Apóstolo Dallin Oaks Ofende Neozelandeses

Texto por Gina Colvin

Dallin OaksDurante a Conferência Geral de Outubro de 2010, o Apóstolo Boyd K. Packer fez alguns comentários controversos. Primeiramente, ele afirmou que a Proclamação da Família era fruto de revelação. Depois, ele sugeriu que homossexualidade não é congênita, ao exclamar:

“Alguns supõe que eles foram predefinidos e não podem superar o que crêem ser tendências congênitas pelo impuro e antinatural. Não é verdade! Por que o Pai Celestial faria isso com alguém? Lembrem-se, Ele é nosso Pai Celestial.”

Debates se sucederam e logo após o texto publicado do discurso de Packer leria apenas que a Proclamação é um “guia” ao invés de revelação, enquanto que a citação proferida acima foi alterada substancialmente:

“Alguns supõe que eles foram predefinidos e não podem superar o que crêem ser tentações congênitas pelo impuro e antinatural. Não é verdade! Por que o Pai Celestial faria isso com alguém? Lembrem-se, Ele é nosso Pai Celestial.”  (repare na ênfase)

Esta é a beleza da Conferência Geral. Porque todos os olhos estão voltados para o Centro de Conferências, os discursos são construídos com maior cuidado em grande parte porque a mídia está observando, assim como toda a Igreja – o que significa que há todo um cuidado especial para evitar criar controvérsias públicas.

Na Nova Zelândia tivemos hoje (18/05/2014) uma Transmissão de Conferência Regional. Estas ocorrem bienalmente no lugar de uma Conferência de Estaca. A sessão do Domingo de manhã inclui o voto de apoio para os líderes da Estaca, um discurso pelo Presidente da Estaca seguido de uma transmissão simultânea de Lago Salgado para todas as Estacas e Distritos do país.

Dallin Oaks, do Quórum dos Doze, discursou primeiro. Diferentemente dos discursos da Conferência Geral, nada de seu discurso será editado para uma edição final. Na verdade, ele deixou muitos de nós com um gosto ruim em nossas bocas. Talvez a falta de cuidado com nossos sentimentos tenha algo a ver com a impressão de que Mórmons no “campo missionário” (i.e., longe do país-sede) são menos sofisticados. Ou talvez porque não temos uma mídia francamente interessada o suficiente na Igreja para lhe prestar muita atenção e causar-lhe problemas? De qualquer modo, o Élder Oaks parece ter usado esta liberdade de escrutínio crítico para se permitir um discurso inflamado e invectivo, recheado de máximas preconceituosas e porcamente construídas; mais notávelmente sobre casamentos homossexuais. Ademais, ele discorreu sobre a necessidade de todos bons Mórmons adquirir qualificações educacionais formais, e para que escolas se abstenham de ensinar educação moral e cívica às crianças. Infelizmente, não costumamos ter acesso aos textos publicados dos discursos de conferências regionais, então dependo aqui das anotações de presentes para relatar os pontos principais do seu discurso:

  1. O debate nos EUA sobre fé, família e liberdade é tão relevante na Nova Zelândia.
  2. Não há outra definição de casamento além do prescrito pela Proclamação da Família – mesmo onde a lei civil o permite.
  3. A Igreja é centrada na família e enquanto o mundo esteja confuso sobre o que isso signifique ‘NÓS’ não estamos.
  4. Mudanças na lei civil não alteram o plano de Deus ou o que Ele espera de nós.
  5. Casamento tradicional é uma instituição social vital.
  6. Não pode haver substitutos para um pai e uma mãe biológicos.
  7. É nosso dever religioso adquirir qualificações formais.

Por quê Oaks gostaria de cutucar este vespeiro específico aqui onde nenhuma vespa está, diga-se, segue sendo um mistério. Talvez estivesse irritado com os Mórmons da Nova Zelândia por não se importarem com a questão de casamento homossexual tanto quanto ele óbviamente se importa. De qualquer modo, luzes vermelhas começaram a piscar por todo lado, gerando muita indignação e muitas reações do tipo “como ele se atreve”?

Embora não seja preciso muito para me tirar do sério, quando pessoas boas e tranquilas (aquelas que geralmente não causam fuzuê) começam a resmungar de desgosto, é porquê a situação está realmente preocupante. Portanto, achei que seria mais relevante usar a próprias palavras delas para ilustrar os sentimentos coletivos:

Tímida Ina, 30 anos: “Depois que ele disse isso, eu perdi interesse em toda a conferência porque eu me pus no lugar do meu irmão, que é gay, e eu me senti como se ele tivesse me ralhado – então, eu passei a jogar no meu celular.”

Ruth, 49 anos:  “Sabe o que ficou faltando no seu discurso? Amor. Comparando com o discurso do nosso Presidente de Estaca, que foi tão cheio de amor, eu senti que nós fomos esculhambados pelo Élder Oaks, dizendo-nos ‘como tem que ser’ – sem qualquer compaixão.  Ele estava cheio de absolutos – e sem nenhum amor.”

Regan Paul, 18 anos, a 3 dias de sair em missão para Londres, Inglaterra, e que arrastou toda sua família (inativa) para compartilharem juntos seu último Domingo na Nova Zelândia: “Eu me senti muito desconfortável com as coisas que o Élder Oaks disse, porque não havia nada de amoroso. Minha família falhou completamente, de acordo com a sua contagem. Minha cunhada me perguntou se a Igreja era sempre assim. Eu simplesmente não acredito que este discurso não os ajudou a retornar à Igreja.”

Emma Lafaele, 16 anos: “Eu me senti um pouco desapontada com ele. Eu estava ansiosa pela Conferência de Estaca e o discurso do Presidente de Estaca foi ótimo, e aí veio o Élder Oaks – bom, foi uma decepção.”

Anne (nome alterado), 49 anos:  “Eu estava com a minha filha ao meu lado, que é lésbica, então eu fiquei preocupada com o que lhe estaria passando na cabeça. Eu amei o discurso do Presidente da Estaca. Mas você tem que ter sensibilidade com as diversidades familiares e onde se encontram as pessoas em suas vidas. Eu espero que minha filha mude, mas eu acho que isso não lhe ajudará simplesmente por não ser amoroso.”

Raylene, 53 anos e presidente da Sociedade de Socorro:  “Eu realmente gostei dos seus conselhos para os jovens mas eu não gosto destas transmissões no geral. Eles não são sobre nós – são genéricos demais. O ponto alto foi o discurso do nosso Presidente de Estaca. Foi exatamente o que a nossa estaca precisava ouvir. Eu acho que o Élder Oaks é um bom homem e que ele está tentando sinceramente, mas ele já é um idoso e não o quero criticar. Mas as pessoas não devem vir à Igreja para se sentir atacadas ou humilhadas, ou ditas que ali não se encaixam.”

Rex (nome alterado), 49 anos:  “Eu entendo a tensão em retratar uma família idealizada, mas há o real perigo quando se foca em uma única imagem específica. Assim há a tendência de afastar, alienar, ou fazer sentir-se inadequados todos aqueles que não se encaixam no padrão normativo. Eu fiquei chocado, pra ser sincero. Eu geralmente gosto dos seus discursos, mas este me pareceu muito repentino. [E sua orientação para educação formal] ignora o contexto geral de auto-aperfeiçoamento, que não é necessariamente atrelado à educação formal.”

Ebony, 29 anos: “Outras pessoas podem ter outras prioridades ou razões para não buscar uma educação formal. Optar por uma carreira sem educação específica em determinado momento não significa fracassar, mas sim é uma decisão cuidadosa. Minha irmã foi queimada num incêndio e passou anos se tratando de suas queimaduras. Ela não é uma fracassada simplesmente por não ter conseguido terminar sua educação formal.”

Meu próprio marido, que é razoávelmente ortodóxo: “O que mais me chamou atenção foi a afirmação de que não pode haver substitutos para pais biológicos. Meu pensamento imediato foi que, se isso realmente fosse verdade, então porquê os Serviços Sociais SUD promoveriam adoções ao invés de pais solteiros biológicos? É simplesmente incongruente. Eu também me senti, enquanto pai adotivo – estaria ele sugerindo que as crianças que nós estamos criando estariam melhor com seus pais biológicos?” (Nossos filhos adotivos foram removidos de seus lares originais por causa de severa negligência paternal).

No final das contas, os discursos recheados de compaixão e amor proferidos pelos líderes locais nas conferências de estacas sobre inclusão, construir comunidades e buscar compreensão mútua foram pontuados por uma voz distante e truculenta que atingiu nossos ouvidos, mas não tocou os nossos corações. Se eu tivesse uma caneta vermelha e fosse pedida para editar o discurso do Élder Oaks, eu teria riscado tudo antes, entre, e depois das palavras “amor” e “respeito”. Certamente, não é isso que realmente importa?


Kiwimormon-about-photoTexto original por Gina Colvin, sob título ‘Reflexões sobre a transmissão da Conferência Regional na Nova Zelândia: Porquê Censura Pode Ser Necessária’. Reproduzido com permissão. Citado no The Salt Lake Tribune.

 

 

 

 

22 comentários sobre “Apóstolo Dallin Oaks Ofende Neozelandeses

  1. Teríamos que ter o discurso na íntegra para uma opinião concreta. O modelo ideal de família é um norte a ser seguido, mas o evangelho de Jesus Cristo não pode ser seletivo, todos tem que ser chamados a Cristo!

    • Existem problemas sexuais entre pessoas de mesmo sexo e também de sexos opostos.

      Privar uma criança de ter uma adoção, família, estudo, etc., por preconceito, seria um tanto ignorante. Conheço pessoas homossexuais que são verdadeiros exemplos de cidadãos. O casamento do estado não deveria ter nada haver com o casamento religioso, porque Cristo ensinou, – “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus…” Logo, não vejo um problema, se uma sociedade irá ou não permitir casamentos de pessoas do mesmo sexo. Mas, vejo problemas se esta sociedade não o fizer. Por outro lado, penso que para você ter sua liberdade, deve respeitar a liberdade do seu próximo, pois vivemos em sociedade. Então, acho que essas críticas contra homossexuais, são críticas baseadas em pura ignorância. Já conheci também, pessoas que são heteros e que hoje possuem casamentos heteros mas foram criadas praticamente por casais gays.

      Quanto a questão religiosa, eu penso que a todos foi dado o livre arbítrio, para escolherem a vida eterna ou a morte eterna, mas por amor Deus criou três reinos de glória, porque sabia que nem todos seus filhos alcançariam o mais alto grau. Então, ao invés, de se preocupar com a vida dos outros, deveriamos estar preocupadas com a nossa e com aqueles a quem e com quem nos é dada a oportunidade de servir e ministrar o evangelho.

      AME! Imparcialmente! Seja o exemplo, ensine pelas atitudes, e seja o exemplo mesmo quando estiver sozinho. Só o amor pode mudar a vida de alguém. Não podemos, mudar o mundo! E isto não acontecerá! O apocalipse é inevitável! Já foi profecia dita a séculos. Bom, eu sou a favor da separação do estado e a igreja, contanto que o estado permita que a igreja siga seus dogmas livremente, não irei me opor a nada nem a ninguém! Os homossexuais estão procurando por seus direitos civis e o estado deve atende-los. Ou não há estado que governe para todos e o direito deixa de ser a busca do equilíbrio, entre sociedades heterogenas…

  2. O titulo: “Alguns membros neozelandeses sentem-se ofendidos com discurso de Dallin Oaks” seria um titulo mais honesto, já que não ouve de fato ofensas ao neozelandeses, mas apenas um discurso de caráter conservador que incomodou membros de ideias mais libertarias (que aposto não ser a totalidade dos ouvintes, de certo teve diversos membros conservadores que saíram elogiando o discurso em questão).

    • Brilhante comentário, Diogo. Você deve ser jornalista por formação. Com um profundo conhecimento editorial e gozando de uma inteligência ímpar!

      Só que não.

      Trinta segundos de reflexão e você teria chegado sozinho a consideração de que a função de um título não é oferecer um abstrato do artigo. Outros trinta segundos, e você teria se dado conta de não há absolutamente nada de desonesto no título, sendo que o discurso nele mencionado realmente ofendeu neozelandeses, sem qualquer qualificação sobre a quantidade de pessoas ofendidas ou a proporção de neozelandeses ofendidos sobre o total de neozelandeses presentes (ou da população geral). E mais outros trinta segundos, e você teria revisto na sua mente todos os artigos que você já leu na sua vida e em seus títulos e ponderado a relação literária entre títulos e seus respectivos textos, percebendo que a maioria esmagadora de tudo o que já leu na vida mantém equação similar entre graus de detalhamento e informação entre um e outro como você vê acima.

      Fica, então, a minha sugestão a você, para o futuro, de tirar esses 60-90 segundos para pensar no que leu antes de expressar uma opinião, por escrito, que seja completamente inútil e, francamente, embaraçosa. Ademais, o verbo haver sempre se escreve com “h”, então dicionários. E libertarianismo não é isso que você está pensando que seja, então leituras. Muitas dicas hoje.

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