Romper os grilhões

Muitos mórmons iniciaram neste sábado um jejum, preparando-se para o domingo de jejum e testemunho. O jejum  apresenta um elo entre o físico e o espiritual, não só por ser uma prática que envolve os dois aspectos da vida do indivíduo mas também porque o faz pensar no bem-estar físico e espiritual de outros. Aliás, especialmente o físico de outros. Aqui nos relembramos dos conselhos no livro de Isaías:

“Por que temos jejuado e tu não o vês? Temos mortificado as nossas almas e tu não tomas conhecimento disso?” A razão está em que, no dia mesmo do vosso jejum, correis atrás dos vossos negócios e explorais os vossos trabalhadores;

a razão está em que jejuais para entregar-vos a contendas e rixas, para ferirdes com punho perverso. Não continueis a jejuar como agora, se quereis que a vossa voz seja ouvida nas alturas!

Por acaso é este o jejum que escolhi, um dia em que o homem mortifique a sua alma? Por acaso a esse inclinar de cabeça como um junco, a esse fazer a cama sobre pano de saco e cinza, acaso é a isso que chamas jejum e dia agradável a Iahweh?

Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniquidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo o jugo?

Não consiste em repartires o teu pão com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aquele que vês nu e em não te esconderes daquele que é tua carne?

Se fizeres isto, a tua luz romperá como a aurora, a cura das tuas feridas se operará rapidamente, a tua justiça irá à tua frente e a glória de Iahweh irá à tua retaguarda. (Bíblia de Jerusalém)

Podemos reconhecer a opressão à nossa volta, imagino: a opressão gerada pelo analfabetismo, pela falta de acesso às serviços de saúde, saneamento; a opressão pela fome e o subemprego; a opressão pela manipulação política e religiosa; a opressão exercida dentro do lar ou aquela que vem dos palácios; a opressão que está nos noticiários ou na nossa rua e que nos gera indignação. Mas será que reconhecemos a opressão que nós próprios geramos ou ajudamos a sustentar? Aquela da qual somos participantes, talvez passivos?

Tanto Isaías quanto o Livro de Mórmon denunciam a obediência externa da religião que é acompanhada da falta de integridade dos indivíduos uns para com os outros e para Deus -a religião que é vestida como uma camiseta mas não é vivida em contextos familiares e cotidianos, fora do templo, fora das reuniões, fora da instituição. Isso parece ser uma insistência constante de todo profeta verdadeiro: Jeremias, Joseph Smith e especialmente o próprio Jesus Cristo.

Como empregados ou empregadores, consumidores ou produtores, como cidadãos de nosso respectivos países, quanta opressão estamos sustentando? Quanta opressão estamos promovendo, seja através de nossos hábitos, ações, ou simples falta de ação?

Será que a presença de crianças nas sinaleiras e ruas já não nos impressiona mais e nosso conforto nos obriga a ignorá-las? Será que a exploração de uma costureira boliviana em um galpão em São Paulo vale a peça de roupa barata que compramos?  Será que suicídios de jovens não nos faz repensar certos discursos e práticas?

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2 comentários sobre “Romper os grilhões

  1. Um fundo de jejum como o que é administrado pela Igreja® é muito conveniente, principalmente quando aliado a ações de Relações Públicas como o “Mãos que Ajudam”, para apaziguar nossa consciência e nos dar aquela sensação gostosa de que estamos “fazendo a nossa parte”.

    • Concordo, Leonel, que nossa participação/contribuição nesses programas ou procedimentos da Igreja pode vir a contribuir negativamente nesse sentido íntimo, o de não fazer nada além daquilo. Muitos se sentem inclusive impelidos a criar mandamentos e doutrinas para justificar a sua recusa de ajudar além dos limites institucionais da Igreja.

      No entanto, acrescento também que o fundo de jejum da ala é uma das fontes financeiras mais visíveis e claras da igreja – se não for a mais visível e clara de todas.

      Os critérios usados para ajudar, claro, são por vezes subjetivos e dependem da interpretação e sentimentos de líderes locais. Durante minha missão, por ex., pedimos a um presidente de ramo ajuda desse fundo para uma família de “investigadores”. A ajuda foi concedida.

      Abraços!

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