questionar, levar a discussão racional a ordem do irmão aiatolá porque ele recebe instruções de Deus.

        Acho que a razão deve ser a base para a política, nunca a fé. Tudo deve ser analisado, refletido, pensado em termos morais e éticos. Embora no nosso pais isso seja igualmente uma utopia, deve ser assim. Alias, a razão deve ser a base para a conduta do próprio homem.

        Eu respeito suas opiniões e apresentei as minhas. Acho que os mórmons são boa gente. Conheço muitos. Mas não acredito em politica e religião juntos.

        Grande abraço,

        Joao Fernando

  2. A Teodemocracia deve ser praticada, não defendida. Os membros da igreja que alcançarem cargos públicos devem agir teodemocraticamente, mas essa não deve ser uma ideologia ou proposta de governo, mas sim um modo de agir

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