Quem nunca ouviu a afirmação que a revelação da chamada “Palavra de Sabedoria” foi revolucionária e um enorme avanço sobre as ciências médicas, que viriam a confirma-la décadas ou centenas de anos depois? Que a Palavra de Sabedoria é uma profecia cumprida e confirmada pela Ciência moderna? E, como prova disso, o estado de Utah — ainda em sua maioria Mórmon — goza de uma das maiores taxas de expectativa de vida nos EUA e no mundo!
Bom, do ponto de vista histórico sabemos que a Palavra de Sabedoria é praticamente idêntica ao movimento chamado de “temperância” que alastrava por toda a região norte-nordeste dos EUA desde o início do século XIX, atingindo furor nas décadas de 1820 e 1830.
Ignorando a questão de sua independência de origens, a Palavra de Sabedoria traz afirmações de saúde claras e específicas, que permanecem no contexto Mórmon fortemente até hoje.
Ao menos alguns líderes da Igreja defendem ou defenderam Ciência como o resto do mundo a utiliza: ferramenta para o avanço do conhecimento e bem estar da Humanidade. Sendo assim, eu achei que seria interessante ver o que as Ciências Médicas, principalmente as pesquisas científicas mais recentes, tem a dizer hoje sobre a Palavra de Sabedoria (como publicada em Doutrina e Convênios, seção 89).
O que dizem os estudos recentes? [1]
1) VINHO E ÁLCOOL
“Eis que não é bom nem aceitável aos olhos de vosso Pai que alguém entre vós tome vinho ou bebida forte…” (v. 5)
– Reduz risco de Catarata [2]
– Reduz Risco de Diabete [3][4][5]
– Reduz risco de Doença Coronária em Fumantes [6]
– Reduz risco de Derrames [7]
– Reduz risco em Câncer Intestinal [8]
– Reduz risco de Perda de Memoria [9]
– Embora se diga que as substancias responsáveis pela ação anti-plaquetária e anti-inflamatória endotelial (os Flavonóides) são encontradas tanto no Vinho Tinto como no Suco de Uva, inúmeros estudos demonstram que o fator protetor cardiovascular que a combinação no Vinho Tinto (com Álcool) é *significantemente maior* que no Suco de Uva. Há vários estudos que demonstram ação protetora maior em combinações etílicas *sem* uvas! [6][7][10][11][12][13][14][15]
2) ANTISSEPSIA
“E também bebidas fortes não são para o ventre, mas para lavar vosso corpo.” (v. 7)
– Anti-sépticos baseados em Álcool causam mais danos que os baseados em sabão, sem maior proteção. [16]
3) TABACO
“E também tabaco… é uma erva para machucaduras…” (v. 8)
– Do ponto de vista da Saúde Publica, não há um único uso beneficio do tabaco! [17]
– Na verdade, o uso tópico do tabaco só poderia *piorar* as “machucaduras.” [18]
– Há que se notar aqui que, apesar do grave equívoco acima, a revelação acerta quando proíbe o consume de tabaco (“…tabaco não é para o corpo nem para o ventre e não é bom para o homem…”), embora esse fosse um dos pontos do movimento de temperância mencionado acima, e a própria queixa inicial de Emma Smith, que inspirou a revelação.
4) CAFÉ
“E também bebidas quentes não são para o corpo nem para o ventre.” (v. 9) [19]
– Reduz risco de Parkinson [20][21]
– Reduz risco de Câncer Intestinal [22]
– Reduz risco de Diabetes do tipo 2 [23]
– Reduz risco de Fibrose Hepática ou Esteatose Hepática [24]
– Reduz sintomas de Asma [25]
– Reduz sintomas em algumas Cefaléias não-Migranosas [26]
5) CARNE
“Agrada-me que [carnes de animais] não sejam usadas a não ser no inverno ou em tempos de frio ou de fome. (v. 13) E [os animais do campo e as aves do céu e todos os animais selvagens] fez Deus para uso do homem apenas em épocas de escassez ou fome excessiva.” (v. 15)
– Recomendação do USDA: 2 a 3 porções do grupo de carnes, equivalente a 5-7 onças de proteína, como carne magra por dia.
6) TRIGO, GRÃOS, CEVADA
“Contudo, o trigo para o homem… e a cevada… para bebidas suaves, como também outros grãos.” (v. 17)
– CERVEJA!!! [27]
– Há que se notar aqui que, apesar da contradição ao incentivar o consumo de cerveja, a recomendação vaga para o uso de grãos é boa (“Todos os grãos são bons para alimento do homem…”). Não obstante, a bizarra exclusão de milho, aveia, centeio, e cevada para animais e não para seres humanos complica e confunde este trecho, que talvez por isso, seja largamente ignorado (“…trigo para o homem e o milho para o boi e a aveia para o cavalo e o centeio para as aves e os porcos…e a cevada para todos os animais úteis…”).
7) PROMESSA
“E correrão e não se cansarão; e caminharão e não desfalecerão.” (v. 20)
Pelo contrário, o consumo moderado de café melhora Asma, e de vinho (álcool) melhora função cardíaca, facilitando atividades aeróbicas (i.e., correr sem cansar, caminhar sem desfalecer). [6][10][11][12][15]
8) SABEDORIA
“E encontrarão sabedoria e grandes tesouros de conhecimento, sim, tesouros ocultos…” (v. 19)
No frigir dos ovos, a única real importância de se seguir a Palavra de Sabedoria: “tesouros ocultos” (i.e., experiência religiosa).
Em conclusão, a Palavra de Sabedoria, conforme descrita na revelação publicada, não tem muito valor do ponto de vista médico-científico. Ela teria sido muito mais profética, e útil, se tivesse insistido em lavar as mãos, ferver a água, tomar vacinas, e moderação em todas as coisas!
Quanto à questão religiosa, cabe à cada um medir o que ela lhe pode oferecer, embora eu ache que há questões mais importantes do ponto de vista ético e espiritual do que simples práticas dietéticas:
“Nada há fora do homem que, entrando nele, possa contaminá-lo; mas o que sai do homem, isso é que o contamina.” [28]
“Ai de vós… porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes omitido o que há de mais importante na lei, a saber, a justiça, a misericórdia e a fé… Guias cegos! que coais um mosquito, e engulis um camelo. Ai de vós… porque limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estão cheios de rapina e de intemperança… limpa primeiro o interior do copo, para que também o exterior se torne limpo.” [29]
Nas escrituras existem muitas passagens, onde pessoas se embreagam com “vinho”. O próprio salvador utilizava-se do vinho. E sempre aconselhou bebeis, mas não vos empreagueis. Porém, ele deixou uma advertência: -“Do suco da videira não mais bebereis, até que eu venho e bebereis comigo…”. (Não lembro a exatidão da escritura). Cigarro, drogas, substâncias nocivas é mais do que óbvio que serão prejudiciais de alguma maneira. As duas partes que não compreendo sobre esta revelação são: 1) -“Não é dado como mandamento ou forma de coeração.” (Parece-me que D´us já estava prevendo o futuro, onde os homens mudariam a forma da doutrina, tornando-a um mandamento “mortal”). 2) -“Chá, café são bebidas quentes”. (Quando as escrituras se refereiam a bebidas quentes, estariam refereindo-se a Wiske, Vodka, Cunhaque e outras bebidas alcóolicas que no “velho oeste” eram conhecidas como “bebidas quentes”. Então o que não era mandamento no passado, hoje virou mandamento “MORTAL”. Pois, sem isso você não pode entrar no templo e fazer convênios, logo sofrerá uma segunda morte espiritual ainda pior que a primeira.
Pois é Heber, é bastante fajuta a explicação de alguns apologistas que dizem o vinho utilizado entre os judeus era não-alcoólico. Noé e Ló são exemplos de personagens que se embriagaram após a ingesta (exagerada) de vinho. O anfitrião da festa de casamento em que Jesus realiza seu primeiro milagre elogia o “vinho do milagre” como melhor que o primeiro servido. Concordo com o Marcello que existem escrituras que enfatizam questões éticas de maior importância (ainda que muitas vezes ignoradas entre os cristãos de uma forma geral) e que desmorona todo esse edifício construído em torno da Palavra de Sabedoria.
Leonel, esse é o grande problema — e o grande dilema — dos apologistas, ao meu ver. Até onde vale distorcer fatos apenas para “provar” determinado ponto ou crença?
É verdade, Heber, que existem muitas contradições quando se pensa em todo o período histórico, mas se for aplicado o filtro cultural, muita coisa é respondida – ao menos me parece ser assim. Um exemplo: era um costume muito difundido na época de Cristo o uso do vinho, e usá-lo não era um problema; no entanto, parece-me que à época do recebimento da revelação em D&C 89, a coisa era outra. A cultura do local dizia que pessoas que se diziam “de bem” ou “santos” não poderiam usar vinho, porque tal ato era visto pela sociedade como sendo pertinente à carne, considerado até mesmo profano. Quando à questão do mandamento, foi Brigham Young que recebeu a revelação transformando a PS em mandamento, ao invés de ser um simples conselho. Isso, segundo o livro A Igreja Restaurada, foi porque as pessoas ignoravam o conselho e alguns membros eram mesmo vistos como beberrões. Garanto que isso não atrai pessoas para a Igreja. Achei interessante ver por esse lado, pode levar a alguma coisa produtiva, também.
O que nunca compreendi nessa revelação foi a proibição ao uso do vinho. Até mesmo no Livro de Mormon há duas situações em que os exércitos nefitas dão vinho para o exército dos lamanitas se embebedaram de vinho. Nas escrituras a palavra de vinho é mencionada dezenas de vezes (mesmo no LIvro de Mormon), sempre associada a algum efeito do álcool. É de mais para minha cabeça dizer que existia um vinho sem álcool.
Pois é, Dan.
* Noé ficou tão bêbado que quando seu filho Cão o viu embriagado, estava nú. Por isso ele amaldiçoou seu neto Canaã, filho de Cão, à escravidão. Noé não foi punido. [1]
* Ló ficou tão bêbado que fez sexo com suas duas filhas, e teve dois filhos-netos, um dos quais seria um ancestral direto de Jesus Cristo. [2]
* Jesus Cristo bebeu na cruz para aliviar a dor e o estresse. [3][4]
Há apologistas SUDs que afirmam que, na verdade Cão, não viu seu pai nu, mas sim vestido na roupa de peles dada a Adão por Deus (um protótipo dos atuais garments) e que era um símbolo do sacerdócio. Mas, qualquer que seja a explicação, o fato inconteste é que Noé “encheu a cara” com vinho e isso, aparentemente, não trouxe maiores problemas para ele.
Os apologistas mórmons estão corretos ao afirmar que a palavra “vinho” que aparece na bíblia significa desde o suco não fermentado à bebida embriagante. Porém extrapolar a ponto de propor uma interpretação onde Jesus e as demais personagens bíblicas se abstinham de álcool tal como um mórmon contemporâneo é algo forçoso.
Segundo o evangelho de Lucas, o próprio Jesus chegou a comentar seu contraste com o primo: “Porque veio João Batista, que (…) nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio.
Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e dos pecadores”. (Lc 7.33,34)
Não sendo Nazireu, Jesus podia degustar os produtos da vinha (Nm 6:4) . Que sua bebida era fermentada, as acusações de “comilão e bebedor de vinho” por parte dos seus opositores parecem confirmar a tal hipótese. Outras figuras ilustres das escrituras parecem ir Tb nessa direção.
Um curioso comentário no livro de provérbios demonstra indulgência no uso do álcool em determinadas circunstancias:
“Dai bebida forte ao que está para perecer, e o vinho ao que está em amargura de espírito. Bebam e se esqueçam da sua pobreza, e da sua miséria não se lembrem mais” Provérbios 31:6-7.
No contexto do Mormonismo, a palavra de sabedoria deixou de ser um conselho de moderação para ser uma lei de abstinência somente após a morte de Smith, que segundo relatos, era conivente com comercialização de bebidas na Mansion House e chegou a tomar “umas” na cadeia de Cartage, talvez seguindo o conselho de Lemuel, rei de Massá, no já citado Provébios 31.
Comentário perfeito, Emanuel.