O fenômeno astronômico de hoje deveria ser interessante pelo espetáculo visual e pela oportunidade de aprendizado científico.

Superlua fotografada nos céus da Bretanha. (Fotografia por Owen Humphreys/PA)
Contudo, Mórmons se interessaram mais pelas profecias apocalípticas que viralizaram entre os membros em tôrno da eclipse lunar em conjunto com a “superlua”.
Tamanho foi o interesse que a própria Igreja SUD sentiu a necessidade de emitir nota oficial.
Eclipses lunares ocorrem quando a Terra, em sua órbita celeste, posiciona-se temporariamente entre o Sol e a Lua, projetando sua sombra em seu satélite natural. Elas ocorrem 2 ou mais vezes ao ano. A “superlua” é um têrmo popular para a coincidência entre a Lua Cheia (quando a Lua, em sua órbita terrestre, se posiciona diretamente oposta ao Sol do ponto-de-vista da Terra) e o perigeo (quando a Lua se encontra mais próximo à Terra em sua órbita elíptica ao redor dela). Ela ocorre aproximadamente 1 a 3 vezes ao ano.
O evento de hoje que vêm chamando tanta atenção é a ocorrência não rara, porém infrequente, da coincidência entre uma “superlua” com uma eclipse lunar total. O espetáculo celestial vale a pena e não pode ser perdido, se possível.
O enorme interesse Mórmon ocorreu, porém, não pelo espetáculo visual ou do conhecimento científico que o permite prever com precisão e compreender suas origens, mas de profecias e avisos espirituais que se tornarem muito populares na comunidade Mórmon de uma membro da Igreja e autora.
Julie Rowe escreve sobre sua “experiência de quase-morte” desde 2004, quando ela relata haver cruzado para o “mundo espiritual” e recebido visões apocalípticas do futuro, em conjunção com um mandato divino de alertar e avisar seus correligionários SUD e demais infiéis. Rowe tornou-se, nessa última década, uma autora e oradora de sucesso, gozando de tremendo sucesso nos EUA, especialmente nas comunidades Mórmons.
Com a viralização nas mídias sociais sobre o evento astronômico de hoje, Rowe publicou comentários crípticos em seu site, como “A hora chegou”, levando muitas pessoas, especialmente membros da Igreja, à uma frenesi de preparações e armazenamentos para o proverbial bíblico fim do mundo.
Tamanha sensação que a Igreja SUD publicou um memorando oficial para todos os responsáveis por seu Sistema Educacional da Igreja alertando para o perigo de crer em profecias apocalíticos alarmantes.
Patrick Mason, Chefe da cadeira Howard W. Hunter na Universidade da Califórnia – Claremont, qualificou essa notícia:
“A situação tornou-se importante e relevante o suficiente para que filtrasse até o topo e convencesse os líderes máximos da Igreja de que era algo que deveriam controlar.”
Líderes da Igreja SUD reconheceram que a autora é membro ativa da Igreja, mas que ela não fala em nome da Igreja e não pode ser levada a sério como sua representante. Orientou ainda seus membros que devessem estar “preparados espiritual e físicamente para os altos e baixos da vida”, evitando especulações e “esforços extremos na antecipação de eventos catastróficos”.
É interessante notar que o Mormonismo foi fundado com uma veia intensamente apocalíptica. Joseph Smith anotava fenômenos astronômicos (e acidentes e catástrofes) como sinais do fim do mundo, inclusive ensinando aos membros que deveriam fitar os céus por eventos astronômicos como sinais do fim que se aproximava, já que literalmente viviam nos “últimos dias”. [1] Durante o século 20, a Igreja SUD ensinava o “armazenamento doméstico” justamente como medida profética de “esforços extremos na antecipação de eventos catastróficos”.
Estaria a Igreja sinalizando uma evolução para o abandono de suas origens e seus elementos apocalípticos?
[1] O historiador Mórmon Richard Bushman descreve o fervor apocalíptico de Joseph Smith assim: Nos primórdios, os Santos pensavam que uma meia-dúzia de anos trariam o fim. Acordado certa manhã às 4 horas para assistir os sinais nos céus, Joseph relatou: “Eu me levantei e contemplei com imenso regozijo as estrelas caindo do céu… um sinal seguro de que a vinda de Cristo está muito próxima.” (Joseph Smith: Rough Stone Rolling, Richard Bushman, 2005, p. 166)
ASSISTA O ECLIPSE AO VIVO AQUI:
OU AQUI:
https://www.youtube.com/watch?v=OX9I1KyNa8M
(Cortesia dos sites da NASA)
carlos soares
As profecias tem seu próprio tempo para serem cumpridas. As profecias de Joseph Smith serão todas cumpridas no seu devido tempo. Você conhece alguma profecia de Joseph que ocorreu justamente o contrário do que ele disse?
Marco e Carlos, talvez lhes seria interessante essa discussão sobre essas profecias.
A “profecia” concernente à “Blood Moon”, ou “Lua de Sangue”, devido à coloração vermelha que o astro adquire nesses períodos, é somente mais um exemplo de como muitos de nós, seres humanos, fabricamos raciocínios visando apoiar nossas próprias crenças, e frequentemente nos recusamos a acreditar naquilo que é fundamentado pelo raciocínio. Em outras palavras, vemos aquilo em que cremos, ao invés de crermos naquilo que vemos. Nesse sentido, a religião, enquanto sistema de crenças, se presta muito bem a essas práticas mistificadoras (e mitificadoras!), que tanto enganam à humanidade. Se o problema, como pudemos verificar, encontra-se entre nós, mórmons, que esposamos uma fé frequentemente acusada de burocrática, quanto mais não deve se passar entre religiões ou seitas comprometidas com o chamado “avivamento”, marcado por supostas manifestações do Espírito Santo. De fato, observamos o “dom das línguas” em pessoas que nada mais fazem que inventar um idioma que somente elas entendem, bem como outras que manipulam garrafas de líquidos que teriam propriedades miraculosas mas que, sendo na realidade apenas água com açúcar, nenhum efeito causam. As escrituras, especialmente aquelas gravadas na Bíblia, certamente dão força aos equívocos, às mentiras e às fraudes, ao nos apresentarem o futuro através de uma linguagem deliberadamente dúbia e metafórica, que se encaixa em qualquer situação que desejemos. O livro do Apocalipse, em particular (que, como sabemos, foi o único ditado pessoalmente por Jesus Cristo a um de seus apóstolos, no caso, João), nos oferece um porvir horroroso — e um presente igualmente ruim, devido à falta de parâmetros que, se existissem, poderiam ser utilizados para nos guiar nestes últimos dias. Entre personagens sinistros anunciados por uma linguagem rocambolesca como verdugos do planeta, somos obrigados a imaginar uma realidade que é patentemente diferente daquela em que vivemos, daí fenômenos como esse que nos traz o post. Diante disso, o que fazer? Minha receita pessoal é a mesma de Tomé (e de todos os cientistas desse nosso mundo pobre e pecador): ver para crer. Enquanto não vejo, não creio, e o que faço para exercitar meu cristianismo é retornar ao que é básico e pôr em prática a verdadeira religião, esta inquestionável, que é a caridade. Fazer o bem ao nosso próximo nos livra de qualquer mal, ou aparência do mal, que neste momento pululam ao redor dos profetas de ocasião.