Hierarquia Mórmon: Origens do Poder

Encontra-se agora disponível em formato eletrônico, um dos livros mais importantes na historiografia mórmon. A editora Signature Books lançou a versão eletrônica do livro The Mormon Hierarchy: Origins of Power, do historiador D. Michael Quinn.

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D. Michael Quinn. Imagem: Salt Lake Tribune

Essa contribuição é particularmente importante para estudantes brasileiros do mormonismo, considerando as dificuldades de acesso resultantes dos altos preços (USD 29 hoje) em dólares (R$ 3,42 para USD 1 hoje) da edição em capa dura (não existe edição em capa mole devido ao enorme tamanho do livro com 686 páginas), e do alto preço e/ou da demora do frete. Com entrega instantânea para leitores Kindle (em desconto hoje por causa da “Black Friday”) ou para aplicativos gratuitos para celulares e para o computador, que incluem dicionários embutidos destinados a ajudar o leitor palavra-por-palavra, bastando clicá-las, essa versão digital facilita em muito acesso a essa importante obra historiográfica.

Por que justamente esse livro não pode faltar na biblioteca (física ou virtual) do estudioso do mormonismo? Continuar lendo

Orson Whitney: Mórmons Não Temem Verdade, Independente da Fonte

O Apóstolo Orson F. Whitney, então servindo como Bispo, ficou famoso por um discurso proferido para uma conferência de jovens em junho de 1888, e subsequentemente publicado no jornal oficial da Igreja SUD e distribuído em julho seguinte, no qual ele defende uma maior abertura entre mórmons para estudos acadêmicos e literários.

Orson Ferguson Whitney, Apóstolo da Igreja SUD (1906-1931)

Orson Ferguson Whitney, Apóstolo da Igreja SUD (1906-1931)

Por causa desse discurso, Whitney é conhecido como o “pai da literatura mórmon“.

Eis o trecho desse discurso no qual Whitney defende que mórmons não deveriam nunca temer verdade, independente de sua fonte ou origem, e o estudo acadêmico como uma missão religiosa para todos os mórmons: Continuar lendo

Falece Ed Kimball, Filho e Biógrafo do Profeta Spencer

É com pesar que noticiamos o falecimento do jurista e biógrafo Edward L. Kimball, filho do 12º Presidente da Igreja SUD Spencer W. Kimball e autor de uma das biografias mais populares no meio mórmon.

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Além de ter servido por décadas como Bispo da Igreja SUD, juiz de sentença em dois estados, e professor de direito por 40 anos em universidades de Montana, Wisconsin, e Utah (na BYU da Igreja),  Kimball é e será lembrando, acima de tudo, por haver escrito e publicado duas excelentes e populares biografias sobre seu pai-profeta. Biografias que não só eram bem documentadas e pesquisadas, como tornavam público erros e defeitos do Profeta, rompendo com o paradigma da tradição mórmon de priorizar hagiografias.  Continuar lendo

Juíz Autoriza Intimação de Profeta Mórmon em Caso de Abuso Sexual

Thomas S. Monson, Profeta Mórmon e 16º Presidente d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, será intimado a depor em processo contra a Igreja por abuso sexual infantil.

Thomas Monson demonstra a saudação do Escoteiro. 16o Presidente da Igreja SUD, Monson sempre enfatizou a importância do escotismo para os jovens (rapazes) Mórmons, como todos os outros profetas desde 1910.

Thomas S. Monson, 16º Presidente da Igreja SUD, saúda os escoteiros.

Advogados de quatro nativos americanos anunciaram ontem que solicitarão a intimação de Monson para depor em um processo contra a Igreja SUD após julgamento do Juíz Federal Robert Shelby negar petição dos advogados da Igreja. No processo, os quatros ameríndios acusam a Igreja de falhar em protegê-los de, e após descobrir os fatos acobertar, múltiplos casos de estupros e abuso sexual de crianças sob sua tutela.

Entenda o caso. Continuar lendo

Leonard Arrington: Poder e Medo das Autoridades Gerais

O Historiador da Igreja entre 1972 e 1982, Leonard J. Arrington, anotou em seu diário algumas observações pessoais sobre como ele enxergava os bastidores da administração eclesiástica da Igreja SUD, o exercício de poder entre Autoridades Gerais e os medos que regiam as reações da liderança da Igreja.

Leonard Arrington

Arrington foi o primeiro não-Apóstolo, e até hoje o único não-Autoridade Geral, a ser chamado para o ofício de Historiador da Igreja desde quando Joseph Smith chamou Willard Richards em 1842 para a posição.

Sob a égide do Apóstolo Howard Hunter, Arrington transformou o campo acadêmico para historiadores mórmons ao abrir os arquivos históricos da Igreja para pesquisadores. Durante uma década, Arrington estimulou e fomentou uma verdadeira revolução nos estudos mórmons à era popularmente chamada de “era de ouro em historiografia mórmon” ou “nova história mórmon”.

Essa liberdade acadêmica e abertura intelectual não passou, porém, incólume. Alguns Apóstolos, como Ezra Benson, Bruce McConkie, Mark Petersen, e Boyd Packer fizeram feroz oposição ao trabalho de Arrington, até que em 1982, ele foi desobrigado em uma reunião secreta privada e seu novo substituto anunciado em Conferência Geral alguns meses depois, sem quaisquer menções a Arrington. Inclusive, ele foi o único Historiador da Igreja a ser desobrigado sem votos de gratidão pela Igreja em conferência.

Arrington, contudo, permaneceu inabalavalmente fiel e ativo na Igreja pelo resto da vida, e ainda mais importante, produzindo e orientando uma nova geração de historiadores até sua aposentadoria como Professor e Chefe de Departamento da BYU.

Entre esses o autor da melhor biografia de David O. McKay, historiador Gregory Prince, que publicou esse ano uma biografia de Leornard Arrington: Leonard Arrington and the Writing of Mormon History. É desta biografia, por exemplo, que descobrimos uma página do diário de Arrington, onde ele lista mudanças que julgava serem necessárias e cruciais para alterar aspectos nocivos e perniciosos dentro da instituição da Igreja SUD.

Diário de Leonard Arrington, com seu retrato ao fundo. (Foto: Scott Sommerdorf l The Salt Lake Tribune)

Diário de Leonard Arrington, com seu retrato ao fundo. (Foto: Scott Sommerdorf l The Salt Lake Tribune)

O diário está sendo preparado para publicação, com previsão para março de 2017. A editora Signature Books lançou um teaser com o trecho mencionado no topo do artigo, de observações anotadas em julho de 1972: Continuar lendo

Mark Petersen: Problemas Raciais – Como Afetam A Igreja

O Apóstolo Mark E. Petersen fez um discurso sobre problemas raciais e a Igreja SUD para uma convenção de professores de religião do Sistema Educacional da Igreja em Provo, Utah, em agosto de 1954.

Mark E. Petersen, Apóstolo da Igreja SUD (1944-1984), a quem Thomas Monson chamou de

Mark E. Petersen, Apóstolo da Igreja SUD (1944-1984), a quem Thomas Monson chamou de “gigante entre homens”: “Aqui e ali, de vez em quando, Deus gera gigantes entre os homens”.

O Apóstolo Mark E. Petersen tentava explicar, com esse discurso, que a Igreja não era racista. O discurso, que rapidamente tornou-se famoso e foi publicado em formato de panfleto e distruibido pela Igreja por décadas, fora entitulado “Problemas Raciais – Como Afetam a Igreja”.

Eis uma tradução do discurso em sua íntegra (ênfases nossas):
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Joseph Smith Era Trinitário?

Trinitarianismo é a doutrina cristã que estabalece que Deus existe como três personagens enquanto sendo um único ser. O três personagens, a saber, Deus o Pai, Deus o Filho (encarnado como Jesus Cristo), e Deus o Espírito Santo, partilham da mesma essência, identidade, e natureza.

Joseph Smith

O termo trinitarianismo vem da expressão Trindade (oriunda do latim “trinitas” para “tríade” e “trinus” para “triplo”) e é frequentemente expresso com o termo grego hipóstases, emprestado da filosofia grega significando a natureza do substrato da realidade por baixo ou por trás de tudo.

A teologia mórmon expressamente rejeita o trinitarianismo, estabelecendo os três deuses como personagens individuais e distintos. O próprio Joseph Smith escreveu, e a Igreja canonizou, uma revelação explicitamente rejeitando essa doutrina:

“O Pai tem um corpo de carne e ossos tão tangível como o do homem; o Filho também; mas o Espírito Santo não tem um corpo de carne e ossos, mas é um personagem de Espírito. Se assim não fora, o Espírito Santo não poderia habitar em nós.”

Contudo, nem sempre Smith pensou assim. No começo de sua carreira profética, Joseph Smith pregava a doutrina do trinitarianismo: Continuar lendo

Igreja SUD Publica Tradução da Bíblia por Joseph Smith

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias publicou, em site dedicado aos documentos históricos legados pelo Profeta Joseph Smith, a sua tradução inspirada da Bíblia.

Joseph Smith Lendo

Entre junho de 1830 e julho de 1833, Joseph Smith produziu o que ele chamava de uma “nova tradução da Bíblia”. Ao março de 1831, Smith anotou uma revelação na qual ele Continuar lendo

Vivemos nos Últimos Dias?

Reza a doutrina mórmon que nós vivemos nos últimos dias. Literalmente os “últimos dias” antes do apocalíptico “fim do mundo” consequente à “destruição de todas as coisas” que acompanharão a “segunda vinda de Cristo”.

Jesus Mórmon

Por isso os “sinais dos tempos” são tão relevantes na cultura mórmon. Tais sinais indicariam a proximidade do fim, ao mesmo tempo que confirmam a fé do mórmon. Esse costume mórmon de procurar, e achar, “sinais dos tempos” em tudo o que vê mundo afora é muito popular entre membros d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (notemos que o foco apocalíptico está logo aí no nome oficial da igreja, segundo apenas ao foco em Jesus Cristo).

Todavia, isso não é uma tendência recente no mormonismo. Avistar “sinais dos tempos” é uma prática tão velha quanto o mormonismo em si. O historiador do mormonismo do século 19, Klaus Hansen, resumiu a prática assim¹:

“Contudo, os Santos não haviam sido deixados num mar de inteira incerteza. Os sinais dos tempos, como faróis, os guiariam através da escuridão e das águas turbulentas até que a luz de Cristo reaparecera. Aos gentios, tais faróis seriam luzes de aviso, se não o fogo do julgamento. Pois entre os sinais incluir-se-iam calamidades da natureza, acidentes ferroviários, fogos, explosões de barcos à vapor, guerras, revoluções, e sinais nos céus. Como não havia nunca grande dificuldade em achar tais catástrofes em abundância, o [jornal da Igreja SUD] Estrela Milenar fielmente os documentava  em cada edição sob uma seção especial entitulada “Sinais dos Tempos”. [Joseph] Smith fazia o mesmo em seu diário pessoal. Toda calamidade no mundo era vista como um sinal do, e uma contribuição para, o fim do mundo. “Todas são”, observou T. B. H. Stenhouse, “para o Santo, confirmações alegres de sua fé, e sugestões do triunfante reconhecimento do… ‘Reino’.”

Portanto, não é de se espantar que se ouve nas capelas, ou se lê nas mídias sociais, frequentes alusões a fatos e tendências contemporâneas como “sinais do tempo” e indicações que “o fim se aproxima”.

Não obstante, a realidade, ou fatos observáveis e mensuráveis, não parecem confirmar os “sinais dos tempos”. Tomemos, por exemplo, Continuar lendo

Igreja Universal Copia Igreja Mórmon?

A Igreja Universal do Reino de Deus mantém um projeto conhecido como ‘Gladiadores do Altar’ desde o começo do ano, que hoje conta com mais de 4.300 voluntários, e que rapidamente viralizou nas mídias sociais por seus maneirismos militaristas.

'Gladiadores do Altar' da Igreja Universal do Reino de Deus (Foto: Reprodução Facebook)

‘Gladiadores do Altar’ da Igreja Universal do Reino de Deus (Foto: Reprodução Facebook)

Líderes da Igreja Universal explicam que o grupo dedica-se a estudos bíblicos e não a criar um grupo paramilitar evangélico, porém desconfianças nas comunidades autóctones abundam.

Estaria a Igreja Universal repetindo a história da Igreja Mórmon? Continuar lendo

Cristóvão Colombo na Doutrina Mórmon

No dia 12 de outubro de 1492, três navios espanhóis sob a liderança do genovês (italiano) Cristóvão Colombo avistaram a ilha de San Salvador nas Bahamas, passando os próximos três meses explorando as ilhas das Bahamas, de Cuba, e de São Domingo no Caribe, e para sempre alterando a história da humanidade e do planeta Terra.

Retrato de Homem, supostamente Cristóvão Colombo, por Sebastiano del Piombo (1485–1547)

Retrato de Homem, supostamente Cristóvão Colombo, por Sebastiano del Piombo (1485–1547)

O que pensam mórmons sobre Colombo, sua façanha, e seu legado histórico?

Em junho de 1829, Oliver Cowdery anotou a seguinte profecia ditada por Joseph Smith, na voz do profeta hebreu Néfi, determinando a visão mórmon da figura histórica de Cristóvão Colombo: Continuar lendo

Desafio de História Mórmon: Revólver

A que importante personagem da história mórmon pertenceu este revólver?

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Thomas Monson de Papelão em Conferência Geral?

Anteontem, durante a terceira sessão da 186a Conferência Geral Semi-Anual d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos, membros da Igreja assistiram o Presidente Thomas S. Monson, encerrar as sessões de sábado com uma breve mensagem.

http://www.sltrib.com/home/4420515-155/frail-mormon-leader-monson-buoys-up

Thomas Monson, discursando na Sessão do Sacerdócio da 186a Conferência Geral Semi-anual, ajudado por um senhor escondido (Fonte: Trent Nelson, Salt Lake Tribune)

Contudo, havia algo escondido da vista dos membros em geral, visível apenas ao mais astuto observador, junto com o Profeta durante seu discurso.

Algo não, alguém.

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Alguém se Opõe aos Profetas? Cale-se, Então!

Ontem, durante a segunda sessão da 186a Conferência Geral Semi-Anual d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos, membros da Igreja gritaram votos em oposição ao Presidente Thomas S. Monson, à Primeira Presidência e aos Doze Apóstolos pela terceira vez em dois anos.

Pelo menos 7 membros ativos da Igreja levantaram-se para votar contra Thomas Monson como Presidente da Igreja

Pelo menos 7 membros ativos da Igreja levantaram-se para votar contra Thomas Monson como Presidente da Igreja, em abril de 2015.

Henry Eyring ignorou, como Dieter Uchtdorf havia feito na última conferência há seis meses, os votos dos membros da Igreja em dissensão aos chamados dos Profetas e Apóstolos. Eyring, visivelmente irritado, encurtava a oportunidade para o(s) membro(s) que estava(m) gritando “oposto” ao alongar demais ou reduzir a pausa para que se manifestassem. Ao final do voto de apoios, simplesmente declarou os votos “anotados” e “convidou”: Continuar lendo

Enigma Mórmon: Emma Hale Smith

Em setembro de 1984, duas intrépidas membros da Igreja SUD e historiadoras publicaram a primeira e, até hoje mais importante, biografia de Emma Hale Smith, esposa do Profeta Joseph Smith.

Retrato de Emma Smith (Cortesia dos Arquivos SUD)

Retrato de Emma Smith (Cortesia dos Arquivos SUD)

Intitulado originalmente Mormon Enigma: Emma Hale Smith, Prophet’s Wife, “Elect Lady”, Polygamy’s Foe (“Enigma Mórmon: Emma Hale Smith, Esposa do Profeta, ‘Mulher Eleita’, Inimiga de Poligamia”), Valeen Tippetts Avery e Linda King Newell produziram, além de uma excelente biografia acadêmica sobre a primeira esposa de Smith, uma reconstrução historiográfica que oferece uma visão ímpar do Profeta através dos olhos de sua mulher.

Recebendo o prêmio de Melhor Livro do Ano da Associação de História Mórmon, e laudado efusivamente pela comunidade acadêmica de estudos mórmons na época (ver aqui, aqui, e aqui) “Enigma Mórmon”, que completou 32 anos essa semana, é um dos grandes marcos na historiografia mórmon.

Quase 3 décadas após sua publicação, a única sobrevivente da dupla de historiadoras escreveu uma breve nota no site de vendas Amazon.com para responder a alguns dos comentários publicados por leitores. A nota oferece algumas explicações básicas a equívocos comuns a respeito da obra, e mais importantemente, uma pequena janela íntima no pensamento de uma das historiadoras mais influentes do mormonismo: Continuar lendo