Mórmons e a Bíblia (Sugestão de Títulos)

Mórmons tem uma relação histórica complexa com a Bíblia. Desde o início do Mormonismo, a Bíblia vem sido utilizada como um texto sagrado, tanto como objeto de devoção, como fonte doutrinárias de crenças.

Não obstante, Joseph Smith introduziu textos que são tão sagrados, se não mais, para Mórmons, que a Bíblia Cristã. Smith também insistiu em incluir, em seus 13 pontos básicos da fé Mórmon (As Regras de Fé), o seguinte qualificador:

“Cremos ser a Bíblia a Palavra de Deus, o quanto seja correta sua tradução…” (PGV, RDF 1)

O próprio Livro de Mórmon condena a Bíblia por haver sido corrompida:

“…aquela grande e abominável igreja que é mais abominável que todas as outras igrejas; pois eis que tiraram do evangelho do Cordeiro muitas partes que são claras e sumamente preciosas; e também muitos convênios do Senhor foram tirados.” (1 Ne 13:26)

Por essas, e por outras, o uso da Bíblia entre Mórmons vem sido parcimoniosa durante os séculos. A minha impressão pessoal, durante os anos de Seminário e Instituto, era que a Bíblia só poderia — ou deveria — ser lida com os guias e manuais da Igreja recheados de correlação e interpretação com e por Autoridades Gerais da Igreja e das outras escrituras modernas. Nunca me senti encorajado a estuda-la por si mesma, aborda-la diretamente com o que ela oferece, ou estuda-la como fonte confiável de eventos históricos ou ensinamentos doutrinários em si.

Pode-se separar o estudo da Bíblia em duas abordagens distintas: 1) A abordagem devocional, e 2) a abordagem acadêmica.  Não há nada de errado com a leitura devocional, que constitui em interpretar passagens com a meta de aplica-las e adapta-las para as questões morais e éticas do dia a dia da vida no século 21. Esta é a leitura que se vê, comumente, nas escolas dominicais e nos cultos religiosos, não só da Igreja SUD, como em quase todas as igrejas Cristãs pelo mundo afora.

A segunda abordagem, a acadêmica, usualmente é relegada às instituições de ensino secular, mesmo em escolas religiosas como as escolas Católicas, Presbiterianas, Metodistas, etc. Infelizmente, ao que me parece, tanto os Institutos de Religião SUD, como os próprios centros universitários Mórmons (e.g., BYU) não tem muito interesse em abordar a Bíblia de uma maneira não-devocional e acadêmica.

É uma escolha válida e que, sem dúvida, tem seus méritos. Não obstante, na minha opinião pessoal, ela priva os SUD acesso a uma riqueza cultural enorme. A primeira vez que eu comecei a estudar a Bíblia (Novo Testamento, na verdade… a Bíblia Hebraica nunca me chamou muita atenção, a parte de um ou dois livros introdutórios), foi como se um novo mundo — que eu achasse que conhecia mas que me era completamente estranho — se abrisse!

Sendo assim, eu estou montando uma série de posts que serviriam de introdução de como se estudar a Bíblia acadêmicamente, ou resumindo os trabalhos acadêmicos de estudos bíblicos para uma audiência leiga (isto é, mais leiga que eu)!

A série deve correr com um ou dois posts por semana por pelo menos um ou dois anos, dependendo do interesse gerado. Eu gostaria de chegar no ponto onde eu posso postar o que estou estudando no momento, e poder debater ideias com outras pessoas que tem interesse em estudar a Bíblia mais a fundo. Pra mim seria ótimo poder por “no papel” o que estou aprendendo, e a troca ajudaria o meu próprio processo de aprendizagem.

Como a audiência para estudos bíblicos é ainda mais ampla que uma audiência estritamente Mórmon, eu espero — torço — que haja interessados vindo de outras tradições e fés para tornar a conversa mais eclética e interessante.

Sendo assim, eu quero ter um título para a série que seja decente, simples, memorável, e convidativo. Nós debatemos as possibilidades, mas sem nenhum consenso, então gostaria de pedir ajuda para o nosso fórum de amigos, leitores, e colaboradores.

Vocês tem interesse em acompanhar uma série assim? De participar numa série assim? E, caso tenham, qual seria o título mais convidativo, mais auto-explanatório, e mais memorável, na sua opinião?

Votem em quantos gostarem, e se não gostarem de nenhum, sugira outro!

7 comentários sobre “Mórmons e a Bíblia (Sugestão de Títulos)

  1. Pingback: Desafio de história mórmon: Joseph e a Bíblia | Vozes Mórmons

  2. Ao ler esse “post”, me senti encorajada de compartilhar um trabalho acadêmico que realizei como estudante de Bacharel em Teologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
    Tratam-se de 104 perguntas e respostas sobre HERMENÊUTICA BÍBLICA.
    Acredito que esse material auxiliará no Estudo da Bíblia na forma proposta neste post.

    Aproveito para elogiar o site “Vozes Mórmons”, pela abertura de abordar temas que poucos tem coragem de expor, seja por ignorância, ou até mesmo preconceito que envolvem o estudo da doutrina cristã sob outras perspectivas. O resultado gerado quando essas barreiras são rompidas, criam o “encantamento” exposto pelo Marcello Jun sobre a sua impressão pessoal ao ler o Novo Testamento.
    Digo isso, porque não sou mórmon e os assuntos desse site despertam o meu interesse por conhecimento que me levam além do aprendizado e troca de experiências, hoje mais restrito às igrejas e às academias de ensino.

    HERMENÊUTICA: Princípios de Interpretação das Sagradas Escrituras – Livro de E. Lund e PC Nelson. Editora Vida, 2012. São Paulo – SP.

    1. O que é hermenêutica?

    No dicionário, hermenêutica significa: “a arte de interpretar textos”. No contexto cristão, hermenêutica faz parte da teologia exegética, que trata da reta explanação e da interpretação da Bíblia.

    2. Para onde leva o fato de ignorá-la?

    Em II Pedro, observamos Pedro alertando sobre os riscos e calamidades, quando pessoas ignorantes dos conhecimentos hermenêuticos se apresentam como eruditos, desvirtuando as Escrituras para provar seus erros, arrastando com eles multidões à perdição.

    3. Por que existem os falsários e hereges?

    Devido à falta de conhecimentos hermenêuticos por aqueles que se apresentam como eruditos, desvirtuando as Escrituras para provar seus erros, arrastando assim com eles multidões à perdição.

    4. Para que nos foram dadas as Escrituras?

    As Escrituras nos foram dadas para o reto discernimento e compreensão de tudo, sendo de extrema necessidade todo o conselho e auxílio que a hermenêutica é capaz de nos fornecer.

    5. Que circunstâncias, na produção das Escrituras tornam necessário o estudo da hermenêutica?

    Devido à variedade de instrução dos autores bíblicos (santos homens), variedades de épocas remotas em que foram escritos, países distantes, e a linguagem simbólica, tornaram a Bíblia no livro mais perseguido pelos inimigos, isso por causa do desconhecimento dos princípios sadios de interpretação. Esses motivos tornam necessário o estudo da hermenêutica.

    6. Por quem, sobre qual assunto e em que épocas e lugares a Bíblia foi escrita?

    As Sagradas Escrituras foram escrita pelos santos homens de Deus, que falaram sempre “inspirados pelo Espírito Santo” e que possuíam educação bem diversa: sacerdotes como Esdras; poetas como Salomão; profetas tal qual Isaías; guerreiros como Davi; pastores como, por exemplo, Amós; estadistas tal qual foi Daniel. Dentro os sábios, como não falar de Moisés e Paulo; e dentre os “pescadores, homens sem letras”, pessoas tão simples como Pedro e João.
    Desses, alguns formulam leis, seguindo o modelo de Moisés, outros escrevem histórias, como Josué. Alguns também escrevem salmos como Davi; outros provérbios, tal qual Salomão. E ainda profecias feitas Jeremias; biografias e cartas, como fizeram, respectivamente, os evangelistas e os apóstolos.

    Acerca do tempo, o período de Moisés se dá quatro séculos antes do cerco de Troia, e três séculos antes de aparecerem os mais antigos sábios da Grécia e da Ásia, como Tales, Pitágoras e Confúcio. Já o último autor bíblico, João, viveu cerca de 1.500 anos depois de Moisés.

    Acerca do lugar, os textos bíblicos foram escritos em lugares tão diferentes como o são o centro da Ásia, as areias da Arábia, os desertos da Judéia, os pórticos do templo, as escolas dos profetas em Betel e Jericó, os palácios da Babilônia, as margens do Quebar e em meio à civilização ocidental, tomando-se as figuras, símbolos, expressões de usos, costumes e cenas, oferecidos por essa diversidade de locais.

    7. De que maneira tais circunstâncias requerem conhecimentos hermenêuticos?

    Os autores bíblicos foram plenamente inspirados, mas não de tal modo que se tornasse desnecessário o mandamento de esquadrinhar as Escrituras e se desconsiderasse tamanha variedade de pessoas, assuntos, épocas e lugares. Essas circunstâncias tiveram influência não na verdade divina expressa na linguagem bíblica, mas na própria linguagem de que se ocupa a hermenêutica. Portanto é necessário que elas sejam compreendidas pelo pregador, intérprete e pelo expositor bíblico.

    8. Por que razões certos eruditos negam a inspiração divina da Bíblia?

    Algumas cartas de Paulo que foram comentadas pelo apóstolo Pedro (2 Pedro 3.16), contêm algumas coisas difíceis de entender, as quais os ignorantes e instáveis torcem, como também o fazem com as demais Escrituras (as do Antigo Testamento), para a própria destruição. Infelizmente algumas pessoas ignorantes dos conhecimentos hermenêuticos se apresentaram como eruditos, desvirtuando as Escrituras para provar seus erros, arrastam com eles multidões.

    9. De que maneira científica se revela o invisível? Quais são os planos e também o procedimento divino nesse caso?

    Em Romanos 1.20 Paulo disse: “Desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, tem sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas”.
    Portanto, o Universo visível, é um grande dicionário divino, repleto de inumáveis palavras que são objetos visíveis, vivos e mortos, ativos e passivos, expressões simbólicas das ideias invisíveis de Deus.
    Assim, nada mais natural que, ao inspirar as Escrituras, Deus, em seus planos e procedimentos divinos, criou o seu próprio dicionário, levando-nos por meio do visível ao invisível, pela encarnação do pensamento ao próprio pensamento; pelo objetivo ao subjetivo, pelo conhecimento e familiar ao desconhecido e espiritual.
    Isso não foi apenas natural, mas absolutamente necessário, em vista de nossa condição atual, uma vez que as palavras exclusivamente espirituais ou abstratas pouco ou quase nada dizem ao homem natural. Deus tem levado em conta esta nossa condição.
    Assim, não devemos estranhar que, a fim de elevar-nos à concepção possível do céu, Ele utilize figuras ou semelhanças tomadas das cenas gloriosas da terra; nem devemos estranhar que, para elevar-nos à concepção possível da sua própria pessoa, ele sirva do que foi a “coroa da criação”, apresentando-se como ser corporal semelhante a nós. É importante dizer que para a correta compreensão da verdade, tanto em símbolo ou figura, pela necessidade humana, são necessários meditação e estudo profundo.

    10. Por que foi necessário o uso de linguagem figurada na revelação, do ponto de vista humano?

    Porque a linguagem figurada conduz ideias à mente com muito mais vivacidade que a descrição prosaica, ou comum. Encanta e recria a imaginação e, ao mesmo tempo, instrui a alma e fixa a verdade na memória, agradando o coração.

    11. Por que outra razão a linguagem bíblica é mais apropriada, ou conveniente, para a humanidade?

    Porque as Sagradas Escrituras tratam de temas que abrangem o céu e a terra, o tempo e a eternidade, o visível e o invisível, o material e o espiritual. A linguagem bíblica nos foi entregue por pessoas de variada natureza, épocas remotas, países distantes entre si, em meio a povos e costumes diferentes e em uma linguagem simbólica, que facilmente se perceberá que para o reto discernimento e compreensão de tudo, é de extrema necessidade todo o conselho e auxílio que a hermenêutica é capaz de oferecer.

    12. Em resumo: por que é de extrema importância o conhecimento da hermenêutica para a boa compreensão da Bíblia?

    O conhecimento de hermenêutica livra aqueles que consideram a linguagem bíblica ofensiva ou incompatível com seu ideal imaginário de revelação divina, isso em razão da superabundância de toda espécie de palavras e expressões figuradas e simbólicas presentes nas Escrituras. Algum conhecimento de hermenêutica também livraria essas pessoas da dificuldade e os convenceria de que tal linguagem não apenas é a divina por excelência, como também é a mais cientifica e literária.

    13. Qual foi o objetivo da inspiração das Escrituras?

    As Escrituras são divinamente inspiradas e em II Timóteo 3.16,17 encontramos o motivo da inspiração das Escrituras: “A Bíblia é útil para ensino, para repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem seja apto e plenamente preparado para toda boa obra”.

    14. Que devemos esperar quanto à linguagem bíblica, sendo tal seu objetivo?

    A linguagem bíblica é simples e clara. Nela encontramos os grandes princípios e deveres cristãos expressos em linguagem simples e clara, evidente e palpável. Cada página ressalta a espiritualidade e santidade de Deus; ao mesmo tempo, a espiritualidade e o fervor demandam adoração.

    15. Em relação a que pontos específicos à linguagem bíblica é muito compreensível?

    Com relação à queda e corrupção humana e a necessidade de arrependimento e conversão; aos assuntos relacionados à remissão do pecado em nome de Cristo e a salvação por seus méritos, a vida eterna pela fé em Jesus, e ao mesmo tempo, a morte eterna pela falta de fé no Salvador.

    16. Como é possível haver nas Escrituras pontos obscuros que requerem cuidadoso estudo e correta interpretação?

    Os pontos obscuros que requerem cuidadoso estudo são os que necessitam de discernimento, pois há expressões nas Escrituras que foram escritas em países distintos e épocas distintas, bem diferentes da nossa.

    17. Em quais casos necessitamos dos conselhos da hermenêutica?

    Unicamente nos casos de dificuldade e não com relação simples e claro.

    18. Como poderíamos, em primeiro lugar, para elucidar um ponto obscuro, em qualquer documento ou legado apresentado em nosso favor?

    Através da explicação do autor, se isso fosse possível.

    19. Se nos fosse oferecida luz mediante a condição de trabalho, como procederíamos?

    Através da leitura e releitura, tomando as palavras e frases no sentido usual e corrente.

    20. Se não encontramos a desejada clareza por meio do conjunto da frase na qual ocorre a expressão obscura, o que devemos fazer?

    Buscando a luz em outras partes do documento (pelo contexto anterior e posterior).

    21. Se pelo contexto não conseguimos luz, como devemos proceder?

    Verificando os parágrafos ou frases semelhantes mais explícitas.

    22. Se não é suficiente a passagem inteira, o que fazer?

    Buscando nas Escrituras pontos que tratem do mesmo assunto que a expressão obscura que causa dúvida ou perplexidade.

    23. Por que é necessário proceder de maneira que o próprio documento se torne seu intérprete?

    Porque se fosse realizado procedimento diferente, estaríamos contrariando a vontade do autor e no final correríamos o risco de uma interpretação por interesse e pouco rigorosa.
    24. Quem foi o primeiro intérprete da palavra de Deus e quais as suas astúcias?

    Foi o diabo. Suas astucias é atribuir à palavra divina um sentido que ela não tinha, falseando astuciosamente a verdade, truncando-a, ou seja, citando parte que lhe convinha e omitindo a doutrina.

    25. Qual deve ser a regra fundamental na interpretação da Bíblia e por quê?

    A “Escritura” explicada pela “Escritura”, ou seja, a Bíblia sendo a sua própria intérprete.

    26. Quais os males que resultam de não interpretar as Escrituras por si mesmas?

    Resulta em nefastos erros pela fixação em palavras e versículos arrancados de seu conjunto e não permitindo à Escritura explicar-se a si mesma.

    27. Quem prova o que quer com a Bíblia?

    Aqueles que ignoram ou violam o princípio simples e racional de que a Bíblia explica a própria Bíblia.
    Exemplos: Os judeus que utilizaram a Bíblia como apoio fictício para rejeitar a Cristo e o apoio dos papistas que encontraram aparente apoio na Bíblia que apoiaram o papado e que realizaram matanças relacionadas a ele; A Inquisição; Os espíritas que acharam aparente apoio para sua errônea encarnação; os comunistas para sua repartição dos bens; os incrédulos zombadores, para as contradições; os surrealistas para os seus erros blasfemos; Wilson e Roosevelt para o seu militarismo.

    28. Por que não se pode provar o que se deseja com a Bíblia?

    Para evitar distorções do sentido real do autor.

    29. Como se deve considerar a interpretação particular, individual, papista ou protestante?

    Deve-se interpretar como má vontade, incredulidade, preguiça em estudar a Bíblia, gerando apego a ideias falas e mundanas e a ignorância a toda regra de interpretação são responsáveis por pretensa interpretação (provar o que se deseja com a Bíblia).

    30. Que princípio da interpretação recomendavam os célebres autores da Antiguidade?

    De que “As Escrituras são a sua melhor intérprete”.

    31. O que é exigido para que essa ou aquela doutrina ou declaração seja positivamente bíblica?

    Não se pode considerar completamente bíblica uma doutrina antes de resumir e encerrar tudo o que a Escritura diz sobre ela. Tampouco “um dever” é “interinamente bíblico” se não abarca e resume todos os ensinos, prescrições e reservas que se encontram na Palavra de Deus em relação ao mesmo.
    Cometem delito de falhar antes de haver examinado as partes todos aqueles que estabelecem doutrinas sobre palavras ou versículos extraídos do conjunto, sem permitir à Escritura explicar-se a si mesmo.

    32. Que princípio fundamental deve servir-nos de base em todo o estudo bíblico?

    O princípio de que a Bíblia é a sua própria intérprete e que ela é a regra das regras. Do contrário, podemos incorrer erros e atrair sobre nós a maldição que a própria Escritura pronuncia contra os falsificadores da Palavra.

    33. Qual deve ser o primeiro cuidado na correta interpretação das Escrituras?

    Averiguar e determinar qual seja o sentido corrente das Escrituras.

    34. Qual o princípio fundamental que se deve sempre levar em consideração na interpretação?

    O princípio de que o Livro há de ser seu próprio intérprete, principio a partir do qual se chega a outros, que chamamos regras ou pautas de interpretação.

    35. Qual é a primeira regra que se deduz da “regra das regras”?

    A primeira regra é a de que é preciso, o quanto seja possível, tomar as palavras em seu sentido usual e comum.

    36. Por que é tão importante essa regra?

    Ignorando ou violando-a, em muitas partes da Escritura não prevalecerá outro sentido senão aquele que o capricho humano queira lhe conceder.

    37. Que diferença há entre o sentido usual ou comum e o sentido literal?

    O sentido usual ou comum corresponde aquilo que o texto diz da forma como se está escrito. Exemplo: Houve quem imaginasse que as ovelhas e os bois mencionados no salmo 8 eram os crentes, enquanto as aves e os peixes serem os incrédulos, de onde se concluía assim, que todos os homens, queiram ou não, estão submetidos ao poder de Cristo. Se tivesse sido levado em conta o sentido usual e comum das palavras, o intérprete não teria caído em semelhante erro.
    O sentido literal significa considerar o texto ao pé da letra.

    38. Por que não se devem tomar sempre as palavras em seu sentido literal?

    Porque ao tomar as palavras no sentido literal (ao pé da letra), estaríamos ignorando que cada idioma tem seus modos próprios e inerentes de interpretação, e tão singulares que, se houver tradução ao pé da letra, perde-se ou é destruído completamente o sentido real e verdadeiro.

    39. Por que a Bíblia foi escrita em linguagem popular e figurada, e não em linguagem científica?

    Porque os autores sagrados não se dirigem a uma classe determinada de pessoas privilegiadas, mas ao povo em geral. Desse modo é perceptível à liberdade, a variedade e o vigor em sua linguagem, que é visível ao farto uso de toda sorte de figuras retóricas, símiles, parábolas e expressões simbólicas.

    40. De quem tratam nessa lição, o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto exemplos?

    “Porque toda carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra”. Gênesis 6.12. A palavra “carne” se refere a “pessoas” e caminho significa “costumes”.

    “… e nos levantou uma poderosa salvação na casa de Davi, seu servo”. Lucas 1.69 e
    “Qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e perdendo uma delas, não acende uma candeia, varre a casa e procura atentamente, até encontrá-la?” Lucas 15.8. A palavra “casa” nesses versículos comumente refere-se a “família”.

    “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe,”…. não pode ser meu discípulo. Lucas 14.26. A palavra “aborrecer” no sentido literal contraria o preceito de “amar os seus inimigos”.

    Esses exemplos tratam de figuras e modos próprios e peculiares da linguagem bíblica, possuindo “hebraísmos”.

    41. Que são hebraísmos?

    São expressões peculiares do idioma hebreu.

    42. Como se obtém a familiaridade necessária para distinguir linguagem literal e linguagem figurada?

    Exemplo:
    Quando lemos em Gênesis 6.12: “Porque toda carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra”,e tomamos as palavras “carne e caminho” em sentido literal, o texto perde o significado comum. Tomando essas mesmas palavras como figuras, ou seja, “carne” no sentido de “pessoa” e “caminho” no sentido de “costumes, modo de proceder ou religião”, o texto assume um significado determinante, conclusivo, dizendo-nos que “toda pessoa havia corrompido seus costumes”. E Paulo nos declara a mesma verdade, sem figura, dizendo: “Não há ninguém que faça o bem” (Romanos 3.12).

    43. Se as palavras não são usadas no mesmo sentido, como sabemos em cada caso qual o verdadeiro significado?

    Averiguando e determinando sempre, qual o pensamento especial que o autor se propõe a expressar, e desse modo, fazendo desse pensamento uma diretriz, determinando assim o sentido positivo do termo complexo.

    44. O que diz a regra que deve ser observada no caso em que as palavras variam de sentido?

    Diz que é necessário tomar as palavras no sentido que indica o conjunto da frase.

    45. Como, por exemplo, varia o sentido da palavra “fé”?

    “Fé” comumente significa confiança, mas há outras acepções.
    Em Gálatas 1.23: “Agora está anunciado à fé que outrora procurava destruir”. No conjunto desse versículo observamos que a palavra “fé” significa “crença”, ou seja, a doutrina do evangelho.
    Em Romanos 14.23: “Mas aquele que tem dúvida é condenado se comer, porque não come com fé; e tudo o que não provém da fé é pecado”. Pelo conjunto desse versículo, “fé” significa convicção; a certeza do dever cristão para os irmãos.

    46. Como varia o significado da palavra “salvação”?

    “Salvação e salvar” são palavras usadas frequentemente no sentido de libertação do pecado e de suas consequências.
    Em Atos 7.25: “Ele (Moisés) pensava que seus irmãos compreenderiam que Deus o estava usando para salvá-los”. A palavra “salvar” nesse versículo, tem sentido de “liberdade temporal”.
    Em Romanos 13.11: “Agora a nossa salvação está mais próxima do que quando cremos”. A palavra “salvação” nesse versículo equivale à vinda de Cristo.

    47. Como varia o significado da palavra “graça”?

    O significado da palavra “graça” é favor, mas ela também tem outros sentidos.

    Em Efésios 2.8: “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus”. A palavra “graça” significa nesse versículo a pura misericórdia e bondade de Deus manifestadas aos crentes sem mérito nenhum da parte deles.
    Porém a palavra “graça” em Atos 14.3, significa a pregação do evangelho, como segue: “Eles, entretanto, se demoraram ali por muito tempo, falando ousadamente acerca do Senhor, o qual dava testemunho à palavra da sua graça, concedendo que por suas mãos se fizessem sinais e prodígios”.
    Em 1 Pedro 1.13: “Estejam alertas e coloquem toda a esperança na graça que lhes será dada quando Jesus Cristo for revelado”. A palavra “graça” nesse caso refere-se à bem aventurança que ele trará na sua vinda.
    Em Tito 2:11: “A graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” e em Hebreus 13.9 “É bom que o nosso coração seja fortalecido pela graça, e não pelos alimentos cerimoniais”, a palavra “graça” corresponde também às doutrinas do evangelho, em oposição às que tratam de alimentos relacionados às práticas judaicas.
    48. Quais são os diferentes significados da palavra “carne”?

    Em Ezequiel 36.26: “… e lhes darei um coração de carne”, ou seja, uma disposição terna e dócil.
    Em Efésios 2.3: “Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne”, a mesma palavra significa nossos “desejos sensuais”.
    Em I Timóteo 3.16: “Aquele (Deus) que se manifestou em carne”, é um termo que equivale à forma humana.
    Em Gálatas 3.3: “Tendo, começado no Espírito, acabeis agora pela carne”. A palavra tem sentido de observar as cerimônias judaicas, como circuncisão feita na carne.

    49. Como varia o significado da palavra “sangue”?

    Em Mateus 27.25: “Que o sangue dele caia sobre nós e sobre nossos filhos!”. “Sangue” nesse versículo tem conotação de sentido de culpa e suas consequências, por matar um inocente.
    Em Efésios 1.17: “Nele temos a redenção por meio de seu sangue” e em Romanos 5.9: “Como agora fomos justificados por seu sangue, muito mais ainda, por meio dele seremos salvos da ira de Deus!”, o conjunto de frases torna claro que “sangue” diz respeito à morte expiatória de Cristo na cruz.

    50. Quando é que a presente regra tem importância especial?

    Quando for determinar se as palavras devem ser tomadas no sentido literal ou no sentido figurado. Para não cometer erros, é muito importante, também nesse caso, deixar-se guiar pelo pensamento do autor e tomar as palavras no sentido indicado pelo conjunto do versículo.

    51. Por que não se pode tomar no sentido literal a palavra “corpo” em Mateus 26.26?

    Em Mateus 26.26 diz: “Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o, e o deu aos seus discípulos, dizendo: Tomem e comam; isto é o meu corpo”.
    Não se pode tomar esse versículo no sentido literal, porque Jesus usa essa palavra no sentido simbólico, fazendo que os seus discípulos compreendam que o pão representa o seu corpo.

    52. Por que se deve compreender em sentido figurado a palavra “chaves” em Mateus 16.19?

    Em Mateus 16.19 diz: “Eu lhes darei as chaves do Reino dos céus”, diz Cristo a Pedro. Pelo conjunto dessa frase, vemos que a palavra “chaves” não é usada no sentido literal ou material, uma vez que o Reino dos céus não é um lugar terreno onde se possa entrar utilizando chaves materiais. Desse modo, deve-se tomar o termo em sentido figurado, simbolizando autoridade, a mesma autoridade de ligar e desligar ou perdoar e reter pecados que em outra ocasião Jesus também deu a seus discípulos (Mateus 18.18; João 20.23).

    53. Qual é a terceira regra?

    É necessário tomar as palavras no sentido indicado no contexto, a saber, os versículos que antecedem e precedem o texto que se estuda.

    54. Que se entende por contexto?

    É a avaliação do que precede e o que se segue no conjunto de frase para determinar o verdadeiro significado de certas palavras.

    55. Para que, e de quantas maneiras, é útil o contexto?

    O contexto é útil quando o conjunto de frase não bastar para determinar o verdadeiro significado das palavras. Em tal caso, devemos começar a leitura bem antes da expressão obscura e continuá-la até mais adiante, para levar em conta o que a precede e o que se segue a ela.

    56. Que existe no contexto que explica expressões obscuras? Exemplifique.

    No contexto é que achamos expressões, versículos ou exemplos capazes de nos esclarecer e definir o significado da palavra obscura.
    Exemplo: Quando Paulo diz: “Ao lerem isso vocês poderão entender a minha compreensão do mistério de Cristo” (Efésios 3.4), ficamos um tanto indecisos com relação ao verdadeiro significado da palavra “mistério”. Porém, graças aos versículos anteriores e posteriores, verificamos que o termo “mistério” se aplica à participação dos gentios nos benefícios do Evangelho. Em outras passagens, a mesma palavra é encontrada em sentido diferente, sendo necessário, em cada caso, o contexto para determinar o significado exato.

    57. Que exemplos temos do esclarecimento de palavras obscuras por palavras semelhantes ou opostas às obscuras?

    Efésios 3.4: “Ao lerem isso vocês poderão entender a minha compreensão do mistério em Cristo”, ficamos indecisos com relação ao verdadeiro significado da palavra “mistério” utilizada por Paulo. Avaliando os versículos anteriores e posteriores, vemos que “mistério”, se aplica a participação dos gentios nos benefícios do Evangelho.

    Gálatas 4.3,9-11: “Assim também nós, quando éramos meninos estávamos reduzidos à servidão, debaixo dos rudimentos do mundo”. Também ficamos sem entender o que são os rudimentos do mundo. Nesse caso a análise dos versículos anteriores e posteriores, explica que se trata de práticas de costumes judaicos.

    Gálatas 3.17: “Quero dizer isto: A Lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não anula a aliança previamente estabelecida por Deus, de modo que venha a invalidar a promessa”. A palavra “aliança” é explicada pelo vocábulo “promessa”. Esse é um exemplo que outras vezes, a palavra obscura acaba se tornando clara no contexto por meio de sinônimos ou ainda por meio de palavra oposta e contrária a essa expressão obscura.

    58. De que forma o contexto nos ajuda em certas expressões de ideias absolutas? Cite exemplos.

    Quanto tomadas em sentido restritivo, conforme assim o determine alguma circunstância especial do contexto, ou melhor, do conjunto de declarações das Escrituras em assuntos de doutrina.
    Exemplos:
    a) Quando Davi exclama: “Julga-me, Senhor, conforme a minha justiça, conforme minha integridade”. Salmos 7.8. O contexto nos faz compreender que Davi apenas proclama sua retidão e integridade em oposição às calúnias que Cuxe, o benjamita levantara contra ele.
    b) Na parábola do administrador astuto (ou infiel), temos a indicação de sua conduta como digna de imitação. No entanto, pelo contexto verificamos o exemplo limitado à “prudência” (ou astúcia) do administrador, com a total exclusão de seu procedimento obscuro.

    59. Que devemos considerar em relação ao contexto e aos parênteses?

    Se o texto entre parêntese é curto, não existe dificuldade quando rompe o fio do argumento ou narração. Porém quando o texto entre parêntese é longo, requer particular atenção, como acontece nas epístolas de Paulo.

    60. De que serve o contexto em relação às expressões literais ou figuradas? Dê exemplos.

    Em relação às expressões literais ou figuradas, o contexto serve para determinar se a expressão deve ser tomada ao é da letra ou em sentido figurado.
    Exemplos:
    a) Quando Jesus chama o vinho de “sangue da aliança”, compreendemos pelo contexto que a palavra “sangue” deve ser tomada no sentido figurado, já que Jesus volta a denominar o vinho de “fruto da videira”, embora o tivesse abençoado (Mateus 26-27-29). Daí obsevamos que não vem de Jesus o ensino da transformação do vinho em sangue verdadeiro de Cristo, como pretendem os que criam caso fora do contexto, desvirtuando as Escrituras para sua perdição.
    b) Quando Paulo fala em 1 Coríntios 3.12 sobre edificar: “Se alguém constrói sobre esse alicerce usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha…”, observamos pelo contexto que ele se refere ao próprio Cristo como o fundamento do edifício. Deve-se tomar tais palavras no sentido espiritual, estando assim representadas, sem dúvida, as doutrinas legítimas e as doutrinas falsas com suas consequências.

    61. Qual é a quarta regra que convém levar em consideração na interpretação das passagens obscuras?

    É a regra que diz que é preciso levar em consideração o objetivo ou desígnio do livro ou passagens em que ocorrem as palavras ou expressões obscuras.
    Essa regra nada mais é do que a ampliação dos preceitos anteriores no caso de nem o conjunto da frase nem o contexto oferecem luz suficiente para eliminar a dificuldade e dissipar toda dúvida.

    62. Como se obtém o desígnio ou objetivo de um livro ou passagem?

    Por meio de repetidas leituras e estudo cuidadoso, considerando que ocasião e a que pessoas originalmente foram escritos.

    63. Qual é o desígnio da Bíblia, dos Evangelhos e dos Provérbios?

    É o da clareza, por exemplo, Romanos 15.4 e 2 Timóteo 3.16 e 17; o dos Evangelhos, em João 20.31; o de 2 Pedro 3.2; e o de Provérbios 1.1,4.

    64. Que auxílio nos oferece o desígnio de um livro ou passagem na interpretação?

    Oferece auxílio na explicação de pontos obscuros e na elucidação de textos que parecem contraditórios, além de proporcionar um conhecimento mais profundo de passagens em si claras.

    65. Com que motivo e consequente desígnio foram escritas as cartas aos gálatas e aos colossenses?

    As cartas aos gálatas e aos colossenses foram escritas na ocasião dos erros que, com grande dano, os judaizantes ou “falsos mestres” procuravam implantar nas igrejas apostólicas, que pregavam as obras, as observâncias de dias e cerimônias judaicas, a disciplina do corpo e a falsa filosofia.

    66. Como explicar, pelo desígnio a expressão: “Obedeça aos mandamentos”, que parece contradizer a doutrina da salvação pela fé?

    Jesus quis valer-se da mesma lei e do mandamento novo de “vender tudo” o que possuía e levá-lo ao conhecimento das próprias faltas dele para com a Lei divina e à consequente humilhação; o que também conseguiu fazendo-o compreender que não passava de um pobre idólatra das próprias riquezas, que não havia cumprindo nem mesmo o primeiro mandamento da Lei. Nesse caso, Jesus utilizou a Lei como “tutor” (Gálatas 3.24), conforme o apóstolo, para conduzir o pecador à verdadeira fonte de salvação, e é por isso que Jesus lhe indica os mandamentos.

    67. Como se harmonizam os textos de Paulo e Tiago, se um diz: “Pois sustentamos que o homem é justificado pela fé, independente da obediência à Lei” (Romanos 3.28), enquanto o outro: “Vejam que uma pessoa é justificada por obras, e não apenas pela “fé” (Tiago 2.24)”?

    A contradição desaparece a partir do momento em que consideramos o desígnio diferente das cartas de um e do outro. Paulo combate e refuta o erro dos que confiavam nas obras da lei mosaica como meio da justificação e rechaçavam a fé em cristo. Já Tiago combate o erro de desordenados que se contentavam com uma fé imaginária, descuidando das obras e se opondo a elas.
    Por isso, Paulo trata da justificação pessoal diante de Deus, enquanto Tiago se ocupa da justificação pelas obras diante dos homens.

    68. Como se explica de modo satisfatório a afirmação de João de que o cristão “não pode estar no pecado” (1 João 3.9)?

    Entendendo que o propósito da carta é o de prevenir para que as pessoas não pequem, o que admite a possibilidade de cair em falta.

    69. Como se harmonizam as passagens a respeito de guardar as festas em Gálatas 4.10,11 e em Romanos 14.5,6?

    Elas se harmonizam entendendo que o objetivo geral da carta aos Gálatas era simplesmente o de resistir a doutrina dos falsos mestres, cuja ação desviava os crentes e que a carta aos Romanos tinha o objetivo de estabelecer a paz em um grupo de irmãos fracos, convertidos do judaísmo, os quais criticavam os crentes mais firmes, que por sua vez, desprezavam os fracos. Esses irmãos que haviam imposto não comer carne nem beber vinho e guardavam as festas judaicas, não se encontravam no grave perigo de Gálatas. Por isso o apóstolo diz que alguns consideram todos os dias iguais, enquanto outros observam certo dia como preferência a outro, afirmando que os que assim o fazem para o Senhor. Por este motivo, Paulo não se opõe diretamente e definitivamente a isso.

    70. Qual é a quinta regra?

    É necessário consultar as passagens paralelas, “explicando coisas espirituais pelas espirituais”.

    71. O que se entende por “paralelos”?

    Nesse caso, as passagens paralelas fazem referência uma à outra, que tenham entre si alguma relação ou tratem de um mesmo assunto.

    72. Por que se devem consultar os paralelos?

    Porque uma doutrina bíblica não pode ser considerada inteiramente como tal sem resumir e expressar com fidelidade tudo o que a Bíblia estabelece e excetua em suas diferentes partes em relação à passagem específica.

    73. Que tipos de paralelos existem?

    Existem paralelos de palavras, paralelos de ideias e paralelos de ensinos gerais.

    74. Que se entende por “paralelos de palavras”?

    Trata-se de um tipo de paralelo que se pode usar quando nem o conjunto de frases nem o contexto são suficientes para explicar uma palavra duvidosa. Assim, procura-se algumas vezes obter seu verdadeiro significado pela consulta de outros textos em que tal palavra ocorre. Outras vezes, tratando-se de nomes próprios, pode-se recorrer ao mesmo procedimento a fim de pôr em destaque fatos e verdades que de outro modo perderiam sua importância e significado.

    75. Como se explica a palavra “marcas” em Gálatas 6.17.

    Nessa passagem Paulo diz: “Trago em meu coração as marcas de Jesus”. Nesse caso nem o conjunto de frase nem o contexto explicam. Portanto é necessário dirigir-se às passagens paralelas. Em 2 Coríntios 4.10, Paulo usa a expressão: “Trazemos sempre em nosso corpo o morrer de Jesus”, para falar da cruel perseguição que continuamente Cristo padecia, o que nos mostra que essas marcas se relacionam com a perseguição sofrida.

    76. Por que “revestidos” não significa estar coberto com a túnica batismal ou veste decorosa em Gálatas 3.27?

    Graças às passagens paralelas em Romanos 13.13,14 e Colossenses 3.12-14, torna-se claro que estar revestido de Cristo consiste em ter deixado as práticas carnais, como luxúria, dissoluções, contendas e ciúmes; por outro, consiste em haver adotado como uma veste decorosa a pratica de uma vida nova, como misericórdia, benevolência, humildade, mansidão, tolerância e, principalmente, amor.

    77. Como se obtém o verdadeiro sentido da expressão “homem segundo o coração de Deus”?

    Essa passagem encontra-se em Atos 13.22. Nos paralelos, observamos em 1
    Samuel 2.35 que Deus disse:”Levantarei para mim um sacerdote fiel, que agirá de acordo com o meu coração”. Disso resulta, tomando toda a passagem em consideração, que Davi, especialmente na qualidade de sacerdote-rei, procederia segundo o coração ou a vontade de Deus. Essa ideia encontra-se também plenamente confirmada na passagem paralela de 1 Samuel 13.14, onde verificamos que Davi, em vista do rebelde Saul e contrário à sua má conduta como rei, seria um homem segundo o coração de Deus. Pela história e pelos Salmos, Davi foi em geral um homem piedoso, e em muitos casos, digno de imitação, porém os paralelos de passagem não nos permite considerá-lo como um modelo de perfeição.

    78. Para que servem os paralelos no caso dos nomes próprios?

    Esses paralelos servem para esclarecer aparentes contradições. Por exemplo, Balaão nos capítulos 22 e 24 de Números, que nos deixa em dúvida quanto a ele e a seu verdadeiro caráter e se ele foi realmente profeta. Consultando os paralelos do NT, verificamos em 2 Pedro 2.15,16 e Judas 11, que ele foi um pretenso profeta que agia levado pela paixão da cobiça; e mediante Apocalipse 2.14, vemos que pelas instigações dele Balaque fez os israelitas caírem em tão grande pecado, que lhes custou a destruição de 23.000 pessoas.

    79. Como se elucidam as aparentes contradições por meio dos paralelos?

    Buscando o entendimento no mesmo livro ou autor em que se encontra, depois nos demais da mesma época e, por fim, em qualquer livro das Escrituras. Isso é necessário, porque às vezes, o sentido de uma palavra varia conforme o autor que a usa, a época em que foi empregada e ainda, conforme o texto em que ocorre no mesmo livro.

    80. Como se deve proceder aos consultar os paralelos de palavras?

    Deve-se buscar os paralelos em primeiro lugar em um mesmo autor, mas sem ter a expectativa de que todas as expressões iguais sirvam de paralelos. Em segundo lugar, nos escritos que datam de uma mesma época (de preferência, nas Escrituras como um todo), lembrando que nem todas as expressões iguais podem ser usadas como paralelos.

    81. Dê exemplos em que se demonstre a necessidade de buscar paralelos em um mesmo autor em uma mesma época.

    Em Gálatas 6.17 Paulo diz: “Trago em meu coração as marcas de Jesus”. Em 2 Coríntios 4.10, Paulo usa a expressão: “Trazemos sempre em nosso corpo o morrer de Jesus”.

    Em 1 Samuel 2.35 que Deus disse:”Levantarei para mim um sacerdote fiel, que agirá de acordo com o meu coração”.Em 1 Samuel 13.14, ““… já tem o Senhor buscado para si um homem segundo o seu coração, e já o tem destinado para ser príncipe sobre o seu povo, porquanto não guardaste o que o Senhor te ordenou.

    82. Que se entende por “paralelos de ideias”?

    Trata-se da consulta de ensinos, narrativas e fatos contidos em passagens ou textos elucidativos que se relacionem com o texto obscuro ou discutível.

    83. Como se explica a palavra “todos” “Bebam dele todos vocês” na ordem da comunhão?

    Essa passagem se encontra em Mateus 26.27 e diz que Jesus ao instituir a ceia, ofereceu o cálice aos discípulos dizendo: “Bebam dele todos vocês”.
    Em 1 Coríntios 11.22-29, nada menos que seis versículos consecutivos nos apresentam “o comer do pão e beber do cálice do Senhor” como fatos inseparáveis na ceia, destinando os elementos a todos os membros da igreja, sem distinção. Desse modo, é invenção humana, destituída de fundamento bíblico, o fato de que alguns participarem do pão e outros do vinho na comunhão.

    84. Como se prova que Pedro não é a pedra que Jesus menciona em Mateus 16.18?

    Quando Jesus disse: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. Mateus 16.10, ele não constituiu Pedro como fundamento da Igreja, estabelecendo o primado de Pedro e dos papas como afirmam os papistas. Nada melhor que os paralelos que as palavras de Cristo e Pedro, respectivamente, oferecem para determinar o significado do texto.
    Em Mateus 21.42,44, vemos o próprio Jesus como a pedra fundamental ou “pedra angular”, profetizada e caracterizada no Antigo Testamento. E mesmo Pedro, em conformidade com essa ideia, declara que Cristo é a “pedra viva”, “a principal pedra angular”. 1 Pedro 2,4,8. Paulo confirma e explica a mesma ideia, dizendo aos membros da igreja de Éfeso que eles são “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Cristo a principal pedra angular. Nele todo o edifício bem ajustado cresce para templo santo no Senhor”. Efésios 2.20, 21. Acerca desse fundamento da igreja, lançado pela pregação de Paulo “como sábio construtor” entre os coríntios, o apóstolo disse: “Pois ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo”. 1 Coríntios 3.10,11.

    85. Qual é o procedimento no estudo dos paralelos de ideais?

    O procedimento é entender as passagens obscuras mediante paralelos mais claros; as expressões figurativas mediante os textos paralelos próprios sem figura; e as ideias sumariamente expressas mediantes paralelos mais extensos e explícitos.

    86. Segundo as Escrituras, como é que o amor cobre pecado?

    Essa afirmação está em 1 Pedro 4.8. Pelo contexto e ao compará-lo com 1 Coríntios 13 e Colossenses 1.4, compreendemos que a palavra “amor” aqui é usada no sentido de amor fraternal. Em Romanos 4.8 e em Salmos 32.1, vemos o pecado perdoado sob a figura de “pecado coberto”, ou apagado, enterrado no esquecimento, como nós diríamos.

    87. Como se demonstra o verdadeiro sentido da expressão “nova criatura” em Gálatas 6.15?

    Consultando o paralelo de 2 Coríntios 5.17, verificamos que nova criatura é alguém que “está em Cristo” e para quem “as coisas velhas já passaram, tudo se fez novo”. Já em Gálatas 5.6 e 1 Coríntios 7.19 temos nova criatura como a pessoa que tem fé e obedece aos mandamentos de Deus.

    88. De que maneira se obtém total clareza em relação à ideia de “justificação pela fé”?

    Par a obter clareza dessa ideia, é preciso recorrer a numerosas passagens das cartas ao Romanos e aos Gálatas, nas quais se explica extensamente como pela lei todo homem é réu convicto diante de Deus e como pela fé na morte de Cristo , em lugar do pecador, o homem sem nenhum mérito próprio, é declarado justo e absolvido pelo próprio Deus.

    89. Que são “paralelos de ensinos gerais”?

    Para o esclarecimento e a correta interpretação de determinadas passagens, os paralelos de palavras e ideias não são suficientes. Será necessário então recorrer ao teor geral, ou seja, aos ensinos gerais das Escrituras.

    90. Como se evita a interpretação falsa da expressão “justificação independente da obediência à Lei”?

    Se nesse caso alguém entende como ensinamento que o homem de fé fica livre das obrigações de viver uma vida santa e de conformidade com os preceitos divinos, tal pessoa comete um erro, mesmo consultando um texto paralelo.
    É preciso consulta do teor ou doutrina geral do texto bíblico sobre o assunto. Feito isso, observa-se que essa interpretação é falsa, já que contraria por inteiro o espírito ou desígnio do Evangelho, que em todas as partes previnem os crentes contra o pecado, exortando-os à pureza e santidade.

    91. Como explicar as expressões que nos apresentam Deus como um ser limitado?

    Segundo o teor ou ensino geral das Escrituras, Deus é um espírito onipotente, puríssimo, onisciente, santíssimo, onipresente, verdade esta observada em numerosas passagens bíblicas. Os textos que apresentam Deus como um ser limitado devem ser interpretados à luz dos chamados ensinos gerais.

    92. Por que ocorrem essas expressões?

    Deve-se à linguagem figurada da Bíblia e à incapacidade da mente humana de abraçar a verdade divina em sua totalidade.

    93. Como se obtém o correto sentido do texto que diz que Deus fez o ímpio, o malvado, para o dia do castigo?

    Observando o teor das Escrituras, em numerosos textos que demonstram que Deus não quer a morte do ímpio, não quer que ninguém pereça, mas que todos se arrependam. Portanto, o significado da última parte da passagem deve ser que o Criador de todas as coisas, no dia do castigo, saberá valer-se inclusive do ímpio para cumprir os seus adoráveis desígnios.

    94. Por que razão se deve recorrer aos paralelos tratando-se de linguagem figurada?

    Para recordar determinar se uma passagem deve ser tomada ao pé da letra ou em sentido figurado.

    95. Em que condição se permite o uso de uma figura retórica?

    Para recordar que alguma semelhança ou igualdade entre duas coisas, pessoas e fatos.

    96. Por que não se deve buscar o equivalente de todas as circunstâncias das figuras?

    Embora exista certa correspondência entre o sentido figurado de uma palavra e seu sentido literal, não é necessário , como tampouco é possível, que tudo quanto inclui a figura se encontre no sentido literal.
    Por exemplo: Quando Cristo chama os discípulos de ovelhas, é natural que não apliquemos a eles todas as qualidades que a palavra “ovelha” contém, sendo ela aqui usada em sentido figurado.

    97. Com que espírito se devem estudar e compreender as figuras ou símbolos das Escrituras?

    Não levando o sentido de tais expressões a extremos.

    98. Que é provérbios?

    Trata-se de um dito comum ou adágio.

    99. Que é acróstico?

    A palavra acróstico procede aos vocabulários gregos que significam extremidade ou verso.

    100. O que é paradoxo?

    Trata-se de uma proposição ou declaração oposta à opinião comum; uma afirmação contrária a todas as aparências e à primeira vista absurda, impossível, ou em contraposição ao sentido comum, mas que se torna correta e bem fundamentada se estudada detidamente, ou meditando-se nela.

    101. Dê exemplos de cada um deles.

    a) Provérbios:
    Se o sábio lhe der ouvidos, aumentará o seu conhecimento, e quem tem discernimento obterá orientação para compreender provérbios e parábolas, ditados e enigmas dos sábios. Provérbios 1.6
    b) Acróstico:
    Salmo 119, com seus 176 versos. Contém 22 estrofes, e cada uma delas corresponde a uma letra do alfabeto hebraico. Há oito linhas duplas em cada estrofe. Cada uma das oito linhas da primeira estrofe começa com uma palavra iniciada por “Álef”, a primeira letra do alfabeto hebraico. A primeira palavra de cada uma das oito linhas duplas na segunda estrofe começa com “Bêt”, a segunda letra desse alfabeto, e assim sucessivamente, até o final.
    c) Paradoxo:
    “Estejam atentos e tenham cuidado com o fermento dos fariseus e dos saduceus” Mateus 16.6; Marcos 8.14-21; Lucas 12.1. Os discípulos pensaram que o Senhor falava do fermento do pão, porque haviam de levar o pão consigo. Jesus lhes censurou a falta de compreensão, até que, finalmente, entenderam que o Senhor se referia às más doutrinas e à hipocrisia dos fariseus e saduceus. Mateus 6.12.

    102. O que se entende por hebraísmo?

    Os hebraísmos são certas expressões e construções peculiares do idioma hebreu que ocorrem em nossas traduções da Bíblia, escrita originalmente em hebraico ou grego.

    103. Que são os “quase-hebraímos”?

    Refere-se ao uso particular de determinados números, a algumas palavras que expressam fatos realizados ou supostos e a vários nomes próprios.

    104. Como algumas vezes são usados os números, as palavras que expressam ação, os nomes de pessoas e lugares?

    Algumas vezes, os números específicos são usados no hebraico para expressar quantidades indeterminadas. Por exemplo, o número dez pode significar vários (Gênesis 31.7; Daniel 1.20)
    As palavras que expressam ação, trata-se às vezes que uma pessoa faz determinada coisa quando somente a declara feita, quando profetiza que se fará, supõe que se fará ou a considera feita; outras vezes, manda-se também fazer apenas alguma coisa quando apenas se permite que se faça.
    Um mesmo nome pode designar tanto uma pessoa como um lugar. Exemplo: Magogue representa o nome de um filho de Jafé, bem como o de uma país ocupado por um povo chamado Gogue (Ezequiel 38.3; Apocalipse 20.8).
    Uma mesma pessoa e um mesmo lugar designado com nomes diferentes – Horebe e Sinai são nomes de diferentes picos de uma mesma montanha, contudo às vezes um ou outro deles designa a montanha inteira.

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